SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lá no meu sertão...


Rangel e Mestre Tonho



Em noite de chuva um céu estrelado (Poesia)


Em noite de chuva um céu estrelado

A chuva vai caindo lentamente
e no meu olho chuvoso e molhado
em meio à noite de escuridão reluzente
um céu tristonho que desponta estrelado

quanto mais lágrima mais estrelas no céu
um brilho triste pela solidão avistado
em desolado corpo que se estende ao léu
avistando estrelas no pranto derramado.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - pedras que jogam em mim


*Rangel Alves da Costa


Certamente que não tendo coisa mais interessante a fazer, algumas pessoas agora se comprazem em dizer que me rebaixo ao prefeito, que bajulo o prefeito, que procuro agradá-lo por interesse. E tudo pelo fato de que aqui mesmo escrevo para reconhecer aspectos positivos de sua gestão e para agradecer as suas iniciativas em torno de nossa história, de nossa cultura, de nossas tradições. E se houvesse de bajular, de pedir e até de implorar o faria sim, mas no que dissesse respeito a Poço Redondo. Por Poço Redondo eu faço tudo, eu peço, eu imploro, eu rogo, me lanço de prece à mão. Não vejo nenhum demérito em querer o melhor para sua terra e ir bater à porta de quem pode fazer. Ora, não vou pedir a uma pessoa qualquer que não possa, por exemplo, construir um Centro de Produção e Comercialização Artesanal. Tenho que pedir ao prefeito, tenho de a ele me dirigir e, do mesmo modo, reconhecer suas ações naquilo que de melhor desejo para o meu berço de nascimento. Que eu saiba, até o presente momento me tenho na posição de advogado, de jornalista, de escritor, de historiador, de acadêmico das letras. Não sou rico, mas consigo sobreviver sem viver esmolando a ninguém. Diante disso, a única pessoa que eu seria capaz de me humilhar e de me submeter já está adorada demais por ele mesmo: Rangel.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 1 de outubro de 2017

HONRAS E VINDITAS DE SANGUE: O ACABA-MUNDO SERTÕES ADENTRO


*Rangel Alves da Costa


Muito mais que as conveniências de agora, o conceito de honra já foi resguardado ao pé da letra. Como se tirasse dos dicionários a própria personalidade, em muitas situações não se permitia qualquer afronta ou mácula ao conceito impingido na reputação.
Com efeito, consta dos livros ser a honra uma das virtudes da personalidade humana. E os dicionários dizem ser aspecto comportamental que age valorizando a honestidade, a dignidade, a integridade moral e a valentia, dentre outras características. Relaciona-se principalmente à preservação do nome e ao reconhecimento do caráter.
Noutros idos, tal a importância da honra que a sua mínima mácula já resultava em confronto direto para reparação da desonra cometida. Nada mais aviltante que ser desonrado, ter seu nome enlameado, por outra pessoa. Daí que muitas máculas não só abriram chagas no caráter de muitos como a sua reparação gerou verdadeiras vinditas de sangue.
Não só a honra pessoal com a familiar devia ser reparada. No contexto familiar, qualquer um que fosse aviltado seria como se todo o núcleo fosse igualmente ferido no seu caráter e dignidade. E a desfeita podia recair não só contra a pessoa perpetrada da desonra como noutros membros de sua família. Era a cegueira do ódio não mais escolhendo a quem atingir.
Quando uma mocinha de boa família – ainda que com livre consentimento dela – saía grávida antes do casamento ou mesmo sem jamais ter namorado abertamente com o dito malfeitor, uma verdadeira guerra era aberta. Ou o sujeito casava ou tinha de arcar com as consequências da desonra familiar. Neste caso, a mocinha grávida era deixada de lado para que as forças da violência tomassem as rédeas do troco a ser dado.
Quando poderosos senhores se entrecruzavam em rixas, desafetos e outras brigas, e como cada um se sentindo desabonado pela conduta do outro, então era certeza do uso de armas, de sangue derramado, de uma guerra sem fim. Como os senhores donos do mundo não se confrontavam pessoalmente, mas somente através de seus cabras, então as tocaias de sangue e as emboscadas mortais tomavam todas as estradas e caminhos.
O poder, o latifúndio, o dinheiro, o mando, o ranço coronelista, sempre impregnava de falsa honradez mesmo aquele do mais enlodado caráter. A reputação inexistente era transformada em semeadura de medo, em perseguição, em violência. E ai de quem falasse do coronel ou de seu clã familiar. A proteção ao nome era sempre pela arma e pela investida sangrenta.
Era em nome da honra que as valentias se exacerbavam. Muitas vezes, a única reputação havida era do mau-caratismo, do temor espalhado e da valentia propalada, mas ainda assim fazia dessas invirtudes um modo de se autoproteger atacando. Por consequência, a criação de uma fama que se interiorizava como virtuosa quando, na verdade, não passava de um enlodamento moral.
E na defesa da honra todos os meios e todas as armas. Da palavra ferina à emboscada, absolutamente tudo parecia válido. E não havia limites de reparação. Quando os ódios exacerbavam, os confrontos deixavam de ser pessoais para se tornar em guerras abertas. Famílias inteiras se digladiando com famílias inteiras. Mortes de lado a lado, mas a cada morte se abrindo ainda mais as feridas já abertas.
Pequenas rixas por terra ou poder, por brigas pessoais ou por crimes cometidos, logo se transformavam em rios de sangue. Ora, se alguém de uma família era vitimado, então dois da outra também tinham que ser derrubados. E foi por guerras assim que povoações e cidades inteiras se viram também vitimadas pelas violências constantes. E os ódios e os rancores eram tão aflorados que sequer um membro de uma família podia encontrar o da outra. Tudo era motivo para que os confrontos recomeçassem e mais uma vez vitimassem num sequenciamento sem fim.
Por muito tempo as terras sertanejas padeceram por tais defesas de honras, fossem justificadas ou não. Por anos e mais anos famílias inteiras se deram ao sacrifício de enterrar os seus numa guerra nascida do quase nada, porém sempre alimentada pelos ódios crescentes. Muitas vezes já não se pensava sequer em se defender, mas tão somente procurar meios para retribuir a violência com mais violência.
Houve um sertão assim enlameado de sangue. Resquícios ainda existem dessas monstruosas conflagrações. Por mais que a ideia de pacificidade tenha chegado, os olhares dos rixosos ainda se cruzam como se carregando fuzis e mosquetões. E prontos para recomeçar o acaba-mundo sertões adentro.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


A beleza de Bonsucesso, povoação ribeirinha em Poço Redondo/SE






Tudo passa (Poesia)


Tudo passa


Já não hei de chorar
a lágrima do amor partido
já não hei de sofrer
a dor aflita da despedida
já não tenho lenços
já não tenho rio ou mar
já não tenho nada
que possa me acalantar

apenas silenciar a dor
e calar a voz do olhar
para que assim os dias
passem e vão passando
e os restos das cinzas
sejam levados ao vento.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – eu e o meu outro eu


*Rangel Alves da Costa


Ontem mesmo, caminhando ao sol poente do entardecer pelas ruas e esquinas de uma cidade nua, eis que me vi indagando se o outro eu não seria mais feliz que o eu que se apresenta pelas estradas e caminhos. Mas qual o outro eu que conseguiria ser diferente desse eu de agora? Antes de responder, há que esclarecer que na maioria das partes há um eu que vive ocultado em nome do convívio do outro eu. Significa dizer que a vontade de agradar ou de sua coerente com o mundinho lá fora, as pessoas apenas apresentam o que esse mundinho deseja ter. E não é nada de bom, pois tudo em meio a falsidades, a fofocas, a egoísmos, a orgulhos, a misérias humanas. Contudo, a pessoa entra no jogo apenas para que aquele eu possa participar dessa lamentável realidade. E foi no sentido de mudar isso que o meu outro eu me fez enrubescer de envergonhamento. Ora, silenciosamente o meu outro eu me disse que não preciso fingir apara agradar nem o mundo nem a ninguém. Se quero a felicidade, basta que procure contentar o meu eu que sofre pelo outro eu que tão mundano existe. E esse eu oculto levanta a voz e me diz: Se gostar da solidão, que procure viver sua solidão. Se gosta de instantes e dias de meditação e reflexão, que procure o cume dessa montanha tão preciosa. Se não gostar de dialogar coisas banais com pessoas banais, que silencie sua voz. E assim será, enfim, feliz.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com