Curralinho,
povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano. Um convite
maravilhoso às águas do Velho Chico, que margeia a comunidade e vai seguindo
adiante.
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Um poema de amor (Poesia)
Um poema de amor
Um poema de amor
não caminha nem
descansa
é chama eterna em
seu fulgor
um poema de amor
não come nem
sente sede
é seiva eterna
com seu frescor
uma poema de amor
não beija nem
quer abraçar
é o ser que ao
outro se entregou
um poema de amor
não será meu nem
será teu
será do que a
vida assim somou.
Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta – depois de duas cachaças
*Rangel Alves da Costa
Depois de duas cachaças o homem é outro homem.
Até duas já se faz mais alegre, mais animado, mais amigueiro, encorajado e
desembaraçado. Mas depois de duas, o homem já transformado então começa a se
transmudar ainda mais. Alardeia uma riqueza que ninguém sabe onde existente,
ganha tamanha importância social e política que ninguém sequer imagina
possível, fanfarreia tão desmedida valentia que ninguém sabe de onde veio tanto
encorajamento, ostenta tanta vantagem que ninguém mais sequer chega a seus pés.
E fala de modo tão contundente que quem não o conheça passa mesmo a acreditar
estar diante do rei das proezas. Depois que duas cachaças e as outras mais vão
escorrendo pelas beiradas, e dose após dose o tacho vai se enchendo, então o
valentão e o melhor de dono passa a perder as estribeiras, e não é mais nem
mais arrojado nem maioral, mas apenas o embriagado a dizer besteiras, coisas
sem nexo, num palavreado insuportável. E quer abraçar todo mundo, cantar e
aboiar, lamentar e chorar, ser agora aquele de cai e não cai ao pé do balcão.
Até que, tropeçando, vai rumando porta afora sem saber nem onde pisa nem aonde
vai. Mas sempre encontra algum lugar. Ou a porta de casa, sem saber como
chegou, ou mesmo a calçada, sem saber como levantar.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
terça-feira, 1 de novembro de 2016
LIVRO DE ESTRIPULIAS
*Rangel Alves da
Costa
Pra quem
não sabe o que seja, vou logo dizendo o que é estripulia. Nada mais que
travessura, desordem, traquinagem, peraltice. Daí que o presente escrito também
poderia se chamar de livro das peraltices ou das traquinagens. Ou ainda: as
travessuras atravessadas num mundo pelo avesso.
E livro
porque relatos contidos nas páginas do dia a dia, nos cotidianos e aventuras de
crianças e adultos. Não há uma só pessoa que algum dia não tenha praticado uma
estripulia, feito uma traquinagem, enveredado em travessuras. Mais presentes
nas fases das criancices e adolescências, mas também constantes até em pessoas
já envelhecidas.
Cheio de
estripulia assim como um primo meu. Caçador de passarinhos, eis que recebeu uma
encomenda de um azulão bonito, cantador, com penas bem azuladas, e para ser
entregue dentro de uma semana. Dizendo que seria fácil demais, combinou o dia e
hora da entrega. Só que a coisa não foi ficando fácil como lhe parecia.
Já próximo
a chegar o dia do repasse do azulão bem azulado e cantador, e nada de encontrar
o passarinho na medida. Sequer um azulão desazulado conseguia encontrar. Virava
de canto a outro com arapuca na mão e nada de tocaiagem. Quase não dormiu na
noite anterior ao compromisso. Revirou e desvirou, até que se viu com uma
solução na cabeça. Ao levantar cedinho, logo começou a colocar o plano em ação.
Conseguiu
tudo fazer conforme o planejado, e de repente já estava com o azulão bem
azulado na gaiola. Ao meio-dia fez a entrega e recebeu o dinheiro. Mas como ele
conseguiu? Agora conto. Sem ter conseguido o pássaro original, catou um pardal
e tacou-lhe tinta azul de caneta. O bichinho ficou num azulado tão grande que
chegava a brilhar, e sem que a tinta se desprendesse das penas. Mas uma semana
depois foi desagradavelmente surpreendido.
Com
efeito, o comprador tapeado bateu à sua porta com um pássaro à mão e
perguntando o porquê de o azulão bem azulado ter se transformado em pardal
pardacento. Assustado com a descoberta e principalmente com a batida do
enganado à sua porta, o espertalhão só encontrou essa para se sair: Mas você
está é brincando comigo. Leva um azulão azulado e me chega reclamando com outro
passarinho na mão. E você sabe que passarinho é esse aí? Um curió, dos bons.
Ao ouvir a
palavra curió, um pássaro famoso e desejado pelo canto maravilhoso que possui
e, por isso mesmo, sempre muito caro, o enganado se enganou ainda mais. E logo
se imaginou com uma verdadeira fortuna. Então não quis nem mais falar no azulão
desazulado, arrumando desculpa para ir embora, de modo que o espertalhão não
desejasse o passarinho de volta. E saiu numa correria só. Olhava para o
bichinho e pedia que cantasse. Mas pardal não canta.
Outro
cabra cheio de estripulia foi o coiteiro Torquato. Toda vez que a volante
chegava à sua procura pra forçá-lo a dizer onde estava escondido o bando de
Lampião, era melhor nem ter ido. A força policial sempre saía no prejuízo,
senão corrida com rabo entre as pernas, como se dizia por lá. Certa feita, o
coiteiro estava sentado na malhada quando mais de vinte policiais surgiram
repentinamente de dentro da mata. Estava pinicando fumo para um cigarro de
palha e assim continuou, sem ao menos se incomodar com a presença de tantas
armas em sua direção.
Assim que
o chefe da guarnição fez menção em falar, o coiteiro rapidamente levou o dedo à
boca, como se pedisse silêncio, e com um dedo da outra mão apontando numa
direção. Então, ciente de sinal, a volante saiu em disparada para o local
indicado, entrando na caatinga e sumindo. Logicamente sem saber que havia sido
enganada. E como enganada foi quando o coiteiro espalhou na região que o bando
de Lampião ao invés de se esconder agora estava caçando a volante, com a
cangaceirada doida pra comer no dente cada samango que encontrasse. E mais de
cem homens caçando a polícia por todo lugar. Ao saber dessa história, e sabendo
que os seus vinte e poucos homens não dariam cobro à cangaceirada, o comandante
abriu a porteira e deu o salve-se quem puder. E foi uma correria de soldado que
chega a poeira subia.
Menino dá
nó em cadarço de sapato de quem adormece pelas calçadas e depois, de longe,
joga pedra para acordar, todo mundo sabe disso. Quando acorda assustado e logo
vai levantar para saber do acontecido, o cabra tropeça nas próprias pernas e se
estrebucha no chão. E lá longe o menino se acaba de tanto rir. Mas depois
silencia e vai em busca do quintal mais próximo. Depois de pular a cerca, cuidadosamente
começa a subir em goiabeira, em mamoeiro, em jabuticabeira. Certa feita,
estando lá em cima, de repente avistou embaixo a dona do quintal já de vassoura
à mão. Bastava descer e tomar umas vassouradas. Então escolheu o mamão mais
maduro e arremessou lá de cima.
Depois
desceu e saiu avoando. Enquanto pulava de canto a outro, a velha senhora
tentava se limpar da papa de mamão por cima de tudo.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Lá no meu sertão...
Hoje, 1º
de novembro de 2016, missa em memória de Alcino Alves Costa. Quatro anos de ausência
terrena. A partir das 5:00h da tarde, defronte o Memorial Alcino Alves Costa,
em Poço Redondo, no sertão sergipano.
Um tantim, um tiquim (Poesia)
Um tantim, um tiquim
Viver é assim
um quase nada
já dizia meu avô
tirando do
alforje
sua lição matuta
também um tantim
apenas um tiquim
de quase tudo
e de quase nada
querendo demais
um tantim de sede
pra um tantim d’água
pois se derramar
a fartura faz
secar
todo tudo da
vida.
Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta – gato gemendo no meio da noite
*Rangel Alves da Costa
Nada mais medonho que no meio da noite,
avançando pela madrugada, e até o alvorecer, ouvir gato gemendo no telhado. Há
miado que até soa como intragável canção, mas o gemido é mesmo insuportável. Um
lamento funesto, pesaroso, que se prolonga compassadamente e que mais parece um
velório no telhado. E tão alto, mas tão alto, que mais parece no telhado acima
do quarto, bem ao lado, e a pessoa tendo de suportar o lamento angustiante e
mesmo amedrontador. Muita gente tem medo mesmo, não consegue dormir de jeito
nenhum. Vira-se e revira-se na cama, tenta tapar os ouvidos, se enche de panos
dos pés à cabeça, mas não há jeito, pois o gemido vai ecoando cada vez mais
alto. Mas o que provoca uma ação tão sinistra assim da gataria, e logo se
prolongando em momentos de repouso silencioso? Dizem que os gatos em
sofrimentos, em prantos saudosos, em relembranças angustiantes. Dizem que os
gatos velando ausências incompreensíveis aos seres humanos. Mas o pior: dizem
que os gatos em terríveis presságios. Creio apenas num não ter o que fazer da
gataria. Numa hora boa para o amor, para o acasalamento noturno e sobre a
claridade da lua, mas preferindo gemer como se chorando estivesse. E não
adianta procurar para fazê-lo parar, pois nunca é avistado. Apenas o seu
gemido. Terrível, angustiante, doloroso demais de ser ouvido por cima dos
telhados molhados de lua e estrelas.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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