SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

DRAMA: FLAGROU A ESPOSA COM OUTRO


Rangel Alves da Costa*


Parece narrativa de Nélson Rodrigues, num misto de paixão, sexo e traição, mas deixa de ser ficção para se situar como verdadeira e real tragédia humana. Trata-se de um drama inigualável, vez que o sujeito flagrou com outro homem a esposa que tanta amava.
Diante da desconfortante grandeza do caso, será omitido o nome real do traído, também da traidora e demais envolvidos. Abésio, este será o nome doravante consignado ao indigitado homem, aquele que sentiu seu mundo cair quando viu outro homem já caído por cima de sua madama. E ela dando plenas mostras que estava gostando, pois retribuindo com gulodice.
Pois bem, vamos ao triste relato. Homem trabalhador, distinto entre os conhecidos, cumpridor de suas obrigações, bom esposo, assim era reconhecido Abésio. Apegado demais à esposa, naquele dia resolveu sair mais cedo do trabalho e ter tempo de sobra para escolher um belo buquê de flores a ela destinado. Ela merecia muito mais do que isso, confirmava intimamente o bom esposo.
Assim, passou no mercado das flores, mandou preparar um misto de rosas, orquídeas e violetas e tomou o caminho de casa cheio de contentamento. E felicidade ainda maior porque sabia que ela gostava de flores, principalmente as raras tulipas. E foi seguindo e seguindo, cantando baixinho, não vendo a hora de estender os braços e oferecer aquela porção de primavera.
Como ainda estava muito cedo, quase ao fim da tarde, cerca de uma hora antes do horário normal de chegada, resolveu que faria uma surpresa ainda maior. Decidiu dar a volta e entrar pela porta dos fundos, pois quando ela menos esperasse já o encontraria sorridente com as flores à mão. E assim foi feito, ou quase assim, pois do instante em diante que colocou o pé na cozinha tudo começou a desandar.
Abriu o portão do muro e foi entrando devagarzinho. Da mesma forma após a abrir a porta da cozinha. Mas logo sentiu um silêncio esquisito, e que não era silêncio porque dava pra ouvir algo como sussurro ou gemido vindo do quarto. E também muito estranho que sua esposa ainda não tivesse sido avistada. E algo terrível lhe veio à mente: ela poderia estar passando mal no quarto. E por isso mesmo aqueles gemidos.
Assim que colocou a cabeça além da porta viu a cena lamentável, o mais triste episódio testemunhado em sua vida: a mulher estava com outro em cima da cama, no bem-bom, que nem percebeu a sua presença. E nem perceberia naquele momento, pois ele prontamente recuou atordoado, sem querer acreditar no que tinha visto. Então decidiu voltar pelo mesmo caminho e resolver num balcão de bar o que faria dali em diante.
Bebeu cerveja, misturou com cachaça, e o tempo passando. Mesmo sóbrio já não conseguia raciocinar bem, e depois que a bebedeira foi se espalhando de cima a baixo, então mais parecia um demente. Só saiu do botequim porque o dono pediu licença para fechar. Já passando das onze da noite, seguiu pelas ruas levando uma garrafa de pinga numa mão e o buquê de flores na outra.
Sentou num banco de praça e ali foi ficando entre um gole e outro. De vez em quando deixava escapar o que lhe vinha à voz: Não era ela não, era outra. Cafifonha nunca ia fazer isso comigo. Só quero saber quem era aquela safada que levou homem pra fazer safadeza bem no meu quarto, em cima de minha cama. Mas onde está meu amor, onde está você Cafifonha?
Já madrugada e ele tentando se segurar em pé em cima do banco. Cantava uma velha canção apaixonada e ia arremessando pétala a pétala. Uma cena verdadeiramente triste, uma inesperada paisagem noturna de um homem traído, bêbado e errante na madrugada, espalhando pelo ar aqueles poemas floridos que eram para o seu amor. Uma paixão traiçoeira, adulterina, covarde, promíscua. Que lástima humana é a covarde traição da mulher amada, da própria esposa.
Acabou adormecendo ali mesmo na praça, em cima do banco. Foi acordado pelos primeiros movimentos do amanhecer e então procurou se situar, saber por que havia ido parar ali e as motivações para tal. E o quarto, a cama, os dois na safadeza, tudo foi sendo recordado lentamente. E chorou o choro mais dolorido e sofrido que podia existir. Com a cabeça entre as mãos, um homem traído e seu destino. O que fazer agora?
Simplesmente retornaria para casa. Aquele lar era seu, herança recebida. Ela que tomasse o rumo que quisesse de sua vida. Mas assim que colocou o pé na sala da frente encontrou outra inesperada situação. Em pé, raivosa, cheia de razão, a mulher simplesmente disse:
“Coisa bonita, hein seu cabra safado. Passa a noite todinha arrumando quenga e depois volta pra casa com cara de ontem. Faça como eu, se dê o respeito. Agora volte e vá terminar seu chamego com a rapariga que você estava até agora!”.


Poeta e cronista
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No outono (Poesia)


No outono


Ah este jardim de agora
que um dia chamei de amor
não passa de outono desfolhado
restos dos sonhos que o vento levou

entre sorrisos e contentamentos
colhendo esperanças a cada manhã
eis que chega a voraz tempestade
e nada mais resta que a vida vã

o amor semeado neste jardim
não merecia amanhecer devastado
mas em tudo apenas folha morta
e morto o meu ser nele enraizado.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 877


Rangel Alves da Costa*


“A vida se esconde...”.
“Nos lugares impensados...”.
“Nas feiras livres...”.
“Nos mercados...”.
“Nas praças abandonadas...”.
“Nas montanhas esquecidas...”.
“Debaixo dos pés de pau...”.
“E como é gostoso viver...”.
“Com um bom proseado...”.
“Com uma tarde sem pressa...”.
“Diante de um doce de leite...”.
“Comendo bolo de macaxeira...”.
“Experimentando o pomar...”.
“Tomando banho na chuva...”.
“Nada igual a uma vida assim...”.
“Na singeleza dos campos...”.
“Por entre flores de estrada...”.
“Numa cadeira de balanço...”.
“Adormecido no meio da relva...”.
“Chamando o luar da janela...”.
“Escrevendo versos de amor...”.
“Vida, vida...”.
“Ainda existente...”.
“Ainda tão presente...”.
“Nas caminhadas de cais...”.
“Nas nostalgias da noite...”.
“Nos jardins ressequidos...”.
“Nas folhas que o vento traz...”.
“Na beirada do riacho...”.
“Na conversa sozinha...”.
“Nas ilusões e fantasias...”.
“E há sempre uma vida chamando...”.
“Um instante belo a se viver...”.
“Seja recordando as coisas boas...”.
“Seja sentindo uma doce saudade...”.
“Seja rumando pela estrada...”.
“Seja procurando a voz do silêncio...”.
“Seja ouvindo a canção do vento...”.
“Em tudo a vida...”.
“Em tudo há tanta vida...”.
“Basta abrir a janela do amanhecer...”.
“Basta abrir a porta do nascer do sol...”.
“Basta ouvir o canto passarinheiro...”.
“Basta jogar água na planta...”.
“Basta querer ser feliz...”.
“Basta saber encontrar a felicidade...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

“Jornaleiro, olha o jornaleiro!...”


Rangel Alves da Costa*


O radinho de pilha já alardeava ao alvorecer, mas as notícias precisavam ser confirmadas pelo jornal. Daí que era preciso abrir a janela da frente para ouvir quando o menino passasse gritando o seu inconfundível “Jornaleiro, olha o jornaleiro!...”. Ali, estampadas nas manchetes, esmiuçadas nas letras miúdas e inconfundíveis, estavam os fatos e acontecimentos que espelhavam a realidade local e além-fronteiras.
O velho jornal, parecendo ainda aquecido pela pressão dos tipos sobre a folha, com seu papel cheirando a tinta fresca, despertava um interesse incomum. As mãos ávidas se lançavam sobre as dobras e os olhos pulavam sobre as manchetes. Os editoriais mais pareciam discursos inflamados. E nas páginas seguintes as tramas e os bastidores da política, as novas revelações de escândalos que se prolongavam, as crônicas violentas de uma sociedade aterrorizada. Já assim naqueles tempos e numa continuidade que foi mudando somente as datas.
Desde aqueles idos, nos primeiros sinais da manhã, gritado pelo jornaleiro, jogado na varanda casa, ainda sonolento nas bancas ou encontrado pelas esquinas, o velho jornal testemunhando na escrita o que se comentava de boca em boca ou se espalhava como notícia radiofônica. Não raro que somente alguns pudessem ler as acusações, os escândalos e as revelações melindrosas envolvendo partidos ou políticos, poderosos ou gente de nomeada na sociedade, pois tudo era devidamente abafado com a compra de cada exemplar que fosse encontrado.
E houve um tempo, diante de seu teor revolucionário, que exemplares eram distribuídos às escondidas, em surdina, como se o impresso contivesse sentença e pena para todo aquele que fosse encontrado com aquela perigosa arma anárquico-comunista. De forte teor ideológico, direcionado a militantes, servia praticamente para fortalecer o partidarismo ilegal e servir de doutrinamento. Muitos jornalistas e militantes sofreram no cárcere por serem flagrados carregando debaixo do paletó aquelas páginas subversivas.
Mil palavras e mil versões dos fatos podiam surgir, porém nenhuma confirmação antes que a prova escrita estivesse estampada em letras grandes nas manchetes. Então, somente depois que o jornal relatasse o acontecido é que se poderia dizer de sua veracidade. Assim porque o jornal sempre foi confiado pela apuração e pelo detalhamento dos fatos. Não é por outro motivo que os programas jornalísticos matutinos abrem seus noticiários com a leitura das manchetes dos jornais.
Noutros tempos – e de certa forma continua em alguns aspectos -, o fechamento de uma edição se constituía num verdadeiro martírio. Além da vigilância dos interesses políticos e da censura por muito tempo, as últimas checagens dos acontecidos sempre atrasavam o trabalho das impressoras. E tantas e tantas vezes o velho jornalista, já noite alta correndo, com cigarro no canto da boca e uma xícara de café ao alcance da mão, ainda dedilhava na máquina de escrever aquilo que não poderia ficar sem o conhecimento da população. Tudo artesanal, tudo num penoso ofício para produzir informação.
Aquelas máquinas pararam. As matrizes xilográficas eram muito trabalhosas de serem produzidas e com mão de obra escassa, pois exigindo qualificação e verdadeiro amor na junção das letras contidas nos tipos. Dava um trabalho danado juntar as linhas da escrita e depois colocar placas de metal para garantir os espaços. Mesmo a introdução de novas rotativas e a composição em linotipos, que davam agilidade ao processo, tiveram que dar lugar à impressão offset e outras inovações tecnológicas tão necessárias a um veículo rápido como o jornal impresso.
Este foi o percurso dos primitivos jornais sergipanos e ainda à base da composição manual muitos funcionaram até recentemente, cedendo lugar à composição mecânica e depois às impressoras de última geração. E o jornalismo de cunho mais político que informativo, aos poucos foi cedendo espaço a uma nova linguagem jornalística. Esta, indubitavelmente mais abrangente e buscando se aproximar ao máximo da linguagem proporcionada por outros meios de comunicação, como o rádio, a televisão e o jornalismo online.
Mas chegar ao estágio atual, ao denominado jornalismo profissional em todos os sentidos, incluindo-se aspectos de apresentação gráfica, impressão e distribuição, demandou uma aprendizagem que vem desde os primeiros periódicos e diários sergipanos. Tudo num aprimoramento que remonta O Recopilador Sergipano, editado em Estância pelo Monsenhor Antônio Fernandes da Silveira a partir de 1832, e que foi o primeiro jornal a circular na então província.
A partir de então muitos outros jornais surgiram, entre diários, periódicos e semanários, e também como órgãos oficiais, dentre os quais o Noticiador Sergipano, Correio Sergipense, A Razão, Jornal de Sergipe, Jornal de Aracaju, Diário de Aracaju, Jornal da Cidade, Gazeta de Sergipe, Folha da Praia, O Que, Tribuna Cultural, Cinform, Correio de Sergipe e Jornal do Dia, dentre outros. Logicamente que alguns destes jornais, principalmente os mais antigos, eram verdadeiros porta-vozes de partidos, governos ou ideologias políticas, dando sustentação ou combatendo o poder dominante.
Muito mais noutros tempos que nos atuais, as páginas dos jornais já serviram como verdadeiras tribunas para defesas apaixonadas e explanações hoje consideradas como obras-primas do jornalismo, mas também para enfurecer governantes, militares e a censura em geral. Por isso mesmo que não foram poucos os jornalistas sergipanos que foram perseguidos e presos e sedes de jornais invadidos e lacrados em nome da segurança nacional ou do poder estadual. Era a questão de rezar ou não na cartilha do poder.
Impossível citar todos os nomes que glorificaram e ainda continuam valorizando o jornalismo sergipano. Como dito, nomes existiram que foram além do jornalismo para tornarem em temível tribuna os seus espaços, principalmente através de editoriais e opiniões. Disseram nas páginas dos jornais aquilo que tão bem ecoaria nas câmaras legislativas e, de certa forma, foram ouvidos com retumbância. Daí o temor de tantos pelo que possam encontrar nas páginas de um jornal. Daí também sua fundamental importância como meio de informação.
E que celeiro imenso de jornalistas é Sergipe. Nomes como Orlando Dantas, Manuel Cabral Machado, Mário Cabral, Clodomir Silva, Antônio Garcia Filho, João Oliva, Ariosvaldo Figueiredo, Paulo Costa, Luís Antônio Barreto, José Rosa, Luiz Eduardo Costa, Ancelmo Góes, Ivan Valença, Bemvindo Sales de Campos e tantos outros de uma geração mais recente, demonstram bem que a imprensa escrita sempre foi prodigiosa e inteligente.
E foi para engradecer ainda mais o cenário do jornalismo sergipano que há exatos dez anos surgia um jornal com uma proposta inovadora: Jornal do Dia. Nascido em 2005 através de um grupo de jornalistas sergipanos, já vingou com apresentação gráfica, visual e jornalística, totalmente diferente daqueles moldes utilizados pelos principais diários locais. Um jornal menor, no formato tabloide, mais leve, mais acessível, porém com primoroso conteúdo informativo.
Ao longo dos anos, o Jornal do Dia foi aprimorando sua apresentação gráfica e enriquecendo ainda mais a sua função informativa e analítica, contando ainda com a participação de diversos colaboradores locais e nacionais. Tornou-se, sem dúvida, na primeira leitura quando o assunto é política sergipana. Por isso mesmo que os sites noticiosos, os programas radiofônicos e os bastidores da política sempre repetem que o fato tido como novo já havia sido informado na página 5 do Jornal do Dia.
São, pois, dez anos de informação e coerência com a verdade. Uma bela manchete nas páginas da imprensa sergipana. Uma honra que noutros tempos o menino jornaleiro anunciaria como O dia do Jornal do Dia.


Poeta e cronista
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Depois o grito (Poesia)


Depois o grito

Primeiro o silêncio
de mudez espantosa
depois o murmúrio
de som incompreensível
depois veio a palavra
com toda sua vontade
e então surgiu o grito
assombrosamente aflito

vida, vida
onde você estava
gritava, gritava
vida, vida
continuo esperando
gritando, gritando.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 876


Rangel Alves da Costa*


“Vou mandar uma carta...”.
“E quero dizer...”.
“De toda tristeza...”.
“De tanta solidão...”.
“Dos dias e noites...”.
“Na maior aflição...”.
“Avistando a estrada...”.
“Com dor no coração...”.
“Eu já escrevi...”.
“Outras linhas tortas...”.
“Cartas apressadas...”.
“De todas tremulando...”.
“Como se minha mão...”.
“Fosse a voz embargada...”.
“Com lágrima escorrendo...”.
“Sem dizer que nada...”.
“Mas carta é pouco...”.
“Queria a presença...”.
“Pertinho de você...”.
“Olhando no olhar...”.
“Com muito a dizer...”.
“E pouco falar...”.
“Pois a boca apressada...”.
“Querendo beijar...”.
“Mas ainda assim...”.
“Leia estas palavras...”.
“E tenha verdade em cada dizer...”.
“Mesmo que não precise...”.
“Provar diferente...”.
“O quanto espero...”.
“E amo você...”.
“Eu queria amar...”.
“Mas amor de presença...”.
“Na manhã na noite...”.
“Ao entardecer...”.
“Abrir a janela...”.
“Encontrar você...”.
“Sair pela porta...”.
“E caminhar com você...”.
“Mas nada tão longe...”.
“Que não tenha regresso...”.
“Por isso eu imploro...”.
“Por isso lhe peço...”.
“Sinta a saudade...”.
“Que sinto de você...”.
“Venha para os braços...”.
“Do seu bem querer...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

MARIA SEM JUÍZO


Rangel Alves da Costa*


Maria era uma daquelas que não ouvia conselhos, não ouvia ninguém. Ela saía e voltava quando queria. Ela fumava, ela bebia. E a mãe dizia toma juízo Maria.
Era uma danada a moça, tomando a rédea que queria. Quando tudo se acovardava, era onde ela mais insistia. E por isso o que se ouvia é que toma juízo Maria.
Montava em cavalo brabo, amansava boi valente, era a pura valentia. Desandava sem destino e por onde ninguém sabia. Assim que retornava ouvia que toma juízo Maria.
Andava descalça, por cima de pedra e espinho, e era o que mais fazia. Debaixo do sol ou da chuva, tempo ruim não sentia. E o povo repetindo que toma juízo Maria.
Bebia aguardente, fumava charuto, e quanto mais bebia mais queria. Mas nunca cambaleou, nunca falou besteira, sequer ressaca sentia. Mas todo mundo repetia que toma juízo Maria.
De ferro e aço parecia a Maria. Nunca foi vista chorosa nem lorotando alegria, ninguém ao certo sabia o que ela sempre sentia. Mas ainda assim se dizia que toma juízo Maria.
Quase não conversava com gente, preferindo dialogar com os bichos no dia a dia. Por dentro da mataria se alegrava e até sorria. E para muita gente, assim ela enlouquecia. E viviam repetindo que toma juízo Maria.
Era bonita a danada, bela flor que contagia. Sertaneja de jambo na pele, um terno verniz que irradia. Despertando muito olhar, tanto coração que a queria. Mas sempre se ouvia que toma juízo Maria.
Colocava flor no cabelo, vestido de chita vestia. Mas toda banhada de sol, no seu afazer de tanta correria, quase nenhum perfume se sentia. Mas era cheirosa a danada, de aroma que apetecia. E logo a má língua dizia que toma juízo Maria.
O que dela não sabia logo se inventava. E um monte de coisa se dizia a respeito de Maria. O que não tinha e o que não fazia. E ainda por cima a voz que sempre insistia com o toma juízo Maria.
A fofoca era tanta a respeito de Maria que um dizia ser homem que de mulher se travestia. Outro duvidava até que ela existia. E ainda outra repetia que toma juízo Maria.
Falava às suas costas, mas pela frente não dizia. A sua reação violenta todo mundo conhecia e por isso tanto medo da mulher que assim agia. Mas o que se fazia era dizer baixinho toma juízo Maria.
Maria subiu à montanha, coisa que nunca fazia, e lá se ajoelhou em silêncio na fé que seu peito sentia. Todo mundo estranhou assim que ela descia, pois na face um sorriso, no peito tanta alegria. Ainda assim alguém disse toma juízo Maria.
Depois disso ela sumiu, nem sombra dela existia. Todo mundo se perguntava onde estava Maria, pois tanta falta a danada já fazia. E na preocupação, o que mais se repetia era toma juízo Maria.
Um mês sem qualquer notícia, mas tudo mudou um dia. Na missa dominical eis que aparece Maria, quase irreconhecível no véu que seu rosto encobria. Na mão levava uma Bíblia para acompanhar a eucaristia. E de todo canto se ouvia que toma juízo Maria.
Desde muito tempo que ela já sabia do dizer se alastrando toma juízo Maria. E durante a santa missa resolveu acabar com toda aquela falastria. Pediu licença ao padre enquanto de tudo despia. Nua como veio ao mundo, causou aflição e agonia. Sem saber o que fazia, o vigário apenas disse toma juízo Maria.
Nua saiu da igreja e subiu num cavalo com pose e galhardia. Mas antes de sair cavalgando se virou pra quem assistia e gritou com ousadia: Já que tomaram o meu juízo sou a doida da Maria.
Dona Flosina à janela, que a tudo via e ouvia, deu-se a se benzer e gritar “Toma juízo Maria!”.


Poeta e cronista
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