SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Numa estrada (Poesia)


Numa estrada

Dê-me a tua mão
há flores do campo adiante
a montanha espera por nós
o vento na relva é chamado
e precisamos desse instante
para que a palavra confirme
o que os olhos já revelam
e o coração tão pulsante
insiste em chamar amor

estenda-me a tua mão
da vida breve a eternidade
e do instante eterno a certeza
que fomos além da existência
que fomos além da presença
vivendo no amor sua essência.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 875


Rangel Alves da Costa*


“O amor humano...”.
“Não faz a guerra...”.
“Não destrói vidas...”.
“Não aponta armas...”.
“Não violenta...”.
“Não mata...”.
“O amor cordial...”.
“Não provoca sofrimento...”.
“Não ilude a ninguém...”.
“Não semeia discórdias...”.
“Não é falso nem covarde...”.
“Não abusa da confiança...”.
“Nem se torna falsa amizade...”.
“O amor amoroso...”.
“Não machuca quem ama...”.
“Não se torna em cega paixão...”.
“Não subjuga o outro...”.
“Não escraviza o sentimento...”.
“Não dilacera o coração...”.
“Não quer senão respeito...”.
“Carinho, afeto e consideração...”.
“O amor filial...”.
“Não desonra suas raízes...”.
“Não denigre a imagem dos seus...”.
“Não macula a linhagem familiar...”.
“Não atenta contra o lar...”.
“Respeita os seus e os próximos...”.
“O amor...”.
“Seja que de espécie for...”.
“Seja com espinho ou flor...”.
“Não admite ser amado...”.
“Com o ódio ou a violência...”.
“Não aceita ser sentido...”.
“Como objeto qualquer...”.
“Como nenhuma valia...”.
“Pois se impõe enquanto amor...”.
“E alerta aos corações...”.
“Que ou ama ou desama...”.
“Que escolhe o caminho a seguir...”.
“Deixando o verdadeiro sentir...”.
“Àqueles que ainda valorizam...”.
“Os gestos e afetos de amor...”.
“Como algo a ser preservado...”.
“E ter como espelho de bem...”.
“Todas as vezes que a vida...”.
“Quiser avistar a verdadeira feição...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O LUGAR DO JAGUNÇO


Rangel Alves da Costa*


Segundo relatos colhidos de fontes seguras e guardados no embornal da história - e agora repassados com toda veracidade -, num tempo onde as terras nordestinas, principalmente aquelas situadas nas regiões sertanejas de catingueira e vastidão de mataria, eram recebidas de eréu e depois transformadas em latifúndios nas mãos de uns poucos senhores, as poderosas amizades e os ódios sangrentos se desenvolveram no mesmo passo.
A imensidão de terras nas mãos de poucos senhores causava o empobrecimento e a submissão da maioria da população agrestina, já tão sofrida pelas secas de quase sempre. Mesmo que muito desses latifúndios servissem apenas para a criação de rebanhos soltos, a maioria mantinha alguma produtividade. E o plantio, a colheita, o cuidado com o gado, a queimada, o roçado e muito mais que a terra exigia, era trabalho do pobre homem do campo, cujo destino era apenas servir ao patrão.
Porém existia uma classe de homens, escolhidos a dedo pelos próprios patrões ou seus capatazes, que eram contratados para um trabalho diferenciado. Ao invés de cuidar dos afazeres da terra ou dos rebanhos, tinham que cuidar de seus senhores. Não como serviçais nas lides domésticas nos casarões, mas propiciando segurança, cuidando de preservar a vida de seus patrões.
Não só cuidar de seus senhores como proteger o verdadeiro feudo das ameaças e ataques inimigos. O poderio não estava representado apenas no homem poderoso, na feição daquele dono de homens, terras e bichos, mas na contextualização de seu nome perante a região e outros também poderosos. Daí que defendendo o homem estariam também zelando pela sua fama, sua riqueza, seu poder e sua honra forjada no respeito imposto.
Não podia ser diferente. O poder do latifúndio, que era também o poder político e econômico, era disputado por alguns senhores de mesma patente, e cada um querendo destruir o outro para aumentar ainda mais seu prestígio e força de mando. Mesmo se encontrando em almoços e reuniões, com visitas retribuídas e até a celebração de acordos políticos, a verdade é que nenhum daqueles homens suportava o outro. Daí que necessitavam de proteção, de homens valentes que servissem como alerta para que fossem evitadas as tramas contra o seu patrão, sob pena de o troco ser redobrado na violência.
Tais homens eram os jagunços, uma subclasse de impávidos sertanejos que ao invés de utilizar seu destemor em causa própria ou em ações positivas, vendiam sua honra e sua valentia aos senhores do latifúndio, aos donos do poder, aos coronéis nordestinos. Arregimentados, colocados ao redor dos casarões, ou mesmo nas moradias próximas, estavam prontos para agir a qualquer momento. Em tempo bom ou ruim, em clima de paz ou de tempestade sangrenta, deveriam responder e corresponder ao chamado do patrão.
Desse modo, no sertão nordestino o lugar do jagunço está situado na arcaica estrutura fundiária que caracterizou o latifúndio e a ascensão do coronelismo. A imensidão de terras proporcionou poder local e influência política, fazendo surgir uma classe de poderosos que buscava, a todo custo, aumentar ainda mais seu poder de mando. E o mando e o poder exigiam defesa contra os desafetos e ataque contra todos aqueles que contrariassem suas ordens ou servissem de empecilhos aos seus interesses.
No contexto do coronelismo político e latifundiarista, o jagunço representa a extensão da força pessoal do líder local ou regional. Como o senhor dono do mundo apenas ordenava que fosse feito segundo o seu desejo, cabia ao seu contratado cumprir a determinação. E isso era feito com a proteção ao senhor e seus bens, bem como preparando ofensivas para dizimar inimigos. E os meios utilizados, além das próprias armas de punho, era a tocaia ou emboscada, que consistia em agir nas sombras para surpreender mortalmente aquele que estivesse marcada para morrer.
Assim o lugar do jagunço, num mundo de poderio exacerbado sobre homens e bichos, num tempo onde a vida interiorana era comandada pelos velhos senhores vestidos em linho branco nas suas cadeiras de balanço. E também onde a lei só possuía vigência para os fracos e a sobrevivência da grande maioria sempre dependia das benesses do poder, como forma de garantir a continuidade do mando naquelas vastidões.
Quem dera que o jagunço tivesse sido apenas nos moldes relatados em algumas obras ficcionais, retratados apenas como rudes sertanejos, desvalidos da terra e dos meios de sobrevivência que, sem perspectiva de vida, optavam ou pela vida cangaceira ou pela submissão ao coronelismo beligerante e sanguinário. A maioria, contudo, mais parecendo seres domados pelas forças do patrão e, por isso mesmo, irreconhecível em si mesmo. Degenerados, desconheciam o valor de qualquer valor, principalmente da vida humana.
Mas não. A realidade foi mais consciente e sangrenta do que retratada na ficção. Não é um ser alheio ao mundo que escolhe o local mais apropriado para emboscar, que espera horas e horas a fio até a passagem da vítima e mira com tal obstinação que não deixa escapatória. Não é qualquer um que faz do ofício sangrento uma razão de existir.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Fé (Poesia)


Fé


Minhas mãos tremulam
minha face se enternece
meus olhos se contraem
e tudo em mim silencia
antes de acender a vela
antes de fazer a prece
antes de falar com Deus

mesmo de olhos fechados
sinto a chama da vela
transformando a escuridão
e de seu brilho surgindo
uma luz feito semblante
que fala pela minha fé
e diz que estou aqui
e diz que estou em ti.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 874


Rangel Alves da Costa*


“Canto a canção da saudade...”.
“A cantiga da recordação...”.
“A música da memória...”.
“Um noturno antigo...”.
“Um prelúdio passado...”.
“Um adágio do que se foi...”.
“Porque me faz bem essa música...”.
“O retrato envelhecido na parede...”.
“A moldura carcomida pelo tempo...”.
“Porque me faz bem essa canção...”.
“Recordar meu pai e minha mãe...”.
“Meus avós e antepassados...”.
“Minha herança genética...”.
“E meu percurso até aqui...”.
“E todos já na memória...”.
“Na lembrança do que foram...”.
“Relembro as faces e feições...”.
“As palavras e os gestos...”.
“As singelezas e costumes...”.
“E todos parecendo comigo...”.
“Porque somente sou...”.
“Porque assim eles eram...”.
“Numa herança de vida...”.
“E de tudo que existe em mim...”.
“E me chega essa canção na mente...”.
“Vivenciada na fotografia...”.
“No baú conservado no tempo...”.
“Nos nomes e sobrenomes...”.
“E também uma canção sem nome...”.
“Ecoando tudo o que existiu um dia...”.
“E que jamais será esquecido...”.
“Pela importância havida...”.
“Desde os tempos de meninice...”.
“Aos feitos adolescentes...”.
“Desde os amores impossíveis...”.
“Aos amores desfeitos...”.
“Desde as grandes conquistas...”.
“Ao que jamais foi conseguido...”.
“E tudo chegando como música...”.
“Que ouço lacrimejando...”.
“Que ouço entristecido...”.
“Mas não com tristeza de dor...”.
“E sim pela nostalgia aflitiva...”.
“Que vai tornando o canto...”.
“Num grito silencioso que diz...”.
“Que o presente é passado...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O MEDONHO OFÍCIO DO JAGUNCISMO


Rangel Alves da Costa*


O termo jaguncismo não possui mais a ressonância de outrora. De vez em quando é utilizado no ataque a desafetos para indicar que o inimigo comanda uma corja de matadores. Até ministro do Supremo já acusou outro igualmente togado de manter viva a medonha tradição. Mas o verdadeiro jaguncismo possui raízes muito mais aprofundadas.
A expressão logo remete a jagunço, pois neste possui seu agente ativo, seu praticante, ainda que o mandante fosse também criminoso. Mas a ideia que se tem hoje é apenas aproximada de outros idos. Não raro se diz que jagunço é o violento, o matador, o assassino a sangue frio. No contexto nordestino de antigamente, contudo, tal avesso de gente era muito mais.
Gestado pelo coronelismo, pelo latifúndio e pelo poder de mando, representava a ação violenta do patrão frente aos desafetos e qualquer um que contrariasse seus interesses. Agindo sempre em surdina, era a violência esperando ser chamada para agir. E agia com tamanha sagacidade que nem rastro deixava.
A cobra silenciosamente esgueirada na estrada e pronta para dar o bote, assim era o jagunço. O bicho faminto de sangue esperando sua presa nas sombras dos escondidos, assim era o jagunço. A pedra dura, imóvel e fria, que de repente irrompe faiscando fogo e devorando a vida, assim era o jagunço.
Tem-se, assim, que jagunço era aquele escolhido entre os deserdados da sorte para servir a uma vil e poderosa liderança. Seu ofício não era outro senão proteger o patrão contra inimigos igualmente poderosos e dar cabo de todos aqueles que representassem ameaça ou interferissem nos planos de seu senhor.
O jaguncismo está neste contexto, num triste período onde a morte era a sentença proferida contra quem se atrevesse a açular a ira do poderoso. Este, para não sujar suas mãos ou não levantar suspeita acerca de sua participação na derrubada de um ou de outro, ordenava o serviço àquele que era pago para empreitada de sangue.
Empregado seu, sempre à sua disposição pelos arredores do casarão, ou mesmo alguém de fora, especialmente contratado pela relevância do serviço a ser realizado. Não raro que jagunço de um coronel era contratado por outro para praticar traição. E assim tombava pelas mãos daquele que imaginava seu submisso. Era a vingança pelo avesso.
Um mundo cruel, de violência exacerbada, vinditas de sangue, traições, tiros e mortes. Um mundo do mandonismo, do jaguncismo, do sangue espalhado na estrada. De um lado o poderoso e sua moeda, de outro o matador e seu preço vil diante do valor de cada vida derrubada.
O jagunço era homem espinhento, rude, desconfiado, inimigo da própria sombra. Não gostava e nem confiava em ninguém, nem no patrão nem nos outros do mesmo ofício. Sabia que era um nada, um verme, uma crueldade em pessoa que outra serventia não tinha senão a de tornar em desgraça a vida alheia. E muitas vezes de inocentes.
Mas tinha que cumprir ordens, e sabia que tal cumprimento não tinha nem nome nem face, apenas que era pessoa que não deveria continuar vivendo. Daí que podia ser um poderoso coronel, um pobre sertanejo ou mesmo outro jagunço. Era pago pra fazer e tinha de mostrar o resultado. Corria risco de morte se descumprisse ou fizesse mal feito.
Erra, contudo, quem imaginar que o jaguncismo se comprazia em ser apenas uma ordem para que um jagunço desse fim ao escolhido pelo senhor mandante. Também não significava apenas sair para matar e voltar com a prova do crime. Havia todo um procedimento que era devidamente observado, sob pena de tudo dar errado.
O jagunço tinha de ser homem preparado, destemido, insensível, com sangue frio e primorosa pontaria. Suas mãos sempre firmes, certeiras, inflexíveis. Seu olho devia mirar e se fixar no objeto. A arma tinha de possuir cano longo, comprido, de modo que somente sua boca alcançasse um pouco além das folhagens.
Sua locomoção devia ser como a do bicho astuto, sorrateiro, traiçoeiramente silencioso. Tinha de conhecer toda a paisagem ao redor, bem como ter bom ouvido para sentir o passo da vítima ou o trote de seu cavalo. Até a respiração devia ser comedida.
Seu local de atuação era no meio do mato, atrás dos tufos, mas sempre próximo à beirada da estrada. Era aí que mansamente chegava e preparava a tocaia, a emboscada. E tocaia nada mais é que a armadilha preparada, a toca pronta para cuspir fogo, a cilada onde dificilmente alguém ultrapassa com vida.
Dentro do mato, ou mesmo detrás de tronco largo, o jagunço se preparava para o sangrento desfecho. Ele avista a estrada e quem nela vem, mas a vítima sequer imagina que na mudez ao redor uma arma está sendo apontada para sua testa. E de repente o disparo, o tiro certeiro, o corpo tombando.
Muito jagunço nem precisava dar mais que um tiro. Bastava um. E dali mesmo voltava sem mágoa ou arrependimento, tranquilamente caminhando pela mataria espinhenta, entre garranchos e serpentes. Ele mesmo uma víbora peçonhenta que tanto vitimou os sertões.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Humana poesia (Poesia)


Humana poesia


A poesia
é humana demais
sente e sensibiliza
também passa fome
também passa sede
e se contenta apenas
com o pão da palavra

a poesia
é de carne e osso
possui sentimento
também sofre e chora
e de vez em quando
em versos se transforma
para sobreviver.


Rangel Alves da Costa