SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Lá no meu sertão...


Em Curralinho, Poço Redondo, belo sertão...







A menina afegã (Poesia)


A menina afegã


Havia um espelho
na casa da menina afegã
havia um sorriso
no rosto da menina afegã
havia ruas e praças
nos passos da menina afegã
e ela sorria e brincava
caminhava e sonhava
como toda menina faz
 
e de repente o medo
o espelho foi quebrado
o véu negro cobriu o seu rosto
as portas foram fechadas
e as ruas ficaram desertas
para os seus passos e sonhos
para suas alegrias e esperanças
e já não era mais menina
era apenas a dor e a aflição.

Rangel Alves da Costa



Palavra Solta – velhos quintais


*Rangel Alves da Costa

 

Dona Senhora abria a porta do fundo da casa e apertava os olhos em direção às nuvens. Precisava saber se vinha tempo chuvoso e logo retirar as roupas do varal. Seu Quinzé se apressava pra ajeitar um canto de cerca aberto pela meninada. Quase toda manhã era assim, pois a gurizada sempre encontrava um jeito de ir afanar as frutas maduras caídas, ou mesmo subir nos mamoeiros e goiabeiras. A mocinha Zuzu já não sabia o que fazer com suas calcinhas lavadas. Acaso estendesse no varal, era absoluta certeza de sumirem de repente, como se algum ladrão de calcinhas vivesse de olho no seu quintal. Passou a estender suas roupas íntimas na portada da janela, mas foi pior. Rosaflor, um desmunhecado do lugar, foi pego com a mão na massa enquanto tentava furtar uma vermelha com renda. O Velho Sirineu tinha no seu quintal um verdadeiro amigo. Era nele, sentado num tamborete debaixo da goiabeira, que acendia seu cigarro de palha e se danava a conversar sozinho com suas saudades.  Um dia, a filha Jurema perguntou-lhe com quem tanto conversava, e logo veio a resposta: “Com sua mãe!”. Era viúvo já desde mais de dez anos. Os quintais eram assim, um outro mundo dentro do mundo-cidade. Hoje não, pois atualmente quase não existem mais quintais, apenas muros altos e muros mais baixos. Ao invés da natureza ou dos tufos de mato adiante, os olhos só avistam cimento e pontas de pregos nas suas alturas. Noutros tempos, contudo, os quintais eram como espaços sagrados, mágicos, aconchegantes. Abrir a porta do fundo e vivenciar o mundo do quintal era como se reencontrar abrindo velhos baús. Era como se deparar com as nostálgicas velharias, com pedaços do passado, com a história familiar ali presente. Nos quintais a síntese de tudo. A pequena horta (tomate miúdo, pimenta, coentro), o cantinho de plantas medicinais (boldo, hortelã, mastruço e muito mais), as árvores frutíferas, o velho banco de assentada nas tardes de sombreado e nas noites de lua grande, o tanque cimentado de lavar roupas, jarros e caqueiros com suas flores bebendo água de cuia. Num cantinho, as pontas de vaca para o menino brincar de fazendeiro. Mas talvez sejam os varais que melhor traduzam a singeleza daqueles quintais. As roupas lavadas e estendidas. As mãos catando pregadores ou amarrando anáguas e ceroulas ao varal com pequenos nós no cordame esticado. Depois de secas, as camisas de manga comprida estendendo os braços, querendo voar. Passarinhos que se espalham em cantoria no varal. A mocinha que vai chegando com cesto à cabeça para recolher a roupa limpa. E mais tarde, noutro varal, o dono da casa que chega com faca amolada. Escolhe um pedaço de toucinho e corta. Corta também a tripa gorda de porco. Não demora muito e o fogo de lenha é aceso adiante. Vai ter cuscuz, vai ter toucinho misturado ao ovo de capoeira, vai ter tripa, vai ter café batido em pilão, vai ter Sertão!

Escritor


terça-feira, 10 de agosto de 2021

A DOCE VIDA


*Rangel Alves da Costa

 

Enquanto ensaboa, lava e vai quarando roupas no tanque do quintal, Terezinha vai cantando: “Moço bonito que um dia me fez de consolação, me deu perfume cheiroso e um abraço tão apertoso que amoleceu meu coração...”. Já Geromilda começa a cantarolar quando se põe e estender as roupas lavadas no varal: “Minha boca é um sertão, beiço rachado de chão, na secura dessa vida sem amor e sem paixão. Venha me amar, venha me beijar, não quero sofrer mais não, pois nasci pra ser jardim e não a secura do sertão...”.

Já na boca da noite, depois que o vento enxugou as calçolas e camisolas, a mocinha Clarice se dirige ao varal com doce canção na voz: “Lá vem a lua, já escurece a rua, vou lhe contar um segredo que quero ser toda sua. E quando o sol levantar eu chamo de novo a lua, para lhe contar um segredo que quero ser toda sua...”. Bem assim quando Purezinha coloca brasa no ferro, sopra a poeira das cinzas, passa goma na camisa e depois começa a engomar: “Meu Padim Ciço Romão, o santo do meu sertão, chame Frei Damião e venham pra minha casa pra fazer Santa Missão. Quero a paz, quero alegria, a fé por maior devoção, a semente sobre a terra e o fruto sobre o chão...”. E assim pelos sertões, pelos quintais, pelos varais, num tempo de doce tempo que muita saudade traz!

O sol vai esfriando e a brisa da tarde começa a soprar. Ruas interioranas, calçadas alentadas, portas abertas, árvores farfalhando. E chega Joaninha com sua cadeira, e chega Pureza com seu tamborete, e chega Titoca com sua almofada, e todas se assentam para o proseado do entardecer. Nada de fofoca, nada de falação sobre a vida dos outros, mas das realidades e de um cotidiano que é de sol e de lua, que é de poeira e de chão.

Zezim passa correndo, eita menino danado! Vai correndo atrás da bola chutada pela meninada. Um buraco na terra, uma bola de gude, uma brincadeira. E de repente o maior cavaleiro do mundo: Tiziu em seu cavalo de pau. Vai correndo mundo, vai sendo o mais feliz, vai sendo a doce infância. E mais adiante, na sala da frente, Joaninha brinca com sua boneca de pano. Num cantinho da sala o seu mundo e sua vida. Conversa e briga, afaga e de repente diz que vai dar chineladas, penteia os cabelos, diz que vai dar banho pra boneca dormir.

Em tardes fagueiras, nas canções do vento, a vida se faz em sua singeleza. Apenas o tempo, apenas o vento, nas ruas sublimes, nas doces palavras de um povo feliz. Assim ainda a vida em muitos rincões. Nos sertões mais distantes, nos escondidos do mundo. E que bom que seja assim. Que bom se continuasse sempre assim. Que bom!

Mas o mundo apressado vai correndo demais. O bucólico esvoaça, o singelo se esconde para o novo chegar. E de repente a moda, de repente o estranho, de repente o desconhecido tomando o lugar da paz e da felicidade. Sem amigas nas calçadas, sem palavras boas ao entardecer, sem bola chutada pela meninada, sem bola de gude e cavalo de pau, aquele boneca do canto da sala vai sofrer e chorar.

Uma doce vida, que de tão doce vida, o tempo esmaga e no lugar da doçura vai colocando sal. Ou um fel na vida.

 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu Sertão...


Nos Sertões, compartilhando vidas...




Meu amor (Poesia)


Meu amor

Meu amor
eu digo
meu amor
repito
meu amor
 
já silenciei
já sofri demais
aprisionei a palavra
deixei de confessar
o amor que sinto
por medo de amar
 
não suporto mais
silenciar o amor
tenho que gritar
a paixão com fervor
meu amor
meu amor!
 
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – pela estrada


*Rangel Alves da Costa

 

Pela estrada eu vou semeando. A cada passo, pelos caminhos vão ficando minhas marcas, o que fiz, o que eu poderia fazer de outra forma. Talvez poucos deem importância ao avistar as sementes que vou deixando sobre a terra. Assim como o grão que é lançado sobre o chão, e somente mais tarde brotará em flores e frutos, igualmente o que faço pela estrada. Apenas faço, apenas lanço o grão, apenas cumpro o meu dever de semear. Enquanto filho da terra, sinto-me com a obrigação de semear o melhor grão que eu possua, assim como a retribuição de quem jamais se esquece de seu berço de nascimento. A estrada vai ficando para trás e eu seguindo, seguindo, seguindo. Os que mais tarde seguirão pela mesma estrada, ao avistar os frutos do que foi semeando, haverão de dizer: alguém passou por aqui! E colherão o que melhor havia de mim para deixar.