Eu sei que o amor...
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Palavra Solta - agora chove...
*Rangel Alves da Costa
Escritorblograngel-sertao.blogspot.com
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
O VESTIDO DA MULHER DE BRANCO
A Mulher
de Branco é tão misteriosa e amedrontadora que ninguém sabe ao certo sua origem
nem a real motivação de aparecer toda vestida de branco após o anoitecer nas
curvas dos caminhos, nas lombadas das estradas, apenas surgindo de forma
fantasmagórica.
Também
estranho que nem todo mundo consiga avistá-la, pois apenas alguns cujo olhar de
repente se assombra diante daquela imagem assustadora. Dizem até que, como num
voo, às vezes se lança em direção à vidraça dos veículos. Para depois sumir.
Muitos
falam que não passa de uma lenda, de um velho mito que vai se espalhando de
geração a geração. Outros, contudo, não só asseveram sua existência como
confirmam a sua visão. Muitos juram por tudo na vida já tê-la avistado em
determinado lugar de uma estrada.
E muitos
até confirmam os lugares mais propícios ao seu encontro. E dizem: “Depois
daquela curva, logo na descida, é ali que ela aparece, e do nada, apenas como
um vulto todo vestido de branco. E é uma mulher, pois muitas vezes dá até pra
ver a feição esbranquiçada da morte e os cabelos desgrenhados dos fantasmas
levantados dos túmulos”.
Em Poço
Redondo, no sertão sergipano, dizem que na pista em direção a Canindé de São
Francisco, principalmente depois da fazenda Santa Rita até chegar ao Mulungu,
vez por outra a mulher é avistada nos beirais da estrada.

A visão é
tão repentina e assustadora que muita gente sequer acredita no que está diante
de si. Somente depois do susto é que vem o medo. Muito motorista se mija nas
calças, procura cabelo na cabeça sem encontrar, tremelica tanto que jura nunca
mais passar por ali depois do escurecer.
E dizem
ainda que a tal mulher também gosta de subir na garupa da moto de solitário
viajante. O motoqueiro vai seguindo tranquilo, despreocupado, mas de repente
sente um peso maior na garupa. Olha pra trás e logo avista a roupa branca da
desconhecida. E também logo sente o bafo frio dos mortos no seu cangote.
Assim já
aconteceu, e com gente que não aceita ser chamado de mentiroso. Contudo, eu
conheço outra história de outra mulher de branco. Da mulher cujo vestido
branco, de casamento, todos os dias é avistado pendurado na parede de uma
casinha sertaneja de barro e cipó.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Flor (Poesia)
Flor
Meu amoré uma flor uma mulherapenas com ternurase iras com afetose dissabores e por isso mesmouma flor em meus braçosdesabrocha e perfumada vempara o seu
colibri que com todo amorbeija a flor. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - a saudade
*Rangel Alves da Costa
Escritor
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
TREM DA MEMÓRIA
Já não sei
se trem de partida ou de chegada. A estação já estava vazia, triste,
silenciosa.
Os bancos
estão desocupados, folhagens dançam no chão de terra. A ventania chega trazendo
poeira, um cachorro late uma saudade distante.
Um cheiro
diferente no ar. Não sei se de fumaça do trem ou da aparência antiga e
maltratada do lugar. Mais de cem anos de adeuses, abraços, despedidas.
De um
lado, ao longe, apenas a curva da montanha entreaberta para sua passagem; do
outro, onde o olhar vai se perdendo na finura dos trilhos, apenas uma cor
sombria de desalento.
Os trilhos
não deixam marcas, não indicam da proximidade ou da já distante partida. Nos
encaixes, madeira velha divisando o percurso, nenhum sinal de calor do
instante.
Queria
ouvir uma voz, encontrar alguém que soprasse notícia, dissesse sobre a hora do
trem, falasse sobre quem chegou ou partiu, quando o próximo apito será ouvido.
Uma velha
mala num canto, um chapéu alanhado esquecido num banco, um envelope retorcido
já sendo levado pela ventania. Um lenço branco espalhado no meio dos trilhos, e
até parecendo ainda molhado.
A portinhola dos bilhetes de viagem dança ao sabor da aragem. Passo o olhar pelo interior e vejo apenas papéis rasgados numa caixa de chão. Um velho birô, uma cadeira mais velha ainda. Um calendário amarelado de tempo na parede.
Avisto
ainda uma antiga fotografia daquela estação. Tudo igual, a mesma solidão, a
mesma feição, apenas um trem que desponta imponente soltando fumaça. No local
de desembarque e espera apenas um cachorro magro com a língua de fora.

Imagino
que as pessoas deixaram de existir na fotografia. Estavam ali com seus lenços à
mão, seus buquês perfumados, seus braços prontos aos abraços. Ou talvez apenas
para dizer adeus, para a despedida, envoltas em lágrimas e aflições.
Sei que
não existe estação de trem tão sozinha, tão desalentada, parecendo esquecida de
tudo. Ela é sempre viva, cheia de vida, tomada de passos e de olhares, ainda
que fantasmas de um tempo que se foi no último vagão.
Olho a
montanha adiante, lá onde o trem faz a curva, e me pergunto quantas saudades,
quantas alegrias, quantas feições entristecidas já avistou pela janela.
Dentro do
trem, as pessoas nem percebem que estão sendo observadas pela natureza, pelas
montanhas e pedreiras, por tudo ao redor. Mas vão passando e deixando suas
impressões no que fica.
Por isso
mesmo aquela montanha ser tão conhecida como os olhos entristecidos da
natureza. Se as pessoas avistadas estivessem sempre felizes, sorridentes,
cheias de contentamento, seu nome certamente seria outro.
O mesmo
acontece com as distâncias que vão sumindo do outro lado. Um descampado largo
que dá passagem aos trilhos, para mais adiante ir estreitando até sumir no
olhar. Se o trem vai naquela direção, certamente que os lenços acompanhavam o
apito e a fumaça até tudo sumir de vez.
Mas nem
avistava mais. Os olhos molhados se encarregam de nublar o horizonte, de turvar
a saudade que já não olha pra trás. Melhor assim, menos dolorido assim, pois não
há nada mais triste que viver tendo à mente o trem seguindo, partindo, sumindo,
desaparecendo.
Não sei
quantas horas são; não sei se restará outro trem para este dia. Preciso viajar
pra qualquer lugar, mas também desejo ardentemente que alguém chegue à estação,
ao longe me aviste e molhe o lábio para o reencontro.
Mas não
sei, verdadeiramente não sei se partirei ou continuarei por aqui, esperando o
trem, o apito, a fumaça do trem. O relógio parou, o horizonte está nublado, não
sei da hora do dia.
