SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 939


Rangel Alves da Costa*


“Lua...”.
“Mais que lua...”.
“Luar...”.
“De luarar...”.
“Um céu noturno...”.
“Uma luz na escuridão...”.
“Vento em açoite...”.
“Nostalgia e paixão...”.
“Olho da noite...”.
“Brilho apaixonado...”.
“E vagando o vaga-lume...”.
“Com seu queixume...”.
“Do brilho imenso...”.
“Da poesia...”.
“Que desce ao coração...”.
“Declama versos...”.
“Sente saudades...”.
“Quer namorar...”.
“Tanto mistério...”.
“Na distância do espaço...”.
“Jogar o laço...”.
“E subir nas estrelas...”.
“E passear entre cores...”.
“De uma só luz...”.
“A luz da lua...”.
“Que é luz e imensidão...”.
“Que toma o mundo...”.
“E abraça a vida...”.
“E apaixona e desnorteia...”.
“E faz adormecer...”.
“Para sonhar na sua luz...”.
“Um pobre servo...”.
“Enlouquecido pelo ar...”.
“Abrindo a janela...”.
“E bater asas para voar...”.
“E subir além...”.
“E à lua chegar...”.
“Depois descer...”.
“Para acordar...”.
“E no meio da noite...”.
“Abrir a porta...”.
“E se encantar...”.
“Com a luz da lua...”.
“Descendo em véu...”.
“Para namorar...”.
“E apaixonar...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 9 de abril de 2015

LIXO DE RICO


Rangel Alves da Costa*


Não sei se como justa comparação, mas alguém já asseverou: lixo de rico é igual a muita gente que só tem a aparência, pois por dentro é imundície comum. Já outro, dando maior ênfase à sua afirmação, disse: lixo e morte possuem o mesmo sentido na embalagem, eis que depois de algum tempo, e seja rico ou pobre, será sempre melhor não abrir a sacola para ver o que tem dentro.
E um ex-catador de lixo, depois transformado em catador de siri no quintal de casa, ensinava que o pobre, por mais necessitado que seja, deve evitar fazer três coisas na sua catação de sobrevivência. A primeira é jamais pensar que vai encontrar resto de comida boa em lixo de rico, pois é o saco mais pobre que possa existir. A segunda é jamais pedir esmola a gente rica, porque é quem mais tem, porém nunca leva dinheiro no bolso. E a terceira é jamais ficar zanzando por muito tempo perto da calçada, pois além de pobre e descabido no lugar, logo será tido como perigoso marginal que está planejando sequestrar o cachorro da madame.
Dizia ainda que muito catador se engana em pensar que fuçar lixo de rico é garantia de sorte grande. Em primeiro lugar porque parece que rico não come e só toma remédio. Na sua sacola nunca vem um resto de quentinha ou mesmo um resto de macarronada. Só vem embalagem vazia de remédio, de comprimido, seringa, garrafa e lata. Morre de fome quem esperar achar ali um resto de pernil, um naco de carne boa, uma comida de forno. Asa ou coxa de frango nem pensar. Rico parece que é sempre vegetariano, só bebe ou mastiga folha em comprimido. Por isso mesmo é que vive sem cor, sem vigor, sem feição com sustança. É um povo adoentado e deprimido, principalmente porque não tem coragem de se lambuzar diante de um prato suculento. Por consequência, o seu lixo é verdadeiro lixo.
Apenas raramente é que seu lixo traz alguma surpresa, algo que faça merecer a sina de fuçar porcarias sob ameaça de brutamontes que vigiam os altos muros. Acaso a sacola contenha roupa, certamente que será quase nova. É que o dono emagreceu demais por não comer ou engordou pelo inchaço dos remédios e vitaminas. E também porque rico é inimigo ferrenho de roupa desajustada ou com pequeno furo. Mas de vez em quanto surge um relógio velho, um par de sapatos ainda com sola, um tênis apenas descolado ou mesmo um maço de dinheiros. Sim, um pacote de dinheiro velho e sem valia alguma, pois encontrado depois de muito tempo nos escondidos das paredes.
A verdade é que essa coisa de lixo de rico ou de pobre faz parte da sociologia doméstica ou mesmo da retórica inventiva do povo. Nem mesmo o coletor dos resíduos ou sobras domésticas conhece a essência do lixo de rico. Quando muito, na correria para acompanhar o caminhão, deixa uma sacola escorregar e pelo asfalto fica espalhado o outro lado da burguesia, do poder, da riqueza. Apenas imundícies.
Somente duas espécies de pessoas conhecem em profundidade o que seja lixo de rico: a doméstica ou serviçal e aquele que, noite após noite, sai pelas calçadas catando em tonéis ou escarafunchando sacolas em busca das sobras capitalistas. A doméstica, que nem sempre joga no lixo tudo que mereça ser reciclado ou recolhido por outras pessoas, de vez em quando guarda para si o que ainda pode ser reutilizado ou consumido. Então, o que sobrará ao catador de lixo?
A ilusão, apenas a ilusão de que lixo de que rico sempre pode revelar restos que são verdadeiros achados para quem sobrevive com o nada. Ao menos assim revelou o porteiro com porrete à mão e com ordens para não deixar animais estranhos rodando os prédios, as mansões, as luxuosas residências. Os animais estranhos, ou bichos errantes nos lugares indevidos, são pessoas, são humanos, são os catadores de lixo.
Recordei-me dum poema de Manuel Bandeira, coerentemente intitulado “O Bicho”, e eis sua transcrição: Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos/ Quando achava alguma coisa/ Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade/ O bicho não era um cão/ Não era um gato/ Não era um rato/ O bicho, meu Deus, era um homem.
Bandeira sintetiza com maestria essa desumana dependência humana, a vil condição do ser que cata nos monturos, lixões e calçadas, o seu grão de sobrevivência. E diante de qualquer lixo, seja de rico ou de pobre, a feição animalesca é sempre a mesma, pois ali a racionalidade não vai além da cegueira sempre presente na absoluta necessidade. E numa situação tal, onde a fome faz a boca encontrar sabor em tudo e o nariz deixar de sentir qualquer cheiro, nada será podre, malcheiroso, imprestável ao homem. Ali apenas o bicho.
Passando pela alameda em carro de passeio, alguém teve o cuidado de reduzir a velocidade e fixar o olhar em dois meninotes que se lançavam com voracidade às bocas abertas de sacolas, e refletiu: Eis uma Serra Pelada. Ali a voracidade imaginando encontrar a salvação. E aqui, no lixo, o veio dourado, o amarelado de comida podre lhes parecendo pepita. E a recolhe com tamanho ímpeto que mais parece a riqueza maior. E é. Ao menos para o instante faminto, não há nada que possua mais brilho diante do olhar.


Poeta e cronista
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Depois de tudo (Poesia)


Depois de tudo


Depois que cresci
quero de novo o menino
depois que sofri
quero de novo a brincadeira
depois que chorei
quero de novo a alegria
depois que desamei
quero de novo namorar
depois que beijei
quero de novo sonhar
depois que entristeci
quero de novo desejar
depois desse querer
quero de novo merecer
mas se for difícil ter
quero apenas viver.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 938


Rangel Alves da Costa*


“Vida de balaio...”.
“De resto de feira...”.
“De casca apodrecida...”.
“De esmola e xepa...”.
“De nada...”.
“Que família grande...”.
“Menino de berço...”.
“Menino doente...”.
“Menino desvão...”.
“Que barraco torto...”.
“Que moringa feia...”.
“Panela vazia...”.
“Esteira ao chão...”.
“Tapete de barro...”.
“Tanta solidão...”.
“Um resto de resto...”.
“Um resto de tudo...”.
“Qualquer sobra...”.
“Qualquer esperança...”.
“Sem farinha...”.
“Sem açúcar...”.
“Sem arroz...”.
“Sem feijão...”.
“O menino chorando...”.
“Querendo um pão...”.
“A barriga vazia...”.
“A magreza cortante...”.
“A insônia na alma...”.
“O escuro no dia...”.
“E sempre assim a vida...”.
“Como ontem o hoje...”.
“O amanhã desse jeito...”.
“Nada ter...”.
“E nada terá...”.
“Somente restos...”.
“Dos restos dos restos...”.
“E o pó e o grão da miséria...”.
“A poeira nos olhos molhados...”.
“O cansaço de morte...”.
“Ou de vida...”.
“Desabar pelo chão...”.
“E morrer...”.
“Ou viver esperando o fim...”.
“Que é agora...”.
“Ou é amanhã...”.
“Que já foi...”.
“Mas tanto faz a miséria...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 8 de abril de 2015

UM POÇO REDONDO E CHEIO DE HISTÓRIA


Rangel Alves da Costa*


Nem sempre os mais velhos recordam, e por isso mesmo os mais jovens não têm obrigação alguma de conhecer. Mas seria bom que a juventude do tempo presente conhecesse um pouco mais do passado do seu lugar, sua história, suas raízes culturais, o seu povo.
Talvez nem os Souza nem os Cardoso de hoje, que foram as primeiras famílias na povoação de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, ainda no arruado do Poço de Cima, conheçam a importância histórica de sua linhagem na formação do município.
Do mesmo modo os Saturnino, os Francelino, os Feitosa, os Marques, os Félix, os Santana, os Costa, os Rodrigues, os Sá, os Nascimento, e tantas outras designações familiares, nem sempre são conhecidas nas suas raízes pelos mais jovens. Possuem a linhagem no sobrenome, porém não conhecem as raízes familiares tanto do pai como da mãe.
Um Cardoso de hoje talvez não saiba quem foi Manoel Cardoso de Souza, aquele que ao se instalar com uma pequena fábrica de descaroçar algodão no Poço de Cima permitiu o surgimento de moradias ao redor e um acanhado povoamento.
Acanhado porque o Poço de Cima nunca passou de apenas algumas moradias no entorno das matas e pastagens de criação. Como em época de estiagem os moradores desciam com seus rebanhos para dar água no Riacho Jacaré, um pouco mais abaixo, algumas moradias foram surgindo às suas margens.
Assim, primeiro surgiu o Poço de Cima, e mais abaixo o Poço de Baixo. Porém não havia poço algum, nem na parte de cima nem na de baixo, que justificasse tal nome. O que existia era um poço grande, redondo, aberto nas areias do Jacaré, servindo para matar a sede do pequeno rebanho.
O tal poço grande e redondo continuamente servindo àqueles que desciam com rebanhos do Poço de Cima para o Poço de Baixo, ou mesmo nas propriedades já existentes ao redor, acabou dando outro nome ao lugar: Poço Redondo.
Quando os criadores passavam com seus rebanhos e eram perguntados aonde iam dar de beber aos animais, logo respondiam que iam ao poço redondo. Desse modo, do poço arredondado cavado no leito do Jacaré é que surgiu o nome da futura povoação.
E um Poço Redondo de muito mais história do que imagina o seu filho de hoje. Cravado nas terras mais áridas do sertão sergipano, se estende tão longamente que vai dar nos limites da Bahia, em Serra Negra, bem como na divisa alagoana de Pão de Açúcar e outros municípios.
Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, tinha predileção pelo lugar e o visitava constantemente. Amigo de Teotônio Alves China, o China do Poço, passava dos limites diante da buchada de bode preparada por Dona Marieta. Um dia encontrou o Padre Arthur Passos na casa do bom amigo e quase a cruz desafia a espada. Acabaram dividindo a mesa e depois a cangaceirada foi assistir missa na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição.
Não só Lampião gostava de Poço Redondo como a juventude de então parecia encantada com aqueles verdadeiros artistas das caatingas. E mais de duas dezenas de rapazes e mocinhas resolveram seguir os passos do Capitão. Adília, Sila, Cajazeira (Zé de Julião), sua esposa Enedina, Zabelê, dentre muitos outros. E foi ainda nas suas terras, na Gruta do Angico, que o bando foi chacinado a 28 de julho de 38.
Na sua caminhada missionária, um dia Antônio Conselheiro, acompanhado de um séquito de fanáticos, despontou nas veredas poço-redondenses e entre uma profecia e outra foi fincando os alicerces da igrejinha do Curralinho, bem no alto da povoação ribeirinha. E a igrejinha ainda está lá para contar sua história, ainda que ninguém queira ouvir. Uma pena que assim aconteça.
O sangue e o suor da escravidão ainda de triste memória nas terras do Bonsucesso, povoação ribeirinha do município. Ainda hoje se ouve, nos negrumes dolorosos das noites, a chibata lanhando o couro negro na juntada de pedra sobre pedra na construção da muralha ainda viva em resquícios ao fundo do casarão defronte ao rio.
Pela estrada do Curralinho João de Virgílio fazia seu percurso diário. Sempre descalço, com cigarro de palha no bico, todo santo dia, e sempre mais de uma vez, levava e trazia nas costas encomendas dos outros. Sacos, embrulhos e até caixão de defunto. Um dia foi encontrado sem vida no meio da estrada.
A cidade inteira se preparava para a festa de agosto, homenagem à padroeira. Seu João Fotógrafo armava seu tripé pelas calçadas para guardar sorrisos em preto e branco. Manezinho Tem-Tem aparecia com sua caixa de engraxate e deixava brilhando todo pé sertanejo. O parque era uma festa particular e após o entardecer, quando o alto falante ecoava O Milionário e a garotada corria a gastar sua moeda do dia.
Minha boca adoça ao recordar a cocada de Dona Quininha, Clotilde e Cecília de Duié. As duas especializadas no doce de coco, enquanto a última uma mão de fada na cocada de cabeça de frade. Já Dona Luizinha preparava pirulitos de mel e Baíta espalhava seu arroz doce pela cidade inteira. Reclamavam que era ralo, mas ninguém ficava em apenas um copo.
Assim Poço Redondo. Assim retalhos de sua história. E quem dera poder estender essa imensa colcha aos olhos da juventude. E dizer ainda que suas histórias também estão sendo costuradas. E não remendadas.


Poeta e cronista
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Destino (Poesia)


Destino


Sou um coração
que fugiu da solidão
sou um sentimento
que busca seu alento
sou uma manhã
que faz da luz seu afã
sou um desejo
que deseja em lampejo
sou o que ama
que o amor tanto chama
sou o aquele que vai
que o peito não esvai
aquilo que é fervor
aquilo que é amor
por isso sou aquele
aquele que ainda sou
o amor em eternidade
o eterno que é saudade.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 937


Rangel Alves da Costa*


“É uma casa sem porta...”.
“Uma porta sem chave...”.
“É uma cozinha sem mesa...”.
“Uma mesa sem pão...”.
“É uma feira sem carne...”.
“Apenas o sal no feijão...”.
“É uma fome sem água...”.
“Uma água sem copo...”.
“É uma manhã sem janela...”.
“Uma janela sem muro...”.
“Uma vida, uma vida...”.
“Tanto ter nada não...”.
“É um sonho sem sono...”.
“Um sono sem cama...”.
“Uma febre sem remédio...”.
“Um remédio sem mato...”.
“Uma morte certeira...”.
“É a dor e o grito...”.
“A angústia e a aflição...”.
“Triste sina de um povo...”.
“Que nasceu pra morrer...”.
“É a coragem sem trabalho...”.
“Um trabalho sem ganho...”.
“É uma esmola na mão...”.
“E outra esmola ao chão...”.
“É a roupa rasgada...”.
“É um corpo sem roupa...”.
“Um molambo de gente...”.
“Ou a gente em molambo...”.
“É o esgoto aos pés...”.
“A sarjeta no passo...”.
“Flor derramada em lágrimas...”.
“Num jardim esturricado...”.
“De primavera faminta...”.
“E um outono voraz...”.
“Para levar a vida...”.
“Para levar a vida...”.
“Ou a folha da vida...”.
“A folha morta da vida...”.
“Num sopro qualquer que chegar...”.
“Derrubando galho e osso...”.
“Dobrando tudo em dois...”.
“O que fica e o que vai...”.
“Na morte que deixa história...”.
“De um povo inexistente...”.
“Sem amanhã nem saudade...”.


Poeta e cronista
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