SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 29 de março de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 927


Rangel Alves da Costa*


“Inventaram a pólvora...”.
“Inventaram a arma...”.
“Inventaram a guerra...”.
“Inventaram o medo...”.
“Inventaram o medo...”.
“Inventaram a dor...”.
“Esqueceram a paz...”.
“Não pensaram na paz...”.
“Não pensam na paz...”.
“Inventaram a ogiva...”.
“Inventaram a bomba...”.
“Inventaram o foguete...”.
“Inventaram o míssil...”.
“Inventaram o tanque...”.
“Inventaram a trincheira...”.
“Inventaram o grito...”.
“Esqueceram o amor...”.
“Não pensaram no amor...”.
“Não pensam no amor...”.
“Inventaram o fuzil...”.
“Inventaram o rifle...”.
“Inventaram a metralhadora...”.
“Inventaram a mauser...”.
“Inventaram a espingarda...”.
“Inventaram a escopeta...”.
“Inventaram o chumbo...”.
“Inventaram a bala...”.
“Inventaram o tiro...”.
“Esqueceram a vida...”.
“Não pensaram na vida...”.
“Não pensam na vida...”.
“Inventaram o inimigo...”.
“Inventaram o beligerante...”.
“Inventaram o morticida...”.
“Inventaram a crueldade...”.
“Inventaram a desumanidade...”.
“Inventaram a frieza...”.
“Inventaram a estatística...”.
“Inventaram o cemitério...”.
“Esqueceram a pessoa...”.
“Não pensaram no sujeito...”.
“Não pensam no indivíduo...”.
“Inventaram a treva...”.
“Inventaram o horror...”.
“Inventaram o ódio...”.
“Esqueceram Deus...”.
“Simplesmente isso...”.
“Não pensam em Deus...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 28 de março de 2015

MENTE: REALIDADE E SIMULAÇÕES


Rangel Alves da Costa*


A mente humana é capaz de transformar realidades em representações. Significa dizer que ela pode transcender o que vê para dar uma significação própria. Simulando outras realidades a partir de uma dada realidade, de repente tem num objeto visualizado algo impossível de percepção por qualquer outra pessoa.
Citando um exemplo. Um olhar que se depara com um campo devastado pela seca pode não ser fotografado pela mente como uma paisagem acinzentada, de galhos tortos, folhas mortas, vegetação esturricada pelo sol. Indo além, aquela realidade pode surgir como outro retrato na mente: pessoas raquíticas, crianças esqueléticas, panelas vazias, fome e sede, tristeza, dor e sofrimento.
Quer dizer, aquela realidade foi simulada pela mente, que a representou segundo sua percepção própria. E assim também em todas as situações de vida onde as realidades são traduzidas segundo a perspectiva mental de cada. Logicamente sendo influenciada pelo próprio ambiente, o estado de espírito, as experiências vivenciadas e as lições aprendidas. Tais aspectos configuram o que se denomina Modelos ou Representações Mentais.
O conceito de Modelos Mentais ou Representações Mentais surgiu com o filósofo e psicólogo Kenneth Craik, no livro The Nature of Explanation (A Natureza da Explanação). Segundo Craik, o ser humano traduz os elementos do ambiente em modelos mentais, manipulando suas representações simbólicas. Assim, um modelo mental é, antes de tudo, uma representação dinâmica ou uma simulação do mundo.
Os modelos mentais possuem dois aspectos importantes: Um primeiro aspecto no sentido de que o conhecimento do passado na junção com o presente acaba influenciando a ação da pessoa. E o segundo no sentido de que os modelos mentais socialmente adotados acabam influenciando nos modelos mentais dos indivíduos.
Os modelos mentais são diferentes de indivíduo a indivíduo. A imagem que um tem sobre um objeto pode não ser a mesma que outro sujeito possui sobre o mesmo objeto. E não são fixos, pois se modificam em resposta às mudanças do ambiente. Por não serem fixos, podem ser manipulados para transmudar realidades em outras. As pessoas deixam de negar determinadas realidades porque foram influenciadas para agir assim.
Logo se percebe a grande utilização dos modelos mentais na política, como forma de manipulação do eleitorado ou forçando o seu convencimento de realidades inexistentes. As mentes votantes são trabalhadas para cegar determinados aspectos e validar outros inexistentes. A realidade é mostrada de forma deturpada, de modo que a representação desejada faça surgir outra realidade que se ajuste às intencionalidades eleitoreiras.
Os modelos mentais também podem ser utilizados nas organizações empresariais. As empresas devem modificar a percepção mental de seus colaboradores toda vez que quiser inserir mudanças, sob pena de não aceitação da mudança. Quer dizer, a organização deve procurar moldar o novo modelo na mente de seus funcionários a partir da quebra de paradigmas anteriores.
O indivíduo enquanto sujeito que pretende mudar seu jeito de ser ou sua postura perante a sociedade e o mundo, também pode se utilizar dos modelos mentais. Para tal, deve incutir em si mesmo que sua postura não vem a sendo a correta e que por isso mesmo tem de se transformada. E, a partir da negação de determinadas atitudes, ir confirmando outras como escolhas de vida.
A finalidade, pois, das representações mentais são mudanças. Como as mudanças sempre implicam resistências, a persistência será a arma mais eficaz para a transformação. Ora, nenhuma caixa preta de avião é preta, e sim de forte alaranjamento. Contudo, a cor preta está representada de maneira de forma tão consistente no indivíduo que raramente alguém percebe sua verdadeira cor. Tudo porque a mente foi simulada para tal.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Vida viver (Poesia)


Vida viver

Vida, vida, vida
quem vive o encanto
de sua acolhida
repete em acalanto
vida, vida, vida

os pássaros em revoada
a brisa soprando perfumada
a relva embalada ao vento
o azul tão belo no firmamento
e o ser tão feliz por viver
a cada magia do entardecer

viver, viver, viver
muito além de existir
expandir o ser no seu ser
ir além até partir.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 926


Rangel Alves da Costa*


“Cantei a cantiga...”.
“Já rodei na roda...”.
“Já subi no ar...”.
“Na bolha de sabão...”.
“Limpei a casinha...”.
“Casa de boneca...”.
“Amansei o cavalo...”.
“Cavalo de pau...”.
“Menina e menino...”.
“Na vida de um dia...”.
“Tanta inocência...”.
“Tanta alegria...”.
“Cirandar ciranda...”.
“Dar as mãos em roda...”.
“A boneca de pano...”.
“Não vai mais chorar...”.
“A bola de gude...”.
“Acerta o buraco...”.
“Debaixo da lua...”.
“É mais doce brincar...”.
“Olhar as estrelas...”.
“Que passeiam na noite...”.
“É tanta magia...”.
“Na vida em açoite...”.
“Voando voraz...”.
“Passando veloz...”.
“Tirando da infância...”.
“Seu instante singelo...”.
“Vem me dar a mão...”.
“Que não quero partir...”.
“Pelo caminho adulto...”.
“Não quero seguir...”.
“Prefiro a rua...”.
“A noite de lua...”.
“Cantando ciranda...”.
“Rodando na roda...”.
“Jogando a bola...”.
“Derrubando o varal...”.
“Um doce mistério...”.
“Entre fadas e bruxas...”.
“Castelos encantados...”.
“E dragões pelo ar...”.
“Esse reino encantado...”.
“Que é meu...”.
“E que ninguém me tira...”.
“Pra dizer que é seu...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 27 de março de 2015

COIVARA


Rangel Alves da Costa*


A coivara queima, faz subir labareda, enfumaça tudo ao redor, mas depois vira cinzas e vai sendo dissipada no vento.
Conceitualmente, coivara é uma técnica agrícola rudimentar para queimar velhos arbustos e preparar o pasto para a plantação.
O facão derruba a mata, os galhos e restos mortos são amontoados e tocado fogo em tudo. Imaginava-se que as cinzas serviam de nutrientes para a plantação.
As labaredas da coivara vão consumindo tudo ao redor. A fumaça sobe e vai avançando pelos arredores. Nos dias seguintes ainda restam brasas por cima da terra.
Somente o tempo do tempo para acabar de vez com o fogo da coivara. Quando as cinzas estão assentadas e frias, logo a terra é preparada para outro destino.
O vento leva a fumaça e ficam as cinzas. Logo as cinzas serão misturadas a terra e também desaparecerão. E nenhum retrato restará da mata que foi derrubada.
Assim a coivara antiga, a coivara dos sertões, os costumes dos povos nas suas lides com a terra. E muita mata se derrubou para coivara que não vingou.
Os campos nus de agora, pobres de nutrientes, sedentos e famintos, não possuem mais forças para fazer brotar arvoredo imponente. A terra nua e feia é também de solidão.
Distante dos sertões e dos campos mais afastados, a coivara ainda permanece sendo formada em muitos lugares e situações. Tronco a tronco, pau a pau, galho a galho.
O fogo ainda queima, as labaredas fremem, a fumaça sobe, o calor fraqueja o resto de seiva. A terra queima, geme, sofre, tudo ao redor parece tomado de desolação.
Uma paisagem que também é a humana na dor de seus dias. Um cenário que também é o do ser na solidão, na tristeza, na saudade, na sua busca de reencontrar a felicidade.
A coivara se multiplica. As pessoas vão juntando restos para a grande fogueira. Um amontoado de coisas e situações pesarosas vai se avolumando para o destino das cinzas.
Naquela coivara juntavam-se troncos, pedaços de paus, galhos secos, folhagens mortas, gravetos e bagaceira da mata. E nesta outra não é muito diferente.
Naquela coivara o fogo se fazia voraz, formava labareda, crepitava, dançava pelo ar, se tornava fumaça enegrecida, fagulhava pelo ar à espera da ventania. E nesta também.
A madeira morta crepitava e ia se tornando brasa para depois se esconder entre as cinzas. A terra continuava abrasada, quente por muito tempo. E nesta outra também.
Até quando a coivara queima totalmente e debaixo de suas cinzas não restem mais brasas e nem o calor relembre sua vivacidade? Somente com o abano do tempo.
Somente com o sopro do tempo não haverá mais qualquer recordação, ainda que os vestígios continuem existindo. Mas é difícil demais apagar de vez uma coivara da vida.
Saudades, tristezas, angústias, recordações, lembranças, retratos mentais, imagens que nunca saem do pensamento, presenças constantes, eis os galhos dessa coivara da vida.
Marcas não cicatrizadas, amores não esquecidos, mágoas não dissipadas, angústias não remediadas, sentimentos não revelados, eis o que deve servir de fogueira à coivara.
As grandes matas são derrubadas por coivaras imensas. As grandes dores e sofrimentos humanos crepitam em chamas vorazes, avançando sobre tudo, a tudo destruindo.
O homem queima e se torna cinzas a cada instante. Os seus restos renascem tentando vingar outra vida. Mas logo se percebe a chegada de outonos, securas e labaredas.
Quem dera que as cinzas fossem sempre para o renascimento. Quem dera que dos restos brotasse o novo ser, menos fragilizado e sofrido que aquele devorado no fogo.
Quem dera a Fênix mitológica em cada um. Mas não. Infelizmente as folhas da vida são expostas demais. E frágeis, queimam, se tornam cinzas, e somem na ventania.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Gaivota (Poesia)


Gaivota


A gaivota
voou pelo mar
e trouxe uma gota
do seu olhar
um azul imenso
para encantar
um pingo d’água
derramado em mim
para recordar

depois a gaivota
voltou pelo ar
levando uma gota
desse meu olhar
apenas a luz
querendo brilhar
um rio vazio
querendo um mar
para navegar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 925


Rangel Alves da Costa*


“Noite, noite...”.
“Tudo no breu da aflição...”.
“Ouço passos...”.
“Grilhões arrastados...”.
“Mas sou eu...”.
“Com os meus fantasmas...”.
“Noite, noite...”.
“Solene cor de entristecimento...”.
“Ouço gritos aflitos...”.
“Sons desesperados...”.
“Mas sou eu...”.
“Gritando dentro de mim...”.
“Noite, noite...”.
“Vela caída aos pés da escuridão...”.
“Ouço rangidos na porta...”.
“A fechadura forçada...”.
“Mãos querendo abrir...”.
“Mas sou eu...”.
“E o meu inconsciente querendo fugir...”.
“Noite, noite...”.
“Sem lua de sangue...”.
“Nem estrelas sepulcrais...”.
“Apenas o negrume negro...”.
“Retinto e assustador...”.
“Sem luz ou vela...”.
“Sem porta ou saída...”.
“Sem nada na vida...”.
“E os fantasmas passeiam...”.
“Com seus olhos vermelhos...”.
“E suas mãos retorcidas...”.
“Seguindo pelos corredores...”.
“Entrando nos quartos...”.
“Invadindo sonhos...”.
“Beijando o sono...”.
“E querendo engolir...”.
“O que resta de vida...”.
“Mas não serei alcançado...”.
“Pois o fantasma sou eu...”.
“Todos os fantasmas sou eu...”.
“Vagando sem rumo...”.
“Nas noites infindas...”.
“Pisando nas lágrimas...”.
“Que inundam os passos...”.
“E lavam os rastros...”.
“Que fogem do abandono...”.
“Que fogem da solidão...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com