SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Palavra Solta: apenas pombos


Rangel Alves da Costa*


Os pombos talvez sejam as mais injustiçadas das aves. A culpa é do homem, mais uma vez. Eis que os coloca como simbolizando a paz, o amor, a cristandade e, por outro lado, lança sobre si toda uma diversidade de malefícios. Quer dizer, o mesmo pombo que está na bandeira da paz é aquele ser perigoso e cheio de bactérias; o mesmo pombo que simboliza a alvura do matrimônio perfeito é aquele expulso de casa a pauladas, varrido de seu ninho a pedradas; o mesmo pombo que simboliza o amor também é avistado como ave que traz no seu corpo, na sua penugem e no seu bico todos os males do mundo. Uma desmedida incongruência. E não somente isso, pois os pombos também remetem à poesia, ao encanto dos jardins, a paz do entardecer. As fotografias mostram os pombos como referências poéticas, de sossego, de ternura. Mas por que o homem tanto insiste em qualificá-lo como a mais doentia das aves, como aquele ser que já chega trazendo doença. Talvez seja mesmo pela simbologia que representa e pelo descompromisso que o homem tem com os símbolos. Ora, ergue a bandeira da paz, coloca dois pombinhos acima do bolo de casamento, mas depois somente a guerra. Tanto na trincheira como no matrimônio.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 2 de agosto de 2015

SOBRE A INACEITABILIDADE DA MORTE


Rangel Alves da Costa*


São muitas as frases no sentido de afirmar ser a morte a única certeza da vida e do ser humano. Com efeito, tem-se a morte como implacável destino humano. A tudo o homem pode vencer, seja doença, sofrimento ou os inesperados da existência, mas não encontra saída senão se convencer que a morte não lhe resguarda outra coisa que não o seu chamado. Daí que os pensadores ora concebem a morte ora como inevitabilidade ora como algo sempre indesejado tanto para si como para o outro.
Dizem os autores: “Tudo o que sei é que devo morrer em breve; mas o que mais ignoro é essa mesma morte, que não saberei evitar” (Blaise Pascal). “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre” (Ariano Suassuna).
Também são muitas as frases acerca da dor e da inaceitabilidade da morte. “Todas as decepções são secundárias. O único mal irreparável é o desaparecimento físico de alguém a quem amamos” (Romain Rolland). “De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres” (Vergílio Ferreira).
Na verdade, ninguém aceita a morte. O fato de dizer que sendo destino a morte lhe cairia normal, não significa que não aja espanto quando tal fato acontece com uma pessoa amada. Mesmo que seja vista como sina inevitável, há uma luta constante para que o seu relógio se desnorteie no tempo e o calendário deixe de passar.
A morte é simplesmente dor, agonia, sofrimento, angústia, espanto maior. Em muitas situações, quando a enfermidade é incurável e a família e amigos – e mesmo a pessoa – já tenham a certeza que não demorará o instante da despedida, ainda assim a partida será permeada de sofrimento. Sabe-se que ela é inevitável, que ela não passará nem um dia a mais para acontecer, mas a sua simples ocorrência motiva dores indescritíveis em quem se despede.
Diferentemente da perda de importância que os fatos vão tendo quando se tornam costumeiros ou são esperados para acontecer, com a morte ocorre exatamente o contrário. Quanto mais sua ocorrência mais dor, quanto mais seu surgimento mais sofrimento, quanto mais faz inesperada visita mais abre um fosso na alma. Tanto assim que as pessoas costumam sofrer quando da partida de desconhecidos, de pessoas que sequer já haviam sido avistadas. E tal acontece pelo despertar pesaroso que provoca nos sentimentos.
Talvez não seja a morte em si, mas a sua sensação que provoca tanto temor e pavor. Sendo um fato de vida, algo que chegará para todos, certamente deveria ser mais compreendida e acolhida. A morte é aceita, pois inevitável, mas o que atormenta é o fato de morrer, a sensação de perda, a forçada despedida, a ausência que o outro terá na sua vida. Desse modo, não é o fechar os olhos que provoca a dor e o sofrimento, mas a certeza de que aqueles olhos jamais serão avistados, sentidos, compartilhados no olhar.
Tanto assim que a morte é fato que acaba em si mesma. Ou seja, uma vez acontecida, não há o que se fazer. Contudo, são as consequências do fato que acabam dilacerando corações, fragilizando almas, deteriorando todo o ser vivente. Porque com a morte vem a dor da saudade, vem a recordação sempre entristecida, vem a agonia da relembrança, vem o inevitável desejo de ter aquele novamente ao seu lado.
Portanto, os cemitérios são lugares entristecidos não porque ali estejam em sono eterno os entes queridos, mas pelo que é despertado na mente, na alma, nos sentimentos. O choro, a lágrima, a aflição, não é pelo fato da morte. Mas tão somente pela ausência. Ou pela certeza de que jamais será abraçado e chamado de pai, mãe, filho, irmão, amigo. E também pelo retrato que se eterniza na parede do coração.


Poeta e cronista
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Poço Redondo, canção de amor


Poço Redondo, canção de amor

Dizem que o filho
sobrevive do primeiro afeto

e há afeto e ternura
cativando todo Poço Redondo
há um visgo na terra
e no chão de Poço Redondo
há mistério e magia
envolvendo todo Poço Redondo
há uma canção de amor
ecoando em Poço Redondo
há um abraço de mãe
nos braços de Poço Redondo

por isso dizem que o filho
faz do afeto materno
sua razão de ser e viver
e orgulho ter de Poço Redondo.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: o silêncio dói


Rangel Alves da Costa*


O silêncio é bom, é amigo, é reflexivo, é voz e paz, mas dói. E como dói o silêncio. E o silêncio dói porque é nos seus instantes que mais a mente quer dialogar, o pensamento falar, a boca expressar. E assim porque o silêncio chama a reflexão, indaga, duvida, fica remoendo, instigando, abrindo portais e fronteiras. Na palavra é diferente, pois o sujeito pode botar pra fora num instante tudo o que desejar. Acaso lhe chegue alguma raiva, alguma angústia ou alguma situação inesperada, logo abre a boca, grita, vocifera, e tudo aparentemente se acalma. Mas é bem diferente quando o indivíduo mantém o silêncio perante as situações surgidas. Sem nada expressar, sem nada falar ou gritar, vai suportando por dentro tudo o que surgir. Pensa no amor distante, pensa em chamar pelo nome, pensa no que passou, no que viveu, no que sofreu, no que sorriu. Mas tudo fechado em si como um liquidificador que apenas vai macerando tudo. E tudo gira, e tudo retorna, e tudo corrói, e tudo dói. Contudo, o erro maior é quebrar tal magia. O erro maior é querer transformar em palavras e gritos o que internamente vivencia. E é muito difícil que os sentimentos possam ser expressados com a mesma fidelidade que são intimamente vivenciados.


Poeta e cronista
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sábado, 1 de agosto de 2015

BICHO-MONSTRO EXISTE (DE VERDADE)


Rangel Alves da Costa*


Por mais que os cientistas tudo façam para negar a existência dos bichos-monstros, não há como negar que realmente existem. Não é uma cienciazinha qualquer que vá dizer o que existe ou que não existe quando tanta gente já fez a devida comprovação. E todos comprovam que bichos-monstros existem de verdade.
Mas não me refiro, contudo, aqueles monstros que são eternamente caçados nos canais televisivos. Alguns canais pagos não fazem outra coisa a não ser mostrar caçadores que monstros que nunca encontram nada. Há o Monsterquest, Caçadores de Monstros, A Montanha dos Monstros e uma leva sem fim de programas onde os protagonistas principais jamais aparecem.
O Pezão, coitado, acaso existente, já teria sido alcançado e filmado uma centena de milhares de vezes, pois não faltam caçadores à sua espreita. Bem assim com outras espécies de monstros que só existem na imaginação televisiva. Comparáveis a tais aberrações somente os extraterrestres. Estes são discutidos e debatidos o dia inteiro, porém jamais algum ufólogo apareceu entrevistando um ou mesmo mostrando uma fotografia plausível de suas presenças. Apenas insinuações.
Mas no mundo real os bichos-monstros existem. E de verdade. O Velho Olegário, que jamais admitiu ser chamado de mentiroso, dizia pra todo mundo ouvir que já tinha encontrado nada menos que três bichos-monstros, e todos em noite de céu sem lua, enquanto caminhava na direção da casa de uma rapariga.
Nunca vi coisa mais feia e mais assustadora, dizia o velho. E prosseguia: Era noite de breu, numa estrada fechada de labirinto, mas ainda assim seus olhos alumiavam tanto que dava pra ver o bicho de corpo inteiro. O primeiro era dá altura de dois homens, com olhos de tição e língua de tamanduá. O segundo tinha três cabeças ou mais e mais de seis pés, certamente, por isso mesmo ficava pulando de canto a outro. E quando avançava querendo me atacar, logo dois pés recuavam e era minha salvação. Já o terceiro, permanecendo escondido no meio da moita, só deixava mesmo à mostra dois olhos de lua afogueada. Mas o bicho tinha um bafo tão grande, era tão fedorento, que duvido que ele mesmo suportasse estar de nariz aberto.
Como eu escapei de tais monstros? Indagou o velho, para em seguida responder: Não foi preciso nenhuma arma nem nada de bala ou corte que pudesse amedrontar aquelas feiuras, mas apenas aquilo que não sai do meu pescoço de jeito nenhum. Se vou ou se volto, onde estou ou penso ir, nunca me desaparto de uma medalhinha milagrosa que guardo comigo. Tenho ela desde que fui em romaria pro Juazeiro do meu Padim Pade Ciço Romão Batista. Quando eu sentia que o bicho ia atacar, então eu puxava a medalhinha e dizia: Padim Ciço tá aqui, Padim Ciço tá aqui, Padim Ciço tá aqui. E os bichos então recuavam amedrontados, como se soubessem do que Padim Ciço é capaz fazer a quem ameaça um afilhado seu.
Já Getulino dizia que todo mundo conhecia a história do vigário safado que virou bicho-monstro depois que bateu as botas, que foi pro beleléu. Vigário safado, namorador, de encontros furtivos com mulher casada na sacristia, morreu deixando uma ninhada de filhos. E na semana santa voltava de estava para amedrontar as mocinhas novas que pudesse encontrar em lugares mais escurecidos. Dizem que aparece arrastando uma corrente mais grossa que de navio, com duas cabeças, sendo uma que chora em penitência e outra que sorri sem parar, além de engolir a todo o momento uma esfera de fogo que tem aparência de hóstia. E só desaparece quando a mocinha diz que vai lhe jogar água benta.
Certamente que a história de Getulino está mais para fantasma do outro mundo do que para bicho-monstro, pois este sempre se apresenta como realmente existente, de carne, osso e feiura. Eu mesmo de vez em quando encontro com algum. Juro como é verdade. O primeiro só desaparece em correria depois que saio da fila do banco sem um tostão. E o segundo é sempre trazido pelo carteiro ou deixado na área da frente com a aparência de boleto, de fatura, de cobrança.


Poeta e cronista
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Espero-te (Poesia)


Espero-te


Espero-te tão singelo
assim como um natal
mas se vejo teu corpo
só penso em carnaval

espero-te em silêncio
e tudo tão normal
mas sinto teu perfume
e tudo um vendaval

espero-te ensolarado
e me sinto em temporal
se não chegas trazendo
teu doce amor divinal.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: o homem eterno


Rangel Alves da Costa*


O homem pode, sim, permanecer na memória da eternidade. Mesmo que transcorra seu percurso de vida, ainda assim poderá jamais ser esquecido. Não se trata aqui da profunda saudade, da relembrança que parece se eternizar, mas de permanência mesmo, e como sequer já tivesse se despido do mundo terreno. Também não se trata de um contexto espiritual, onde se propõe a imortalidade da alma. Mas apenas e simplesmente dos feitos do homem enquanto ser vivente. São os seus feitos que garantirão sua eternidade. Por que Madre Teresa, Irmã Dulce, Gandhi, Buda e tantos outros seres iluminados jamais morrerão? São eternos pelo simples fato de que lançaram sobre a terra as sementes imorredouras. Seus feitos que jamais serão esquecidos e jamais relegados pelo tempo. Igualmente pode acontecer com o mais comum dos homens. Suas virtudes terrenas já permitirão uma duradoura presença, mas seus atos e atitudes poderão lançá-los à eternidade. Tudo começa por fazer o bem, por semear virtudes positivas, por realizar duradouras ações. Saem um pouco de si e se devotam às causas nobres, algo assim como fazer com que o mais necessitado se sinta confortado e acolhido. De sua obra brotará a eternidade, e jamais se findará completamente pela memória e pela boa ação que semeou e deixou frutificando.


Poeta e cronista
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