SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 7 de abril de 2015

ENCONTROS COM JORGE AMADO


Rangel Alves da Costa*


Que acreditem ou não, mas a verdade é que de vez em quando encontro e proseio com Jorge Amado, num tempo mais recente ou mais distante. Haveriam de dizer ser impossível encontrar uma pessoa com mais de treze anos de adeus. Mas digo que não. E repito que o reencontro todas as vezes que necessito alentar minha alma com a memória nordestina contada por esse baiano de sangue e alma sergipana. E nada melhor que o próprio mestre para falar sobre sua pujança criativa, num misto de ficção e memorialismo.
Não é coisa do meu tempo, mas já avistei Jorge Amado saindo da casa fortificada do Coronel João Amado de Faria, seu pai, lá pelas terras sangrentas das disputas cacaueiras. Era apenas um rapazote cheio de planos e sonhos, mas sabendo que seu ideário comunista seria de difícil aplicabilidade num país de carnaval. E quando se iniciou na escrita escolheu O País do Carnaval como título de seu primeiro livro.
Então me dizia ele, tempos depois, ao sopro da ventania cheirando a pescado do Recôncavo, que abdicava da fantasia literária para abraçar apaixonadamente a história do povo, da gente suada e trabalhadora, da gente do cais e dos prostíbulos, da gente das ladeiras e dos terreiros africanos, da gente escondida nas distâncias do mundo, de uma gente tão bela que está em cada e diante de cada um.
E os coronéis, perguntei a ele. Por que muitos de seus livros vestem linho branco, moram em casarões, são donos de bicho e de gente, são senhores absolutos do mundo do cacau, da política, dos cabarés afrancesados, dos jagunços e das tocaias? Esta foi a exata pergunta. De início Jorge silenciou para em seguida passar a mão naquela cabeleira esbranquiçada e dizer que o coronel povoou a vida baiana, quiçá a nordestina.
E continuou: A história nordestina também foi escrita pelo coronel. Mas o que nem todos conhecem, e isso eu faço questão de contar em meus livros, é que o coronel só se fez poderoso – principalmente na região cacaueira da Bahia – depois de vencer a batalha da vida. Ora, quase todos chegaram às terras inóspitas atrás do sonho de pedaço de chão. E disputou, na bala e na tocaia, o seu quinhão de sobrevivência. Mas depois, como a ambição nunca se contenta com o conseguido, aqueles homens foram guerreando uns com os outros, matando, expulsando, até que as terras fossem acrescidas e os imensos latifúndios formados. Desse modo, o bonito da história do coronel é a sua saga para chegar aonde chegou e alcançar o poder que alcançou. Tudo na emboscada, no sangue, na guerra sem fim. E tendo ao fundo, sobressaindo-se ao sangue jorrado, o dourado cativante, misterioso e também maldito do cacau.
Estava ao lado de Carybé experimentando licor de pitanga na região do Mercado Modelo. E dele ouvi que ali também o seu mundo, o mundo de sua escrita e de uma raiz que se estendia por todos os recantos baianos. Essa vida e esse jeito de viver, esse povo tão santo e pecador, tão trabalhador e espertalhão, tão católica e terreirista, é o povo que abriu a porta dos meus livros e fez o quis sem pedir licença. Os meninos que andejam de canto a outro, que já os nomeei de capitães da areia, os vendedores de rosários e miçangas, as baianas dos tabuleiros, as prostitutas das casinholas mais adiante, são mais que personagens para mim, eis que filhos e frutos de uma realidade das ruas, dos mercados, do cais, ladeiras, quintais de tambores, no leito das águas.
Dias atrás, após mais uma vez passar os olhos sobre alguns de seus romances, tomei nota de alguma coisa e fui diretamente à casa da Rua Alagoinha, no Rio Vermelho. E dele ouvi: Tem razão. Meus romances são sem floreios, o que tenho de dizer o faço pela boca do povo. Se o povo fala assim eu não posso rebuscar a linguagem do povo. E também tem razão quando afirma que tenho predileções por alguns personagens. Mas sua pergunta era outra. Então digo que ao lado de mulheres guerreiras, como Tereza Batista, Tieta e Gabriela, ou de outras apenas prendadas como Dona Flor, também gosto de minhas prostitutas, cafetinas e virgens prometidas. Gosto do povo de atabaque e tambor, das tendas e dos milagres, dos feitiços e crendices do outro mundo. Gosto dos coronéis, dos jagunços e matadores, das mocinhas tímidas e sonhadoras como Malvina. Gosto desse mundo sem véu onde reinam os Badaró, os Silveira, uma gente do quilate de Ramiro Bastos e Amâncio Leal. Gosto de gente como Maria Machadão, Caolha e todas aquelas que passavam a perna nos velhos senhores do cacau e do sangue.
Que não se espante. Não é difícil reencontrar Jorge Amado e prosear com o amado Jorge. Não precisa ouvir vozes do outro mundo. Os portais do encontro estão na minha estante. Em cada livro o mestre contando a sua própria história e a saga de um povo entremeada de tocaias grandes e amores cheirando a cravo e canela. E tudo com a cor do cacau e cheirando a mar grande que se torna infinito.


Poeta e cronista
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De estátua a pássaro (Poesia)


De estátua a pássaro

Cansado de ser estátua
de repente a pedra salta
e pula, corre e vibra
e brinca e solta pipa
e se sente cheia de vida
cheia de força e vigor

e nunca mais a estátua
quis ser pedra imóvel
nem se cansar de nada
e contente pela estrada
quis mais quer caminhar
quis ser pássaro e voar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 936


Rangel Alves da Costa*


“Não, não tenho medo...”.
“De coisa do outro mundo...”.
“Mas apenas das coisas deste...”.
“Não tenho medo de bicho-papão...”.
“Mas da falsidade humana...”.
“Não tenho medo de alma penada...”.
“Mas das almas bem vivas...”.
“Não tenho medo de espectros...”.
“Mas da realidade cortante...”.
“Não tenho medo do medo”.
“Mas da verdade pujante...”.
“Ora, os mortos morreram...”.
“Mas os vivos atormentam...”.
“O desconhecido é suposição...”.
“Mas o conhecido está adiante...”.
“Por isso que o medo...”.
“O verdadeiro medo...”.
“A pessoa deve ter da realidade terrena...”.
“Medo dos ajustes governamentais...”.
“Medo do aumento da inflação...”.
“Medo do preço no mercado...”.
“Medo da conta que chega...”.
“Medo do preço do remédio...”.
“Medo do olhar astuto que passa...”.
“Medo de estranhos furtivos...”.
“Medo das promessas políticas...”.
“Medo de ligar a televisão...”.
“Medo de abrir os jornais...”.
“Medo de sair de casa...”.
“Medo de estar em casa...”.
“Medo de petista...”.
“Medo de quem fala em seriedade...”.
“Medo de injustiça...”.
“São as coisas deste...”.
“E não do outro mundo que dão medo...”.
“Ora, os fantasmas apenas se divertem...”.
“Mas o homem não...”.
“Ele causa arrepios...”.
“Ele causa espanto e temor...”.
“Ele é capaz de tirar o seu sono...”.
“O seu sonho e tudo...”.
“A cada instante da vida...”.
“Pois como diz a lição...”.
“Deve-se temer a vida...”.
“E não a morte...”.
“Deve-se temer o presente...”.
“E não o imaginário...”.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 6 de abril de 2015

SETE MENINOS


Rangel Alves da Costa*


João, José, Antônio, Pedro, Raimundo, Sebastião e Luís, pela ordem de idade, eis os nomes dos meninos. Os mesmos meninos que eram mais conhecidos pelos seus apelidos: Tiziu, Pardal, Calango, Velame, Sanhaço, Arupemba e Carcará. Seus pais: João José dos Santos e Maria Euflosina dos Santos.
Eram, pois, sete meninos os filhos de Seu João e Dona Maria. Nenhuma menina havia nascido do casal de sertanejos. E os filhos vindo ao mundo como uma escadinha, um após o outro, num embuchamento tão próprio das distâncias escondidas das vastidões sertanejas. Quem olhasse pra um parecia estar vendo o outro.
A diferença de idade era pouca entre um e outro, considerando a mesma linhagem familiar. João, o mais velho, não passava dos treze anos, enquanto Luís, o mais novo contava apenas com dois. Mas quem olhasse para o mais velho não diferenciava em nada do terceiro dos filhos, pois tudo na mesma feição miúda, magra, desalentada.
Era a pobreza dos pais, com todos vivendo em permanente situação de miséria, que tornava aquela família como personagens de um quadro humanamente doloroso de Portinari: Os miseráveis dos sertões nordestinos, os entristecidos e esqueléticos, os relegados ao esquecimento.
A secura da terra era a mesma secura da boca, do olhar, do estômago, da vida. A estiagem do tempo era a mesma estiagem do fogão de lenha, da panela de barro, da moringa e do pote. A escassez de vida pelas paisagens era a mesma escassez de sonhos, desejos, alentos esperançosos.
E que moldura repetidamente triste a desse quadro nordestino ainda presente nas paredes das brenhas sertanejas: Um casebre de cipó e barro, uma moradia de mesa de estaca e tamborete de tronco de pau, um fogão de lenha, uma rede, esteiras pelo chão de barro. E lá dentro ou lá fora, pelos arredores esturricados, uma família.
A família de João e Maria e seus sete meninos: Tiziu, Pardal, Calango, Velame, Sanhaço, Arupemba e Carcará. Do menor ao maior, tudo escondendo por dentro o desejo de simplesmente ser iguais aos demais meninos, às demais pessoas da vida. E como são os meninos e as pessoas da vida?
Ora, geralmente se imagina que aos meninos é destinado um tempo diferenciado de felicidade na vida. A meninice é uma fase de brincar, de sorrir, de contentamento, desejos e aspirações. E a normalidade da vida como o caminho de trabalho, de construção, de constante busca por dias melhores.
Mas o que fazer perante um meio e uma realidade que nega a plena vivência da meninice e o trabalho do adulto? O que fazer num meio onde a terra se nega a vingar qualquer semente e os meninos que por ela caminham não tem direito à felicidade da meninice, por lhes faltar a comida, a escola, o lápis, o caderno, o brinquedo, o sonho, a infância?
João, o maior, apelidado de Tiziu, já compreendendo a realidade em que vive, espera somente ter mais idade para tomar a estrada e seguir adiante. Enquanto isso some na mataria e vai chorar por cima da pedra grande.
José, ou Pardal, foi se tornando cada vez mais emudecido. Praticamente não fala nada com os pais ou os irmãos. Contudo, seus pais avistam nos seus olhos todas as palavras que poderia dizer. E o olhar está sempre distante e entristecido.
Antônio, ou Calango, ganhou esse apelido porque gosta de correr pela terra seca atrás de calango sertanejo. Mas nem sempre como brincadeira, pois os seus pais já o avistaram colocando o pequeno corredor em cima da brasa. E depois comer escondido.
Pedro, ou Velame, bem poderia ser chamado de Folha Seca de tão magrelo e amiudado que é. Costuma passar o dia inteiro nos fundos da casa se dizendo fazendeiro, pois possui duas pontas de vaca que cuida com carinho e aboio.
Raimundo, ou Sanhaço, parece nascido para a enfermidade. Sua magreza é tamanha que mais parece feito só de costelas. Frágil demais, caminha até a porta e retorna para a sua esteira estendida num canto.
Sebastião, ou Arupemba, tão pequenino quanto o mais novo, não faz na vida outra coisa senão chorar por comida. Como o alimento é coisa rara ali, de vez em quando a mãe é forçada a colocar folha de juazeiro na boca.
Já Luís, ou Carcará, o mais novo, não está nem aí para a vida ou para o que aconteça ao redor. Seu interesse é com o barro da parede e assim vai se fartando o dia inteiro. Amanhece e anoitece com o barro da vida.
Assim vivem os sete meninos. Assim vivem também João e Maria. E assim uma infinidade de famílias e meninos pelos sertões afora.


Poeta e cronista
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Amorosa saudade (Poesia)


Amorosa saudade


Onde está meu amor
onde você está
mando minha saudade
voando a te procurar
e no retorno ao ninho
um canto de passarinho
tão feliz por amar

uma flor da manhã
uma fruta de mato
uma rede estendida
um dengo no corpo
um cafuné no cabelo
tanto amor para dar
mas onde você está

onde está meu amor
onde você está
abra logo essa porta
quero a vida cantar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 935


Rangel Alves da Costa*


“Sou o amor...”.
“Que canta com a voz da velha canção...”.
“Que está rimado na poesia...”.
“Que se faz profunda saudade...”.
“Que é voz no silêncio...”.
“Que cheira a perfume de flor...”.
“Sou o amor antigo...”.
“O amor singelo...”.
“O amor de abraço...”.
“O amor de carinho...”.
“O amor de terno beijo...”.
“Sou o amor...”.
“Que é levado como retrato...”.
“Que tem prazer em ser expressado...”.
“Que está escrito nas nuvens...”.
“Que é recordado debaixo do luar...”.
“Que chega no sonho da noite...”.
“Que está na insônia como necessidade...”.
“Sou o amor real...”.
“O amor de promessa...”.
“O amor de respeito...”.
“O amor de asa e voo...”.
“O amor sentimento...”.
“O amor mistério e palavra...”.
“O amor amado e cortesão...”.
“O amor acima de tudo...”.
“Pois em tudo a razão de amar...”.
“Sou o amor que espera no cais...”.
“Sou o amor de vela acesa...”.
“Sou o amor na prece e na oração...”.
“Sou o amor semente na terra...”.
“Sou o amor de coração na vidraça embaçada...”.
“Sou o amor no diário da vida...”.
“Sou o amor que chega com a brisa...”.
“Sou o amor de dengo e cafuné...”.
“Sou o amor do presente de flor...”.
“Sou o amor de serenata ao luar...”.
“Sou o amor amor...”.
“O amor que ainda está preservado...”.
“O amor no laço de fita...”.
“O amor esperança...”.
“O amor que é feliz e sorri...”.
“O amor que espera o retorno...”.
“O amor que ouve a palavra...”.
“O amor que retribui o amor...”.
“Apenas um amor como antigamente...”.


Poeta e cronista
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domingo, 5 de abril de 2015

A MARINETE DE SEU VAVÁ


Rangel Alves da Costa*

 
Durante muito tempo e até o início dos anos 80, alguns municípios e povoações do Alto Sertão Sergipano do São Francisco, principalmente Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo e Canindé do São Francisco, ficavam quase que completamente isolados da capital. O difícil acesso, num percurso de cerca de duzentos quilômetros da capital sergipana, se dava por estrada de chão esburacada e perigosa. Era uma viagem penosa, difícil, com nunca menos de cinco horas dentro de um ônibus velho e vagaroso demais.
Situação difícil também para aqueles possuidores de veículos próprios. Os problemas maiores eram sempre a imprestabilidade da estrada e a distância da capital. Comumente uma viagem cansativa, torturante, em meio aos solavancos, calor e miséria de todos os lados. Sofrimento também aos feirantes que no sábado tinham de subir em paus de arara para a aquisição de farinha, frutas, feijão e outras mercadorias na feira da Boca da Mata (Glória). Retornavam ao entardecer para o suprimento da feira no outro dia. Assim aconteceu com Zé de Iaiá, Delino, Zé Preto, Mané Azedim, Pedro Bola, Florêncio e tantos outros.
Tal situação provocava imensos transtornos à população, principalmente quando surgia um grave problema de saúde para ser resolvido. E foi também por causa disso que por muito tempo todo parto de mulher sertaneja ou se dava pelas mãos das velhas parteiras ou na cidade alagoana de Pão de Açúcar, no outro lado rio, seguindo também por uma estrada de chão, porém muito mais curta. As dores do parto tinham de ser suportadas até a travessia do rio na balsa ou canoa. Pouco tempo depois o menino já estava chorando nas mãos habilidosas do Doutor Djalma. O que este senhor fez pela população sertaneja é algo indescritível.
Desse modo, era o sertanejo praticamente acuado na sua distância e escondidos, sem ter acesso digno aos grandes centros.  Quem não possuía transporte próprio nem seguia até Curralinho, na beirada do rio, e de lá tomava transporte fluvial até Propriá e daí rumava até Aracaju, o jeito mesmo era se submeter à longa e cansativa viagem na velha e famosa marinete de seu Vavá. Era da Viação São Pedro, mas ninguém avistava o velho ônibus senão com a feição de seu motorista mais usual: Seu Vavá. Que homem generoso e servidor e, por isso mesmo, jamais poderia ser esquecido na memória sertaneja.
Seu Vavá, homem simples, motorista experiente, sempre bondoso e amigueiro, todos os dias fazia o longo percurso. Saía às cinco da manhã da rodoviária velha de Aracaju, passava por municípios como Maruim e Siriri, parava em Nossa Senhora das Dores para o lanche ou ligeiro café, seguia rumo a Feira Nova, parava novamente em Nossa Senhora da Glória, em seguida tomava a pista em direção a Monte Alegre até entrar nas terras de Poço Redondo. Já estava em torno das dez da manhã, pois próximo às dez e meia despontava pela Rua de Baixo, atual Av. Alcino Alves Costa. À uma hora da tarde dava início ao mesmo percurso de retorno. Chegava à capital depois das cinco.
A chegada da marinete de Seu Vavá era uma verdadeira festa na cidade, principalmente se nas proximidades da Festa de Agosto, quando sertanejos chegavam do Rio ou São Paulo para visitar familiares. Quando o ônibus dobrava a esquina da casa de Dona Dóce e adentrava na Praça da Matriz, já encontrava o sombreado da árvore defronte à casa de Tia Cordélia completamente tomado de gente aflita, nervosa, em tempo de desmaiar. Tudo num misto de ansiedade, expectativa e alegria. Mas também de sofrimento quando a porta da marinete se abria e a feição esperada não surgia para o abraço.
Quantas cenas memoráveis se deram com a chegada da marinete e a descida dos sertanejos com ares, vozes e trejeitos sulistas. Quando homem, geralmente com calça boca de sino, com nesga, camisa florida, cabelo à moda black-power ou repuxado na brilhantina, imensos anéis sobre os dedos, e a saudação com um sotaque tão esmerado de causar inveja a qualquer carioca ou paulista. Com a mulher não era diferente, só que esta descia com óculos imensos, tomando quase todo o rosto, toda pintada e adornada de bijuterias reluzentes, sempre trazendo à mão uma frasqueira. Situações verdadeiramente cinematográficas, mas era assim que ocorria.
Mas não com todo mundo. Difícil acreditar, mas quanto mais tempo a pessoa tinha de vivência no sul mais retornava cheia de simplicidade e carinho, ainda que já economicamente fortalecida. Eram visitas de reencontros, saudades, renovação dos laços familiares. Sentia-se que ao invés de transformá-los o distanciamento ia produzindo mais apego aos seus e amor ao sertão, mais humanismo e valorização de suas raízes.
Era, pois, Seu Vavá o responsável pelas chegadas e partidas de toda essa gente sertaneja. Mas não era nem uma viagem comum nem uma marinete comum. Muita gente reclamava porque Seu Vavá, metido a namorador, parava demais na estrada. Realmente tinha algumas namoradas no percurso, principalmente uma em Sítios Novos. Mas parava muito mais para atender à população sertaneja que enviava carta, bilhete, dinheiro, queijo, galo, capão, melancia e abóbora, o de tudo. Era apenas motorista, porém servindo como carteiro, emissário, transmissor de recados. E gente assim não existe mais.
Em Poço Redondo e região muitos ainda recordam de Seu Vavá e sua marinete. Em 74 subi nela quando vim estudar na capital. Ainda rememoro o ônibus se afastando lentamente e eu quase naufragando nos olhos d’água.
 

Poeta e cronista
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