SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A cura (Poesia)


A cura


Aflição e dor
angústia e aflição
e na minha mão
toda a cura

o rosário
o terço
a vela
a prece
pela mão
de mãos dadas

enlaçadas
na imensa fé
do Senhor!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - do alto mais alto da montanha


*Rangel Alves da Costa


Do alto mais alto da montanha, eis que avisto o mundo abaixo e seus arredores, e silenciosamente digo ao silêncio em tudo: Que Salmo mais belo que o mundo perdeu, que Salmo mais esplendoroso que o homem do mundo perdeu, que escrita sagrada mais encantadora que deixou de ser lida pelo mundo e pelo homem do mundo. O Salmo da Vida. Sim, aquele mesmo Salmo que não foi escrito mas que diz que ao homem foi dada a existência para que realmente existisse e não se mantivesse apenas como destruidor de suas próprias sombras. Sim, aquele Salmo que não está em nenhum livro sagrado mas que diz que o mundo nascido em jardim foi desfolhado e ressequido por aquele que deveria regar suas flores e seus perfumes. Sempre o homem como algoz de si mesmo, como seu ferro tomado de ferrugem, como seu espelho quebrado e sem luz. Por isso que o vejo na empáfia e no desmedido orgulho, uma dourada vitrine que nada mais é que o seu próprio entulho. Tanto orgulho, tanta soberba, tanta altanaria, e caminhando ao abismo por ele mesmo criado.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 3 de dezembro de 2017

ERA UMA VEZ NUM LUGAR CHAMADO SERGIPE


*Rangel Alves da Costa


Era uma vez um lugar chamado Sergipe...
Contudo, não se imagine que o referido lugar possui qualquer relação com o estado nordestino chamado Sergipe. O qual, aliás, deveria se chamar Serigy.
Dizem até que por querer ser um carro tão simples, por sempre querer “ser jipe”, acomodou-se nas estradas esburacadas e jamais conseguiu seguir adiante.
Mas voltando ao outro Sergipe, este realmente existiu e ainda existe. Os livros não deixam mentir. A geografia também. Mas fato é que dizem que está apenas em algum lugar.
Este lugar chamado Sergipe possui seu nome oriundo da língua tupi, com escrita original sendo si'riu pe, que significa rio dos siris. Ou ainda siri’y pe, igualmente significando rio dos siris. Mas qual o rio dos siris: Rio Sergipe.
Mas há quem tem afirme que o nome tupi é "siri ü pe". Mas tudo dá em rio dos siris. Como visto, então, sempre o crustáceo, sempre o pequeno caranguejo envolvendo o nome do lugar. E assim por que nas proximidades de um rio com muitos siris.
Muita coincidência com o estado chamado Sergipe, alguém poderia dizer. Pois este tem sua denominação também oriunda do tal rio dos siris, do rio tomado de crustáceos que serviam como alimento ao nativo governado por um bravo líder chamado Serigy.
Serigy, o cacique, aliás, também foi o governante maior daquele outro Sergipe. Aquela outra povoação localizada na afluência de rios, perto das águas grandes, entremeado de vales, ribeiras e montanhas.
O Sergipe de lá, ou outro Sergipe, um dia foi descoberto por navegadores brancos e daí em diante teve a paz nativa terminada. Rico em pau-brasil, em especiarias da terra fértil, ainda que de plena aridez em muitos lugares, foi usado e abusado, passado de mão em mão, de governante a governante, até se transformar num lugar qualquer.
Talvez diferente do outro Sergipe, o estado da federação que, mesmo em humilde evolução, teve seu desenvolvimento ajudado pelas riquezas da terra, pelas belezas naturais, pelas muitas águas ao seu redor, pela riqueza negra jorrando da terra, e pela pujança de seu povo trabalhador.
Tal sorte não teve o outro Sergipe, aquele sempre governado pelo clã Serigy em sua vasta linhagem: Serigy o patriarca cacique, Serigy pajé dos deuses, Serigy da promissão, Serigy imbatível, Serigy do povo, e assim por diante. Ainda hoje um Serigy comanda os destinos daquele Sergipe.
Fato dos mais estranhos é que a linhagem dos Serigys não é de cunho consanguíneo ou familiar, mas por um fator chamado política, que automaticamente vincula ao clã aquele que alcança o poder. E é por isso mesmo que se vira mundo, se gasta rios e mais rios de dinheiro, para a ascensão ao Serigysmo.
Uma vez em ascensão, então chega ao poder pela voz da humilde e da mansidão, mas logo se transforma na espada da ira e do terror. Coisa estranha demais, mas pouco governante das terras do Serigy já se recordou que um dia também foi povo, gente, parte da população. Sempre parece nascido rei, poderoso, de brasão e espada.
Mesmo estando em algum lugar, de possível localização geográfica, o Sergipe dos Serigys não é conhecido pela maioria da população de outras localidades. E aqueles que o conhecem, geralmente pouco sabem das entranhas de sua realidade. Sequer imaginam o que se passa quando descamba o entardecer e a noite chama os seus dramas.
Quem está de fora, ao longe, sempre diz das belezas do Sergipe dos Serigys. Para muitos, não há lugar mais belo, mais encantador, mais adorável pra se viver. Segurança absoluta, paz reinando em todos os quadrantes, prosperidade em cada canto e recanto, o melhor lugar do mundo. Ora, estão distantes e dizem o que quiserem.
Alguém bem lembrou que as estradas desse Sergipe dos Serigys são tão boas que o viajante mais parece num tapete voador. Planando nas nuvens, no aconchego das asas de passarinho, nunca há do que reclamar. Depois de dizer isso, foi reconhecido como assessor do governante e jogado nas estradas mais intransitáveis do mundo.
O próprio Serigy governante reconhece a utopia em todo maravilhamento que se faça sobre seu reino. Lógico que não reconhece em palavras, pois vende seu reino pelo perfume e não pelo odor. Contudo, sabe muito bem que no seu jardim há mais espinhos que flores, que no seu milharal há mais espantalho que espigas.
O povo, principalmente a classe trabalhadora, com medo da reação do Serigy governante, famoso pelas perseguições e pela negação ao povo enquanto humano, simplesmente ecoa a mesma cantilena oficial: a terra das maravilhas, um jardim em flor, onde jamais houve erva daninha nem labirinto amedrontador.
Ainda bem que tudo isso naquele outro Sergipe, lugar distante e pouco conhecido. Por isso mesmo muito mais irreal que realidade. Ainda mais quando se sabe que o Sergipe nordestino é paraíso e se plantando tudo dá. E só coisas boas. Não há violência, medo, insegurança.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Cachaça da boa


Só você (Poesia)


Só você


Não, não sei
o que mais dizer

cato a palavra
e só vem o grito

busca a palavra
e só vem silêncio

já não tenho
o que lhe dizer

talvez apenas
amo você

eco de amor
você

você.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – chega de vírgula e ponto e vírgula


*Rangel Alves da Costa


A gramática nem sempre comunga com o comum da vida. Nem sempre é possível se ater a normas, regras, rígidas conjugações, cultismos exacerbados. Por isso mesmo que se os sinais de pontuação se apresentam bem mais flexíveis perante cada ser humano. No seu dia a dia, perante cada situação de vida, ele pode escolher o melhor lugar para colocar sua vírgula, seu ponto e vírgula e seus pontos finais. Eu, por exemplo, já cansei, já me exauri, de tanto colocar vírgulas para permitir continuidades, de colocar pontos e vírgulas na intenção de não permitir um desfecho imediato. Mas, como dito, já cansei de agir. Agora chega de vírgula e ponto e vírgula, bastando-me os pontos e pronto. Ao invés de postergar, de esperar, de dar chances, de me permitir duvidoso, de chamar incoerências, de agora em diante decidi que somente os pontos podem resolver, de uma vez por todas, as situações. Quando muito, um ponto continuando, mas sempre no sentido de algo anovo, de recorte no passado e vivenciamento de uma nova experiência. E, por fim, o ponto final. E ponto final todas as vezes que, por exemplo, o amor desandou e já não se sustenta em si mesmo. E como não há como forjar ou forçar o desejo, o querer, a vontade, então um ponto final.


Escritor
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sábado, 2 de dezembro de 2017

VIVER, APENAS...


*Rangel Alves da Costa


Já não sei se quero ilhas ou quero multidões. Também não sei se quero distâncias ou proximidades, convívio ou desolação. Talvez bastasse estar em paz em qualquer lugar. Mas em qual lugar?
Prefiro os silêncios às vozes, aos barulhos, aos murmúrios. Porém sei que é impossível calar o mundo. Sempre haverá um grito por todo lugar. À noite, quando mais desejo a calma silenciosa, eis que os gatos ecoam seus gemidos de dor e prazer.
Tomo um café forte, quente, sem açúcar, pelo simples prazer da bebida. Não apenas um, mas muitos cafés desde o acordar ainda antes do cantar do galo. Depois acendo um cigarro e fico meditando sobre as dores do mundo.
Nietzsche tinha razão. Schopenhauer também. Tudo é ilusão. Não há, no viver, nada além de uma tábua de faquir e de um braseiro lanhando de fogo a pele. Daí que não há profeta ou filósofo que não chore à beira do rio.
Mas refletir muito atormenta a alma já transtornada até mesmo pelas simplicidades. Nada mais parece causar prazer, contentamento, a paz merecida. Em tudo, apenas o medo, a agonia, a angústia, a ficção. Um mundo acorrentado e sem saída.
Gosto quando chove na madrugada por que o seu som toma a voz de todos os outros sons. Mas também pela sua feição melancólica a cada pingo. Certamente que são lágrimas desprendidas de qualquer face oculta. Que pode ser a minha ou de qualquer um.
Queria pegar o sol com a mão e sentir seu calor. Talvez seja frio demais se espalhado na mão. Já a lua eu sei que é quente, chamejante, ardente demais. E sei por que não há luar que não traga na sua luz uma nostalgia profundamente angustiante.
Delírios, insanidades, distúrbios, enlouquecimento? Não. Ou sim. Ora, a razão se perdeu e em seu lugar permaneceu apenas a conveniência. E não há como ter sanidade se ao redor tudo enlouquece e em pesadelo se transforma.
Ainda assim eu gosto de meditar. Os pombos e as folhas mortas da amendoeira sabem bem disso. Logo ao amanhecer, mas principalmente ao entardecer, sento-me no velho banco defronte aquilo que um dia já foi um jardim.
As horas passam que nem sinto. Os pombos me chegam e contam segredos. As folhas mortas me recobrem como se desejassem esconder os meus olhos molhados. Em instantes assim, talvez até eu converse sozinho, dialogue comigo mesmo, mas nunca me perguntei sobre o que tanto falo.
Então vem a ventania e deixa tudo ainda mais entristecido. As folhas são levadas como se fossem apenas restos. E realmente são. Os outonos são enfermidades que abrem túmulos e provocam tristezas e dores. Pelos arredores, uivos e murmúrios de outras folhagens e dos ocultos que permanecem como almas encantadas.
Além da tristeza mais triste, muito triste é conviver com jardins desolados, ressequidos, sem flores. Pelos canteiros apenas as recordações, as saudades, as relembranças. Talvez seja por isso que a janela adiante não é mais aberta. Não há mais borboletas, pássaros, gafanhotos. Nada. Somente o entristecimento da solidão.
Talvez um dia eu escreva alguma coisa sobre o nada no ser. O livro do nada contando tudo sobre o absolutamente nada. Mas nem tudo vazio assim. Certamente que numa página estará escrito que à frente havia uma porta esperando ser aberta. Noutra página, dizendo sobre uma estrada adiante. E noutra mais sobre a distância de tudo.
Mas não há folha de papel onde vivo e as folhas da amendoeira já foram levadas ao vento. Nada posso guardar no olhar. Tudo se molha, tudo escorre, tudo se vai. Nada posso guardar em mim ou dentro de mim. A solidão tomou todos os espaços.
E assim a vida vai. Um viver, apenas... Ou não.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com