SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

O DOIDO E A LUA


Rangel Alves da Costa*


Toda loucura é amiga da imaginação, do voo sem asas, dos espaços etéreos, do mistério e da magia, daquilo que é impossível alcançar. Impossível ao ser humano de mente sadia, principalmente porque este mal sabe caminhar rente ao chão.
Mas para o louco tudo possui uma ponta de possibilidade. E não é à toa que o doido conversa com a pedra, faz amizade com qualquer pedaço de pau, sente verdadeiro encantamento por seres inanimados. E também admira a noite, ama as estrelas e é verdadeiramente apaixonado pela lua.
A verdade é que o doido tem uma relação das mais instigantes, misteriosas e profundas com a lua. A esfera lunar lhe causa um efeito tão profundo que nem a ciência ainda foi capaz de apontar os motivos e a dimensão de tudo assim acontecer. Talvez a lua esteja para o louco assim como o sol está para o sertão: um sempre está no outro.
Mas nem só laivos amorosos a lua provoca no doido, eis que também tem o dom de acentuar-lhe a loucura, de provocar sensações indescritíveis, de fazê-lo querer alcançá-la a todo custo. A lua o atrai, o chama, escraviza, aumenta a loucura e a paixão pelo seu mistério.
Segundo o conhecimento popular, quando a lua está cheia, esplendorosamente iluminada no céu, o louco alcança um estágio que vai desde a letargia à insanidade total. A lua cheia faz o louco ficar mais louco, mais arredio, mais perigoso, mais revelador de suas propensões mais escondidas.
A ficção sempre gosta de mostrar a estranha relação entre a loucura e a lua cheia. Numa novela, por exemplo, um personagem vivia verdadeiramente ameaçado pela chegada da lua cheia. Sua situação ficava tão deplorável que a irmã tinha de mantê-lo trancado numa jaula, sob pena de ser levado pela claridão da noite. Mas acaba não resistindo e é levado pelo feitiço da lua.
Muito tenta se explicar acerca dessa estranha e poderosa atratividade. Na ficção, a lua tem o dom de enfeitiçar, mas a realidade aponta outras possibilidades. Seria amor, seria o despertar de um desejo escondido, ou seria simplesmente a atratividade da lua penetrando e transformando uma mente já fragilizada? Ou seria um daqueles mistérios cuja compreensão humana seria também reputada como loucura? Talvez apenas uma força magnética agindo sobre as fendas cerebrais do louco. Apenas talvez.
Parece que o doido adivinha sua breve transformação. Igualmente ao cágado que sai da toca assim que uma trovoada se aproxima, ou como o cavalo que risca na estrada e não segue adiante quando pressente ameaça na beira da estrada, assim também o louco ante a chegada da lua cheia.
É doido, maluco, insano, mas acentua ainda mais sua loucura. Geralmente fica mais entristecido, cabisbaixo, dialogando consigo mesmo, andando de lado a outro como alguém que ansioso espera um acontecimento. Mas nada mais que a lua, que mesmo ainda escondida no céu já começa a provocar reações. E aos poucos tais reações se transformam em verdadeira agonia.
Quando a noite chega e a janela é aberta, logo o louco será avistado olhando pra cima, aflito, nervoso, tomando de espanto e de desejos estranhos. E a lua impiedosa, talvez percebendo aquela dolorosa situação, parece se avolumar ainda mais e se aproximar imensa, toda inteira, daquela janela.
Ninguém sabe o que se passa na mente do louco nestes momentos terrivelmente misteriosos. Ninguém sabe se o magnetismo da luz do luar penetra e torna em rodopios a mente frágil ou se aquela auréola dourada vai trazendo um encantamento arrebatador. Talvez nem o próprio doido saiba distinguir o que realmente sente naquele momento.
Mas a verdade é que se espanta, se encanta, delira, extravasa. E no ápice da transformação, talvez o amor esteja misturado à dor, talvez a paixão venha misturada à angústia de tanto querer e não poder alcançar.
E é por isso que grita, que ergue os braços, que quer voar. E voa. Não sai do lugar, mas voa. E passa a noite inteira voando, até que a manhã o encontra sorridente. Ou mesmo com feições crispadas de sofrimento. Ninguém sabe. Somente a lua.


Poeta e cronista
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Naquele tempo (Poesia)


Naquele tempo


Sou do tempo
de versos e flores
de olhares sedutores
sou do tempo
de amor verdadeiro
de chama e braseiro
um tempo
de terno querer
no peito o padecer
se o amor distante
não me chega radiante

tempo do tempo
que fui e que sou
um poeta apaixonado
eterno enamorado
de um tempo
de passeio abraçado
de passo desapressado
colhendo flores do campo
ecoando o belo canto
do amor e da paixão
um tempo de devoção
às virtudes do coração.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 652


Rangel Alves da Costa*


“Maria Bonita...”.
“Maria do sertão...”.
“Uma bela flor...”.
“A flor do Capitão...”.
“Açucena agreste...”.
“Mulher de Lampião...”.
“Quem dera Maria...”.
“Conhecer sua história...”.
“Avistar seus passos...”.
“Guardar sua memória...”.
“Saber da emboscada...”.
“E tanta vitória...”.
“De todo sofrimento...”.
“Da luta inglória...”.
“Maria, Maria...”.
“Conte-me sobre aquele dia...”.
“Que avistou Lampião...”.
“E sentiu alegria...”.
“Por sair de seu mundo...”.
“Ao mundo da rebeldia...”.
“Tudo pelo amor...”.
“Sem qualquer covardia...”.
“Amansando a fera...”.
“Na noite e no dia...”.
“Pois Maria foi mulher de coragem...”.
“Partiu porque quis...”.
“Preferiu a viagem...”.
“Pelos caminhos espinhentos...”.
“De vertigem e voragem...”.
“Em meio à emboscada...”.
“Em cada passagem...”.
“Maria tão Bonita...”.
“Dengo do Capitão...”.
“Carinhosa Maria...”.
“Da lua o clarão...”.
“Flor de mandacaru...”.
“Boa semente do chão...”.
“Maria cortando caatinga...”.
“De cartucheira e mosquetão...”.
“Que sina maldita...”.
“É matar sem perdão...”.
“Maria que nasceu para amar...”.
“E o amor era sua razão...”.
“Sem esperar morrer...”.
“Ao lado de seu Lampião...”.
“Mas dormiu nos braços do amor...”.
“Mas logo cedinho quando levantou...”.
“A bala assassina o seu peito varou...”.
“E em seguida chegou Lampião...”.
“Para o sangue explodir num clarão...”.
“E foi o fim naquele sertão...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 25 de junho de 2014

CUIDADOS


Rangel Alves da Costa*


Nenhuma ação humana se exaure em si mesma. Tudo, mesmo sem causa ou justificação, possui consequências. Por isso é preciso muito cuidado em cada passo, em cada ação, vez que a mais simples das atitudes pode provocar conseq inusitadas.
A flor é bela, atraente, perfumada, mas o jardim tem dono. Ir além de apreciá-la pode não ser a melhor atitude. Não apenas pela planta e o jardim que perdem aquela presença, mas também pelo dono do jardim que vai sentir sua ausência. E assim também acontece quando ultrapassam o seu muro para dar fim às pequenas flores cotidianas que você tanta luta para manter.
A resposta precisa ser dada e não pode ser diferente. O não tem de ser não, o sim tem de ser sim, sem meio-termos. Contudo, diferentemente da resposta positiva, que geralmente causa alegria e satisfação, a resposta negativa pode ir muito além da mera tomada de posicionamento. Ouvir um não pode ser algo tão desagradável quanto a rejeição do próprio ser. Por isso cuidado ao ter de dizer não. Existem muitas outras maneiras de negar sem que a palavra seja tida como um punhal afiado na pele.
Cuidado, não alimente em si nem perante os outros nada além daquilo que sempre pode provar que possui. Não adianta o enfeite momentâneo se o adorno será inexistente em outras situações. Não adianta manter aparências se a realidade se mostra totalmente diferente. Não adianta pretender ser além do que realmente é, e sob pena de sempre ser menos do que gostaria de ser. Não adianta oferecer mares, paraísos e horizontes e se a realidade é terrena e não há asas para fingir que está voando. Cuidado, muito cuidado.
A não ser por esforço próprio, pelo suor derramado e pela luta de todo dia, nada será conquistado de forma fácil nem chegará como que por encanto ou milagre. Tudo é fruto da busca e do sacrifício, do dar tudo de si para garantir ao menos o mínimo de sobrevivência. Por isso muito cuidado com as facilidades inexplicavelmente surgidas e com as graciosidades oferecidas.  Nada simplesmente cai do céu ou surge como dádiva da terra sem que seja com uma contrapartida embutida, ainda que invisível. E tudo faz compreender que somente aquilo conquistado pelo próprio ser vem com a garantia de que lhe foi justo receber.
Confiar em que, em quem, e até onde? O próprio ser humano está propenso a ser traído pelas próprias atitudes. Não raro que as promessas íntimas são quebradas pela própria fragilidade do ser. Por mais que o indivíduo se comprometa a não errar, a não reincidir numa atitude tomada ou jamais fazer aquilo que no outro é tão deplorável, ainda assim estará fadado a ser seu próprio algoz. E assim porque ao homem é difícil demais ponderar cautelosamente entre o erro e o acerto diante de determinadas situações. Daí ser inevitável o erro humano, mas também um meio eficaz para experimentar daquilo que não deveria e assim aprender a não repetir.
A roupa estendida no varal não demora muito para receber a primeira bolada da meninada que brinca no descampado ao redor. Não há como evitar que as mangas mais bonitas do vistoso pomar do quintal tenham sumido ao amanhecer. Não há como impedir que a criançada tenha seus momentos de diversão, de soltar pipas, correr pelos campos, jogar bola, passar correndo em cavalo de pau. Cada idade possui seu sentido e sua razão de ser. Compreender que criança chuta bola no varal, que leva a fruta do quintal e gosta mesmo de brincar, apresenta-se como igual compreensão que o adulto possui práticas próprias e não gosta de estas serem vistas como infundadas ou desregradas.   
Por isso cuidado, tenha muito cuidado. O louco é visto como tal porque é portador de uma enfermidade mental, e não porque age contrariamente ao que é tido por normalidade entre os que se imaginam sãos. A pedra dura, silenciosa e inerte, nem sempre transparece assim para muitos. E, não raro, tardes inteiras são passadas no convívio amigável e no diálogo fortalecedor com a pedra. Eis que as pedras ouvem e também falam. Não duvide dessa certeza. Dizem que os botões também são do mesmo jeito, duros e insensíveis, mas os momentos mais interessantes da vida são vivenciados conversando com eles.
Por isso cuidado. Cuidado com o que pensa, com o que vê, com o que faz. Cuidado com tudo, pois tudo pode ser de forma muito diferente do que se imagina como verdade única.


Poeta e cronista
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O coração diz... (Poesia)


O coração diz...


Ouça com cuidado
o que diz o coração
como grito silenciado
do amor a confissão

e o coração diz
sempre buscar a razão
se o desejo é ser feliz
e não se perder na paixão

o coração diz
que há segredo no amor
linha riscada a giz
espinho escondendo flor

o coração diz
da medida para amar
não querer ser a raiz
se o grão não frutificar

o coração diz
que ouça a outra voz
aquilo que contradiz
o desejo tão algoz.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 651


Rangel Alves da Costa*


“As sombras de repente aparecem...”.
“As nuvens tomam conta do céu...”.
“Raios faiscantes vão chispando fagulhas...”.
“Os trovões começam a roncar...”.
“As chuvas irrompem vorazes...”.
“A tempestade toma conta de tudo...”.
“As ruas alagam e a vida transborda...”.
“E tudo de repente, como tudo acontece...”.
“De um estágio a outro...”.
“Sem anúncios ou premeditações...”.
“Assim também na existência...”.
“No imaginado que possa acontecer...”.
“Pois do sorriso se faz a tristeza...”.
“Da tristeza transborda a alegria...”.
“Da estiagem feroz aos campos floridos...”.
“Das flores ao outono tristonho...”.
“Da felicidade ao padecimento...”.
“Da angústia ao renascimento espiritual...”.
“Da brisa à ventania...”.
“Do vendaval a mais terna calmaria...”.
“Tudo assim, tudo transformado...”.
“Frente e verso numa só feição...”.
“O mesmo sendo de outra maneira...”.
“Apenas sendo de modo diverso...”.
“Assim como a partida e o retorno...”.
“O lenço de adeus e o lenço de aceno...”.
“A força e o encorajamento na alma...”.
“E o fraquejamento prostrando o ser...”.
“Uma escada que parece sem fim...”.
“Mas que tomba e deixa tudo cair...”.
“Um império que indestrutível parece...”.
“Mas cujas portas não sustentam o inimigo...”.
“Tudo ter e o acúmulo de mais...”.
“E de repente a cuia na mão...”.
“A firmeza que se transmuda em ruína...”.
“A fragilidade que se alicerça em si mesma...”.
“As páginas que amarelam com o tempo...”.
“As traças que vão roendo as vidas...”.
“O que era e o que não é mais...”.
“Como um sol que surge no meio da noite...”.
“Ou a voz no silêncio profundo...”.
“Tudo a dizer o que somos e o que temos...”.
“Como somos e como seremos...”.
“Apenas um modo de ser num instante...”.
“Para ser outro no momento seguinte...”.
“Por isso que não apresse a boa colheita...”.
“Nem siga adiante sem olhar adiante...”.
“Tudo tem o tempo de acontecer...”.
“Mas inevitavelmente acontecerá...”.
“Seja pelo homem ou pelo destino...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 24 de junho de 2014

CLEMILDA, GUERREIRA ALAGOANA DE NOBREZA SERGIPANA


Rangel Alves da Costa*


Parece que ela está presente naquelas fotografias antigas onde Benjamin Abrahão retratava as mulheres cangaceiras. Não pelas armas empunhadas nem pelas inglórias na sina, mas pelos sorrisos sempre presentes, pelos vestidos enfeitados, pelas feições tão próprias das nordestinas: amorenadas, bonitas, felizes diante de quaisquer circunstâncias. Mas falo de Clemilda, sim senhor, dessa guerreira alagoana que se fez rainha sergipana e ainda hoje orgulha não só o salão forrozeiro como toda cultura popular.
De baixa estatura, rosto arredondado, feições trigueiras, cabelos negros encaracolados, usando preferencialmente vestidos rodados e floridos, com maquiagem que acentue sua feição sorridente, assim é aquela batizada como Cremilda Ferreira da Silva, e depois Clemilda. Verdade que hoje, perto dos 78 anos e mais de 50 anos de carreira artística, já traz as marcas de múltiplas enfermidades pelo corpo. Infelizmente, já foi acometida por osteoporose e agora se recupera do segundo acidente vascular cerebral. E entristece demais não ter a presença da forrozeira maior ecoando pelos arraiás.
 A nossa guerreira está combalida, mas não vencida. Desde alguns anos que não viaja para apresentações, também está impossibilitada de receber e divulgar os artistas locais no seu Forró no Asfalto, programa dominical da TV Aperipê com mais de 25 anos de sucesso absoluto. Internada, ainda em recuperação, certamente doeu-lhe muito estar ausente dos forrós aracajuanos dessa época junina. Ainda assim as homenagens são muitas, desde exibição de documentário, exposições a apresentações artísticas, e todas num justíssimo reconhecimento.

Pelas raízes que possui em Sergipe, onde vingou e se espalhou como a melhor e mais autêntica representante da música de feição junina, até que se poderia imaginar ser a forrozeira sergipana de folha e flor. Mas não, ainda que tenha escolhido Aracaju como seu verdadeiro lar e toda essa terra sergipana como sua irmandade, Clemilda nasceu em São José da Laje, no estado das Alagoas, e lá pelos idos de 1936. Ter nascido lá e vindo pra cá é outra história, e esta só pode ser contada trazendo a lume outra presença marcante na musicalidade nordestina: Gerson Filho.
Nasceu, pois, em São José da Laje, mas acabou passando a infância e adolescência em Palmeira dos Índios. A vida sem oportunidades no lugar, certamente aliada ao destino que lhe acenava outras possibilidades, de repente se viu seguindo para o Rio de Janeiro. Era década de 60. Na capital fluminense, trabalhou como garçonete até conseguir, em 1965, se apresentar como caloura na Rádio Mayrink Veiga. Foi nesta emissora que conheceu Gerson Filho, também alagoano do município de Penedo, então artista já contratado. Assim, o destino unia a voz com a sanfona de oito baixos.
Inicialmente gravou ao lado daquele que viria se tornar seu esposo e a acompanharia pelas estradas forrozeiras até 1994, quando faleceu. Mas seu primeiro disco, “Gerson Filho apresenta Clemilda”, só foi gravado em 1967. Daí em diante o sucesso lhe abriria cada vez mais as portas. Não somente pela artista talentosa que já demonstrava ser, com sua voz afinadamente peculiar, mas principalmente pelo seu jeito único de interpretar: a alegria da música se expressava com toda pujança no gestual da cantora, no seu bailado segundo as exigências de cada canção.
Mas o casal sabia que era na própria região nordestina, berço do forró, que estava o seu público maior. E assim arribou do sul do país para shows e apresentações junto ao seu povo, morando primeiro em Palmeira dos Índios e depois vindo fixar residência na capital sergipana. Sergipe logo acolheu carinhosamente o casal. Famosos, porém simples, humildes e verdadeiramente artistas, viviam de canto a outro realizando shows, numa agenda sempre cheia e onde não havia escolha para as apresentações. Participavam de programas de rádio, de auditório, se apresentavam em grandes e pequenos circos, touradas, grandes eventos; enfim, onde o público apreciador do autêntico forró estivesse.
Foi numa dessas incursões pelo interior sergipano que Clemilda e Gerson Filho foram parar na distante Poço Redondo, localidade que passou a ser uma constância na agenda dos forrozeiros. Na cidade tornaram-se amigos do saudoso Alcino Alves Costa, tantas vezes prefeito do lugar, que não somente os contratava como os acolhia na própria residência. Era ali que sentado à mesa com garfadas na galinha de capoeira que Gerson Filho mastigava pimenta malagueta inteira como se estivesse mordendo um doce.
Foi também em Poço Redondo que surgiu uma parceria entre Clemilda e Alcino Alves. Numa das ocasiões, Alcino mostrou à forrozeira alguns versos sertanejos que havia escrito. E num destes estava “Seca Desalmada”, que após a feitura da melodia pela própria cantora, em 1973 foi gravada num disco de mesmo nome, alcançando retumbante sucesso. “Visitei o Juazeiro que fica lá no sertão, havia muitos romeiros escutando um sermão...”. O próprio Gerson compôs um forró em homenagem ao lugar que tanto apreciava, intitulado Forró em Poço Redondo (LP Ingazeira do Norte, de 1969).
Anos mais tarde, numa homenagem prestada à amiga, Alcino Alves Costa escreveu um “Tributo a Clemilda”, cujo texto, dentre outras passagens, diz: “Sergipe tem uma dívida grandiosa com uma celebridade de seu mundo artístico. Fabulosa intérprete que durante décadas vem oferecendo aos sergipanos a sua extraordinária capacidade e competência na arte de cantar a terna e meiga cantiga que tanto glorificou a essência e singeleza da fonte musical sertaneja e nordestina. Estou falando de Clemilda Ferreira da Silva, a nossa querida e amada Clemilda, que com sua maravilhosa voz enterneceu e enternece o sentimento e a alma daqueles que tiveram a felicidade e o prazer de conhecer e ouvir as suas incomparáveis canções, especialmente aqueles de seus primeiros tempos; aqueles que não possuíam o recurso condenável do duplo sentido.
Em quais arquivos da cultura sergipana estão cuidadosamente guardadas as imortais melodias interpretadas pela inesquecível companheira de Gerson Filho? Será que Sergipe sabe da existência das majestosas "Saudade vai me matar", "Sete meninas", "Morena dos olhos pretos", "Guerreiro alagoano", "Meu guerreiro", "Beata mocinha" e "Siricora"? Será que Sergipe reconhece, agradece e louva o altíssimo desempenho e valor dessa sua guerreira e uma das maiores representantes do cenário musical brasileiro? Não. Com certeza que não. O povo sergipano não se lembra, ou talvez nem conheça, maravilhas como estas: "Fazenda Taquari", "Rosa branca da serra", "Recordação de vaqueiro", "Recado a Propriá", "Console ela papai", "Leva eu benzinho", "Tiro o lírio", "Estou chorando por você" e tantas outras beldades musicais que seria impossível enumerá-las, mas que elas tanto mereciam.
Não podemos desconhecer as tremendas dificuldades e provações que os intérpretes da verdadeira música sertaneja nordestina, aquela do fole, do pandeiro e do ganzá, vêm passando por anos seguidos. Sabemos perfeitamente da luta insana dos poucos abnegados que tentam sobreviver em meio à tão medonha borrasca. Clemilda é parte importantíssima desse reduzido grupo que vive numa inglória luta que tem como principal objetivo preservar essa tão desprezada cultura musical nascida nos recônditos mais escondidos e distantes dos campos, ribeiras e pés de serras de nosso sertão caboclo”.
Por fim, arremata Alcino, fazendo referência ao programa Forró no Asfalto (sucesso também na Rádio Aperipê), “Ali a nossa deusa do forró canta e propaga a cantiga de sua terra de adoção e coração, a terra sergipana e nordestina. Tudo que se fizer por essa invulgar artista ainda é pouco. Clemilda é patrimônio cultural de Sergipe. Deus lhe abençoe, minha querida heroína e amiga. Deusa e rainha do forró!”.
Tais palavras resumiriam tudo, mas Clemilda merece mais. Inegável que o sucesso alcançado foi também fruto de sua obstinação. Poucas artistas nordestinas conseguiram levar o forró aos grandes espaços radiofônicos e televisivos como ela o fez, pois se tornou presença constante em programas como Cassino do Chacrinha, Clube do Bolinha e Faustão, dentre outros. Sua discografia é vasta, incluindo desde os primeiros discos gravados com Gerson Filho (É pra valer e Forró sem Briga), aos lançados como artista principal a partir de 1967 (Gerson Filho apresenta Clemilda, Fazenda Taquari, Morena Dos Olhos Pretos, Seca Desalmada, Guerreiro Alagoano, Coqueiro da Bahia, Prenda o Tadeu e Forró Bom Demais, só para citar alguns).
De voz aguda, porém delicada, impondo a cada canção um acorde melodioso dos mais afinados, Clemilda foi além da mera interpretação para também se firmar como compositora famosa, de grande sucesso, mas geralmente em parceria com outros compositores nordestinos. Ao lado do artista, tecia a letra, remendava, modificava, e tudo para ficar em conformidade com sua voz. Daí que gostava de pincelar as letras já prontas, fazendo os arranjos necessários para o alcance da melodia desejada.
E foi nesse acuido que a grande artista foi se firmando no meio forrozeiro até alcançar a fama tão difícil e até impensável para uma mulher já de longa estrada musical. Contudo, se por um lado a genialidade artística de Clemilda pode ser mais observada na sua fase de melodias tipicamente nordestinas, por vezes de plangência romântica, seu sucesso maior ocorreu exatamente quando passou a apimentar as letras de suas canções. Quando a música Prenda o Tadeu foi lançada em 1985, logo se tornou em estrondoso sucesso. A partir daí emprestou duplo sentido a outras canções, como Forró Cheiroso (Talco no Salão). Os dois Discos de Ouro, e também de Platina, vieram dessa época.
Ainda que o sucesso absoluto somente chegasse com maior força na fase do duplo sentido, ainda assim estava na artista a destreza pela aceitação popular. Eis que não apenas com letra apelativa, mas tendo por fundo a genial interpretação, e assim porque Clemilda, com seu gingado e seu rebolado caipira, sempre foi uma atração à parte. Por isso tanto e duradouro sucesso. E assim sempre será pela eterna gratidão que lhe guarda o povo nordestino, principalmente sergipano, por ter a honra e glória de acolher tão bela flor agrestina.


Poeta e cronista
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