SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

PALAVRAS SILENCIOSAS – 750


Rangel Alves da Costa*


“Os minutos passam...”.
“As horas passam...”.
“Os dias passam...”.
“Os anos passam...”.
“E eu sempre aqui...”.
“Sempre aqui na estação...”.
“Esperando o trem...”.
“Desejando o trem...”.
“Sonhando com o trem...”.
“Imaginando o trem...”.
“Que nunca vem...”.
“Recordo-me como se fosse hoje...”.
“Tanta tristeza na janela...”.
“Tanta lágrima na janela...”.
“Toda desesperança na janela...”.
“A dor e o sofrimento na janela...”.
“Então fechei a janela...”.
“Lembro-me como se fosse agora...”.
“A porta sempre fechada...”.
“A porta sempre em silêncio...”.
“Sem ninguém chegar...”.
“Sem ninguém tocar...”.
“Sem ninguém imaginar...”.
“Que eu existia naquele mundo...”.
“Então abri a porta...”.
“Relembro tudo como se fosse agora...”.
“Depois de fechar a janela...”.
“E de abrir a porta...”.
“Limpei a última lágrima no rosto...”.
“Olhei ao redor...”.
“E me despedi do nada...”.
“Para seguir até a estação...”.
“Mas não para viajar...”.
“E sim para esperar o trem...”.
“Esperar o que?”.
“Desejar o que do trem?”.
“Nunca eu soube responder...”.
“Mas tudo...”.
“Ou qualquer coisa...”.
“Ou nada...”.
“Talvez os sinais da loucura...”.
“Da insanidade pela solidão...”.
“Mas talvez esperando...”.
“Que o trem trouxesse a paz...”.
“Um sorriso, a alegria...”.
“A esperança na vida...”.
“Ou quem sabe alguém...”.
“Que descendo do trem...”.
“Olhasse em minha direção...”.
“E aceitação a minha flor já morta...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CAFÉ DE BULE, CUSCUZ E SERTÃO


Rangel Alves da Costa*


Não há como não sentir saudade do meu sertão. Aqui na cidade feia, desumana e cruel, no aperreio dos dias, cada vez mais me sinto jogado numa paisagem que não é a minha. Sou sertanejo, sou de lá, das veredas matutas, do esturricamento e da seca, do pingo d’água e da esperança infinita. Sou calango, lagartixa, preá, cipó reimoso, espinho de quipá e flor de mandacaru.
Sou daquele sol e daquela lua, daquele povo e daquela rua. Sou da catingueira e do xiquexique, daquela valentia de honra e daquele gesto abençoado de acolhimento. Sou daquela fé imensa, daquela religiosidade infinita. E também daquela ventania d’além que chega revirando as roupas no varal e assanhando o cabelo da linda sertanejinha. Ali a mulher bíblica, a mulher força, a mulher singeleza: a mulher vestida de sol! E ali ainda o homem bíblico: aquele que vence desertos para fundar o reino da sobrevivência!
Que saudade danada, seu moço. Aqui é apenas um lugar, enquanto lá era vida, era viver. Abro a janela do amanhecer e nada de canto passarinheiro. Ando pelas ruas e não ouço nenhum bom dia ou boa tarde. Remédio de farmácia e não de quintal, fruta sem a doçura e o gosto da terra. Ao entardecer então o sofrimento se alastra. E de repente me vem a certeza que é impossível viver sem o cheiro do café torrado ainda fervendo no bule. E também do bolo de leite e do proseado às sombras do pé de pau.
Falei em café no bule, bolo de leite e proseado, mas poderia ter citado muito mais. Dizer de algo assim como galinha gorda de capoeira, queijo de coalho de fazenda, coalhada, doce de leite, milho assado, arroz doce, mungunzá, carne de bode e muito mais. Feijão de corda, baião de dois, invenções de cozinha matuta. E assim porque o meu sertão é repleto de sabores, de gostos, de gostosuras e muito mais que o apetite suportar.
O cuscuz de milho ralado é outra coisa inesquecível. Sei que dava um trabalho danado escolher as espigas de milho no ponto para serem raladas, limpá-las para deixar sem cabelos, e depois lançar as mãos no ofício do vai e vem, sempre correndo risco de ralar os dedos também. Em seguida, quando a bacia já estivesse cheia do farelo amarelado, úmido e pegajoso, despejar tudo no enorme cuscuzeiro. O fogão de lenha já esperando, bastava cobrir o milho com um pano limpo e esperar a água ferver embaixo do cuscuzeiro. E de repente, após o pano começar a suar, eis que o vapor cheiroso, perfumado de milho, começava a se alastrar pela casa e arredores.
Cuscuz sertanejo de milho ralado é comida rápida. Quando o vapor se alastra já é sinal de estar no ponto. Daí bastava colocar na mesa e olhar ao redor as outras gostosuras para o necessário acompanhamento. Tem gente que come ele puro só com o café, mas a maioria prefere apreciá-lo com ovos de capoeira, qualquer pedaço de carne, tripa, toucinho na brasa ou qualquer outra coisa que esteja à disposição. Conheci um sujeito que não conseguiu levantar após se entreter com um cuscuz inteiro à sua frente. Foi preciso iniciar a digestão ali mesmo. Só que cismou de experimentar também um prato de coalhada, e não demorou muito para implorar que alguém lhe abanasse pelo amor de Deus.
Dona Lídia preparava o mais famoso café da região. Ao fim da tarde e a cidade inteira se enchia daquele cheiro inconfundível do café fervendo. Nunca negou um bocadinho a ninguém, mas certamente tinha que levar a chaleira muitas vezes ao fogão de lenha, pois não eram poucos os que iam entrando casa adentro implorando pela sua meia xícara. E depois retornar à praça para sentir a noite encantadora chegar. E logo a lua, a maior de todas, a mais bela de todas, enchendo os olhos de prazer e relembranças.
Logo as calçadas eram entregues somente aos tamboretes e às cadeiras de balanço que por ali continuavam esperando o retorno dos seus donos. Dentro das casas a hora do café da noite, da sobra de comida do meio dia, da macaxeira, do inhame, do cuscuz. Ou do pão com manteiga. Ou apenas do pão. Ou também de nada, eis que muito jantar sertanejo é apenas a esperança de ter qualquer alimento amanhã.

Poeta e cronista
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Grãos (Poesia)


Grãos


Sonhos, só preciso de sonhos
para continuar colhendo esperanças
em outonos de folhas entristecidas

inspiração, só preciso de inspiração
para continuar descrevendo sua feição
na poesia mais sublime do coração

coragem, só preciso de coragem
para continuar vencendo os espinhos
nos passos temerosos desses caminhos

amor, só preciso de amor
para continuar cultivando a existência
semente que na vida é toda essência.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 749


Rangel Alves da Costa*


“Grande a soberania humana...”.
“Homem de imenso reinado...”.
“Monarca de infinita riqueza...”.
“Nobre e poderoso na vida...”.
“Possui castelos e terras...”.
“Possui brasões e escudos...”.
“Possui linhagem e estirpe...”.
“Possui ouro e prata...”.
“Possui minas de diamante...”.
“Quanta nobre no homem...”.
“Mas não por reinar para servos...”.
“Mas pela sua própria grandeza...”.
“Assim quis o seu Deus...”.
“E assim lhe concedeu a dádiva...”.
“De ser o maior dos nobres...”.
“Nobreza no coração...”.
“Nobreza na alma...”.
“Nobreza no espírito...”.
“Nobreza enquanto humano...”.
“E nobreza enquanto ser prometido...”.
“Pois lhe foi prometido mais que reinados...”.
“Mas o reino da humildade...”.
“O reino da obediência...”.
“O reino da compaixão...”.
“O reino da devoção...”.
“O reino do amor fraternal...”.
“O reino da comunhão...”.
“O reino da fé e da graça...”.
“O reino da razão e da contemplação...”.
“O reino da sabedoria e da virtude...”.
“Por isso não há rei mais digno...”.
“Rei maior e mais poderoso...”.
“Que o rei que sabe ser humano...”.
“E por existir com tal condição...”.
“Agradece a dádiva da existência...”.
“Compartilha atos e ações...”.
“Ama o próximo como a si mesmo...”.
“Abraça o outro como a si mesmo no frio...”.
“Divide com o outro a metade do seu pão...”.
“Tem por herança maior...”.
“O poder de continuamente realizar o bem...”.
“Pois sabe que assim foi escrito...”.
“A vida para um rei que saiba reinar...”.
“Todo o poder para um rei que seja mais que um rei...”.
“Pois súdito do desejo divino...”.
“Conhecedor que sua riqueza...”.
“Não lhe foi dada para ser um rei ruim...”.
“Mas um ser humano consciente...”.
“De que a bondade é brasão maior da existência...”.
“Por isso há um rei em ti!”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

LIVRO SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE DE LAMPIÃO JÁ PODE SER VENDIDO (TJSE ACOLHEU A APELAÇÃO DE PEDRO DE MORAIS)


Rangel Alves da Costa*


Nesta terça-feira, 30/09/2014, a 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE) deu provimento unânime ao recurso de Apelação Cível (Processo nº 201200213096) interposto pelo juiz aposentado, advogado e escritor Pedro de Morais, e reformou a sentença de 1º Grau.
Cabe recurso para as instâncias superiores, mas significa dizer que a decisão garante a livre circulação e venda do livro “Lampião – O Mata Sete”, impedido desde 2011, quando o juiz da 7ª Vara Cível da Comarca de Aracaju concedeu liminar proibindo o seu lançamento. O autor interpôs Agravo de Instrumento contra a decisão singular, mas sua irresignação foi indeferida naquela oportunidade.
Não obstante, o autor reiterou em 2012, através de Recurso de Apelação, a reforma total da decisão de primeiro grau e somente agora o colegiado cível do tribunal sergipano julgou o mérito da demanda, acolhendo seu pleito por unanimidade. A decisão - cujo Relator foi o Desembargador Cezário Siqueira Neto, o mesmo que já havia negado provimento ao Agravo de Instrumento interposto por Pedro de Morais em 2011 -, até a noite de ontem, 30/09, ainda não havia sido disponibilizada na íntegra para consulta, mas a Agência de Notícias do TJSE informou o seguinte no site do tribunal:
“2ª Câmara Cível reforma sentença e livro sobre Lampião poderá ser lançado
[...]
Em seu voto, o Relator Des. Cezário Siqueira Neto entendeu que garantir o direito à liberdade de expressão coaduna-se com os recentes julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF), em manifesto combate à censura. “Não é demais repetir que, se a recorrida, autora da ação, sentiu-se ‘ofendida’ com o conteúdo do livro em testilha, pode-se valer dos meios legais cabíveis. Porém, querer impedir o direito de livre expressão do autor da obra, no caso concreto, caracterizaria patente medida de censura, vedada por nosso Constituinte”, esclareceu o magistrado.
Ainda segundo o relator, a garantia básica da liberdade de expressão do pensamento representa um dos fundamentos em que repousa a ordem democrática, não cabendo ao Judiciário estabelecer padrões de conduta que impliquem em restrição à divulgação do pensamento. “Cabe, sim, insista-se, impor indenizações compatíveis com ofensa decorrente de uma divulgação ofensiva”, completou.
O magistrado lembrou também que o personagem principal do livro é uma figura pública – o falecido Cangaceiro Lampião. “As pessoas públicas, por se submeterem voluntariamente à exposição pública, abrem mão de uma parcela de sua privacidade, sendo menor a intensidade de proteção”, concluiu o relator, citando em seu voto a doutrina de Marcelo Novelino.
Para embasar o seu entendimento, o Des. Cezário Siqueira Neto concluiu que de acordo com o posicionamento do STF, a superação de antagonismos existentes entre direitos fundamentais resolve-se, em cada situação, pelo método da ponderação concreta de interesses, cabendo ao Poder Judiciário, mediante ponderada avaliação das prerrogativas constitucionais em conflito (direito de expressão, de um lado, e direitos da personalidade, de outro), definir, em cada situação, uma vez configurado esse contexto de tensão dialética, a liberdade que deve prevalecer no caso concreto.
“Comungo do pensamento, no sentido de não caber mais retrocesso há um tempo em que, por conta de um carimbo da ‘censura’, os autores ficavam impedidos da publicação de obras literárias, peças teatrais, músicas, e etc, por vezes, de grande conteúdo intelectual. Na atualidade, deve prevalecer o pensamento da responsabilidade pela manifestação de pensamento, mesmo porque a própria sociedade se encarrega de dar o devido valor às publicações, manifestações que contenham conteúdo intelectual”.
Da decisão da 2ª Câmara Cível do TJSE, ainda cabe recurso para as Cortes superiores.”
Eis, assim, alguns aspectos da decisão. Deixarei para analisar os fundamentos da mesma após a publicação do Acórdão. Contudo, antecipadamente afirmo, sem medo de errar, que garantir publicidade a mentiras, desonrosas, máculas, sem que nenhum embasamento de verdade possa haver na alegada conduta sexual de Lampião, caracteriza-se como ofensa irreparável não só à história e à família, como à Justiça e ao judiciário sergipano.
Mas, enfim, resta dizer que é deveras lamentável o entendimento do judiciário sergipano acerca do que seja honra e respeito à imagem da pessoa humana. Lampião pode ser acusado de tudo, e até de homossexual se assim realmente tivesse sido, mas não dessa forma nojenta e injuriosa como a ultrajantemente maquinada pelo autor e ex-magistrado agora favorecido.


Poeta e cronista
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Os frutos (Poesia)

Os frutos


A árvore
e seus frutos

mangueira
e manga

goiabeira
e goiaba

assim o coração
e seus frutos

amor
e verdade

amar
e sensibilidade

presença
e saudade

instante
e eternidade.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 748


Rangel Alves da Costa*


“Tudo segundo o Eclesiastes...”.
“Silêncio e voz...”.
“Luzes e sombras...”.
“Calmarias e tempestades...”.
“Primaveras e outonos...”.
“Vida e morte...”.
“Eis que nada perene...”.
“Nada se eterniza...”.
“Nada para sempre...”.
“Por isso mesmo...”.
“É preciso compreender as situações...”.
“Para que o extremo não surja...”.
“Diante do esperado...”.
“Ora, a morte é dolorosa...”.
“Causa sofrimento e angústia...”.
“Descomedida aflição...”.
“Mas ela não chega como algo estranho...”.
“A morte é certeza, é futuro...”.
“Mais cedo ou mais tarde ela virá...”.
“Ainda que ninguém a compreenda...”.
“Nem a aceite como realidade...”.
“Assim também em outras situações...”.
“Nas relações que se desfazem...”.
“Nas paixões que somem como vento...”.
“Nos amores que encontram outras realidades...”.
“Nas certezas que são refutadas...”.
“Ora, o copo cheio agora...”.
“E a sede sem copo mais tarde...”.
“A fartura na mesa...”.
“Sem qualquer certeza que assim será amanhã...”.
“O vigor e a saúde...”.
“De repente encontrando a enfermidade...”.
“A solidão que encontra companhia...”.
“O sorriso que se vê chorando...”.
“A derrota transformada em vitória...”.
“Nada tão certo como um dia após o outro...”.
“E o outro sempre diferente...”.
“Pois nada mais será...”.
“O que já foi um segundo atrás...”.
“As marcas do tempo...”.
“As rugas na face...”.
“E ontem tão jovem...”.
“E ontem tão diferente de agora...”.
“São os destinos do mundo...”.
“Os encontros inesperados...”.
“Que apenas se demoram a chegar...”.
“Mas repentinamente chegam para dizer...”.
“Que o rochedo de ontem...”.
“É o mesmo pó levado pela ventania...”.
“E que sequer os olhos avistam...”.


Poeta e cronista
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