SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 24 de junho de 2014

Nome (Poesia)


Nome


Os nomes
os nomes de tudo
das flores e dos pássaros
de pessoas e coisas
mas se é o teu nome
somente amor
sem qualquer pronome
apenas amor
e com sobrenome
amor

Joana ou Maria
tanto faz o nome
pois o pensamento
só chama amor
o nome que some
na lembrança do amor
e nada que dome
esse aroma de flor
de meigo codinome
meu amor.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 650


Rangel Alves da Costa*


“Há um silêncio profundo...”.
“Há uma solidão imensa...”.
“Há uma tristeza imersa...”.
“Há uma angústia gritante...”.
“Há um sofrimento voraz...”.
“Há um padecer contundente...”.
“Há uma lágrima desafiadora...”.
“Um grito desesperado...”.
“Uma vontade de morrer...”.
“Ou matar...”.
“Mas nada demais...”.
“Nada estranho...”.
“Nada diferente...”.
“Tudo na normalidade do homem...”.
“Nos parâmetros do ser...”.
“Pode parecer estranho...”.
“Que instantes assim...”.
“Cheguem arrasadores...”.
“E provoque temporais e tempestades...”.
“Mas nada anormal...”.
“Tudo na normalidade da vida...”.
“Tudo na verdade eclesiástica...”.
“Tudo no seu tempo...”.
“Tempo de amar e tempo de odiar...”.
“Tempo de nascer e tempo de morrer...”.
“Tempo de gritar e tempo de silenciar...”.
“Tempo de pedir e tempo de doar...”.
“E também como o bem e o mal...”.
“Como o açúcar e o sal...”.
“Como o óleo e água...”.
“Como o perdão e a mágoa...”.
“Pois nada nasceu para uma só face...”.
“Para ter uma só feição...”.
“Em tudo o verso e o reverso...”.
“A cara e a coroa...”.
“O bem e o mal...”.
“O sol e a chuva...”.
“E assim por que...”.
“A ninguém é dado o direito de apenas sorrir...”.
“De ter apenas contentamento...”.
“De cantar e valsar...”.
“De brincar e festejar...”.
“Eis que a luz se apaga...”.
“E a noite toma o lugar do dia...”.
“E nem tudo será mais alegria...”.
“Pois a vida vai trazendo...”.
“Saudades e recordações...”.
“E tantas outras alucinações...”.
“Para que o ser seja provocado...”.
“E saiba vencer o seu outro lado...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O PREÇO DA TRADIÇÃO JUNINA


Rangel Alves da Costa*


Tudo que se transforma, traz consigo o preço da modernidade, eis uma verdade. E assim em tudo na vida. Nas comemorações juninas não poderia ser diferente, pois a simples manutenção da tradição da fogueira com amigos ao redor exige um custo considerável. Apenas um tiquinho disso e outro tantinho daquilo, mas na ponta do lápis acaba sempre num valor inesperado.
Hoje se paga o preço gratuito de outros tempos atrás. Antigamente, juntar os amigos ao lado de uma fogueira, colocar a sanfona pra gemer, experimentar os pratos com as delícias da época e bebericar o licor e o quentão, praticamente não exigia custo algum, eis que tudo da terra, colhido e preparado ali mesmo.
Ora, o sertanejo, muito ou pouco, sempre dispunha de milho verde para as noitadas juninas. Juntando o milho ao leite da vaquinha e outros ingredientes, como o coco de quintal, surgiam a canjica, o bolo de milho, o mungunzá com as espigas da safra passada, além de outras variedades de pratos amarelados, perfumados e apetitosos.
Juntando garrancho, graveto ou pedaços de pau, tudo encontrado ali mesmo pelos arredores da malhada, a fogueira já estava garantida. Cachaça, quentão, licor, vinhos de botequim e outras bebidas próprias da região, sempre estavam na medida do bolso magro. Quer dizer, a festança estava garantida sem que o dono da casa tivesse de vender garrote ou porco gordo para receber a vizinhança.
Tudo feito ali mesmo, ralado, remexido, cozido em fogão de lenha, assado em forno de pedra, coado em arupemba, separado em panela de barro, espalhado na madeira, servido sem frescura ou etiqueta, sempre uma festa singela e com fartura. Ademais, depois de duas talagadas, o velho tocador chamava o do zabumba e do pandeiro e o forró começava a comer no centro. E assim ia até o dia amanhecer.
Hoje é muito difícil que aconteça assim, até mesmo nas distâncias mais matutas dos sertões de meu Deus. Em primeiro lugar, a tradicionalidade junina, enquanto singelo encontro de amigos ao redor de fogueira, quase não existe mais. Não há palha de milho espalhada ao redor, canjica cheirosa nem viola caipira nem sanfona cabocla. Em segundo lugar, o próprio interior foi dando às festas juninas uma feição totalmente diferente daquilo que se tinha noutros tempos. Para se ter uma ideia, dificilmente se encontra um autêntico forró pé-de-serra, eis que a música eletrônica invadiu até mesmo as beiradas das fogueiras crepitantes.
Ademais, o São João em si se transformou apenas numa festa comum. As quadrilhas transformadas em verdadeiras escolas de samba, com seus trajes luxuosos, fantasias e adereços, nem de longe lembra aquelas festanças de amigos vestidos com roupa remendada, chapéu de palha, vestido florido e o prazer maior de dar as mãos em meio ao salão. Do mesmo modo, nos centros urbanos a sanfona tem de dar seu lugar ao artista famoso, ao teclado, à parafernália tecnológica. E tudo isso é tudo, menos forró, menos autenticidade junina.
Mas também, pelo custo elevado de uma simples comemoração, quase ninguém pode mais manter a tradição. Uma latinha de amendoim por dois contos, três espigas de milho também por dois contos, uma fogueira pequena e de madeira ruim não sai por menos de quinze contos, uma garrafa de licor por dez contos ou mais, sem falar no preço absurdo de outros produtos próprios para o consumo junino.
Para se ter uma ideia, um caldeirão de arroz doce ou de canjica não sai por menos de trinta contos, eis que requer o caríssimo leite de coco em grande quantidade, sem falar no leite de gado, no arroz, no milho ralado, no cravo, na canela, no açúcar e uma porção de outros ingredientes. E sem falar no gás, no tempo demorado de preparo, no cuidado para tudo ficar absolutamente no ponto. E acaso a pessoa deseje assar uma carne, linguiça, queijo ou mesmo o milho na brasa, certamente vai ter de botar a mão no bolso sem medo. E a bebida?
E ainda tem a filharada que quer fogos, chuvinhas e tudo o mais que enfeita a noite num segundo e no outro já é só fumaça. Mas é assim mesmo. Em tempos modernos pouco se há a fazer. Só resta mesmo acender a fogueira, fechar os olhos e recordar de um São João que não existe mais.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Ondas que levam flores (Poesia)


Ondas que levam flores

A solidão do cais nunca mais
nunca mais caminhar na desilusão
nunca mais lágrimas nos seus beirais
nunca mais flores deixadas à solidão

sei que as ondas recolhem as flores
e nas distâncias azuis constroem um jardim
e depois retornam com buquês encantadores
para os que se refaçam das dores enfim

peço às ondas que me tragam um buquê
com as pétalas jogadas flor a flor
com perfume e aroma extraídos em você
e no cais cantarei a alegria do amor.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 649


Rangel Alves da Costa*


“Ainda compreenderão que o amor...”.
“Ou o verdadeiro amor...”.
“É tão singelo e profundo...”.
“Que rejeita qualquer definição...”.
“Pois tantas vezes invisível...”.
“Sutilmente expressado...”.
“Como a brisa do entardece...”.
“Ou a valsa das flores primaveris...”.
“Eis que o amor é gesto...”.
“É ação e atitude...”.
“Pode estar na mão erguida...”.
“No sorriso no lábio...”.
“Na feição de contentamento...”.
“No carinho e no afeto...”.
“No recebimento e na doação...”.
“Na promessa verdadeira...”.
“No olhar que acolhe...”.
“E no corpo que transmite calor...”.
“O amor no pão...”.
“O amor no grão...”.
“O amor na cura da ferida...”.
“O amor no saciar a fome...”.
“E no satisfazer a sede...”.
“O amor na mão que afaga...”.
“O amor que se preocupa...”.
“Que também sofre...”.
“E também entristece...”.
“O amor que pranteia...”.
“O mesmo pranto sofrido...”.
“Que sorri a mesma alegria...”.
“O amor da saudade...”.
“Da imensa esperança...”.
“Do desejo de felicidade...”.
“Da certeza de ser amado...”.
“E quanta alegria há no amor...”.
“De quem não desampara...”.
“O que se sente desamparado...”.
“Não abandona...”.
“O que se sente abandona...”.
“Ama profundamente...”.
“O que se sente rejeitado...”.
“E tão forte um amor assim...”.
“Tão cativante e profundo...”.
“Que mesmo um grão de amor...”.
“Será a melhor semente...”.
“Vez que o coração...”.
“Será como um campo acolhedor...”.
“Para o cultivo do amor...”.
“Alimento de graça e louvor...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 22 de junho de 2014

UMA FICÇÃO COMOVENTE


Rangel Alves da Costa*


Acima das nove da noite, quando os meus canais favoritos (Discovery Theater, History e National Geographic) estão passando bobagens, vou diretamente ao Fox em busca de Os Simpsons. É apenas uma série norte-americana de animação, mas certamente com conteúdo muito mais atrativo e instigante que a maioria dos enlatados que se repetem pelos canais. E o referido canal, por ser possuidor dos direitos da série, todas as noites transmite cerca de cinco episódios, e de forma consecutiva.
A grande maioria já conhece as proezas da família Simpson, e esta formada por Homer, Marge, Bart, Lisa, Maggie e o vovô Simpson. Os outros personagens também são muitos conhecidos, vez que se revezam em pequenas tramas retratando a vida entre vizinhos e conhecidos que se deparam com as situações mias inusitadas. A família Simpson e os demais personagens sintetizariam o microcosmo da sociedade norte-americana. Daí o seu acentuado conteúdo crítico.                                                                     Mas não é intenção deste escrito analisar características comportamentais dos personagens nem elaborar uma análise sobre a série em si. Apenas acerca de um personagem, e este sempre aparecendo de forma secundária nas histórias, ainda que recorrentemente parte das tramas aconteça na sua taberna. Em todo episódio e ele é mostrado atrás do balcão servindo sua fiel freguesia ou recolhido ao seu quarto, sempre envolto em tristezas e indagações.
Falo de Maurice Lester Szyslak, ou simplesmente Moe. Isto mesmo, Moe é aquele feioso, um tanto misterioso, e que vive recebendo no balcão de seu botequim os velhos amigos de Springfield para a bebedeira e as conversas fiadas. É uma clientela cativa que não se cansa de pedir mais uma Duff, a cerveja famosa de lá. Como bom taberneiro no seu ofício do dia a dia, ele vai apenas servindo e tendo de suportar as piadas mais constrangedoras.
Contudo, o Moe que serve bebida aos mesmos clientes de sempre é apenas um ser aparente diante do outro Moe pessoal. Pessoalmente é um solteirão amorosamente fracassado, sempre rejeitado, entristecido, sem nenhuma valorização íntima. Quer se conformar com sua realidade de abandono, porém não consegue. E por isso mesmo de vez em quando repassa sua desconformidade comportamental à sua própria taberna. Daí ser um ambiente desconfortável, com banheiros imundos e bebidas nem sempre legítimas. Quer dar uma de espertalhão, mas só consegue transmitir os descompassos de sua vida.
Um fato em si se toma de maior relevância na vida de Moe. No seu quarto, o mesmo ambiente onde dialoga com suas mágoas, angústias e rejeições, pode ser avistado, permanentemente, uma corda descendo do telhado em nó, pronta para ser usada em suicídio. E tantas e tantas vezes ele é mostrado conversando com aquela corda, afirmando que chegou o momento de usá-la, que precisa fazer com que não permaneça ali inutilizada por mais tempo. E trata a tal corda como sua amiga. Quer dizer, vê a possibilidade da morte como algo confortador para alguém tão solitário e abandonado como ele.
Em diversos episódios, o suicida Moe é mostrado se preparando para o desfecho fatal da vida. Em cima de uma cadeira, já colocando a corda no pescoço, e um fato novo surge para adiar sua trágica decisão. Contudo, tudo aquilo que lhe surge como esperança logo se transforma no pesadelo de sempre, ou seja, levando-o à mesma situação de negação íntima já tantas vezes vivenciada. E novamente sofre e novamente promete que a sua amiga lhe será de grande serventia naquela noite.
Num dos últimos episódios que assisti, o solitário e triste Moe protagonizou uma cena deveras comovente, realmente digna de um grande filme, talvez de um épico. Após mais um dia de angústias e aflições, com o bar já sem clientes, o taberneiro se pôs agachado para limpar o piso. De onde estava lançou o olhar em direção à porta do quarto e a corda suicida, pendida do telhado e pronta para o pescoço, balançava como num chamado. Então ele, com olhos tristes e feição dolorosa, disse algo emocionante:
“Hoje não, minha amiga. Mas deixe estar. As festas de fim de ano já estão chegando!”. Foi a cena final daquele episódio.
Tais palavras são de uma profundidade indescritível. Quer dizer, ele sabe muito bem que são poucos os corações sofredores que suportam ultrapassar com firmeza aqueles dias tão reflexivos, nostálgicos e melancólicos do final de ano. E é exatamente neste período que os suicídios são mais praticados. Mas que o Moe consiga sobreviver, mesmo com sua angústia desejosa de dar fim a tudo no próximo natal.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com  

Asas ao vento (Poesia)


Asas ao vento


Pássaro passarinho
alçando voo do ninho
levando no bico a flor
pro ninho do seu amor

e as asas ao vento
ruflando no firmamento
ecoam uma doce canção
voz sublime do coração

e adiante na paisagem
como a mais bela miragem
o ninho do amor passarinho
e nunca mais viver sozinho

nunca mais a revoada
nem a solidão na estrada
pois tem amor passarinho
tem a vida e um ninho.


Rangel Alves da Costa