SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Palavras na areia (Poesia)



Palavras na areia


Chamado do entardecer
e meus passos seguiram
em busca da concha
em busca da areia
em busca das ondas
para te encontrar

azul é a cor da saudade
espuma nas águas mansas
que cantam na areia
um segredo de concha
e eu viajando na lembrança
nem senti quando o vento
abriu a boca da tarde
para falar teu nome
riscou palavras na areia
versos em teu nome
e as ondas ainda ecoando
teu nome, teu nome...

a noite caiu numa lua
a estrela desceu na areia
e na sua luz derramada
o verso dourado no grão
“amor meu, meu amor
que a vida me some
teu nome, teu nome...”.

  
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 117


Rangel Alves da Costa*


“Lá fora, a noite, o breu...”.
“E a chuva mansamente caindo...”.
“Ouço o zunido do vento...”.
“Ouço o cantar do momento...”.
“Melodia de silêncio e paz...”.
“Murmúrio solene da imaginação...”.
“Doce momento a recordar...”.
“Viagens no pensamento...”.
“Quem dera estar lá fora...”.
“Ser a terra que se molha...”.
“Ser a folha que se encharca...”.
“Ser a pedra que se banha...”.
“Ser o pássaro que estremece...”.
“Ser o pingo vadio, perdido...”.
“Em busca de uma goteira...”.
“Ser todos os pingos...”.
“Descendo na cumeeira...”.
“Os jardins estão molhados...”.
“E muitos olhos também...”.
“A pétala caiu ao chão...”.
“Sumiu no canteiro...”.
“A água tangeu seu destino...”.
“A flor que passa sem rumo...”.
“Vermelho fúnebre no meio da noite...”.
“Levada pelas águas que seguem...”.
“E param bem diante da janela solitária...”.
“Oh, quanto amor, quanta dor!...”.
“Que a rosa morta passasse, seguisse seu rumo...”.
“Mas ela emerge diante do olhar...”.
“Um dia alguém foi feliz...”.
“Desaprendeu a amar...”.
“Não, pois ninguém desaprende a gostar...”.
“Em flor se transformou...”.
“E a chuva do olhar...”.
“Fez a flor navegar...”.
“Ah, quanto amor, quanto amor...”.
“Um grito no coração...”.
“Mas os olhos estão fechados, e a boca tremula...”.
“O que faz a mão direita?”.
“Não sei...”.
“Talvez segure um punhal...”.
“Não, é uma fotografia...”.
“Mil punhais afiados...”.
“Salvai a mocinha...”.
“Impossível, ela pulou a janela...”.
“Com o retrato à mão...”.
“Não, apenas como flor...”.
“Corra, vamos à janela...”.
“Mas está muito escuro...”.
“Ainda que morta, a flor fica iluminada...”.
“Então vamos, talvez cheguemos a tempo...”.
“Quem dera segurar a pétala...”.
“Uma flor tão bela, tão jovem...”.
“E era rosa, a mais bela de todas...”.
“E o que a vida faz...”.
“O amor, o amor, e não precisa dizer mais nada...”.
“Enxerga a flor?”.
“Sim, toda iluminada, mansamente nas águas...”.
“Aonde?”.
“Impossível vê-la...”.
“Sempre uma impossibilidade...”.
“Ela se transformou em lua e está escondida entre as nuvens...”.
“Então amanhã...”.
“Sim, amanhã ela brilhará feliz!”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DONZELA CHORANDO À JANELA (OU A NOVELA DO PRÍNCIPE QUE NÃO VEIO E DA PRINCESA QUE NÃO FOI) (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Num lugar muito distante - ou foi aqui mesmo na minha rua? – morava uma mocinha que de tão linda ninguém jamais conseguiu descrever com palavras tanta beleza. Quem mais se aproximou disse apenas que era uma flor.
Ousado que sou, e pelo que ouvi falar - ou será que vi? – traço fiel retrato da linda donzela à janela: bela jovem de formosura e perfeição, pintura primaveril que logo faz lembrar... Ora, de tão bela chega a iludir o olhar, a tornar tudo numa delirante fantasia.
Sim, a mais bela de todas; a linda donzela à janela. E assim será daqui em diante, mesmo que talvez eu nem tenha força suficiente para contar toda a história do que sucedeu com a formosa mocinha, cujos olhos alegres e cristalinos um dia se transformaram num córrego de sofrimentos.
Dizem que ao entardecer de um dia triste uma velha e misteriosa cigana passou diante da janela e ao avistar a donzela, seguiu mansamente a seu encontro. Com jeito sutil e ardiloso foi logo dizendo que via grandes segredos no espelho daquele tão meigo olhar. Bastava que ela lhe desse uma moeda e tudo seria revelado.
Ao sumir pela estrada a velha cigana deixou para trás uma mocinha totalmente ruborizada, tomada de encantamentos pelas palavras que ouviu. Segundo a cigana, não só o espelho do olhar como as linhas das macias mãos diziam do maravilhoso destino que logo encontraria. E, em troca de outra moeda, disse mais.
Tomada de sutilezas para repassar veracidade às mentiras, disse ainda que não demoraria muito para o mais lindo dos príncipes chegar diante da janela montado num majestoso cavalo branco. E que ela estivesse pronta para subir à garupa e rumar para o reino encantando onde o príncipe vivia. Ali, no Castelo dos Amores, seriam felizes para sempre.
E exigindo outra moeda, fez o arremate revelador, afirmando que ainda naquela noite ela sonharia com o seu lindo príncipe. Assim, já conhecendo sua belíssima feição, seu sorriso apaixonante e o porte imenso do cavalo, não teria mais dúvidas ao sair da janela, estender a mão e subir no animal quando o momento chegasse.
Ciganas existem que guardam consigo os conhecimentos ancestrais, tendo verdadeiramente o dom de ler algumas das tantas linhas do destino, mas aquela era uma verdadeira tapeadora. Deslavadamente mentiu e a mocinha donzela acreditou. Contudo, ativado o princípio da sugestão, tomando como verdade o que ouviu, a bela menina passou a ter certeza que realmente sonharia com o lindo príncipe ainda naquela noite.
E sonhou. E sonhou não porque a cigana sabia que isso aconteceria, mas simplesmente porque a trapaceira disse que aconteceria. A mentira, pois, tem esse cruel dom de se transformar em verdade na mente dos frágeis e inocentes. E já tendo deitado para o sonho, outra coisa não ocorreu senão o encontro com o lindo príncipe montado no seu branco e majestoso alazão
Acordou toda contente e certa de que as previsões realmente aconteceriam. Ao entardecer, toda enfeitada de renda, perfume e flor, se pôs à janela para ver se apareceriam alguns sinais da chegada do amor de sua vida. Mas nada, apenas uma tarde, um vento soprando, uma sombra da noite chegando. Com olhar mais triste, mais cedo deitou esperando sonhar.
E sonhou. Sonhou com o Castelo dos Amores sendo invadido, o seu príncipe em perigo, o cavalo esbaforido zanzando ali e acolá. Então ela pegou em armas para combater mouros, cristãos, cruzados, visigodos, ostrogodos, uma horda de bárbaros que surgia de todo lado. Não sabia se vencia, apenas que combatia, e acordou cansada de tanta batalha.
Com a certeza de ter salvado o reino da destruição e socorrido seu grande amor, se pôs à janela ao entardecer e ali esperá-lo chegar para agradecê-la num abraço. E não duvidava que o reconhecimento seria tanto que naquele mesmo dia subiria no animal e levada pelo seu príncipe para o lar dos amantes.
Mas o príncipe não veio nem ela sonhou nessa noite. Sonhou sim, mas não com ele, e sim com uma velha cigana passando zombeteira e dizendo achincalhes diante de sua janela. E naquela tarde se pôs no umbral apenas para chorar. E no entardecer do dia seguinte chorou mais ainda. E mais ainda no dia seguinte.
De tantas lágrimas caídas a terra embaixo da janela foi sendo molhada e logo brotando uma plantinha triste. Cresceu parecendo chorosa, angustiada e cheia de sofrimento. Cresceu tanto que tomou todo o espaço da janela, e quem passa por ali a conhece como a árvore da doida.
Melhor seria a árvore da princesa que não foi e do príncipe que não veio. Mas ao passar diante dela a velha cigana simplesmente a chama de árvore da mocinha enlouquecida.
 

Poeta e cronista
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Sinais (Poesia)


 
Sinais

 
Caco de vidro
pra fazer a flor
brilhoso resto
para perfumar
 
grão de areia
pra fazer estrada
um caminho
sua direção
 
brisa suave
fazer a cantiga
abra janela
ouça o cantar
 
olhos abertos
mar tão imenso
o barco chegando
vejo o teu cais
 
uma gaivota
ou um passarinho
bilhete ao vento
leia meu amor
 
uma flor, uma estrada
uma cantiga, um cais
aceite esse amor
e darei muito mais.
 
 
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 116


Rangel Alves da Costa*

“Quero um copo d’água...”.
“Pra matar a sede...”.
“E pra dividir com o irmão...”.
“Gota d’água pra matar a fome...”.
“Fazer brotar a plantação...”.
“Querer tão pouco e somar demais...”.
“O valor que se dá à necessidade...”.
“Ter um silêncio...”.
“Para o pensamento, a saudade, a recordação...”.
“O reencontro com o íntimo...”.
“Mirar-se no espelho da alma...”.
“Ter um oratório...”.
“E nele suntuosa catedral...”.
“Uma vela acesa, uma chama de fé...”.
“Mãos dadas em devoção maior...”.
“O diálogo na certeza do encontro...”.
“A prece, a promessa, a oração...”.
“A chama que abra a porta...”.
“E o anjo que leva a mensagem...”.
“E ter a Bíblia com a palavra do dia...”.
“Mateus e Marcos, todos os evangelhos...”.
“É dessa fé que sustento meu passo...”.
“O Salmo dá destino e chegada...”.
“Provérbio que apenas norteia...”.
“Todos os rumos na vida do ser...”.
“Ter essa fé...”.
“E da fé, tanto amor...”.
“É preciso acreditar nos outros...”.
“Nos corações silenciosos adiante...”.
“E na primeira palavra já reconhecer o mundo...”.
“Seguido ou abandonado...”.
“Daí que é preciso ter a sabedoria...”.
“A força para saber escolher...”.
“Dizer não quando querem iludir...”.
“Dizer não ainda que desagrade...”.
“Pois o desejo do outro nem sempre completa o seu...”.
“E também dizer sim...”.
“E dizer sim ainda que desejem um não...”.
“O sim nascido da sabedoria é caminho que não pode ser negado...”.
“E lutar pelo que deseja...”.
“A persistência soprando uma brisa...”.
“Um sopro que abre janelas...”.
“Abre portas para o que pretender...”.
“Pois insistente no melhor que existe...”.
“Ainda que o homem não tenha o olho pra tudo...”.
“A sabedoria retira o véu...”.
“Faz com que surja o que está escondido...”.
“Dá ao grão maior proporção...”.
“E desse conhecimento útil saber...”.
“Saber que a vida é feita de simplicidades...”.
“Querer o grão, querer a semente...”.
“Querer um pedaço de chão, um esperança imensa...”.
“E querer o fruto e o seu fruto...”.
“O fruto da sobrevivência do ser...”.
“Ter aquilo que bem merecer...”.
“Um quase nada que é imensa riqueza...”.
“Nada comparável à felicidade, ao prazer na vida...”.
“Amanhecer de braços abertos...”.
“Um sorriso feliz no olhar...”.
“E ao redor passeia o contentamento...”.
“Ainda que na moradia de barro e chão...”.
“A riqueza maior seja a porta aberta...”.
“Para que entrem, saibam e sintam...”.
“Que a felicidade mora ali...”.
“Que há imensa riqueza na simplicidade...”.
  

Poeta e cronista
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O SEU MELHOR PRESENTE (Crônica)


Rangel Alves da Costa*

De repente toca a campainha e na porta estará uma belíssima cesta de natal: docinhos, chocolates, geleias, panetones, brioches, além de vinhos, outras bebidas importadas, flores e uma reluzente joia. E um cartão com os seguintes dizeres: Que este presente reflita bem a pessoa que você é!
De outro modo, simplesmente chegam à sua casa para uma visita e levam à mão um embrulho requintado, cheio de enfeites e lacinhos, dizendo que é o presente de final de ano, e ao abrir encontra as mais agradáveis e maravilhosas surpresas: a poesia de Florbela Espanca, um CD antológico do MPB4, uma Bíblia Sagrada em dourada brochura. Ou outras dádivas das lembranças. Mas eis que surge a indagação: será este o seu melhor presente?
Creio não seja demasiada intromissão perguntar se você realmente merece o presente encontrado com tanto esforço e adquirido com tanto carinho; se suas ações, gestos e atitudes condizem com o oferecimento de tão preciosa lembrança; se a pessoa que tem mostrado ser verdadeiramente merece uma recordação tão cativante.
Não sei como você é, realmente nada sei sobre você. Engana-se quem diz conhecer o outro como a palma da mão, principalmente porque, muitas vezes, nem a própria pessoa se reconhece, sabe verdadeiramente quem é. E um presente a ser oferecido a alguém assim só pode ser imaginado a partir de duas premissas: imaginar o que poderia ser ou mentir a si mesmo, no intuito de agradar.
Realmente não sei se uma pessoa egoísta mereça uma flor da manhã; por outro lado sei qual presente daria àquela que nunca faltou amizade. Verdadeiramente não sei se vale a pena agradar, agindo por pura bajulação, presenteando quem se esforça para fugir da presença; e por outro lado sei quanto vale o esforço para agradar aquele descrito no poema: Oh, quanto me agrada quem me reconhece na escuridão!
Contudo, quem oferece o que bem deseja nada tem a ver com o merecimento, ou não, de quem recebe. Presume-se, de toda sorte, que aquilo oferecido reflete a consideração que a pessoa tem com relação ao presenteado. O que importa aqui, pois, não é saber do seu mérito, mas simplesmente indagar se intimamente você se reconhece como pessoa merecedora.
Pensar assim envolve outros aspectos. Mesmo que você se ache com valor suficiente para o que recebeu, e que pela pessoa que é poderia receber o mais valorizado presente, ainda assim – ao menos neste momento – preferia ser lembrada com uma lembrancinha mais simples, mais singela. Como um ramalhete faria bem ao seu coração, como uma mera bijuteria faria bem ao espírito.
Pessoas de bom coração, que pautam sua existência pela valorização de aspectos como humildade, companheirismo, amor verdadeiro e reconhecimento do próximo, geralmente são aquelas que renegam o luxo, joias reluzentes, modismos exacerbados. A estas bastam, tantas vezes, o prazer da presença, o compartilhamento, um abraço afetuoso, uma palavra amiga.
Diferentemente de outras que se impõem valores – pois pessoas egoístas, orgulhosas, vaidosas, verdadeiramente chatas -, aquelas de sublime coração veem sempre com outro valor o presente recebido. E tal valor certamente está distante da importância material, do quanto o outro gastou ou do que acham que realmente merecem.
Houve um tempo em que as lágrimas chegavam aos olhos quando o carteiro entregava o cartãozinho de natal. Não está muito distante quando alguém se enchia de felicidade ao receber um calendário de bolso ou de parede, uma pequena agenda, uma garrafa de sidra. Mas hoje ninguém corra o risco de entregar – somente – um cartãozinho de natal. E então ressurge a sabedoria dos velhos brocardos: Ó tempore, ó mores! Que tempos, que costumes nesse nosso corrompido tempo!
No sertão de onde vim as singelas lembrancinhas sumiram de vez. Em Nossa Senhora do Poço Redondo há muito que não se fala mais em toalha bordada à mão, em passadeira produzida artesanalmente com renda de bilro, em bonecas de panos, em um punhado dos frutos da terra. Atualmente, da infância à velhice outra coisa não prevalece que não os modismos tecnológicos
Será que os meus conterrâneos, nos dias atuais, gostariam de ser presenteados com um chapéu de couro ou um cantil de matar a sede, ou ainda, quem sabe, um alforje de caçador? Talvez quisessem também. Mas primeiro o celular recém-lançado ou a televisão de plasma. Merecem ter tudo, porém desde que não afastem de si a simplicidade, o encanto singelo da vida.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Simples desejos (Poesia)


 
Simples desejos
 
Tenho a fome do mundo
mulher minha
quero lua inteira
uma nuvem cheia
canto de passarinho
uma poesia matuta
uma viola caipira
uma cantiga bela
cantada ao seu lado
 
também tenho sede
tenho a sede do mundo
mulher minha
uma esperança singela
um sonho nosso
uma vida hoje
um viver de amanhã
um abraço apertado
amor de laço que faço
 
tudo isso quero
mas só depois de você
mulher minha...
 
Rangel Alves da Costa