SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TREM DA MEMÓRIA


*Rangel Alves da Costa


Já não sei se trem de partida ou de chegada. A estação já estava vazia, triste, silenciosa.

Os bancos estão desocupados, folhagens dançam no chão de terra. A ventania chega trazendo poeira, um cachorro late uma saudade distante.

Um cheiro diferente no ar. Não sei se de fumaça do trem ou da aparência antiga e maltratada do lugar. Mais de cem anos de adeuses, abraços, despedidas.

De um lado, ao longe, apenas a curva da montanha entreaberta para sua passagem; do outro, onde o olhar vai se perdendo na finura dos trilhos, apenas uma cor sombria de desalento.

Os trilhos não deixam marcas, não indicam da proximidade ou da já distante partida. Nos encaixes, madeira velha divisando o percurso, nenhum sinal de calor do instante.

Queria ouvir uma voz, encontrar alguém que soprasse notícia, dissesse sobre a hora do trem, falasse sobre quem chegou ou partiu, quando o próximo apito será ouvido.

Uma velha mala num canto, um chapéu alanhado esquecido num banco, um envelope retorcido já sendo levado pela ventania. Um lenço branco espalhado no meio dos trilhos, e até parecendo ainda molhado.

A portinhola dos bilhetes de viagem dança ao sabor da aragem. Passo o olhar pelo interior e vejo apenas papéis rasgados numa caixa de chão. Um velho birô, uma cadeira mais velha ainda. Um calendário amarelado de tempo na parede.

Avisto ainda uma antiga fotografia daquela estação. Tudo igual, a mesma solidão, a mesma feição, apenas um trem que desponta imponente soltando fumaça. No local de desembarque e espera apenas um cachorro magro com a língua de fora.

Imagino que as pessoas deixaram de existir na fotografia. Estavam ali com seus lenços à mão, seus buquês perfumados, seus braços prontos aos abraços. Ou talvez apenas para dizer adeus, para a despedida, envoltas em lágrimas e aflições.

Sei que não existe estação de trem tão sozinha, tão desalentada, parecendo esquecida de tudo. Ela é sempre viva, cheia de vida, tomada de passos e de olhares, ainda que fantasmas de um tempo que se foi no último vagão.

Olho a montanha adiante, lá onde o trem faz a curva, e me pergunto quantas saudades, quantas alegrias, quantas feições entristecidas já avistou pela janela.

Dentro do trem, as pessoas nem percebem que estão sendo observadas pela natureza, pelas montanhas e pedreiras, por tudo ao redor. Mas vão passando e deixando suas impressões no que fica.

Por isso mesmo aquela montanha ser tão conhecida como os olhos entristecidos da natureza. Se as pessoas avistadas estivessem sempre felizes, sorridentes, cheias de contentamento, seu nome certamente seria outro.

O mesmo acontece com as distâncias que vão sumindo do outro lado. Um descampado largo que dá passagem aos trilhos, para mais adiante ir estreitando até sumir no olhar. Se o trem vai naquela direção, certamente que os lenços acompanhavam o apito e a fumaça até tudo sumir de vez.

Mas nem avistava mais. Os olhos molhados se encarregam de nublar o horizonte, de turvar a saudade que já não olha pra trás. Melhor assim, menos dolorido assim, pois não há nada mais triste que viver tendo à mente o trem seguindo, partindo, sumindo, desaparecendo.

Não sei quantas horas são; não sei se restará outro trem para este dia. Preciso viajar pra qualquer lugar, mas também desejo ardentemente que alguém chegue à estação, ao longe me aviste e molhe o lábio para o reencontro.

Mas não sei, verdadeiramente não sei se partirei ou continuarei por aqui, esperando o trem, o apito, a fumaça do trem. O relógio parou, o horizonte está nublado, não sei da hora do dia.

Agora ouço um apito, mais um, mais outro. E como meu coração bate assim, feito apito de trem, quando está com saudade. 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu sertão...


Craibeira em Flor - Estrada de Curralinho, Poço Redondo, sertão sergipano







Minhas roupas velhas (Poesia)



Minhas roupas velhas


Gosto de roupas
roupas novas e bonitas
folgadas e confortáveis
até mesmo caras demais
para o pouco que possuo

mas gosto ainda mais
das roupas velhas
minhas velhas roupas
já quase rasgadas
mesmo descosturadas
tronchas e tortas
mas que são carícias
quando me abraçam
e não querem mais sair
do meu corpo
 
minhas roupas velhas
são como aquele pé
um pé de laranja lima
que fez o menino chorar
quando sumiu de seu quintal
 
e o meu quintal tem varal
onde minhas roupas velhas
se estendem desajeitadas
querendo logo me vestir
me abraçar e me amar.
 
 
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - tenho um voto pra vender


*Rangel Alves da Costa


Isso mesmo: eu tenho um voto pra vender. Ora, todo mundo vende, negocia com voto, então por que eu não poderia negociar o meu? E direi mais: digo logo o preço sem rodeios. E assim porque, diferente das artimanhas de muitos, que utilizam de ardis para a negociação, eu digo logo o valor e pronto. Também não aceito outra coisa que não seja dinheiro, e vivo, na mão, despejado logo no bolso. Não me venha com saco de cimento, com telha, com oferta de pagar receita, com cesta básica, com nada disso. Também não aceito que ofereçam pagamento de fatura, de boleto ou de conta no bar ou na mercearia da esquina. Eu mesmo sei onde devo e onde devo e quanto tenho que pagar e, por isso mesmo, não preciso de ninguém que faça isso por mim. Então me passe logo o dinheiro que o seu voto estará garantido. Quanto? Isso eu não posso dizer aqui não. Vamos ali conversa baixinho, ao pé do ouvido, quase como um segredo. Mas logo aviso o seguinte: já que vai roubar muito se eleito for, então traga pacote, e não nota!

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

FEITIÇOS, AMORES E OUTRAS MAGIAS


*Rangel Alves da Costa


Jurou que não amaria mais ninguém, mas de repente se viu misteriosamente atraída por alguém que jamais imaginaria lançar nem um tiquinho de amoroso olhar. Depois soube que o tal rapaz havia encomendado um “serviço de atração amorosa”. Já era tarde demais, pois, apaixonada, se entregou.

De hora pra outra sentiu tudo mudar. Não tinha fome, uma vontade danada de chorar, então resolver se aconselhar com o velho rezador, que para muitos não passava de feiticeiro. E logo ouviu que seu problema não era de saúde ou de qualquer outra coisa, mas espiritual. E mais: o espírito desejava um macho em sua vida!

Histórias assim acontecem além da conta. Gente que leva calcinha roubada em varal, retrato tirado às escondidas, fios de cabelos, nomes e corações desenhados em papel de feira, e tudo para ser colocado no alguidar da vela preta. Tudo feitiço.

Entretanto, não é somente a mandinga que serve para atrair, prender, ou fazer reverter o invertido, ou como simples promessa de tudo isso. Na verdade, há um tipo de magia que passa a interferir na pessoa sem que a mesma tenha passado perto de um terreiro. É o feitiço oculto, aquele dos desejos normalmente aflorados.

Não adianta dizer que não vai mais amar, que desistiu de compartilhar abraços e beijos, de ser do outro mais que de si mesmo. Não adianta porque em certas coisas a pessoa não manda, não tem suficiente poder para dizer que não, que não vai mais fazer.

Há feitiço em tudo. O coração mesmo depõe contra a pessoa. Tudo se faz para não se envolver, para dizer não, para evitar esse primeiro gole de paixão, mas não haverá jeito. O coração é bruxo e traiçoeiro, age ocultamente e quando a pessoa percebe já está no caldeirão dos perdidos.

Mas eu amei e me arrependi, pois sofri demais. Assim se diz. Contudo, não vai muito e a mandinga já está preparada. E a pessoa passa a se envolver como se nada tivesse dito. E o pior que se entregando total e cegamente àquilo que tanto desejou evitar. E por amor, e por amar, enfrenta tudo, até o sofrimento e a dor.

O feitiço está em tudo. Melhor não dizer que desta água não beberei ou que os meus passos jamais caminharão por esta estrada. Evita-se ao máximo, tudo faz para cumprir o prometido. Mas de repente a mandinga do acaso ou a bruxaria do desejo escondido novamente ataca.

E não adianta se benzer, tomar banho com sal grosso, borrifar-se de água benta, sair com Bíblia debaixo do braço ou com santo na ponta da língua. Tudo acontece como encantamento, como cegueira, como coisa do outro mundo. De repente a pessoa estará nos braços da perdição.

Em tudo há um feitiço atiçando e desnorteando a vida. Eu não queria, mas... Fiz tudo para evitar, mas não houve jeito... Apenas experimentei, mas não queria que fosse assim... Minha força fraquejou ante o pecado e então pequei... Assim acontece. Tudo como se o livre-arbítrio despudoradamente ocultado fosse a chave para a inversão.

Ora, o corpo em si já é um caldeirão de enfeitiçamento. O corpo é fascínio, é encanto, é sedução. O corpo é chama que queima além da medida e braseiro que chameja ainda que esteja em cinzas. E possui duplo significado: o da provocação e o da atração.

O feitiço está nos dois, tanto na provocação como na atração. Ao provocar, desata os laços desconhecidos do outro e já não pode dizer que não tem culpa pelo que venha acontecer. Ao atrair, eis que chama para si as consequências tanto do se permitir como do desejo do outro. Um jogo perigoso demais, vez que mais forte que o feitiço é a cegueira da possessão.

Não brinque com coisa séria, então. Lute com todas as forças do mundo para que nem enfeitice nem seja enfeitiçado. Uma simples atitude, como uma roupa curta demais ou um erotismo exagerado no andar, pode ser aquilo que o feitiço tanto esteja esperando.

Ninguém está livre do mal ou da maldade, uma verdade. Contudo, quem brinca com fogo se queima, quem anda nu pode sentir frio, quem sai na escuridão pode encontrar o indesejado. Os olhos estão vendo, as mãos querem tocar, as lascívias querem satisfazer seus instintos pecaminosos.

Use um amuleto. Sim, use um amuleto. Use um patuá, um talismã, uma pedra sagrada. Coisa do outro mundo, sobrenatural, difícil de encontrar? Não. De jeito nenhum. Nenhum talismã é mais forte que a força própria, que o desejo próprio, que a certeza de saber o que faz e o que deseja com cada ação.

Pronto. Está salvo. Até que abra a porta e sinta um diferente fascínio por viver, por amar, por ser feliz. Mas já não será feitiço, e sim o encantamento de um coração que coerentemente desperta para viver, amar e ser feliz. 
 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu sertão...




Meu escritório, meu endereço na capital sergipana




A arca (Poesia)


A arca

 
Eu não quis mais avistar
os lixões com seus pássaros famintos
os silêncios tristes nos olhos dos meninos
 
eu já não suportava alimentar
de restos de restos e putrefatos grãos
os animais que me estendiam as mãos
 
quanto me doía ouvir os lobos
uivando suas fomes em sertões tão pobres
e no alto da montanha a fartura dos nobres
 
então das lágrimas famintas eu enchi o mundo
e toda a lonjura da terra logo se tornou em mar
e todos então correram para a arca alcançar
 
mas somente os pássaros meninos
mas somente os lobos de tristes destinos
e aqueles bichos jogados aos desatinos
 
estavam salvos ao amanhecer!
 
 
 
Rangel Alves da Costa