SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Lá no meu sertão...


Nos caminhos de Poço Redondo, no sertão sergipano. Neste último domingo saí dos arredores da cidade e fui mais além. Visitei as Areias e o Alto Bonito. Abaixo uma imagem da povoação Areias, um lugar de gente encantadora sem igual.




A montanha e o poeta (Poesia)


A montanha e o poeta


No lugar mais alto da montanha
quando senti a presença de Deus
estendi os meus braços à ventania
e senti que restos e folhas mortas
foram levados ao desvão dos espaços

ainda lá no alto da montanha
quando a lua molhou de luz meu olhar
ao invés de chorar eu me fiz poeta
e ali mesmo escrevi o mais belo Salmo
“Sou esta montanha entre os homens...”.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a boa solidão


*Rangel Alves da Costa


Há na solidão o verdadeiro encontro do ser consigo mesmo. Há na solidão a paz do silêncio, o instante do encontro, o espelho revelado no pensamento. Há na solidão aquele momento tão procurado e jamais encontrado perante o convívio com os humanos. Há na solidão a voz interior, a palavra e a resposta, o espanto e o reconhecimento. Há na solidão o verdadeiro despertar para os esquecidos, para a rememoração, a relembrança e as nostalgias. Há na solidão um chamado à vida, pois nela a releitura das páginas escritas e a possibilidade de aprendizado das lições, dos erros e dos acertos. Há na solidão o olhar que encontra o que quer avistar, o passo que caminha por onde deseja caminhar, a lágrima que cai sem motivo algum, ou mesmo o sorriso que ressurge sem qualquer percepção. Há na solidão o afastamento do indesejado, o distanciamento dos espinhos propositados, a ausência de um mundo que não se deseja ter. Há na solidão algo assim como um renascimento, um novamente nascer para o instante seguinte e para a vida inteira, pois dela ninguém sai sem haver refletido e meditado sobre si próprio e o sentido da vida. É, pois, uma solidão boa. E tão boa que é difícil de ser encontrada e vivenciada no lugar certo e na hora certa.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 1 de junho de 2016

GAVIÕES, CARCARÁS E URUBUS: UM SERTÃO COM CHEIRO DE CARNIÇA E MORTE


*Rangel Alves da Costa


Por suas próprias peculiaridades, o sertão é terra de bicho agourento e ave carnicenta. Bicho que vive na expectativa de lançar as garras naqueles desvalidos pelas circunstâncias ou na sutil espreita de outro bicho caído de fome e fraqueza para sangrar e acabar de matar. Para sobreviver, uns se alimentam de outros, ainda que os restos já tenham se transformado em putrefação e carniça.
Bezerro novo, distante da mãe, quanto mais mirradinho, fraco e desajeitado, logo se torna presa fácil às avoantes carnicentos que rondam pelos arredores. Vaca magricela, sem força sequer para catar a sequidão do capim, afastada do rebanho, torna-se como em prato desejado por muitos. Bem assim com o cavalo, jumento ou jegue, que ferido e abandonado não manhã seguinte se avistado pelos farejadores de carne viva.
Uma cena triste, lamentável, mas ocorrido sertões adentro. A vaca se afastou para catar comida e deixou seu bezerrinho no sombreado de um umbuzeiro. Foi se distanciando cada vez mais sem se dar conta do perigo que a sua pequena cria corria. Eis que um carcará faminto, de bem do alto, lançou seu olhar e avistou o que tanto desejava. E foi se achegando lentamente, observando se havia a presença de outros animais, para em seguida dar o bote certeiro sobre os olhos do bezerrinho. Sangrou, cegou, depois começou a perfurar o seu corpo com seu pico afiado e pontudo. Logo os urubus sentiram o cheiro de sangue e cuidaram de aproveitar o banquete.
Na distância onde estava, mesmo percebendo a estranheza de tantos urubus rondando em profusão, a vaca sequer imaginava o que estava ocorrendo com sua cria. Somente ao retornar é que se deparou com a lamentável cena. Avistou somente a carcaça do bezerrinho. Apenas ossos sujos de sangue. Berrou, mugiu, gritou sua dor, chorou todo o seu pranto. Desesperada, aproximou-se mais e começou a lamber aqueles restos, que eram restos de si própria, pois ali também suas entranhas. E depois. Como que entorpecida, deitou ao lado e aí permaneceu. E ficou para nunca mais levantar. Decidida a não se afastar daqueles ossos miúdos, foi fraquejando até não ter mais força para retomar seu destino.
Mas nunca esteve sozinha, em nenhum momento. Desde o seu retorno que olhos ávidos, vorazes, sedentos de carne e sangue, se mantinham como que entrincheirados acompanhando o instante certo para atacar. Olhos carnicentos, bicos feitos punhais para sangrar, garras afiadas para estraçalhar a vida. Urubus, carcarás, gaviões e outros bichos, fazem assim. Como cobra ruim que se abriga à beira da estrada, por semanas ou meses à espera do calcanhar certo para atacar, do mesmo modo agem os cruéis assassinos do sertão. Numa ato de terrível crueldade, nem esperaram a vaca dar seu último suspiro. Aproveitaram-se da fragilidade e perpetraram a ação de sempre: atacar pelos olhos, cegar, e depois dar conta do resto. Até deixar somente a carcaça.
As épocas das secas grandes, das estiagens prolongadas, quando os bichos emagrecem, afinam e, sem forças, vai caindo de passo a passo, então tudo se torna uma festança para os carnicentos. Fragilizadas demais, as crias não possuem qualquer força para se defender. Torna-se perigoso andar pelos pastos ou mesmo descansar em qualquer lugar e muito mais quando há um tombo e essa queda se torna em agrura. Muitas vezes não há nem tempo de esforçar para levantar ou ser socorridas, vez que as garras e os bicos de repente já estão por cima sem dar a menor chance de salvação. O fim é inevitável.
Por isso que ao lado do sofrimento pela seca, da angústia sem fim em ter o bicho faminto e sedento sem nada poder fazer, o sertanejo ainda tem de espantar o agouro que ronda o seu curral. Acaso coruja comece a piar noite adentro, coisa boa não acontecerá. É sinal de que a carniça logo vai se espalhar pela terra esturricada. O pior é que não há nada a fazer. Não pode fazer vigília noite e dia para que os carnicentos não ataquem. E sabe que ele mesmo corre perigo. Só tem o couro e o osso. E sabe que gavião e carcará maltratam até a vida humana.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Agora chove, ara-se o chão molhado, cultiva-se com devoção. Mas tão contrastante é o sertão, que a carcaça ainda jaz sobre a terra como o mais triste grão. E digo ao mundo: a miséria sertaneja possui a mesma feição!




A vida inteira (Poesia)


A vida inteira


Meu nome?
não sei
João
José
tanto faz

o que sou?
não sei
vaqueiro
pescador
tanto faz

minha idade?
não sei
trinta anos
cinquenta
tanto faz

o que quero?
isso eu sei
viver
lutar
e só.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - somos falsos demais


*Rangel Alves da Costa


Somos falsos demais. E muito mais perante nossas veladas ações do que exteriormente. E mais ainda pelos que pensamos ante o que expressamos. E também frios, calculistas, inimigos ocultos, perversos, o outro que assusta até a nós mesmos. E também sujos, pecadores, obscenos, imorais, licenciosos. E ainda covardes, medrosos, fracos. Tudo isso nós somos. E não adianta pretender se santificar ou fingir virtudes inexistentes. Ora, nunca somos realistas, nunca comungamos com verdades únicas, nunca somos irretocáveis e incontestes. Somos inimigos de nós mesmos, fazendo o contrário daquilo que o bom senso pede, negamos nossos valores pela vontade deliberada do erro. O pior é que poucos sabem que agimos assim. Comumente, apenas sabemos que nos alimentamos do erro. E não mudamos. E não mudamos porque fingimos correção, atitudes válidas, valores positivos. Nossas mentes execram, enlameiam, sujam. Nossos pensamentos ferem, matam, executam, enterram. Nossas línguas se coçam para serem elas mesmas, sem fingimento, mas nossas falsidades impedem que sejamos verdadeiros. Acaso nossas aparências fossem transformadas naquilo que se mantém oculto, escondido em nós, então todos saberiam que o outro lado é toda a negação da existência, da vida, do próprio ser. Eis que nada somos mais que uma mentira revestida de aparentes bondades. Não passamos, enfim, de um invólucro chamado corpo numa aversão chamada ser.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com