SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 880


Rangel Alves da Costa*


“O velho calendário...”.
“Continua na velha parede...”.
“Marcando os velhos tempos...”.
“E os novos já tão antigos...”.
“Pois os dias que passam...”.
“São os mesmos dias de sempre...”.
“As mesmas quarta e quinta-feira...”.
“As mesmas segunda e o mesmo domingo...”.
“Nada de novo no calendário...”.
“Ou na vida...”.
“Que também é um calendário...”.
“Envelhecendo a cada instante...”.
“A cada minuto e segundo...”.
“O que parece novo...”.
“Já vem de outros tempos...”.
“O que se tem agora...”.
“Já vem cansado da estrada...”.
“Num passo lento...”.
“Desde os primeiros tempos...”.
“Desde aqueles que a todos precederam...”.
“Desde aqueles que vieram primeiro...”.
“Ora, tudo destino...”.
“Tudo fadário...”.
“Tudo promessa...”.
“E a viver nada mais é...”.
“Que pagar promessas...”.
“Foi prometida a existência...”.
“Foi prometida a realização...”.
“Foi prometida a procriação...”.
“Foi prometida a alegria...”.
“E foi prometido o sofrimento...”.
“Tudo foi prometido...”.
“O descumprimento de quase tudo...”.
“É o que transforma o homem...”.
“Num ser caminho próprio...”.
“Entregue aos desvãos da vida...”.
“Caindo a cada passo...”.
“Provando do pecado em cada situação...”.
“E por isso mesmo...”.
“Que nada constrói...”.
“Que vive tão envelhecido...”.
“Como o velho calendário...”.
“Na velha parede...”.
“Que vive apenas para o dia seguinte...”.
“Sem jamais sair do dia anterior...”.
“Nem viver o tempo presente...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Segurança Pública: os discursos, as teorias e os gabinetes (e a violência por todo lugar)


Rangel Alves da Costa*


Não recordo agora o nome do autor nem do livro, mas não me esqueço do que nele estava descrito. Na obra, o autor mostrava um mundo onde tudo dava errado porque era planejado para tudo dar certo. E sempre dava errado porque o planejamento do mundo perfeito, por mais que contivesse objetivos claros, estratégias de ação e previsão de resultados, nunca considerava a realidade do mundo em si. Quer dizer, planejava-se para um mundo irreal, utópico, enquanto o mundo real continuava padecendo suas dores e sofrimentos.
“As Utopias da Segurança Pública”, bem poderia ser o nome do livro citado. E no seu início talvez fosse inserida uma nota explicativa dizendo que ou se acredita na palavra oficial, oriunda da verdade estatal, ou se acredita nas inverdades divulgadas pela imprensa. Ou se acredita que tudo está sob o mais rígido controle ou se incorre no erro de acreditar que a violência está aumentando, que as estatísticas de assassinatos, roubos e outras violências, estão num crescente assombroso. E assim porque as instituições não mentem, e a imprensa pode mentir. Daí ser melhor acreditar que existe paz em todo lugar e não violência em cada canto.
Tais explicações tão useiras e vezeiras são geralmente utilizadas para camuflar verdades ou apontar realidades somente existentes aos interessados. Assim, toda vez que alguém fala pela segurança pública e diz que tudo está sob controle, que as polícias estão agindo com maior agilidade e eficiência para combater a criminalidade ou que novas estratégias serão colocadas em prática para proporcionar maior segurança ao cidadão, é apenas no sentido de propagar uma imagem corporativa, validando suas ações, e não porque a sociedade esteja sendo efetivamente defendida.
Do mesmo modo, toda vez que a segurança pública vem a público com estatísticas comparativas de índices de criminalidade em outros estados e afirma que o quadro demonstra uma diminuição na incidência local, é porque está tentando mostrar – sem jamais reconhecer a continuidade do problema – que o crime está sendo combatido com eficiência. Mas não consegue explicar por que os homicídios estão aumentando e a criminalidade em geral aterroriza a sociedade por todo lugar. Há, pois, uma incongruência entre o discurso e a realidade. Ou será que os jornais, rádios, canais televisivos e a mídia virtual estão avistando sangue e barbarismos onde só existe tranquilidade?
Ademais, mostrar que a prisão de tantos elementos, que o desbaratamento de quadrilhas, a apreensão de drogas e armas de fogo e a captura de foragidos, com o consequente apinhamento de delegacias e presídios, são ações positivas das forças de segurança, não parece uma atitude inteligente. Na verdade, deve ser mais um reconhecimento da ineficiência estatal e do aumento da criminalidade. Ora, se há tanta gente praticando crime é porque a ação delitiva não está sendo combatida preventivamente. O que significa também dizer que a repressão à criminalidade não está sendo eficiente. A equação é simples: o aumento da repressão faz diminuir a incidência, e vice-versa.
Fazer apreensão de drogas ou de armas de fogo, realizar prisões em flagrante ou através de ordem judicial, só para citar algumas situações, não são e jamais serão exemplos de combate ao crime, pois ações que se desdobram de uma criminalidade anterior. O verdadeiro combate está na ação repressiva para que o fato não aconteça. E quando a segurança pública sabe da existência de locais de comercialização de tais armas, de venda de drogas e de frequente atuação de marginais e nada faz, pois apenas passando em ronda, é porque não está interessada em combater as raízes do mal.
Veículos de ronda que são avistados e reconhecidos ao longe, piscando e avisando ao bandido que está chegando, e depois simplesmente circulam pelos arredores e vão embora, não possuem serventia alguma de combate à criminalidade. Situação diferente ocorre se a bandidagem sentir que a polícia está de vigília, que está presente fisicamente, entrando em ruas e virando esquinas, fazendo abordagens e evitando a ação criminosa. Não há meliante que não tema a polícia e a lei, mas na ausência de repressão se torna o rei do roubo, da boca de fumo, do tráfico, da violência.
Sem a presença diuturna da polícia, se fazendo visível e não apenas passando dentro de uma viatura, não há que se falar em segurança pública. A polícia não deve ser acionada apenas depois que o crime aconteça, pois uma de suas funções é evitar o acontecimento. E só se evita, se faz prevenção da criminalidade, com a presença nas ruas, nos logradouros distantes e nas povoações mais inacessíveis. Os espaços vazios, desprotegidos, largados à sorte de pessoas incapazes de se proteger, acabam sendo ocupados por tudo o que não presta. É uma verdade óbvia demais.
Além disso, fato é que não há polícia científica, modernamente aparelhada ou estrategicamente planejada, que dê resultados apenas nos gabinetes e nos discursos. Ciência e violência nunca se deram muito bem. E por isso mesmo que uma vive tão distante da outra. Enquanto a segurança pública apregoa o moderno no combate ao crime, a bandidagem continua utilizando os velhos métodos com máxima eficácia. Basta ver os números da violência para saber quem está levando a melhor. E se o crime está nas ruas, que seja nas ruas o seu combate.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Um ao outro (Poesia)


Um ao outro


Uma mão que se torna flor
e afaga a face que já é buquê

uma voz que se torna verso
e se declara para quem já é poesia

um silêncio que se torna som
e cantarola para quem já é canção

um querer que se torna desejo
e confessa tudo a quem já é amor

um amor que se torna essência
e se preserva com quem já é a seiva

assim a vida juntando os úteis
e conservando a razão de viver.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 879


Rangel Alves da Costa*


“Não sei se tem muita importância...”.
“A taxa selic ou a reserva cambial...”.
“Quando João está doente...”.
“Maria não tem mais chinelo...”.
“E Custódia perdeu os dentes...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“A alta do dólar e a desvalorização do real...”.
“Quando Amparina perdeu o emprego...”.
“Jeremias não tem como pagar a água...”.
“E Luzinete está morrendo...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“A amortização da dívida pública...”.
“Quando Gerômio quebrou o pé...”.
“Zefina não foi atendida no hospital...”.
“Pureza não tem onde parir...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“O acordo bilateral de comércio...”.
“Quando Pedrinho está sem escola...”.
“Clotilde está sem professor...”.
“E Gemildo não tem caderno nem lápis...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“O investimento em obra estruturante...”.
“Quando a casa de Porcina está caindo aos pedaços...”.
“Tiquinho não tem remédio pra verminose...”.
“E uma epidemia de dengue está matando até mosquito...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“A meta de ajuste fiscal...”.
“Quando a panela está vazia...”.
“Não tem água no pote...”.
“Não tem um pingo d’água pra beber...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“O déficit ou superávit fiscal...”.
“Quando a empresa demitiu mais de cem...”.
“Não há médico no hospital...”.
“E não há nem como fazer curativo...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“O gasto com representatividade diplomática...”.
“Se o salário não chega ao meio do mês...”.
“Houve aumento na energia e na gasolina...”.
“E a feira está cada vez menor e mais cara...”.
“Não sei se tem muita importância...”.
“Ser sexta ou oitava economia do mundo...”.
“Quando a pobreza cresce e se alastra...”.
“Os meninos estão cada vez sob marquises...”.
“As drogas dizimam a juventude...”.
“Eu não sei se nada disso tem importância...”.
“Mas sei onde dói e faz sofrer...”.


Poeta e cronista
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domingo, 8 de fevereiro de 2015

FRUTA DO MATO


Rangel Alves da Costa*


Não faz muito tempo que cheguei do mercado. Aqui pertinho, cerca de dois quilômetros, fui andando para aproveitar o belo instante da manhã sem o calor escaldante de logo mais. Aliás, enquanto escrevo já sinto o sol avançando sobre tudo e a fornalha do dia sendo aberta. E nada de chuva.
E saí cedinho, antes mesmo de o mercado abrir, porque é ao redor de sua entrada principal, pela área cimentada de acesso, onde é possível encontrar a fruta quase tirada do pé ou recolhida do chão. Ali a verdadeira fruta do mato. E fruta do mato porque nascida rente aos quintais, em árvores frutíferas crescidas sem ter que a mão do homem lançasse qualquer semente. Por isso fruto somente avistado quando vem a estação.
Felizmente, ainda restam lugares onde as árvores frutíferas despejam suas dádivas a cada período do ano. O homem ainda não conseguiu providenciar a cruel devastação, a mão humana ainda não lançou mão do machado ou da serra elétrica para derrubar aquele alimento e amparo econômico. Na verdade, mesmo o pouco arrecadado com a venda acaba se tornando de suma importância para famílias empobrecidas e relegadas pelos poderes.
Creio que logo após a madrugada aqueles vendedores chegam espalhando seus cestos, latas, baldes e sacos, cheios de mangaba, goiaba, mamão, caju, abacate, graviola, manga, jenipapo e toda fruta que surgir na estação. É preciso aproveitar porque o período é curto e de repente ninguém mais encontra uma manga sequer. Passa algum tempo sem nada ser avistado e de repente aquele amarelado doce, saboroso, perfumado, surge como um sorriso ao olhar.
Como dito, são frutas quase tiradas do pé mesmo, pois chegam bonitas, olorosas, cheirosas, trazendo ainda folhas e outros fiapos de mato. Depois de encobrir o chão com um pedaço de lona, vão espalhando os molhos ou mesmo deixando tudo no cesto para que a pessoa escolha. E os preços são diferenciados por causa disso, vez que se a escolha for pessoal o preço é um pouco maior.
Tais frutas chegam diretamente de pomares, roças e plantações localizados nos arredores da capital sergipana, de sítios e pequenas propriedades em municípios vizinhos como Barra dos Coqueiros, São Cristovão, Santo Amaro, Pirambu e outros. Os vendedores acordam ainda com tempo escuro e na madrugada já estão com seus produtos prontos para a viagem. E logo chegam ao mercado central de Aracaju.
Chegando ao mercado, têm de acomodar suas colheitas do lado de fora. E assim porque chegam cedo demais e não é permitido que adentrem ao local para comercializar seus produtos nem que permaneçam defronte à entrada após as seis, quando os portões são abertos. A partir desse horário os fiscais chegam enxotando para que se afastem. Então vão para o outro lado da rua e continuam vendendo o que ainda resta.
Não podem permanecer defronte ao mercado para não competir com os vendedores do local. E estes, mesmo comercializando frutas já adormecidas, cobram preços verdadeiramente absurdos para um mercado central. O que aqueles ambulantes vendem por dois reais lá dentro não sai por menos de cinco. Mas tem gente que prefere pagar muito caro de banca em banca. Eu não, pois aprecio não só a fruta fresca como o preço acessível. Sem falar que a cada compra uma ajuda importante é repassada àqueles que madrugaram para chegar até ali.
Pena que eles não trazem melancia, minha fruta preferida. Mas nesta manhã fiz a escolha de outra espécie que tenho como adoração: manga. Logo avistei aquelas delícias olorosas espalhadas por cima da lona. Cinco por dois reais, ou mesmo seis, dependendo da quantidade da compra. E saí de lá com uma boa quantidade e já pensando no instante de morder aquela doçura, explorar cada fiapo da casca.
Ao menos durante os três próximos dias terei muita manga para dar outro sabor à vida. Mas fico entristecido só em saber que tão curta é a sua estação. E já está no fim.


Poeta e cronista
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Canção da noite (Poesia)


Canção da noite


Há uma canção na lua
e estrelas em nostalgia
e você na minha noite
saudade que não queria

há uma lua cantando
e estrelas dando a mão
ouço a valsa da noite
naquele imenso salão

e te convido a bailar
nas noites de solidão
ouvindo o canto da lua
saudade triste canção.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 878


Rangel Alves da Costa*


“Há mistério em toda saudade...”.
“Há amor maior em toda saudade...”.
“Não há somente o desejo de ter...”.
“Mas de ter de uma forma jamais pensada...”.
“O sentimento de ausência...”.
“Não é somente pela distância...”.
“Mas como se fosse perda...”.
“Como se jamais pudesse ter...”.
“E por isso mesmo tanta dor...”.
“Tanta aflição e tanto sofrimento...”.
“O que demonstra ser a saudade...”.
“Muito além que mera recordação...”.
“Que mera vontade de estar à presença...”.
“E surgem as lágrimas...”.
“As tristezas cortantes...”.
“As terríveis sensações...”.
“Os medos e os desesperos...”.
“A ruína da pessoa saudosa...”.
“E não precisa que a saudade...”.
“Seja provocada por alguém distante...”.
“Ou que tenha partido desde muito tempo...”.
“Não precisa que seja assim...”.
“Pois a saudade faz doer quase na presença...”.
“Causa ferida quase lado a lado...”.
“Provoca sofrimento a pouca distância...”.
“E tudo pelo medo...”.
“Pelo terrível medo de perder para sempre...”.
“A pessoa que tanto ama...”.
“É um amor demonstrado na ausência...”.
“É o amor tornado verdadeiro...”.
“É o amor precisando se expressar...”.
“E dizer que venha...”.
“E dizer que volte...”.
“Pois estou esperando...”.
“Para enfim confessar...”.
“O que tanto guardei comigo...”.
“Para um dia revelar...”.
“Assim é a saudade...”.
“Uma imaginação, um pensamento...”.
“Que indo além da recordação...”.
“Força criar asas para voar...”.
“Abrir portas para ir atrás...”.
“E também para o sofrimento...”.
“A angústia e o lamento...”.
“Pela distância entre o desejo...”.
“E a impossibilidade da presença...”.


Poeta e cronista
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