SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 26 de março de 2015

POÇO REDONDO: O VERDADEIRO MUSEU DO CANGAÇO


Rangel Alves da Costa*


Lampião e seu bando percorreram quase o Nordeste inteiro. Em cada lugar a cangaceirama deixou marcas de sua passagem. Contudo, em estados como Pernambuco, Bahia, Sergipe e Alagoas, a presença foi mais constante, principalmente pela teia de protetores e apoiadores que Lampião teceu com maestria.
Do mesmo modo, alguns municípios e povoações receberam a visita do bando com mais constância. Os sertões dos referidos estados eram frequentemente percorridos pelo bando e, consequentemente, pela volante no encalço. Contudo, mesmo que as refregas e perseguições não permitissem que o bando se demorasse em determinado em local, certamente que Lampião tinha suas predileções.
Desde os testemunhos orais aos relatos dos historiadores, firmou-se o entendimento de que Lampião sempre gostou de bandear para o sertão sergipano. A verdade é que o Capitão se sentia bem na proximidade de amigos como o Coronel João Maria de Carvalho (da Serra Negra, município baiano vizinho a Poço Redondo) e Teotônio Alves China, o China do Poço. Certamente não acoitava aos pés dos serrotes baianos por causa de Zé Rufino e seu quartel-general também na Serra Negra. Então permanecia nas terras de Poço Redondo.
Lampião certamente gostava de se amoitar na região limítrofe entre o Velho Chico e as montanhas e carrascais sertanejos. Ficava, a um só tempo, perto do caminho das águas e das veredas espinhentas mais adiante. E a Gruta do Angico é assim, de um lado a então grandeza do rio e do outro e arredores a selva de catingueiras, facheiros, umburanas, mandacarus e xiquexiques. E a gruta ou grota fica, pois, entre serras dessa brutal e encantadora paisagem.
Outro fator de relevância para a predileção pelo sertão sergipano está também no grande número de coiteiros da região. Pedro de Cândido, suposto delator de Lampião, era coiteiro filho da dona da Fazenda Angico, Dona Guilhermina. Durval, então aprendiz na lide da serventia aos homens das caatingas, também era filho da proprietária. E pelos arredores os préstimos de outros sertanejos como Mané Félix e Messias Caduda, dentre muitos outros.
Há relatos afirmando que Lampião se sentia em casa na região de Poço Redondo. Quando deixou as distâncias hostis e esturricantes do Raso da Catarina, no sertão baiano, o Capitão dizia abertamente que não via a hora de chegar logo ao Angico para um repouso mais demorado. Estava muito cansado, sem dúvidas, pois já chegando aos vinte anos de luta pisando em sangue, com quase toda uma vida vivida na mira do mundo.
Dizem até que houve premeditação na escolha do Angico. Além do cansaço da luta, também estava de alma cansada. Nesta última fase da vida, o Lampião já era outro homem buscando o seu destino. Já não era o feroz comandante, mas apenas o homem compreendendo a si mesmo. Estava mais apegado às coisas sagradas, mais tomado de fé, mais reflexivo. E também muito mais entristecido. Não suportava mais viver aquela desdita na vida.
O que aconteceria a 28 de Julho, quando os homens comandados por João Bezerra se fizeram de vaga-lumes no cerco ao bando para chaciná-lo, assemelha-se muito mais a uma consequência a uma fatalidade. Ora, o cangaço estava destinado a morrer ali. Lampião não queria mais combater, mas apenas sobreviver. Lampião não queria mais um fogo na sua vida, mas tão somente um destino de um homem qualquer. Mas também sabia que era impossível. Daí o sofrimento de Virgulino. O Virgulino triste pela alma sofrida de Lampião.
E todo o desfecho da saga se deu nas terras sertanejas do Poço Redondo. E não há outra localidade nordestina onde o cangaço se fez tão presente. Mais de duas dezenas de poço-redondenses se tornaram cangaceiros do bando do Capitão. Coiteiros, fazendeiros, pessoas influentes de então, todos indistintamente serviram à cangaceirama. Por fim, há o cenário maior de toda a história do cangaço: a Gruta do Angico.
Portanto, cada município ou estado nordestino tem o direito de chamar para si o reconhecimento e as homenagens ao Capitão e seu bando, mas o verdadeiro museu do cangaço está mesmo em Poço Redondo, não entre paredes e objetos cangaceiros, mas na história viva, nos cenários e paisagens que falam por si mesmos. Não só no Angico, mas também na Maranduba e outros arredores de fogo e sangue.


Poeta e cronista
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Sabor de fruta (Poesia)


Sabor de fruta

Doce mel
mel melado
suco derramado
da fruta beijo
corpo em desejo
querendo amar
todo o pomar

pele macia
gosto e sabor
a fruta amor
no seu quintal
e o meu ritual
desse gostar
de saborear.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 924


Rangel Alves da Costa*


“Flor da infância...”.
“Flor da lembrança...”.
“Tempo de flor...”.
“De meigo sabor...”.
“Uma ciranda...”.
“Que a vida anda...”.
“É outra vida...”.
“Mas nada parecida...”.
“Os doces anos...”.
“Boneca de pano...”.
“Roupa no varal...”.
“Cavalo de pau...”.
“Uma cantiga...”.
“Tão doce amiga...”.
“Roda girando...”.
“A lua clareando...”.
“De mãos dadas...”.
“Noites enluaradas...”.
“Cantando na rua...”.
“Debaixo da lua...”.
“Pulando de acorda...”.
“Uma saudade que acorda...”.
“Pedaço de bolo...”.
“A pipa de rolo...”.
“Correndo ligeiro...”.
“E chegar em primeiro...”.
“Mas que menina tão bela...”.
“Ali na janela...”.
“O menino em rubor...”.
“Dá maçã do amor...”.
“Um leve sorriso...”.
“Mais que paraíso...”.
“Tanta esperança...”.
“No peito criança...”.
“Brincar e sonhar...”.
“Com castelos no ar...”.
“Um príncipe valente...”.
“Na vida contente...”.
“Ser criança assim...”.
“É viver sem ter fim...”.
“É amar o viver...”.
“A nobreza no ser...”.
“No ser tão criança...”.
“Para que a lembrança...”.
“Chegue com saudade...”.
“Do passado e da doce idade...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 25 de março de 2015

Devotos de São José


Rangel Alves da Costa*


Na quinta-feira, dia 19 de março, logo ao amanhecer avistei uma faixa estendida no alto da rua onde moro: “Todos estão convidados para a novena em homenagem ao glorioso São José, às 7:00 da noite. Viva São José!”. Tal visão encheu-me de encantamento. Tenho como verdadeiro fascínio que nos dias de modernidades repugnantes e modismos pecaminosos ainda se mantenha preservada tradição religiosa tão singela.
A faixa estava estendida defronte ao espaço onde sempre acontece a novena devocionária. É uma tradição familiar que começou com o pai, Seu José Morais, e que continua com o filho Cidinho, que a todos convida para o ritual religioso em homenagem a São Jesus Carpinteiro, Pai de Jesus, Padroeiro dos Trabalhadores, Protetor das Famílias, Pai e Protetor do Homem do Campo, Fiel Escudeiro do Sertanejo. Ou apenas o São José enquanto simbologia da humildade na vida.
Também louvável que a tradição se mantenha em pleno centro da capital sergipana. Ainda bem que Aracaju ainda não alcançou a feição petrificada de metrópole urbana, não se transformou na feiura disforme do concreto e na medonha insensibilidade de seu habitante. E, por isso mesmo, um aspecto interiorano ainda prevalece nas ruas, nas pessoas e nas manifestações religiosas e culturais. Melhor que seja assim, que nos anos vindouros ainda seja possível encontrar vizinhos e beatas louvando seus santos, caminhando pelas calçadas com seus livros santos, rosários e terços.
Há sempre um justificado temor que o progresso vá inibindo cada vez mais o sentimento religioso do povo. Muitos jovens não assumem a religiosidade nem frequentam os templos de fé para não serem chamados de cafonas ou servir de zombaria aos adeptos da vida como mera curtição. E corre-se o risco de mais tarde não existir mais preces, velas acesas ao pé do oratório, imagens adornadas nas janelas esperando a passagem da procissão. E ao esquecimento serão relegados não só os santos como a fé condutora da vida.
Diante desta desalentadora perspectiva, resta o alento e a comoção espiritual ao se ter preservado, em pleno centro da capital, o singelo ritual em homenagem a São José. E uma beleza sem igual os cantos, as rezas, a imagem envolta em flores no seu pedestal. Em seguida a procissão, as velas acesas, os fogos, as vozes entoando e louvando o carpinteiro. Não só a presença de pessoas de mais idade, mas também de jovens que buscam na fé também o sustentáculo da existência.
Logo ao alvorecer alguns fogos ribombaram anunciando o dia da louvação. Certamente que muitas missas foram celebradas na Paróquia de São José, no bairro do mesmo nome, e também noutras igrejas da capital. E os particulares, amigos e familiares, vizinhos e fervorosos cristãos, também cuidaram de preparar seus altares para as novenas e cantos de devoção. Assim aconteceu na minha rua, nas vizinhanças de minha casa, e também com a minha presença.
Sou sertanejo, filho das distâncias matutas do sertão de meu Deus, e trago comigo a dádiva da religiosidade. Minha mãe ensinou-me a crença, a fé, o amor divino, o respeito à sacralidade. Serei sempre grato por isso. E mesmo na capital, nesse dia fico imaginando meus irmãos sertanejos em louvação. Ora, São José é santo sertanejo, é santo caboclo, é santo cheirando a terra e a flor de catingueira. São José mora na casa de taipa, na tapera de cipó e barro, sente fome e sede nas atormentações das estiagens. Por isso que intercede junto a seu filho Nosso Senhor para que não deixe o seu povo ao esquecimento.
Com efeito, a devoção a São José possui primazia na região nordestina, principalmente nos rincões sertanejos. Há a crença que se cair chuva nesse dia será sinal que não faltarão as águas para molhar as plantações que logo terão início. Não precisa nem ser chuva forte, de trovoada, bastando que um pingo ou outro se derrame para que a crença se transforme em indescritível esperança. Já vi sertanejo chorar de alegria ante um chuvisco da noite, já presenciei mãos serem erguidas ao alto porque nuvens carregadas pareciam caminhar na direção da secura.
Assim, pingo d’água no dia de São José é promessa maior ao sertanejo, é esperança viva que haverá plantação e farta colheita. Logo se imagina a espiga de milho bonecando, o milho assando nas fogueiras juninas, a canjica gostosa, o sabor amarelado da terra. E também o feijão, a melancia, o melão coalhada, tudo o que brote na vida. Daí que por todo lugar há reverência através de missas, novenas e procissões. Logo ao alvorecer os olhos matutos se lançam aos horizontes esperando encontrar na barra os primeiros passos do santo da esperança.
Verdade que as chuvas não chegaram no dia tão esperado, ao menos na capital. Também no interior apenas chuviscou aqui e acolá. Mas mesmo que os sinais de fartura ainda não tenham chegado, o povo sertanejo se enche de esperanças e confirma sua fé nas contínuas promessas e orações. São gestos comuns que se repetem na normalidade dos dias. E todo dia parece ser um dia de São José, o santo da terra molhada e do grão semeado.


Poeta e cronista
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Verdade (Poesia)


Verdade

Quando o olhar sorrio
eu fui encontro
quando chamei e vieste
eu fui feliz
quando disse que amava
eu fui sincero
quando jurei meu amor
eu fui certeza
quando repeti que amava
eu fui verdade
quando a ti me entreguei
eu fui consciência
mas quando amei sozinho
eu fui tristeza
e quando sozinho fiquei
eu fui só meu
mas já não restava nada
nem eu...


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 923


Rangel Alves da Costa*


“A vida...”.
“Tão bela a vida...”.
“Uma revoada...”.
“Um horizonte...”.
“Um amanhecer...”.
“Um luar...”.
“Um entardecer...”.
“Coisas simples...”.
“Singelas demais...”.
“E tão essenciais...”.
“Assim como...”.
“A flor do campo...”.
“O silêncio da montanha...”.
“A pedra na fonte...”.
“O córrego cristalino...”.
“A noite de vaga-lumes...”.
“A nostalgia noturna...”.
“A música do vento...”.
“O canto da brisa...”.
“Por isso tão bela...”.
“Tão bela é a vida...”.
“Do amor...”.
“Dos braços dados...”.
“Da poesia na voz...”.
“Do bilhete rimado...”.
“Da flor à mão...”.
“Da maçã do amor...”.
“Da cor do arco-íris...”.
“Da folha ao vento...”.
“Das estações...”.
“Tudo na vida...”.
“Para melhor viver...”.
“E quem dera...”.
“Que o encanto...”.
“De encontrar a ternura...”.
“Seja a crença maior...”.
“Que é possível existir...”.
“Tendo como norte...”.
“Aquilo que os olhos...”.
“Tanto apreciam...”.
“E o coração agradece...”.
“Por sentir...”.
“Que ainda é possível...”.
“Encontrar os reais motivos...”.
“Da vida e sua razão...”.
“De viver...”.


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terça-feira, 24 de março de 2015

NO SINGELO MUNDO


Rangel Alves da Costa*


Sol de rachar panela de barro, os passos cansados se aproximam da porta tosca e dá duas batidas.
“Oi de casa, oi de dentro, é gente de bem que está aqui. Humilde viajante para mais ir, mas muito cansado e afadigado. Uma caneca d’água pra matar a sede deste sem chão nem parede...”.
Sons de passos são ouvidos lá dentro. Alguém caminha e para rente à porta, e pelas frestas certamente cuida de divisar o forasteiro que chega.
“Oi de casa, oi de fora, já vou abrir sem demora, mas primeiro comece a falar como chegou neste lugar, o que faz de rompante nesse sertão distante...”.
Então o forasteiro, muito mais esperançado, estendeu ao chão o carcomido embornal para falar sem pressa.
“Por Nosso Senhor lá do céu, digo a verdade sem véu. Sou de um sertão bem distante, além da serra e mais adiante. Dois dias cortando estrada, desde o dia à madrugada. Mas nem sei bem aonde vou, bem como não sei bem onde estou. Só sei que vou caminhando, um trabalho procurando, na sina me esperançando...”.
Lá dentro um silêncio repentino, mas logo o barulho da mão dobrando a chave. A porta continuou fechada até a pessoa de dentro pronunciar mais algumas palavras.
“Seja você quem seja aqui não se teme pessoa ou peleja. A casa é abençoada, é defendida por Deus e pela Virgem Sagrada. Também não há o que se temer, nada aqui tem além do nada ter. Uma casa empobrecida, com pouca água e comida, mas com a riqueza da vida: a fé que é desmedida...”.
Do outro lado, o forasteiro ouvia respeitosamente cada palavra, porém preferia mesmo que a porta fosse aberta para matar a sede.
“Sou de paz, sou bom cristão, nenhuma maldade no coração. Se chego sem ser convidado é porque sou precisado. Mas não tenha medo não, sou filho desse sertão e respeito todo irmão, seja de qualquer condição...”.
A porta, enfim, se abriu, mas primeiro um tiquinho, depois mais um tantinho, até lá dentro aparecer o dono do casebre ainda desconfiado. Sem reação de temor ou surpresa, apenas olhou no olho do outro para falar.
“Achegue-se, pode entrar, faça como seu esse lugar. Desculpe pela pobreza, pelo pão que não tem na mesa nem luxo ou miudeza que se alastre em correnteza. Sou pobre, vivo sozinho e tudo que tenho é esse cantinho e uma terra esturricada pela seca malcriada...”.
O viajante estendeu-lhe a mão e cuidou de mostrar confiança. Não precisava mais que uma caneca d’água e um tamborete pra descansar um pouquinho. Ademais, talvez o dono daquela casa estivesse com a mesma fome que ele. Então se pôs a falar.
“Sou homem de poeira e espinho, cortando légua sozinho. Vim de longe e vou seguir até um trabalho surgir. A seca tirou meu sustento e isso o que mais lamento. Agora sou retirante dessa vida de levante...”.
O dono da casa mostrou-lhe um tronco de madeira que servia de cadeira. Em seguida deu conta de uma moringa e cuidou de arranjar um pedaço miúdo de preá assado com farinha seca. E tudo se mostrou como fartura aos olhos do retirante.
“Louvado seja Deus pela água e pelo pão, comida melhor não há em todo o sertão. Mas por favor queira aceitar o que eu posso lhe dar. É coisa muito modesta, mas juro que alegra o coração e a isso bem se presta...”.
Em seguida tirou do embornal um velho rosário bento e o entregou ao dono da casa. Ao avistar a relíquia religiosa, os olhos deste lacrimejaram. Quis falar, a palavra não veio. Estava emocionado demais.
E o viajante, de coração agradecido pela acolhida, se despediu para seguir viagem. Da porta, o velho senhor acenava tendo à mão o rosário que sustenta a fé e a vida do sertanejo.


Poeta e cronista
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