SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 865


Rangel Alves da Costa*


“Amar...”.
“E ler verso na nuvem...”.
“Amar...”.
“E sorrir para o sol...”.
“Amar...”.
“E falar em silêncio...”.
“Amar...”.
“E sentir perfeição...”.
“Amar...”.
“E tomar banho de chuva...”.
“Amar...”.
“E adormecer feliz...”.
“Amar...”.
“E contar as estrelas...”.
“Amar...”.
“E cumprimentar o espelho...”.
“Amar...”.
“E ter um segredo...”.
“Amar...”.
“E valorizar a vida...”.
“Amar...”.
“E orar pela dádiva...”.
“Amar...”.
“E não temer solidão...”.
“Amar...”.
“E cantar a canção...”.
“Amar...”.
“E se sentir com asas...”.
“Amar...”.
“E saber que terá...”.
“Amar...”.
“E viver na certeza...”.
“Amar...”.
“E ter um diário feliz...”.
“Amar...”.
“E ser a mais bela...”.
“Amar...”.
“E não pensar em distância...”.
“Amar...”.
“E não chorar a tristeza...”.
“Amar...”.
“E fazer desse amor...”.
“A semente...”.
“De mais amar...”.
“E mais amar...”.
“Sempre...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 25 de janeiro de 2015

A CIVILIZAÇÃO DA BARBÁRIE


Rangel Alves da Costa*


As civilizações, enquanto nascedouros das sociedades humanas, existem desde os tempos mais antigos, quando os povos unificaram suas tradições, costumes e leis primitivas, bem como aceitaram ser regidos por lideranças. Contudo, tudo ainda muito disperso e desorganizado, sendo muito mais de feição tribal que mesmo de grupo social unificado. Somente com o desenvolvimento e o reconhecimento de determinadas características como próprias de determinado povo se pode falar em civilização.
Em tal percurso, o chamado mundo civilizado passou a denominar o estágio mais evoluído das civilizações. Nesse estágio, o povo já pode ser claramente identificado por um governo, pela formação social e econômica, pelos aspectos políticos, históricos e culturais. É o estágio da identidade cultural, da evolução no próprio meio social e na afirmação de poder perante as outras sociedades. Daí os contrastes entre as diferentes civilizações.
O reconhecimento de uma civilização se dá, assim, pelo estágio evolutivo do seu povo. Quanto mais a economia, a política, a cultura, a representatividade governamental e a sociedade evoluem mais evoluída estará a civilização. Entretanto, ainda que a civilização tenha alcançado um alto estágio evoluído, ainda assim não será garantia de reconhecimento nos limites conceituais de mundo civilizado.
Não há um patamar de reconhecimento de um mundo verdadeiramente civilizado, eis que tudo em constante aprimoramento. Pressupõe-se, contudo, que civilizada é a sociedade que alcançou um alto grau de evolução em todos os setores, principalmente na forma de ser, viver, pensar e agir de seu povo. Quer dizer de um estágio de barbárie e ignorância, vai se aprimorando até alcançar um refinado contexto social.
Supõe-se, então, que uma sociedade civilizada já se livrou desde muito de concepções ultrapassadas, conservadoras e limitadoras da liberdade humana. Numa sociedade assim não haveria mais escravidão, justiça pelas próprias mãos, submissão à mulher, desigualdade por motivos de sexo, preconceito e discriminação por qualquer motivo, respeito às liberdades individuais e coletivas, reconhecimento do ser humano como objeto maior de proteção. Seria ainda uma civilização pautada na lei, com governo legítimo e democraticamente forte.
Imagina-se que uma sociedade de alto nível civilizatório possui algumas características que a diferencia de outros povos, principalmente pelo estágio cultural alcançado pelo sua população. O senso de moralidade predomina sobre os desregramentos, a ética emerge com importância nas relações sociais, o reconhecimento e a valorização da vida própria e do próximo exsurgem como aprendizado intrínseco. Mesmo com altos e baixos nestes aspectos, ainda assim será uma sociedade que pode servir de exemplificação positiva perante todos os povos.
Entretanto, a realidade demonstra que todo o percurso civilizatório relatado acima não passa de uma ilusão sociológica ou antropológica. E assim porque as transformações existentes nas sociedades, e que permitiram suas evoluções, não alcançaram todos os contextos sociais da mesma forma. Houve desenvolvimento econômico, cultural, político e social, mas a população em si, enquanto agrupamento de pessoas dotadas de características próprias, permaneceu oscilando entre a nova e a realidade mais primitiva, mais bestial e bárbara.
A verdade é que grande parte da população do magnífico mundo civilizado vive contestando o próprio conceito de civilizado. Ora, considerando que civilizado é o que é aprimorado, decente, exemplar, educado, evoluído, em contraste com o feroz, rude, arrogante, violento, estúpido, bárbaro, logo se tem que a dita civilização não conseguiu moldar o caráter de muita gente. E nesta afirmação a certeza que o mundo bárbaro, selvagem e atroz continua com moradia garantida no admirável mundo novo.
Mas não há que fazer comparações entre os chamados povos bárbaros, como os vândalos, godos, celtas, gauleses, suevos e visigodos, com os cruéis do mundo novo, do mundo tão civilizado de agora. E não porque as barbáries praticadas pelos estrangeiros da antiguidade se justificavam pelas guerras de conquistas, pelos ataques e defesas, num tempo onde a afirmação de um povo se dava com a vitória sobre outros povos, mesmo que sangue tenha impiedosamente jorrado dos inocentes submetidos.
Naqueles idos, os comandados por sanguinários como Átila, rei dos hunos, e Gengis Khan, o conquistador mongol, eram verdadeiros anjos se comparados aos atuais terroristas da fé. Os chefes de grupos radicais como Boko Haram, Estado Islâmico, Al-Qaeda e Talibã, são indiscutivelmente muito mais atrozes e violentos que qualquer líder bárbaro da antiguidade. Se houve aprimoramento civilizatório foi apenas nos instrumentos utilizados nas práticas terroristas.
Desse modo, devem ser repensados o conceito e percurso de mundo civilizado. Civilizar pressupõe crescer, desenvolver, agir com novas práticas que demonstrem que o mundo aprendeu com os erros do passado. Não pode ser tido como civilizado um mundo que se desenvolve apenas econômica, política e culturalmente, quando grande parte de sua população se conserva no estágio mais primitivo da violência e da barbárie. Que mundo novo é este que aprimora cada vez mais a forma de violentar a vida?


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

Confissão da pedra (Poesia)


Confissão da pedra


Aviste-me
toque-me
sinta-me

sente
que sou
pedra?

ou sente
que sinto
o que sou?

e se sinto
sou além
da pedra

então sinta
o silêncio
em mim

e se silencio
tenho voz
e sentimento.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 864


Rangel Alves da Costa*


“Eu era feliz e não sabia...”.
“Menino nu pelas ruas...”.
“Menino correndo na chuva...”.
“Menino do tição de fogo...”.
“Menino do cavalo de pau corredor...”.
“Menino pulando quintal...”.
“Menino livre de tudo...”.
“Menino derrubando o varal...”.
“Menino sonhando voar...”.
“Menino pássaro...”.
“Menino passarinho...”.
“E como eu era feliz...”.
“Como eu era feliz e não sabia...”.
“Minha avó fazendo cafuné...”.
“Meu avô ensinando a sonhar...”.
“Minha mãe com seus carinhos...”.
“Meu pai com suas lições...”.
“Um chinelo novo...”.
“Mas preferia descalço...”.
“Cabelo arrumado na brilhantina...”.
“Mas preferia esvoaçando ao vento...”.
“Sujo de terra e de folha do mato...”.
“Roupa toda engomada...”.
“Mas preferia a rasgada...”.
“Aquela mais velhinha e remendada...”.
“Comida na hora certa...”.
“Mas preferia pitomba...”.
“Goiaba e carambola...”.
“Ou pedaço de bolo de macaxeira...”.
“Ou naco de cocada branca...”.
“Deitar ainda cedo...”.
“Mas preferia pular a janela...”.
“Ou ficar olhando a lua pela fresta...”.
“Ai como eu era feliz...”.
“Era tão feliz e não sabia...”.
“E depois o sonho de amor...”.
“O menino apaixonado...”.
“Jogando flor pela janela...”.
“Soltando beijo no vento...”.
“Presenteando com fruta do mato...”.
“Pedindo um beijo...”.
“Querendo tanto namorar...”.
“Até que um dia cresci de vez...”.
“E foi a última vez que cresci...”.
“E é tão triste crescer assim...”.
“Quando a criança não ficou para trás...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 24 de janeiro de 2015

UM BELO JARDIM SEM FLORES


Rangel Alves da Costa*


Dificilmente alguém imaginaria um jardim sem flores. Tanto faz que o espaço seja grande ou pequeno, que haja grande diversidade de plantas, que os canteiros estejam bem cuidados ou pouco conservados, pois o pensamento logo se volta para as espécies floridas dando vida, graça e perfume ao ambiente.
Assim, pensar em jardim é pensar em flores. E pensar em flores é ter em mente as rosas, azaleias, begônias, hibiscos, cravos, lírios, crisântemos, copos-de-leite, bromélias, camélias, violetas, dálias, hortênsias, gardênias, jasmins, gerânios, tulipas e margaridas, dentre outras espécies.
Aos olhos do poeta, as flores são a própria essência do jardim, e sem as pétalas floridas restarão apenas plantas sem vida ao redor de canteiros. Portanto, impensável um jardim sem sua atmosfera primaveril, sem suas cores perfumadas e colibris ávidos por mais um beijo.
Aos olhos de muitos, mesmo para os apressados caminhantes, os jardins sempre chamam atenção e encantam, mas nada igual aos dias em que amanhecem floridos, radiantes, cheios de cores. Em épocas assim, a maioria passa a ter os olhos da sensibilidade e o coração muito mais amoroso.
Quantos olhares se fixam mirando um jardim abandonado, triste, com plantas carcomidas e folhas mortas? Quantos olhares apreciam um jardim sem encanto algum, sem poesia alguma, sem nada que desperte sentimentos? Quantas pessoas caminham até os canteiros para recolher um galho seco e espinhento?
Havia uma menina que pensava diferente da maioria. Não que gostasse de jardins sem flores ou que apreciasse os canteiros com folhas mortas e pétalas esturricadas. Não que sentisse prazer em ver o outono transformando a florada em cinzas levadas pelo vento. Nada disso.
Diferentemente das outras pessoas, ela avistava o jardim pelos olhos do coração, e não pelo olhar enxergando a paisagem. Para falar a verdade, nem jardim ela possuía defronte ou dos lados de sua casa. Após a janela de seu quarto existia apenas um pedaço de terra com plantas secas e restos de folhagens à espera da ventania.
Verdadeiramente, ali nunca fora sequer um lugar de cultivo de qualquer planta que florescesse. O que ali existiu antes de secar pelo sol escaldante e falta de chuva, havia sido apenas uma plantinha ou outra que nasce em qualquer lugar. Mas nada de jardim, e muito menos florido.
Contudo, aos olhos dela, ali estava o mais belo e pujante dos jardins. Aos olhos dos outros seria um jardim sem jardim, um local sem canteiros, canteiros sem plantas, e plantas sem flores. Nem flores vivas nem mortas, simplesmente sem flores.
Mas ela avistava seu belo jardim. Onde havia apenas graveto carcomido e torto ela avistava planta, onde existia apenas terra nua ela enxergava canteiro, onde existiam apenas restos de folhas secas ela enxergava ramos verdejantes. Mas não avistava flores.
Era um belo jardim sem flores. Mas que estranho e triste um jardim assim. Mas não para ela, que logo cuidava de florir cada planta que fazia surgir diante do olhar. E mais estranho ainda que quanto mais entristecida ou lacrimejante mais seu jardim florescia.
Abria a janela para espalhar todo o sofrimento sentido. Sabia que quanto mais triste ficasse mais sofreria, mais seria atormentada. Então enxugava os olhos com a mão e cuidava de encontrar flores onde não existia e num jardim que jamais existiu.
E assim, entre rosas e violetas, entre gerânios e jasmins, ia criando a ilusão de um mundo bonito, de uma vida bela e cheia de felicidade. Assim era que superava suas angústias e aflições adolescentes.


Poeta e cronista
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O sino e a canção (Poesia)


O sino e a canção


O sino da igreja
e a velha canção
ecoam em mim
a mesma tristeza

o sino é chamado
e anúncio de morte
a canção é saudade
trazendo aflição

então quando ouço
o sino e a canção
acendo uma vela
no meu coração. 


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 863


Rangel Alves da Costa*


“Sou a igreja e o sino...”.
“Sou o chamado da fé...”.
“Sou a crença e o fervor...”.
“Sou o culto e seu louvor...”.
“Sou a raiz e a planta...”.
“Sou a semente e o grão...”.
“Sou a chuva e o broto...”.
“Sou a pétala e a abelha...”.
“Sou o aroma e o perfume...”.
“Sou o vento e a canção...”.
“Sou a brisa enlaçada...”.
“Sou a valsa da natureza...”.
“O sopro em grande salão...”.
“Sou o passo e a cor...”.
“Sou a paisagem e a moldura...”.
“Sou a roupa e o varal...”.
“Sou a tarde em nostalgia...”.
“Sou cadeira de balanço...”.
“Sou tristeza e tanta saudade...”.
“Sou a lágrima e o lenço...”.
“Sou o retrato na memória...”.
“Sou aquilo que já não é...”.
“Sou toda a eternidade...”.
“Sou o amor e a paixão...”.
“Sou o abraço e o aperto...”.
“Sou o beijo e a mordida...”.
“Sou o prazer e o grito...”.
“Sou todo sim e todo não...”.
“Sou tudo e apenas resto...”.
“Sou a pureza e a perdição...”.
“Sou a lição e o livro...”.
“Sou a palavra e o verbo...”.
“Sou poema e poesia...”.
“Sou letra e sou rabisco...”.
“Sou ponto final e reticências...”.
“Sou verdade e ficção...”.
“Sou o que queiram ler...”.
“Sou eu e não sou ninguém...”.
“Sou meu tudo e meu nada...”.
“Sou o que penso ser...”.
“Sou o que jamais serei...”.
“Sou simplesmente assim...”.
“Sou a lua e o sol...”.
“Sou toda luz lá de cima...”.
“E sou apenas o vaga-lume...”.
“Que pensa que é estrela...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com