SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Quando a noite cai (Poesia)


Quando a noite cai


Quando a noite cai
e minha saudade chove
e minha lágrima é mar
e minha solidão é cais
eu me chamo e me peço
mas já não me quero mais

a minha asa voa
e num instante cai
a dor então arrebenta
e em tristeza esvai...

pois quando a noite cai
e meu lamento chora
e minha tristeza pulsa
e meus olhos são cais
eu me chamo e me peço
mas já não me quero mais

a minha asa voa
e no horizonte cai
a dor então atormenta
e em sofrer se esvai...


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: os meninos pelados


Rangel Alves da Costa*


Já fui menino malino, danado, já fui menino pelado. Não somente eu, mas muitos na minha idade de meninice. Andava nu, corria nu, brincava nu. Tempo bom o daquele nudez. Ademais, vivendo debaixo do calor sertanejo, com o suor respingando em tudo e o poeirão das estradas e descampados tomando conta da vida, seria até fatigante estar todo vestido. E também porque o menino devia estar preparado para sair em correria a qualquer instante, devia estar sempre disposto a se danar pelo meio do tempo, a brincar e a malinar com tudo que houvesse ao redor. Em épocas de chuvarada então, seria muita perda de tempo descer todas as roupas enquanto os pingos chamavam à festança. As épocas das trovoadas deixavam a meninada num alvoroço danado. Em tais períodos chuvosos, de pingo d’água maciço, toda a meninada corria junta para o meio da rua. Ali, na festa da molhação, tanto meninos como meninas se lambuzam nas poças, se fartavam embaixo das biqueiras, dançavam e pulavam à vontade debaixo da nuvem. É como um retrato amarelado mostrando a nudez em festa, os meninas de corpo inteiro e as meninas da calcinha pra cima. Banhavam-se nos mesmos locais, debaixo das mesmas torrentes, se lambuzando pelas mesmas poças, se jogando pelas mesmas calçadas, mas sem gracejos ou piadinhas pela nudez, sem quaisquer tipos de insinuações. Apenas meninos vivendo seu mundo.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O DIÁRIO DO MORTO


Rangel Alves da Costa*


Velado pelo silêncio e pela solidão, Pascácio jazia morto num caixão de pouco valor. Num misto de tábua e rebotalho de madeira frágil, o esquife ali estendido mais parecia um barco de flores de devotos empobrecidos e que serve para ser lançado nas águas em homenagem à Rainha Grande, remendado e pregado àquela serventia. Triste que se assim acontecesse.
A pobreza, além de dificultar a vida, degrada também a morte, certamente observaria o vigário acaso tivesse aparecido para uma encomendação de alma qualquer. Já o escrivão Toniquinho certamente diria, naquele floreio de poeta rejeitado, que a sina do homem se perfaz na solidão, tanto na morte como na vida. E caso tivesse passado por ali constataria toda a dimensão de um abandono na hora mais triste.
Mas não apareceu. Ninguém apareceu depois que o homem foi colocado naquela caixa rasa e ali deixado estendido, vestido numa roupa qualquer e ladeado por quatro ou cinco flores de plástico envelhecidas. Porta e janela abertas, uma vela apagada pela força da ventania, um Deus entristecido de braços abertos na parede e nada mais que isso. Nada mais que o desalento e o silêncio dos sinos. Sequer o sino havia dobrado anunciando aquela partida.
Costuma-se, em situações assim, que parentes, amigos e vizinhos – e até desconhecidos -, acorram para a lamentação. Todo morto precisa ser lamentado, chorado, cantado seus valores em vida e reconhecido até mesmo pelo que jamais se prestou a ser. E também costumeiras são as velas cercando o caixão, as flores surgidas de qualquer jardim, as preces, as ladainhas e encomendações de alma. E igualmente o entristecimento, o luto ao menos naquele instante, o abatimento no olhar. Ainda que tudo por fingimento.
Mas ali, mesmo no meio clarão/sombreado do dia, nenhuma alma viva chegava para prantear a alma morta. Apenas o zunido do vento, o abrir e fechar da janela, as folhagens secas que iam se acumulando pelos cantos. Tempo de ventania, com feição de trovoada, mas nenhum sinal de pingo d’água querer cair. Apenas aquela face pesada, fechada, sombria, entristecendo mais ainda o ambiente e os arredores. Uma ave agourenta piando em pleno dia. Coisa estranha de acontecer. Na falta de choro, de lamento e de ladainha de encomendação, apenas aquele pio medonho se fazendo ouvir.
A ventania aumentava e balançava tudo. A porta de trás e da frente totalmente abertas, davam passagem aos zunidos vorazes. E o defunto ali sem poder mais fazer o que outra fazia em situações assim: bastava a aparência de trovoada com relâmpago e trovão e logo fechava tudo que pudesse permitir o alcance de raio. E depois, de rosário entre os dedos, invocava aos santos proteção contra tempestade, mas também chuva farta para molhar a terra e encher tanques e barragens. Ele mesmo não possuía sequer um quintal com cisterna, mas o bom coração relembrava a necessidade dos outros.
Mas não seria naquele dia a chuva de trovoada. A ventania continuou uivando e cada vez mais afoita, mas apenas para fazer cair – e não se sabe como nem de onde – um velho diário bem em cima do morto. Caiu como num arremesso, desceu como num pouso. E ao descer rente às mãos enlaçadas do defunto, logo se abriu pela ventania. E ali escrito na página aberta, com letra antiga de aluno aplicado, as sentenças na vida vivida:
“A verdade dos tempos, uma dor que ainda dói. Eu não contava em poucos números o tanto que tive. Um monte disso e daquilo, e mais e muito mais. Com o passar dos anos, apenas os dedos das mãos e já dava para contar o que me restava. Hoje sei de tudo que possuo pelo pensamento. Difícil acreditar, mas não consigo pensar em nada. Nada mais tenho”.
E a ventania, como num ato premeditado, ia repassando as páginas, onde se avistava:
“No ouro ou no barro, nunca mudei o meu jeito de ser. Semeei amigos, colhi boas amizades. Mas tudo noutros tempos, naqueles tempos onde tudo era fartura. Hoje está até difícil um bom dia ou boa tarde. Mas sei que não mudei, mas também sei o que mudou nas pessoas. O ter e o não ter constroem edifícios e joga ao chão, ao reles do esquecimento. É o ter ou não ter que faz com que a pessoa seja percebida ou não. No meu caso, tornei-me um desconhecido a todo mundo. Aqueles que eram amigos ainda passam por aí. Mas cadê os amigos?”.
E assim a ventania foi cuidando de passar página por página do velho diário. E na última folha estava escrito: Romanos, 7,24: Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?
As nuvens de chuva escondiam o sol. Tudo sombrio e entristecido. Mas a chuvarada não veio, nenhum pingo caiu. E também nenhuma lágrima, nenhuma tristeza no olhar, nada que honrosamente desse adeus à morte. As folhas levadas na ventania continuam velando a solidão. Dessa tamanha solidão que é a morte.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

SER TÃO SERTÃO


Atrás de mim um sertão. Tudo ao redor um sertão. Dentro de mim um coração que é sertão. E um orgulho danado de SER TÃO SERTÃO!


Da morte, da dor... (Poesia)


Da morte, da dor...


Era uma vida
em flor
que pétala
a pétala
expirou
e em pó
num sopro
findou

uma lágrima
de dor
querendo
a pétala
da flor
renascer
a vida
por amor.


Rangel Alves da Costa

NO BOTEQUIM DE NANÔ



Saiu na Folha: Este homem, mais conhecido como Nanô, dono de bar no sertão sergipano de Poço Redondo, está sendo chamado de “o sertanejo dos milagres”. A cachaça que vende em seu bar, comumente conhecida como Casca de Pau, não só serve como remédio para diversas enfermidades como alegra o bebedor já a partir do instante seguinte ao trago. Por isso mesmo que desde as cinco da manhã já aparece uma leva de sertanejos em busca de cura e contentamento. Mas depois de servir a dose Nanô adverte: “A danada é boazinha, mas é preciso cuidado. Depois de três doses corre-se o risco de fazer efeito contrário”.

Nanô



Palavra Solta: o farol, o cais...


Rangel Alves da Costa*


Ao longe, um farol antigo, ali pregado desde os tempos mais antigos. Perto do cais, numa pequena elevação, o farol orientando embarcações, salvando vidas, acolhendo os que aportam, dando adeus aos que partem. Testemunha dos tempos, seus olhos talvez já tenham se cansado de avistar a beleza e a tragédia, o bom e o ruim, a calmaria e o vendaval. E silenciosamente ouve a dança das águas, os apitos das naves, as palavras que se alvoroçam no cais. Não mais se espante com o barco fantasma que noites mais escurecidas se aproxima da areia e dele sempre desce uma mulher sem face. Não mais se atormenta com a mulher que passeia nas madrugadas pelas areias solitárias da praia. A mulher, sua lágrima no olhar, sua flor murcha à mão, e seu caminho ao fundo das incertezas. Não mais sofre com a solidão do cais, com as dores das pedras do cais, com o canto gemido passando pelas areias do cais. É também solitário, triste, melancólico e angustiado. Sofre de solidão antiga, se atormenta de lamentos antigos, padece de tristezas sem fim. Eis que tudo vem e tudo chega, tudo parte e tudo vai, tudo se faz pulsação e depois arrefece, tudo é voz e depois silêncio, e ele ali, apenas um farol. Com luzes de grande alcance antigamente, mas agora quase uma vela de pouco brilho. Um dia de tanto sol, de tanta lua e tanta luz, e agora somente a leve chama. Assim como uma lágrima que vai descendo pelo canto do olho. E depois morre na areia, ou nas areias do cais.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com