SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 3 de maio de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 962


Rangel Alves da Costa*


“Se preciso viver...”.
“Corto a serpente em pedaços...”.
“Se preciso viver...”.
“Venço a fogueira e o fogo...”.
“Se preciso viver...”.
“Desfaço o nó...”.
“Se preciso viver...”.
“Reinvento a invenção...”.
“Se preciso viver...”.
“Vou além das armadilhas...”.
“Se preciso viver...”.
“Não temo sangrar por espinho...”.
“Se preciso viver...”.
“Submeto a fera no labirinto...”.
“Se preciso viver...”.
“Luto e esbravejo...”.
“Se preciso viver...”.
“Sou herói e vitorioso...”.
“E é preciso viver...”.
“É preciso amar...”.
“E se preciso amar...”.
“Sou seresteiro e poeta...”.
“Se preciso amor...”.
“Sou jardineiro e flor...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou preciso e dádiva...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou perfume e brisa...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou sonho e esperança...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou dengo e cafuné...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou carícia e beijo...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou desejo e encontro...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou vontade e saudade...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou palavra e ação...”.
“Se preciso amar...”.
“Sou verbo e coração...”.
“Viver e amar...”.
“Eis a síntese da existência...”.
“Viver para amar...”.
“Amar o que seja vida...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 2 de maio de 2015

SOBRE ANJOS E MONSTROS


Rangel Alves da Costa*


Dentro da mesma pessoa habita uma selva de seres impensáveis e um céu de alados inimagináveis.
Dentro de um único ser se digladiam as forças do bem e do mal de forma incessante. E a pessoa nem sempre pode ou sabe dominar o combate interior.
A feição e o jeito de ser, tantas vezes alheios ao que se desenrola por dentro, não servem como qualquer reflexo da realidade interior.
O que se mostra na face pode estar internamente invertido, o que se propaga como realidade pode existir de outra forma nos meandros da alma.
Infelizmente o ser humano não pode fugir de sua realidade dualista. É o bem e o mal, o sim e o não, o positivo e o negativo, o riso e a dor, a alegria e o sofrimento.
A filosofia do ser humano é sempre maniqueísta. O sujeito se divide entre o desprezível e o angelical. Seu espírito pode ser sempre bom, sua matéria tende a ser negativa.
Como criação divina, o homem foi destinado ao bem, ao encontro da felicidade. Contudo, enquanto vivente da realidade, se transforma segundo as conveniências.
E as conveniências significam o grau de proteção pessoal que a pessoa sempre carrega consigo. Para se proteger não mede as armas nem as consequências das atitudes tomadas.
As conveniências humanas dificilmente ouvem a voz interior, tendente a ser boa e compassiva. O coração aconselha que não, mas o ser exterior insiste em contradizê-lo.
Tais aspectos podem ser visíveis em frases como use a razão e não a emoção, é preciso pensar duas vezes antes de agir, aja como pessoa e não de forma instintiva.
Não é fácil separar esse joio do trigo. Por mais que o ser humano queira mostrar seu pujante e florido trigal, não poderá negar a existência das ervas daninhas.
Uma situação difícil de resolver. Há de ter muito cuidado para não querer tirar o joio a todo custo e ter de destruir também o trigal. Há de reconhecer onde vinga e cresce o mal.
Tal situação afeta não só a própria pessoa como as demais. A pessoa se desestabiliza entre as forças guerreando em si e tende a provocar desgastes perante outros.
O próximo nada tem a ver com o estado de instabilidade do outro e acaba sendo vítima de seus erros, incertezas e inconsequências. E até com graves repercussões.
Algumas situações de vida servem como possíveis soluções para tão difícil problema da pessoa consigo mesma e que acaba se alastrando de forma medonha e voraz.
Assim como a pedra bruta é trabalhada, assim como uma montanha é transformada em planície, assim também o ser humano pode se transformar sem deixar de ser o que é.
Contudo, deverá haver o necessário reconhecimento da existência de monstros e anjos dentro de si, deve reconhecer que vive entremeada de flores e espinhos.
Como no mundo impiedoso ninguém pode ser totalmente bom nem nunca é totalmente mau, há de saber lidar com os anjos e monstros para não deixar que a parte boa não seja devorada pela parte má.
E mais. É muito mais fácil domar os instintos para torná-los bons a insistir em tornar o lado ainda puro em maldade. A bondade se oculta, mas continua existindo.
Os monstros são muitos dentro de um só ser humano. O egoísmo, a soberba, a arrogância, a violência, a falsidade, tudo isso vive entocado nos labirintos do ser.
Os anjos também são muitos e grandiosos. A compreensão, a bondade verdadeira, o senso de pacificação, a sensibilidade, a valorização de si mesmo e do próximo, tudo isso somado ao amor e à constante vontade de viver pelo e para o bem.
Mas nem os anjos nem os monstros são exteriormente visíveis na pessoa. Daí mais uma chance de não permitir que o mal vença as propensões bondosas do coração.
Infelizmente os anjos e os monstros continuarão povoando o mesmo ser. Cabe a cada um mostrar que os seus labirintos não assustam aos que comungam da bondade da alma.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Depois de tudo (Poesia)


Depois de tudo


Avisto o sol e depois a lua
amanheço e anoiteço
o que faço em meio a tudo
enquanto tudo acontece
pergunte ao meu suor
e ao meu corpo cansado

quando tenho tempo
procuro a alegria da vida
caminho entre catingueiras
caço araçá e umbu maduro
e faço da rede na varanda
um barco num mar sem fim.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 961


Rangel Alves da Costa*


“O homem é oposto de seu avesso...”.
“O homem é a inverdade da contradição...”.
“O homem é o refugo do resto...”.
“O homem é a bagaceira do resto do engenho...”.
“O homem é a hipocrisia acumulada em si mesma...”.
“O homem é a sombra da escuridão...”.
“O homem é a lagarta que não virou borboleta...”.
“O homem é a presa de si mesmo...”.
“O homem é a covardia redobrada...”.
“O homem é o mal estar da humanidade...”.
“O homem é a raiz que não vinga...”.
“O homem é o remorso do mundo...”.
“O homem é o traidor da espécie...”.
“O homem é o outono da existência...”.
“O homem é o lixo acumulado em esgoto...”.
“O homem é a ave agourenta de sua paz...”.
“O homem é o verme que vira epidemia...”.
“O homem é a mais negra escuridão...”.
“O homem é a indignidade em pessoa...”.
“O homem é a vileza sem piedade...”.
“O homem é o senhor da maldade...”.
“O homem foi o erro da Criação...”.
“O homem é o seu juízo final...”.
“O homem é sua sentença e pena...”.
“O homem é o fel do açúcar...”.
“O homem é a desesperança e a descrença...”.
“O homem é o espinho da estrada...”.
“O homem é o seu vulto escondido...”.
“O homem é a lágrima sem choro...”.
“O homem é o mal que se espera...”.
“O homem é a desvalia de tudo...”.
“O homem não é nem a si mesmo...”.
“O que é o homem senão a imprestabilidade?”.
“Mas algo deve haver no homem...”.
“Alguma positividade deve conter na sua ação...”.
“Até que poderia ser assim...”.
“Até que se poderia encontrar boas virtudes...”.
“Mas é como difícil de assim acontecer...”.
“Pois ele só é encontrado na sua outra feição...”.
“Na sua arrogância e desonestidade...”.
“Na sua impertinência e deslealdade...”.
“Na sua violência e brutalidade...”.
“Na sua desumana insensibilidade...”.
“Na sua ira cheia de fúria...”.
“Assim é o homem...”.
“Ou o pouco que dele conhecemos...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 1 de maio de 2015

NADA MAIS COMO ANTES


Rangel Alves da Costa*


Nada mais como antes. Hoje praticamente tudo se encontra pronto, embalado, armado, no ponto de uso. O mercadinho, a mercearia, a bodega e a farmácia substituíram a produção caseira e agrícola de subsistência. Muito difícil encontrar alguém que ainda mantenha horta, um cantinho com ervas medicinais para uso familiar, um pomar de árvores frutíferas. Até o carro de bois e o animal caíram em desuso como meio de transporte.
Também raridade que alguém costure as próprias roupas, se arrisque num tingimento, faça o seu xarope, levante o alicerce e parede da moradia, vá construir seu tijolo e telha na olaria, se esforce na mataria em busca de madeira para a porta e telhado. Não que seja cansativo cortar, serrar, nivelar, bater, pregar. Mas muito mais fácil pagar para ter tudo em mãos, ainda que com custo elevado demais.
Houve um tempo que somente produzindo para a subsistência era garantida a manutenção biológica da vida. A partir de instrumentos rudes, o homem primitivo foi construindo as utilidades de cada dia. Ainda hoje muita gente sobrevive do que planta e colhe e do que transforma da natureza. É certa a existência de muitas famílias que vivendo nos escondidos e distâncias do mundo jamais precisaram de qualquer objeto ou produto vindo de uma prateleira ou loja de centros urbanos. Tudo é feito, consumido e utilizado ali mesmo.
É a necessidade, a pobreza, a falta de jeito a dar, que impulsiona o ter de fazer. Igualmente a morada nas regiões de difícil acesso a tudo. Ou faz ou não tem, pois difícil comprar. Quem não pode ir até a farmácia tem de se contentar com o mastruço, a erva cidreira, o boldo, o sambacaitá, a hortelã. Do mesmo com relação aos objetos que guarnecem uma casa. Como móvel pronto é caro, o jeito mesmo é procurar tronco de pau, fazer tamborete, estender ripa e ter como mesa.
A pobreza e a necessidade acabam em invencionices, em busca de alternativas e na visão de utilidade sobre quase tudo. As soluções encontradas pelas pessoas necessitadas são verdadeiramente maravilhosas. Do insignificante surge algo essencial. Nada, seja da natureza ou por achado, foge ao seu poder de transformação e utilidade. O que hoje a burguesia enfeita suas mansões como rusticidade primeiro esteve presente nas moradias de porta e janela e parede de barro.
Num tempo mais antigo, o mobiliário de uma casa sertaneja fazia com que a família se sentisse acanhada com a chegada de qualquer visitante. A primeira coisa que dizia era que não se incomodasse com a velharia e penduricalhos ali presentes. Mas hoje é a burguesia que vai buscar nesse passado. O velho oratório veio de lá, o antigo ferro de passar também, e igualmente com as antigas cristaleiras trabalhadas por mãos rudes e calejadas de luta.
Os velhos santos e anjos talhados em madeira se tornaram preciosidades valiosas. Um oratório bem conservado, trabalhado em madeira de lei e envernizado pelo tempo, hoje tem um preço inestimável nos grandes centros. E as madames enviam emissários sertões adentro para pagar doistões pelas velharias ainda presentes nas casas humildes. E aproveitam para pagar uma ninharia por bordados maravilhosos, rendas ornadas nas almofadas de bilros e costuras fiadas com maestria artesanal.
Como afirmado, tamanha criatividade do povo emerge da necessidade de sobrevivência, pois o dinheiro faz o papel inverso. A riqueza comumente é preguiçosa, omissa, ociosa, demasiadamente indolente. O rico, por querer tudo facilmente em suas mãos, sequer quer saber de onde vem e como foi feito o que consome. Deita confortavelmente na rede de dormir e nem imagina como ela foi produzida ou se o seu valor foi justo em comparação ao seu conforto.
Do conceito de riqueza e de pobreza subtrai-se o que se denomina valorização daquilo que possui. Quanto mais difícil a sua obtenção mais o seu resultado é valorizado. Daí que a família empobrecida luta para conseguir os meios necessários à sobrevivência e orgulha-se por tudo que é conseguido. Regozija-se com o pouco de feijão de corda, com a melancia de ponta de ponta de rama, com a abóbora leiteira, com o ovo recolhido no quintal. E quando nada disso é conseguido, lança-se ao sacrifício de inventar a arte de viver.
De outros idos, tenho notícias e ainda recordo de como o meu conterrâneo de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo se esforçava produzindo a sobrevivência ou para suprir aquilo custoso ao povo pobre. Dona Alice produzia sabão num tacho enorme, levado ao fogão de lenha com banha, cinzas e outros produtos da terra. Dona Benvinda descia os barrancos ao fundo da casa e lá, no fundo barrento do tanque, fazia surgir potes, panelas, cuias, vasilhames de barro.
Dificilmente não havia um xarope de fundo de quintal em cada casa sertaneja. Colchão de capim recolhido nos pastos, camas e mesas da madeira ao redor, cabaças serradas ao meio para servir de prato, areia de riacho para arear panela. A necessidade fazia que fosse assim. Mas hoje nada mais como antes. Nem o canto melodioso das lavadeiras ecoa mais pelas pedras molhadas da vida.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

De sonhos e pássaros (Poesia)


De sonhos e pássaros


Quando eu era pequenino
criança de mundo e viagem
eu sonhava ser um passarinho
construir um ninho na nuvem
e levar para o alto minha amada
e quando a noite chegasse
depois de meu canto mais belo
subir e trazer um pedaço de lua
voar e trazer uma estrela inteira
para a felicidade de meu amor

mas eis que cresci e envelheci
e o pássaro agora entristecido
avista a lua para sentir saudade
enxerga estrelas para entristecer
e ter a certeza que minha amada
subiu na nuvem e o sonho levou.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 960


Rangel Alves da Costa*


“Saudade...”.
“O que é saudade?”.
“Saudade é um amor distante...”.
“Saudade é o desejo em voo...”.
“Saudade é a presença impossível...”.
“Saudade é ter sem presença...”.
“Saudade é espelho na memória...”.
“Saudade é a estrada mais curta...”.
“Saudade é o alcance com o coração...”.
“Saudade é a necessidade de ter...”.
“Saudade é a confirmação do querer...”.
“Saudade é o abraço no escuro...”.
“Saudade é uma porta que se abre...”.
“Saudade é o que sinto...”.
“Saudade é o que mais ser feliz...”.
“E ao mesmo tempo sofrer...”.
“Como dói desejar e não ter...”.
“Como dói querer na distância...”.
“Como dói imaginar realidades...”.
“Como dói o contentamento da ausência...”.
“Como dói essa lágrima solitária...”.
“Tão molhada de tristeza e de saudade...”.
“Pensei que a saudade era ventania...”.
“Chegando forte e seguindo adiante...”.
“Pensei que saudade pudesse ser suportada...”.
“Com outro pensamento...”.
“Pensei que a saudade...”.
“Fosse a medida do merecer...”.
“Pensei que a saudade...”.
“Fosse sentimento apenas passageiro...”.
“Pensei que saudade...”.
“Envelhecesse e sumisse na saudade...”.
“Pensei que a saudade...”.
“Fosse alento ao que virá redobrado...”.
“Pensei que a saudade...”.
“Pudesse ser colocada em varal para secar...”.
“Mas como pensei errado...”.
“Como me descuidei da saudade...”.
“E não quis acreditar...”.
“Que a saudade nos deixa pela metade...”.
“Que a saudade leva um pouco de nós...”.
“Todas as vezes que bate asas...”.
“E segue na direção...”.
“Buscando encontrar...”.
“Aquilo nos afaste do tormento...”.
“De ter tanta saudade...”.


Poeta e cronista
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