SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Eu sei que o amor... (Poesia)


Eu sei que o amor...


Eu sei
que o amor vai além
do apenas amar
do apenas sentir
do apenas querer
do apenas estar
 
eu sei
que o amor foi além
para ser a fogueira
para ser vendaval
para ser dia santo
e também carnaval
 
eu sei
que o amor é também
todo bem e todo mal
que é a doença e a cura
um destino não lido
que o peito transfigura.
 

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - agora chove...


*Rangel Alves da Costa


Já é noite e agora chove. Um silêncio de chuva que muito me agrada, ainda que os sentimentos sejam mais despertados pelos pingos que caem. Noturno chuvoso é assim: melancolias derramadas a me tomar por inteiro. Noite chuvosa é assim: saudades e nostalgias em correntezas e encharcamentos. Na vidraça molhada não há coração desenhado nem frase de amor de um dia, sequer de angústia ou desilusão. Da janela aberta, apenas o olhar para o mundo molhado adiante. Não haverá lua nem estrelas brilhando no alto. Adiante do portão, os pingos avançando sobre minha pele e sobre a aridez da solidão. A rua parece nua, os gatos não passam, os cachorros não ladram. As crianças não brincam nem as vizinhas tomam as calçadas para cuidar da vida dos outros. Portas e janelas fechadas, chão molhado, uma luz no asfalto caída do poste. Esqueci meu lenço no varal, mas não quero chorar. Mas chove, e chove por todo lugar. Lá fora e dentro de mim.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O VESTIDO DA MULHER DE BRANCO


*Rangel Alves da Costa

A Mulher de Branco é tão misteriosa e amedrontadora que ninguém sabe ao certo sua origem nem a real motivação de aparecer toda vestida de branco após o anoitecer nas curvas dos caminhos, nas lombadas das estradas, apenas surgindo de forma fantasmagórica.

Também estranho que nem todo mundo consiga avistá-la, pois apenas alguns cujo olhar de repente se assombra diante daquela imagem assustadora. Dizem até que, como num voo, às vezes se lança em direção à vidraça dos veículos. Para depois sumir.

Muitos falam que não passa de uma lenda, de um velho mito que vai se espalhando de geração a geração. Outros, contudo, não só asseveram sua existência como confirmam a sua visão. Muitos juram por tudo na vida já tê-la avistado em determinado lugar de uma estrada.

E muitos até confirmam os lugares mais propícios ao seu encontro. E dizem: “Depois daquela curva, logo na descida, é ali que ela aparece, e do nada, apenas como um vulto todo vestido de branco. E é uma mulher, pois muitas vezes dá até pra ver a feição esbranquiçada da morte e os cabelos desgrenhados dos fantasmas levantados dos túmulos”.

Em Poço Redondo, no sertão sergipano, dizem que na pista em direção a Canindé de São Francisco, principalmente depois da fazenda Santa Rita até chegar ao Mulungu, vez por outra a mulher é avistada nos beirais da estrada.

A visão é tão repentina e assustadora que muita gente sequer acredita no que está diante de si. Somente depois do susto é que vem o medo. Muito motorista se mija nas calças, procura cabelo na cabeça sem encontrar, tremelica tanto que jura nunca mais passar por ali depois do escurecer.

E dizem ainda que a tal mulher também gosta de subir na garupa da moto de solitário viajante. O motoqueiro vai seguindo tranquilo, despreocupado, mas de repente sente um peso maior na garupa. Olha pra trás e logo avista a roupa branca da desconhecida. E também logo sente o bafo frio dos mortos no seu cangote.

Assim já aconteceu, e com gente que não aceita ser chamado de mentiroso. Contudo, eu conheço outra história de outra mulher de branco. Da mulher cujo vestido branco, de casamento, todos os dias é avistado pendurado na parede de uma casinha sertaneja de barro e cipó.

A mulher foi abandonada no dia do casório, enlouqueceu e se trancou para sempre. Uns dizem que já morreu, outros dizem que não. Mas toda noite o vestido some do local onde vive dependurado. E um vulto vestido de branco é avistado andando pelas estradas. 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu sertão...


Pelos sertões, entre chegadas e partidas, as memórias e as saudades...





Flor (Poesia)


Flor

 
Meu amor
é uma flor
 
uma mulher
apenas
 
com ternuras
e iras
 
com afetos
e dissabores
 
e por isso mesmo
uma flor
 
em meus braços
desabrocha
 
e perfumada vem
para o seu colibri
 
que com todo amor
beija a flor.
 
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - a saudade


*Rangel Alves da Costa


Como é bonito o ser assim tão sertanejo. Como é bonito o olhar, o falar, o sentir de um povo assim tão sertanejo. Uma gente que é jardim e que é flor, que é de decente simplicidade, que é tão grandiosa na humildade. Uma gente de carinho e de afeto, de meiguice e de presença boa. Uma gente que de diz palavras belas em seus silêncios tão acanhados. Um povo que abre a porta e vem ao abraço apenas pelo sorriso sincero que nos afaga. Um povo que vai ficando aonde vive e a gente segue sentindo saudade. Uma gente que ao longe nos olha e o nosso coração faz pulsar com desejo de voltar. Um povo que é do meu sertão. E que é irmão. E por isso mesmo tanta saudade. Saudade por que olhei pra trás e avistei aquelas vidas ainda juntinho da porta da frente. Saudade por que o que ficou para trás é tudo aquilo que eu gostaria que estivesse sempre comigo. O povo do meu sertão.

Escritor


segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TREM DA MEMÓRIA


*Rangel Alves da Costa


Já não sei se trem de partida ou de chegada. A estação já estava vazia, triste, silenciosa.

Os bancos estão desocupados, folhagens dançam no chão de terra. A ventania chega trazendo poeira, um cachorro late uma saudade distante.

Um cheiro diferente no ar. Não sei se de fumaça do trem ou da aparência antiga e maltratada do lugar. Mais de cem anos de adeuses, abraços, despedidas.

De um lado, ao longe, apenas a curva da montanha entreaberta para sua passagem; do outro, onde o olhar vai se perdendo na finura dos trilhos, apenas uma cor sombria de desalento.

Os trilhos não deixam marcas, não indicam da proximidade ou da já distante partida. Nos encaixes, madeira velha divisando o percurso, nenhum sinal de calor do instante.

Queria ouvir uma voz, encontrar alguém que soprasse notícia, dissesse sobre a hora do trem, falasse sobre quem chegou ou partiu, quando o próximo apito será ouvido.

Uma velha mala num canto, um chapéu alanhado esquecido num banco, um envelope retorcido já sendo levado pela ventania. Um lenço branco espalhado no meio dos trilhos, e até parecendo ainda molhado.

A portinhola dos bilhetes de viagem dança ao sabor da aragem. Passo o olhar pelo interior e vejo apenas papéis rasgados numa caixa de chão. Um velho birô, uma cadeira mais velha ainda. Um calendário amarelado de tempo na parede.

Avisto ainda uma antiga fotografia daquela estação. Tudo igual, a mesma solidão, a mesma feição, apenas um trem que desponta imponente soltando fumaça. No local de desembarque e espera apenas um cachorro magro com a língua de fora.

Imagino que as pessoas deixaram de existir na fotografia. Estavam ali com seus lenços à mão, seus buquês perfumados, seus braços prontos aos abraços. Ou talvez apenas para dizer adeus, para a despedida, envoltas em lágrimas e aflições.

Sei que não existe estação de trem tão sozinha, tão desalentada, parecendo esquecida de tudo. Ela é sempre viva, cheia de vida, tomada de passos e de olhares, ainda que fantasmas de um tempo que se foi no último vagão.

Olho a montanha adiante, lá onde o trem faz a curva, e me pergunto quantas saudades, quantas alegrias, quantas feições entristecidas já avistou pela janela.

Dentro do trem, as pessoas nem percebem que estão sendo observadas pela natureza, pelas montanhas e pedreiras, por tudo ao redor. Mas vão passando e deixando suas impressões no que fica.

Por isso mesmo aquela montanha ser tão conhecida como os olhos entristecidos da natureza. Se as pessoas avistadas estivessem sempre felizes, sorridentes, cheias de contentamento, seu nome certamente seria outro.

O mesmo acontece com as distâncias que vão sumindo do outro lado. Um descampado largo que dá passagem aos trilhos, para mais adiante ir estreitando até sumir no olhar. Se o trem vai naquela direção, certamente que os lenços acompanhavam o apito e a fumaça até tudo sumir de vez.

Mas nem avistava mais. Os olhos molhados se encarregam de nublar o horizonte, de turvar a saudade que já não olha pra trás. Melhor assim, menos dolorido assim, pois não há nada mais triste que viver tendo à mente o trem seguindo, partindo, sumindo, desaparecendo.

Não sei quantas horas são; não sei se restará outro trem para este dia. Preciso viajar pra qualquer lugar, mas também desejo ardentemente que alguém chegue à estação, ao longe me aviste e molhe o lábio para o reencontro.

Mas não sei, verdadeiramente não sei se partirei ou continuarei por aqui, esperando o trem, o apito, a fumaça do trem. O relógio parou, o horizonte está nublado, não sei da hora do dia.

Agora ouço um apito, mais um, mais outro. E como meu coração bate assim, feito apito de trem, quando está com saudade. 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com