SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O beijo (Poesia)


O beijo

 
Fechei os olhos
e beijei
e voei
 
planei na nuvem
em asas de amor
viajei
 
sem laços
aos espaços
me doei
 
e naquele lábio
o mais doce ninho
pousei.


Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – a vida de um rio


*Rangel Alves da Costa

 

Curralinho, curralzinho, curral pequeno de gado, assim nasceu um viver que no sertão foi gestado. Na secura sertaneja, de flor de mandacaru e arvoredo alquebrado, um rio pulsou sua veia e abriu na terra seca o seu caminho aguado. São Francisco, Velho Chico, Opará, Rio Sertão, uma escrita do antepassado. Um fascínio que se alonga de coração todo molhado. Sua poesia vai sendo escrita em cada remanso espelhado. De canto a outro de suas margens, um povo ribeirinho de tanto orgulho encharcado. Pescador, canoeiro, um barqueiro e todo ofício que nas ribeiras é gestado. Lança rede, ajeita anzol, quer o peixe, a tarrafa faz redemoinho espalhado. O nego d’água em batim, a lenda da aparição, no leito o mito fantasiado. E na mansidão a água passa pelo mesmo caminho do passado. Na curva do rio a saudade do vapor e da carranca, do apito e do aceno, de um tempo docemente recordado. Cadeiras pelas calçadas nas alturas de um céu, temor que as águas avançassem e encharcassem as moradias de um povo assustado. Mas logo as águas baixavam e o rio era o mesmo rio, margeando aquela vida e o seu horizonte azulado. Um berço de lavadeiras e o seu canto afinado, mãos que esfregam e enxaguam, que estendem nos beirais o presente e o passado. E na singeleza do canto, o orgulho ribeirinho ecoado: “Lavo dor e sofrimento, lavo o lenço tão molhado, passo sabão na tristeza e no viver amargurado. Afasto toda sujeira, quero o brilho da alegria, quero um peito ensolarado...”.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

TÁ TUDO ERRADO


*Rangel Alves da Costa

 

O Brasil é, infelizmente, o País do errado, do torto, do absurdo, do atravessado, do incompreensível. Mas é também a pátria do injusto, do desleal, do corrompido, da ilicitude, da safadeza.

Nada – ou quase nada – está certo no Brasil. Uma nação que parece primar pelo censurável e imoral, pela covardia criminosa e pela vanglória de ter poderes lamacentos e políticos desonestos.

Culpa de quem? Culpa de quem ainda se fanatiza por política, faz do partidarismo uma paixão doentia, endeusa o ladrão e aplaude o tirano e o genocida. Culpa de quem se deixa enganar, ainda que o punhal esteja lhe sangrando inteiro.

Mas não somente o eleitor está errado, pois mais errado ainda o eleito que desvirtua de seus compromissos. Mas seria querer demais acreditar num político, não é mesmo? Lança candidatura com ares e promessas de seriedade, de honestidade e moralismo, mas depois com porcos se mistura. E dá no que dá.

Tá tudo errado. Um governante que só pensa em matar, em dar golpe, em propagar o medo e a perseguição, e ainda possuir um bando de loucos apaixonados lhe aplaudindo, só mesmo no país do tudo errado.  

Justiça, a desonra é o teu nome. A justiça do injusto é ilegal e desleal. Para que a elaboração de lei, a tipificação das condutas nos códigos, se nada tem valia perante o julgador político e acovardado?

Não deveria existir julgamento político. O judiciário deve agir em obediência à lei e não querer de um ou outro julgador. Todo julgamento deveria ser pautado na letra da lei, do que se ajusta ou não como crime, infração ou ilicitude, e não pelo livre convencimento do julgador.

Qual livre convencimento pode ter um julgador escolhido pelo mandatário ou governante? Ora, se ele foi alçado ao poder pelo poder, então ao poder continuará devendo obediência. Quer dizer a lei, a lei passa estar no poder governante e não nos códigos, nas normas, nos decretos.

Um exemplo de uma aberração costumeira no judiciário. O processo chega ao conhecimento de determinada turma com muita antecedência do julgamento. Mas na hora de decidir um julgador pede vista, sob alegação de que precisa conhecer melhor os autos. O que isso significa?

Significa esperteza, safadeza, meio de obtenção de valores indevidos. Ora, se um julgamento está empatado e um dos togados pede vista, quanto seu voto passará a valer? E sem falar que os demais julgadores podem mudar o seu voto após o retorno dos autos.

Por essas e outras, a assertiva de que o Brasil não é um País sério possui sua razão. Um País que para assistir um Big Brother jamais pode ser tido como sério. Um País onde o crime compensa e as rachadinhas continuam enriquecendo muita gente, logicamente não pode ser visto com seriedade.

Basta observar a qualidade da música que vem surgindo. Porcaria e mais porcaria. Basta observar o que acontece no sistema prisional e o que acontece no sistema de Brasília. Os verdadeiros ladrões, criminosos de gravata, afundando o País pela roubalheira, enquanto negros e pobres são esquecidos nas jaulas dos absurdos.

Tá tudo errado. A morte se tornou estatística e a dor em verdadeiro escárnio. O governo dá esmola não pensando em ajudar a população mais carente, mas apenas pensando em voto. Um litro de gasolina a milhões e ninguém tem culpa. Um botijão de gás a milhões e ninguém tem culpa.

Tá tudo errado.

 

Escritor


Lá no meu Sertão...


Velho Chico no sertão sergipano de Curralinho, em Poço Redondo



Colheita (Poesia)


Colheita


Este sombreado de agora
foi da semente que plantei um dia
 
esta fruta madura e gostosa
é da árvore que plantei um dia
 
os pássaros chegam cantando
nas folhagens que plantei um dia
 
de uma semente que vingou
a imensidão que acalanta o meu dia
 
também plantei sonhos e esperanças
e tudo floresceu em paz em felicidade
 
e é o que colho ao amanhecer
no pomar de cada dia.
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Cajueiro


*Rangel Alves da Costa

 

O frondoso cajueiro não existe mais, mas o arruado Cajueiro persistiu homenageando seu nome. Suas ribeiras altas, descendo em direção ao Velho Chico, acabam molhadas pelas águas serenas e azuladas, qual verdadeira piscina num leito que escorre de muito distante. Por toda a margem ribeirinha de Poço Redondo, certamente que Cajueiro possui o melhor banho, ainda que seu espaço não seja grande como o de Curralinho, por exemplo. Os bares são muitos, as comidas também, mas sempre o peixe sobressaindo. Do outro lado, avista-se Entremontes, povoado pertencente a Piranhas, nas Alagoas. Mas Cajueiro permanece viva pela força atrativa do rio, principalmente por suas águas convidativas. A povoação em si, em suas poucas ruas, já não mais abriga a largueza familiar de antigamente. Muitos moradores se bandearam para a cidade, para os assentamentos ou outros destinos. Grande parte das casas foi comprada por turistas, e estas transformadas em suntuosos aconchegos de fim de semana. Apenas umas poucas famílias e pessoas ali enraizadas permaneceram bebendo da seiva das memórias tantas. Lugar de grandeza histórica, de renomadas famílias sertanejas e ribeirinhas, de grandes coiteiros nos tempos cangaceiros (principalmente os da família Félix), de políticos e desbravadores do mundo. Mais adiante, nas entranhas de suas serras, fica a famosa Gruta do Angico, local onde o cangaço foi enterrado em 38. E no casarão abandonado do coiteiro Adauto Félix, sobressaindo-se em relegada beleza numa parte mais elevada do povoado, até hoje acontece coisas de arrepiar. Segundo dizem, de vez em quando as sombras de Lampião são avistadas por ali. 

 

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

ENTRE FLORES E ESPINHOS: SERTANEJO MUNDO


*Rangel Alves da Costa

 

 Só quem sofre sabe o tamanho do sofrimento. Seu Zé do casebre sabe disso. Mas Dona Maria louva todas as manhãs nascidas no mundo sertanejo. Uma felicidade sem fim.

Sertão é mundo diferente. Não é todo mundo que suportaria ser sertanejo não. Precisaria ser de pedra, de grão, de todo de pau, de espinho de xiquexique, de destemor.

Sertanejo como terra seca, dura, petrificada. Sertanejo feito gente e bicho, feito sorriso e tristeza numa só feição. Nem tudo mundo suportaria isso não. De sol e de chuva, de morte e de vida.

Quanto sofre o sertanejo! Muito já ouvi falar. E sofre mesmo, e muito mesmo. Só Deus sabe o que esse povo - que é o meu povo - padece na sobrevivência do seu meio.

O homem da cidade não entende nem o tiquinho do que realmente passa o homem das distâncias matutas. Quando a seca vem braba, faminta, esturricando tudo, então tudo desanda num desalento danado.

E não é sofrimento pela terra seca, mas por toda a sequidão que passa a existir. O corpo em magreza, o menino faminto, o bicho berrando, o entrar dia e sair dia sem que nada chega como alento.

Mas então as esperanças surgem como verdadeiro milagre ou como forma de suportar as dores da vida. Quando o sertanejo se apega à fé, à prece, à promessa, à oração, enfim, à certeza que o amanhã será melhor, então tudo muda.

E tudo muda por que a fé se torna como um remédio contra os males que tanto afligem. E na fé a esperança. Daí que muito se diz que tudo

Pelos campos desalentados sertões adentro, nenhuma demora das chuvas consegue afastar as esperanças.

O olhar do sertanejo é um rosário tomado de esperanças. As mãos do sertanejo é um oratório de esperançoso céu.

A chuva não veio ainda, mas chegará no tempo certo. Assim diz o sertanejo. Tudo no tempo de Deus. Assim confirma outro sertanejo.

Mas antes que as chuvas cheguem, os campos áridos já espelham o quanto brota de esperanças. Tudo seco ao redor, mas a catingueira floresce bela.

A flor da catingueira, como um brinco dourado descendo rente a face magra da plante, demonstra o quanto de esperança viva nasce e renasce a cada instante.

Pelas estradas, enquanto os marrons e acinzentados entristecem ainda mais a murcheza do mato, então surge o alaranjado-avermelhado da flor e do fruto da jurubeba.

Um encanto aos olhos, mas também a certeza de que a seiva da esperança continua viva em cada pedaço de chão, cada tufo de mato, em cada planta que entristece por falta d’água.

Assim também nas flores e nos frutos das cactáceas sertanejas. A palma definhando, secando, morrendo na fornalha do sol, mas de repente avista-se uma vida florando sobre seus espinhos.

O mandacaru, o facheiro, o xiquexique, tudo comprova o quanto de vida vive quando já se acredita que tudo já esteja sem vida.

As flores surgem, as pétalas se abrem, os frutos tomam forma e cor, os bagos se adocicam, as polpas se avolumam, as cores espantam entre os acinzentados ao redor.

A vida sertaneja floresce assim. A vida sertaneja floresce nas esperanças tantas e que nunca murcham completamente nas plantas e no homem.

A planta floresce e frutifica pela invisível gota d’água do tempo. Aquele mesmo tempo de Deus. O homem floresce e frutifica pela fé incontida no seu coração.

A fé santa brotada de Deus. E pela prece, pela promessa, pela oração. Até que o olhar, logo ao abrir a porta ao alvorecer, diga que vai chover.

E os braços, como aqueles braços sempre abertos do mandacaru em direção aos céus, se elevem para os sagrados agradecimentos e para receber chuva boa.

Uma esperança nunca perdida. Nada teve fim, nada morreu perante o sertanejo. A fé sertaneja sempre resguarda a esperança de que amanhã será bem melhor.

E talvez seja por isso mesmo, pela fé incontida que brota em esperança, que a vida sofrida é suportada. E que o sofrimento seja diminuído pelo remédio sagrado da fé.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com