NO REINO DO REI MENINO – XXXVI
Rangel Alves da Costa*
Em Oninem, a notícia sobre o desaparecimento da coroa quase vira o castelo de papo pro ar. Protegida como estava, sem que inimigos, malfeitores ou ladrões tenham sido vistos por perto, seria simplesmente impossível que ela tenha sido roubada de uma hora pra outra na presença do pequeno rei e das demais pessoas que moravam na residência real. Fazer suposições, imaginar que tenha sido este ou aquele, seria por demais arriscado e até provocar o cometimento de uma grave injustiça, de uma acusação que mais tarde pudesse ser desmentida. E agora, o que fazer?
Além dos problemas que já tinha pra resolver, esse inesperado acontecimento deixou o pequeno Gustavo numa penosa situação. A coroa roubada seria, por enquanto, a salvação de Oninem, vez que o dinheiro adquirido com a venda seria estritamente aplicado no aumento da segurança do reino, no pagamento dos salários atrasados, na renovação do armamento de defesa e na melhoria da cavalaria, além de uma necessária reforma nas instalações do castelo e na melhoria dos serviços básicos que os cidadãos oninenses tanto necessitavam. Com o roubo nada disso seria possível, colocando todos em situação de grande vulnerabilidade frente às forças inimigas.
Espantado com aquela ocorrência, o menino rei ordenou que fizessem as investigações que o caso requeria e efetuassem minuciosa busca tanto no castelo, como nas residências e por todos os cantos e recantos do reino, sem deixar um palmo sequer sem ser vasculhado. Ademais, tinha urgência e necessidade que a coroa fosse encontrada por diversos fatores: não chegar ao conhecimento dos inimigos, por representar o símbolo mais valioso daquele reino e porque ricos interessados na sua aquisição estavam prestes a chegar. O que dizer, então, se eles chegassem e não encontrassem o objeto tão desejado?
Contudo, mesmo com essas preocupações todas, o rei impediu que imputações maldosas fossem feitas contra esta ou aquela pessoa. Tinha certeza de que o roubo não tinha sido praticado por pessoa estranha ao reino, mas sim por quem conhecia bem o dia a dia dali e sabia muito bem como se dirigir ao local sem levantar suspeita ou ser percebido. Mas quem poderia ter feito isso? O ladrão seria do reino e ali estaria, mas qualquer acusação seria muito precipitada e até prejudicial ao bom andamento das investigações.
Gustavo convidou os seis cavaleiros auxiliares do rei para uma reunião de urgência. Na sua concepção, cada menino opinando, tendo oportunidade de expressar livremente suas opiniões, até que se poderia chegar a um consenso sobre como deveriam agir dali por diante. Assim, todos sentados ao redor de uma redonda, incluindo-se entre esses todos o indispensável Bernal, começaram a expor suas opiniões sobre o caso e em seguida o pequeno rei perguntou a cada um o que, naquele momento, achariam melhor que fosse feito.
Dinadan, o estrategista, afirmou que deveriam avisar aos guardas das fronteiras para revistar minuciosamente todos aqueles que quisessem sair das terras do reino. Galaaz, o destemido, pediu que o rei colocasse dez homens à sua disposição que ele mesmo encontraria a coroa a qualquer custo. Hoel, o silencioso, teve que falar e disse que era só aguardar um pouco que o ladrão se entregaria, devolvendo a coroa. Lucan, o pacificador opinou no sentido de que seria melhor para o momento esquecer um pouco a coroa e procurar outros meios para tirar o reino daquela situação. Lamorak, o mensageiro, disse que os moradores do reino deveriam ser responsáveis pelas buscas à coroa, sob pena de não a encontrando ser cortada a cota de alimentação gratuita. Cador, o terrível, afirmou apenas que o seu desejo era que o ladrão fosse colocado em suas mãos quando fosse encontrado, pois saberia castigá-lo ao seu modo. Por fim, chamado a participar, Bernal expressou a opinião de que o ladrão estaria por perto, ali dentro do castelo mesmo.
Depois ouvir todas as opiniões, Gustavo, após levantar um pouco e ficar em frente a uma grande janela por uns dois minutos, olhando a natureza lá fora, disse que respeitava muito o pensamento de todos e o modo como queriam ajudar, mas ele mesmo achava melhor um meio diferente para o caso, e apontando o dedo para um Bernal assustado e tremendo, disse:
- Foi você...
E todos os cavaleiros olharam para o feiticeiro do bem de modo desconfiado, sendo que Galaaz e Cador já queriam levantar para avançar sobre o pobre rapaz indefeso e sem saber realmente o que o rei queria dizer com aquele "foi você". Gustavo pediu que se acalmassem e continuou:
- Foi você que causou toda essa perda de tempo. Se já tivesse colocado em prática os seus poderes não estaríamos aqui desesperados e perdendo tempo. Lembra de um tal espelho, de uma tal bacia, de um tal encantamento, qualquer coisa desse tipo, pois é isso que deve fazer agora. Chispa, saia daqui agora e vá lá pra cima fazer sua magia, chamar seus amigos encantados ou quem você quiser, mas daqui a uma hora quero que desça e me dê a resposta de quem roubou a coroa e onde ela está neste momento. Vai logo Bernal – Disse o rei para o alívio de todos, menos do próprio Bernal que via chamar para si uma responsabilidade grande demais para ser resolvida em tão pouco tempo. E se não conseguisse?
- Mas meu rei, essas coisas não são... – Quis ponderar, tentando justificar suas limitações.
- Serviçal, venha aqui buscar comida para os jacarés do fosso – Gritou o menino rei, como forma de intimidar o feiticeiro.
E não deu outra, pois num segundo Bernal já estava subindo as escadas em direção à torre.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sexta-feira, 12 de março de 2010
O BOM EGOÍSMO (Crônica)
O BOM EGOÍSMO
Rangel Alves da Costa*
Desde que tive um problema de saúde no final de 2008, quando fiquei em estado de coma induzido por treze dias, passei a enxergar o mundo sob outras nuances e a me perceber sob outros matizes. Mundo, vasto mundo, como qualquer coisa imensa e uniforme morreu. Mundo agora é vivo de significações em tudo. E eu felizmente não morri, e por isso mesmo passei a ter o compromisso comigo mesmo de ser um bom egoísta.
Ora, mas existirá alguma virtude em alguém que se proclama egoísta? Calma. Explico. É que existem egoísmos e egoísmos, do mesmo modo que existem pessoas e pessoas. De forma corriqueira, negativamente definem o egoísmo como sendo o sentimento ou maneira de ser dos indivíduos que só se preocupam com os interesses próprios, com o que lhes diz respeito; o apego exagerado ao próprio eu, que resulta em desconsideração pelos interesses dos outros; enfim, seria o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. Contudo, por outro lado, invertendo-se os pontos de vista, o egoísmo pode ser visto como a preocupação com os próprios interesses, como a preocupação do indvíduo em valorizar, mesmo que exageradamente, aquilo que lhe diz respeito.
Só pensa em si mesmo, é o que dizem com relação ao egoísta. Mas isso é bom ou ruim? Ora considerando-se que a preocupação do indivíduo consigo mesmo cabe a ele próprio e não a outros, que as demais pessoas procuram muito mais invejar do que ver as qualidades do indivíduo, logicamente que o egoísmo se transforma em uma forma de autoproteção, de autovalorização e de reconhecimento da própria capacidade. Se isso não partir para as raias do exagero e do mero desmerecimento e desvalorização de tudo que diga respeito ao outro, sem dúvidas que é uma coisa boa.
É uma coisa boa porque, mesmo que muitos pensem diferente, cada um deve. necessariamente, priorizar a si próprio. Por isso mesmo é que me considero um bom egoísta, um virtuoso egoísta. Caberá, pois, a mim, valorizar o que sou, o que tenho, o que faço e o que poderei fazer. Cabe única e exclusivamente à minha pessoa não querer agradar aos outros me rebaixando para ser bonzinho e humilde, me descaracterizando no melhor que tenho e que sou simplesmente porque os outros não possuem as minhas qualidades, me fazendo passar por pouco, por pobre coitado, porque os outros não lutam para ser como sou. E o que sou? Apenas uma pessoa que gosta de si mesmo e que pretende preservar esse amor para sempre. Faço algo demais?
Por ser assim, de pouca valia será que digam que sou feio ou bonito, preto ou branco, gordo ou esbelto, inteligente ou ignorante, bom ou ruim. Nada disso jamais importará, pois os meus conceitos e definições sobre minha pessoa já estão enraizados no dicionário da minha consciência, do meu coração e do meu ser inteiro. Sou exatamente como aquele poema de Fernando Pessoa que diz que o rio que passa pela aldeia dele é o mais bonito porque é o rio que passa pela aldeia dele. Isto é o que sou: o maior rio do mundo porque sou o rio que me banha, me sustenta e mata a minha sede.
Um dia sonhei em ser o melhor; se ainda não sou o melhor, um dia serei, pois é assim que desejo e ninguém poderá dizer que não. Um dia morrerei, sei, mas mesmo assim continuarei sendo o melhor por aquilo que posso deixar. Daqui a mil anos alguém estará lendo essa crônica e julgando o que eu disse hoje. Ora, se posso ser o mais, por que me contentaria em ser o menos?
À minha frente, na parede do meu escritório, olho e vejo quadros a óleo e desenhos, todos pintados por mim. São lindos, como são os poemas, os artigos, as crônicas, os contos, os livros e as petições que escrevo. Os pratos que apronto também são lindos e deliciosos. E experimento tudo isso como se experimenta a vida em toda sua essência, com o prazer que se tem de saborear com orgulho tudo o que é produzido com amor e dedicação.
Haverá alguém que diga que me falta humildade. Realmente. Apenas digo que faltava, mas não me falta mais, pois sou também a pessoa mais humilde do mundo. Basta querer me conhecer.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Desde que tive um problema de saúde no final de 2008, quando fiquei em estado de coma induzido por treze dias, passei a enxergar o mundo sob outras nuances e a me perceber sob outros matizes. Mundo, vasto mundo, como qualquer coisa imensa e uniforme morreu. Mundo agora é vivo de significações em tudo. E eu felizmente não morri, e por isso mesmo passei a ter o compromisso comigo mesmo de ser um bom egoísta.
Ora, mas existirá alguma virtude em alguém que se proclama egoísta? Calma. Explico. É que existem egoísmos e egoísmos, do mesmo modo que existem pessoas e pessoas. De forma corriqueira, negativamente definem o egoísmo como sendo o sentimento ou maneira de ser dos indivíduos que só se preocupam com os interesses próprios, com o que lhes diz respeito; o apego exagerado ao próprio eu, que resulta em desconsideração pelos interesses dos outros; enfim, seria o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. Contudo, por outro lado, invertendo-se os pontos de vista, o egoísmo pode ser visto como a preocupação com os próprios interesses, como a preocupação do indvíduo em valorizar, mesmo que exageradamente, aquilo que lhe diz respeito.
Só pensa em si mesmo, é o que dizem com relação ao egoísta. Mas isso é bom ou ruim? Ora considerando-se que a preocupação do indivíduo consigo mesmo cabe a ele próprio e não a outros, que as demais pessoas procuram muito mais invejar do que ver as qualidades do indivíduo, logicamente que o egoísmo se transforma em uma forma de autoproteção, de autovalorização e de reconhecimento da própria capacidade. Se isso não partir para as raias do exagero e do mero desmerecimento e desvalorização de tudo que diga respeito ao outro, sem dúvidas que é uma coisa boa.
É uma coisa boa porque, mesmo que muitos pensem diferente, cada um deve. necessariamente, priorizar a si próprio. Por isso mesmo é que me considero um bom egoísta, um virtuoso egoísta. Caberá, pois, a mim, valorizar o que sou, o que tenho, o que faço e o que poderei fazer. Cabe única e exclusivamente à minha pessoa não querer agradar aos outros me rebaixando para ser bonzinho e humilde, me descaracterizando no melhor que tenho e que sou simplesmente porque os outros não possuem as minhas qualidades, me fazendo passar por pouco, por pobre coitado, porque os outros não lutam para ser como sou. E o que sou? Apenas uma pessoa que gosta de si mesmo e que pretende preservar esse amor para sempre. Faço algo demais?
Por ser assim, de pouca valia será que digam que sou feio ou bonito, preto ou branco, gordo ou esbelto, inteligente ou ignorante, bom ou ruim. Nada disso jamais importará, pois os meus conceitos e definições sobre minha pessoa já estão enraizados no dicionário da minha consciência, do meu coração e do meu ser inteiro. Sou exatamente como aquele poema de Fernando Pessoa que diz que o rio que passa pela aldeia dele é o mais bonito porque é o rio que passa pela aldeia dele. Isto é o que sou: o maior rio do mundo porque sou o rio que me banha, me sustenta e mata a minha sede.
Um dia sonhei em ser o melhor; se ainda não sou o melhor, um dia serei, pois é assim que desejo e ninguém poderá dizer que não. Um dia morrerei, sei, mas mesmo assim continuarei sendo o melhor por aquilo que posso deixar. Daqui a mil anos alguém estará lendo essa crônica e julgando o que eu disse hoje. Ora, se posso ser o mais, por que me contentaria em ser o menos?
À minha frente, na parede do meu escritório, olho e vejo quadros a óleo e desenhos, todos pintados por mim. São lindos, como são os poemas, os artigos, as crônicas, os contos, os livros e as petições que escrevo. Os pratos que apronto também são lindos e deliciosos. E experimento tudo isso como se experimenta a vida em toda sua essência, com o prazer que se tem de saborear com orgulho tudo o que é produzido com amor e dedicação.
Haverá alguém que diga que me falta humildade. Realmente. Apenas digo que faltava, mas não me falta mais, pois sou também a pessoa mais humilde do mundo. Basta querer me conhecer.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Ave de voo noturno (Poesia)
Ave de voo noturno
É porque a revoada
seguiu seu destino mais cedo
É porque os viveiros
estão de portas abertas
É porque no jardim
as flores sentem saudades
É porque no horizonte escurecido
não se ouve o bater de asas
É porque a passarada
se fez passarinho e passou
É porque o canto só amanhã
o bem-te-vi só amanhã
o rouxinol só amanhã
todos os pássaros só amanhã
E por que você
ainda está aqui
solidão
ave de voo noturno?
Rangel Alves da Costa
É porque a revoada
seguiu seu destino mais cedo
É porque os viveiros
estão de portas abertas
É porque no jardim
as flores sentem saudades
É porque no horizonte escurecido
não se ouve o bater de asas
É porque a passarada
se fez passarinho e passou
É porque o canto só amanhã
o bem-te-vi só amanhã
o rouxinol só amanhã
todos os pássaros só amanhã
E por que você
ainda está aqui
solidão
ave de voo noturno?
Rangel Alves da Costa
NO REINO DO REI MENINO – XXXV
NO REINO DO REI MENINO – XXXV
Rangel Alves da Costa*
O sumiço repentino dos pais do pequeno rei das dependências do castelo de Edravoc deixou o mal-afamado Otnejon num estado quase que indescritível. Parecia totalmente enlouquecido, com espasmos de lucidez e de atordoamento. Da desabalada carreira que deu, assim que chegou à pocilga onde estava interrogando o casal antes de acontecer a tempestade do dia anterior, a primeira coisa que fez foi mandar matar os porcos maiores para ter a certeza de que não haviam devorado seus preciosos prisioneiros.
De tão arrebatado que estava, mandou fazer e acender uma enorme fogueira, em pleno dia e à luz do sol, repetindo sempre que era para iluminar melhor os arredores do castelo para ver se encontravam os dois. Vasculhou todos os quartos, salas e outros aposentos, procurou embaixo das camas e dentro dos armários, abriu caixotes e baús, subiu nos telhados, mandou oferecer recompensa para quem desse notícia ou encontrasse o casal fugitivo.
Nesse itinerário, como não tinha mais o que fazer, subiu no telhado da torre e passou a dizer em voz alta: "Meus amiguinhos, digam onde vocês estão, digam. Estão brincando de se esconder é? Então digam onde estão que eu também quero brincar de me esconder com vocês. Ou querem almoçar? Vamos almoçar que eu também estou com fome. Venham logo meus amiguinhos". E começava a chorar copiosamente, parecendo criança que se perde dos pais.
Preocupado com aquele comportamento estranho do seu rei, mas ao mesmo tempo temendo que num daqueles surtos ele voltasse sua loucura para os guardas, fazendo o que de pior alguém poderia imaginar, o chefe da guarda do castelo chamou alguns subordinados para discutir se não era melhor pegar o baixinho de surpresa e acorrentá-lo, antes que fosse tarde demais. Logicamente que tal medida só seria necessária até que ele voltasse ao estado normal, se é que alguma vez ele tenha se caracterizado como normal.
Contudo, antes que qualquer medida fosse tomada um guarda fofoqueiro, desses que bajulam o chefe pensando em ter qualquer miserável recompensa, foi às escondidas e contou ao baixinho enlouquecido sobre o plano que estava sendo urdido contra sua pessoa. E inesperadamente, como não que se transforma em sim, este ficou calmo, alegre, cordial e sorridente com todos os homens que estavam envolvidos nas buscas, desde o mais simples serviçal ao mais graduado comandante da guarda. Sua lucidez aparentava ser tanta que suspendeu as buscas para que descansassem.
O estranho nisso tudo, porém, é que o baixinho mal-afamado não arredava o pé um só instante de pertos dos seus subordinados, não lhe dava as costas e procurava ficar sempre a uma pequena distância onde pudesse observá-los. Mas não demorou muito e num rompante que deu acertou em cheio o pescoço do bajulador com uma pequenina seta envenenada que trazia sempre guardada no bolso. Foi somente o adulador sentir uma fisgada, passar a mão pelo pescoço e cair desacordado para espanto de todos.
- Não toquem um dedo nesse sujeito descarado, deixem ele aí para servir de exemplo de que modo o seu bondoso rei trata aqueles que ultrapassam seus limites. Imagine vocês que essa boca agora arroxeada que vocês estão vendo aí e que minhas cobras haverão de comer, teve a petulância de mentir pra mim e dizer que no meio de vocês existem alguns que queriam me tomar como louco, me pegar à traição, amarrar e fazer não sei mais o quê. Já pensaram se isto fosse mesmo verdade, já pensaram no que eu faria se tivesse algum pingo de verdade nessa mentira toda. Hoje mesmo eu faria uma coisa que nunca fiz e que estou com muita vontade de fazer, que é pegar os traidores, mandar amarrar de cabeça pra baixo e colocar as cobras mais venenosas que tenho passeando pertinho da cabeça deles. Estou com uma vontade danada de fazer isso hoje. E o pior é que o maldito disse o nome de quem estava tramando contra o seu bondoso, justo e querido rei – Falou Otnejon, num misto de contentamento com as palavras e loucura ainda visível nos olhos avermelhados e de brilho estranho.
Nem mesmo terminou de falar e um dos guardas, não se sabe bem os motivos, começou a tremer dos pés a cabeça e caiu desmaiado; outro se contorcia todinho, como se estivesse fazendo esforço para esconder que estava fazendo suas necessidades fisiológicas ali mesmo diante dos amigos; outro começou a gotejar suor, avermelhar o rosto e chorar como se estivesse sido picado por uma cascavel. E teve um que não suportou e saiu em disparada porta afora, na maior carreira do mundo, parecendo que estava fugindo de feras bravas que lhe perseguiam.
Se tivesse com o juízo bom, Otnejon saberia que em parte havia conseguido acabar com aquele plano contra sua pessoa, mas como não estava ordenou que todos fossem imediatamente fazer as buscas nas matas próximas ao castelo. E nunca teve qualquer resultado disso, pois ninguém jamais retornou para dar qualquer notícia sobre os fugitivos. Com medo das loucuras do baixinho, aproveitaram a situação e fugiram por aí sem destino, e até hoje sonham que estão amarrados de cabeça pra baixo e com cobras armadas para dar o bote sobre suas cabeças.
Enquanto isso, dentro dos aposentos do castelo Lucius e Lize continuavam com os seus infindáveis tormentos. Isso mesmo, dentro do castelo de Otnejon, pois não foram encontrados mas continuavam ali.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
O sumiço repentino dos pais do pequeno rei das dependências do castelo de Edravoc deixou o mal-afamado Otnejon num estado quase que indescritível. Parecia totalmente enlouquecido, com espasmos de lucidez e de atordoamento. Da desabalada carreira que deu, assim que chegou à pocilga onde estava interrogando o casal antes de acontecer a tempestade do dia anterior, a primeira coisa que fez foi mandar matar os porcos maiores para ter a certeza de que não haviam devorado seus preciosos prisioneiros.
De tão arrebatado que estava, mandou fazer e acender uma enorme fogueira, em pleno dia e à luz do sol, repetindo sempre que era para iluminar melhor os arredores do castelo para ver se encontravam os dois. Vasculhou todos os quartos, salas e outros aposentos, procurou embaixo das camas e dentro dos armários, abriu caixotes e baús, subiu nos telhados, mandou oferecer recompensa para quem desse notícia ou encontrasse o casal fugitivo.
Nesse itinerário, como não tinha mais o que fazer, subiu no telhado da torre e passou a dizer em voz alta: "Meus amiguinhos, digam onde vocês estão, digam. Estão brincando de se esconder é? Então digam onde estão que eu também quero brincar de me esconder com vocês. Ou querem almoçar? Vamos almoçar que eu também estou com fome. Venham logo meus amiguinhos". E começava a chorar copiosamente, parecendo criança que se perde dos pais.
Preocupado com aquele comportamento estranho do seu rei, mas ao mesmo tempo temendo que num daqueles surtos ele voltasse sua loucura para os guardas, fazendo o que de pior alguém poderia imaginar, o chefe da guarda do castelo chamou alguns subordinados para discutir se não era melhor pegar o baixinho de surpresa e acorrentá-lo, antes que fosse tarde demais. Logicamente que tal medida só seria necessária até que ele voltasse ao estado normal, se é que alguma vez ele tenha se caracterizado como normal.
Contudo, antes que qualquer medida fosse tomada um guarda fofoqueiro, desses que bajulam o chefe pensando em ter qualquer miserável recompensa, foi às escondidas e contou ao baixinho enlouquecido sobre o plano que estava sendo urdido contra sua pessoa. E inesperadamente, como não que se transforma em sim, este ficou calmo, alegre, cordial e sorridente com todos os homens que estavam envolvidos nas buscas, desde o mais simples serviçal ao mais graduado comandante da guarda. Sua lucidez aparentava ser tanta que suspendeu as buscas para que descansassem.
O estranho nisso tudo, porém, é que o baixinho mal-afamado não arredava o pé um só instante de pertos dos seus subordinados, não lhe dava as costas e procurava ficar sempre a uma pequena distância onde pudesse observá-los. Mas não demorou muito e num rompante que deu acertou em cheio o pescoço do bajulador com uma pequenina seta envenenada que trazia sempre guardada no bolso. Foi somente o adulador sentir uma fisgada, passar a mão pelo pescoço e cair desacordado para espanto de todos.
- Não toquem um dedo nesse sujeito descarado, deixem ele aí para servir de exemplo de que modo o seu bondoso rei trata aqueles que ultrapassam seus limites. Imagine vocês que essa boca agora arroxeada que vocês estão vendo aí e que minhas cobras haverão de comer, teve a petulância de mentir pra mim e dizer que no meio de vocês existem alguns que queriam me tomar como louco, me pegar à traição, amarrar e fazer não sei mais o quê. Já pensaram se isto fosse mesmo verdade, já pensaram no que eu faria se tivesse algum pingo de verdade nessa mentira toda. Hoje mesmo eu faria uma coisa que nunca fiz e que estou com muita vontade de fazer, que é pegar os traidores, mandar amarrar de cabeça pra baixo e colocar as cobras mais venenosas que tenho passeando pertinho da cabeça deles. Estou com uma vontade danada de fazer isso hoje. E o pior é que o maldito disse o nome de quem estava tramando contra o seu bondoso, justo e querido rei – Falou Otnejon, num misto de contentamento com as palavras e loucura ainda visível nos olhos avermelhados e de brilho estranho.
Nem mesmo terminou de falar e um dos guardas, não se sabe bem os motivos, começou a tremer dos pés a cabeça e caiu desmaiado; outro se contorcia todinho, como se estivesse fazendo esforço para esconder que estava fazendo suas necessidades fisiológicas ali mesmo diante dos amigos; outro começou a gotejar suor, avermelhar o rosto e chorar como se estivesse sido picado por uma cascavel. E teve um que não suportou e saiu em disparada porta afora, na maior carreira do mundo, parecendo que estava fugindo de feras bravas que lhe perseguiam.
Se tivesse com o juízo bom, Otnejon saberia que em parte havia conseguido acabar com aquele plano contra sua pessoa, mas como não estava ordenou que todos fossem imediatamente fazer as buscas nas matas próximas ao castelo. E nunca teve qualquer resultado disso, pois ninguém jamais retornou para dar qualquer notícia sobre os fugitivos. Com medo das loucuras do baixinho, aproveitaram a situação e fugiram por aí sem destino, e até hoje sonham que estão amarrados de cabeça pra baixo e com cobras armadas para dar o bote sobre suas cabeças.
Enquanto isso, dentro dos aposentos do castelo Lucius e Lize continuavam com os seus infindáveis tormentos. Isso mesmo, dentro do castelo de Otnejon, pois não foram encontrados mas continuavam ali.
continua...
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O NADA, O VAZIO E O CAOS (Crônica)
O NADA, O VAZIO E O CAOS
Rangel Alves da Costa*
O mundo pode estar um caos, mas jamais um nada ou um vazio; a vida pode estar um caos e/ou um vazio, mas jamais um nada; as pessoas podem estar um vazio e/ou um caos, porém jamais um nada; o amor pode estar um nada ou um vazio, porém jamais um caos; a liberdade sempre será um nada. Tentarei explicar o porquê, buscando retirar do caos tais conceitos, definições e significados. Adianto que não irei além de criar simples metáforas, pois tais elementos, de tão misteriosos que são, muitas vezes fogem ao entendimento através da insuficiente linguagem humana.
Verdade é que os conceitos de nada, de vazio e de caos escondem-se sob brumas filosóficas, mitológicas e doutrinárias que dificultam seu conhecimento ideal. Tudo se torna somente aparente, sem dar a exata noção dos seus reais significados. É que os conceitos apenas são formulados e muitas vezes sem a devida preocupação em repassar uma exata compreensão sobre isto ou aquilo. Tanto é assim que os filólogos dizem que uma coisa possui um conceito (uma ideia do que é), uma definição (uma explicação do que é) e um significado (um sentido que passa a ter).
Para os gregos antigos, o nada simplesmente não existia; nada era nada mesmo. Na sua matemática inexistia o zero, pois o nada não tinha valor algum. "Do não-existente nada pode nascer e nada pode desaparecer no nada absoluto", diz o filósofo Empédocles. Atualmente, o nada pode ser visto com a negação da existência, o não-existente. Neste sentido, seria a oposição ao ser, vez que o nada não é alguma coisa propriamente. Daí também que, por não ter nenhum significado, o seu conceito só é admissível como negação do ser, do existente. Contudo, usualmente tem-se o nada como ausência de qualidade, coisa nula, o que não existe, a falta de alguma coisa, inutilidade.
O caos foi de grande significado para a mitologia, pois a ordem no mundo e a disposição dos elementos nos seus devidos lugares só foram possíveis quando o caos ou desordem deram lugar a uma estrutura inteligível. Antes os fenômenos estavam dispersos, apresentando diferentes maneiras de ser e sem funções específicas, o que evidentemente impossibilitava que as coisas possuíssem uma razão de ser.
Contudo, essa "bagunça" existente não era a desordem e a confusão como hoje se afirma quando alguma coisa está um caos. Ao contrário disso, o caos mitológico era a possibilidade de tudo, pois tudo existia, necessitando apenas de um ordenamento para que os elementos universais passassem a ter existência própria. Do mesmo modo, o caos que se nomeia atualmente é totalmente diferente das concepções mitológicas e filosóficas.
Segundo a filosofia, o caos era o vazio existente antes da criação do universo; um vazio obscuro e ilimitado que antecede e teria propiciado a geração do mundo; eram as trevas primitivas. É, como se vê, uma concepção diferente da mitológica, que nega a existência do vazio e das trevas e tem por base a preexistência de elementos que estavam desordenados. Atualmente, a noção do caos está erroneamente ligada a uma significação vulgar de como a coisas estão ou não ordenadas. Daí a afirmação do caos como sendo baderna, bagunça, perturbação, balbúrdia, grande confusão ou desordem.
Por sua vez, tal qual o nada, o vazio não teve nenhum valor para a mitologia grega. Existia, sim, a noção de um espaço aberto, porém sem ser vazio, pois nele estavam contidos os elementos que formavam o caos. Ao conceber a noção de vazio, os filósofos pensaram na porção do espaço destituída de qualquer matéria; no espaço acaso existente e que não fosse ocupado por qualquer coisa; no espaço imaginário não ocupado, existente, porém despojado de qualquer matéria ou vida. Contudo, depois concluíram pela inexistência do vazio absoluto, vez que se supõe a existência de moléculas neste espaço. Verdade é que, de existência real ou não, o vazio passou a significar aquilo que não tem nada dentro, que não contém nada ou só contém ar, o que está oco, desocupado, despovoado, vão. Neste sentido, alguém diria, vida vã, vida vazia.
Como foi dito inicialmente, o mundo pode estar um caos, mas jamais um nada ou um vazio. Tal assertiva tem sua lógica de ser, principalmente pelo fato de que isto que chamamos de mundo está em constante mutação, fruto de um desordenamento das coisas e da falta de uma ordem que jamais é estabelecida. O desordenamento existente implica na existência de algo, e esse algo não seria o nada num espaço vazio.
Foi dito também que o amor pode ser um nada e/ou um vazio, porém jamais um caos. Ora, considerando que o amor não é algo tangível, não possui vida própria, possuindo existência somente na ideia, é lógico que para determinadas pessoas este tipo de sentimento simplesmente não existe ou que existiu onde é hoje um vazio. Enquanto ideia, o amor ou existe ou não existe; não há que se falar em quase-amor. Daí que quando não existe o que se tem é um nada e um vazio. Do contrário, quando a idéia de amor prevalece, é algo existente e por isso mesmo está ordenado no sentimento, jamais transparecendo ser um caos.
E por que a liberdade sempre será um nada, como dito acima? Sobre tal concepção não tecerei maiores comentários, bastando somente que alguém prove se o ser humano tem realmente liberdade, ao menos, de ser o que deseja ou de fazer o que quer. Não tem porque a liberdade é um ideal que só existe conceitualmente. Na vida prática não tem valor algum e por isso mesmo é um nada. Basta ver o vizinho espionando o seu quintal, o falso amigo falando mal de sua roupa, o policial que passa lhe dando tropeções, a lei que diz o que está certo e o que está errado e até onde você pode chegar. Somente porque não está preso, não significa que esteja em liberdade. Pelo contrário, o medo de não ser injustamente encarcerado já é um cerceamento da liberdade. Então, o que é a liberdade? Nada, simplesmente nada.
Advogado e poeta
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Rangel Alves da Costa*
O mundo pode estar um caos, mas jamais um nada ou um vazio; a vida pode estar um caos e/ou um vazio, mas jamais um nada; as pessoas podem estar um vazio e/ou um caos, porém jamais um nada; o amor pode estar um nada ou um vazio, porém jamais um caos; a liberdade sempre será um nada. Tentarei explicar o porquê, buscando retirar do caos tais conceitos, definições e significados. Adianto que não irei além de criar simples metáforas, pois tais elementos, de tão misteriosos que são, muitas vezes fogem ao entendimento através da insuficiente linguagem humana.
Verdade é que os conceitos de nada, de vazio e de caos escondem-se sob brumas filosóficas, mitológicas e doutrinárias que dificultam seu conhecimento ideal. Tudo se torna somente aparente, sem dar a exata noção dos seus reais significados. É que os conceitos apenas são formulados e muitas vezes sem a devida preocupação em repassar uma exata compreensão sobre isto ou aquilo. Tanto é assim que os filólogos dizem que uma coisa possui um conceito (uma ideia do que é), uma definição (uma explicação do que é) e um significado (um sentido que passa a ter).
Para os gregos antigos, o nada simplesmente não existia; nada era nada mesmo. Na sua matemática inexistia o zero, pois o nada não tinha valor algum. "Do não-existente nada pode nascer e nada pode desaparecer no nada absoluto", diz o filósofo Empédocles. Atualmente, o nada pode ser visto com a negação da existência, o não-existente. Neste sentido, seria a oposição ao ser, vez que o nada não é alguma coisa propriamente. Daí também que, por não ter nenhum significado, o seu conceito só é admissível como negação do ser, do existente. Contudo, usualmente tem-se o nada como ausência de qualidade, coisa nula, o que não existe, a falta de alguma coisa, inutilidade.
O caos foi de grande significado para a mitologia, pois a ordem no mundo e a disposição dos elementos nos seus devidos lugares só foram possíveis quando o caos ou desordem deram lugar a uma estrutura inteligível. Antes os fenômenos estavam dispersos, apresentando diferentes maneiras de ser e sem funções específicas, o que evidentemente impossibilitava que as coisas possuíssem uma razão de ser.
Contudo, essa "bagunça" existente não era a desordem e a confusão como hoje se afirma quando alguma coisa está um caos. Ao contrário disso, o caos mitológico era a possibilidade de tudo, pois tudo existia, necessitando apenas de um ordenamento para que os elementos universais passassem a ter existência própria. Do mesmo modo, o caos que se nomeia atualmente é totalmente diferente das concepções mitológicas e filosóficas.
Segundo a filosofia, o caos era o vazio existente antes da criação do universo; um vazio obscuro e ilimitado que antecede e teria propiciado a geração do mundo; eram as trevas primitivas. É, como se vê, uma concepção diferente da mitológica, que nega a existência do vazio e das trevas e tem por base a preexistência de elementos que estavam desordenados. Atualmente, a noção do caos está erroneamente ligada a uma significação vulgar de como a coisas estão ou não ordenadas. Daí a afirmação do caos como sendo baderna, bagunça, perturbação, balbúrdia, grande confusão ou desordem.
Por sua vez, tal qual o nada, o vazio não teve nenhum valor para a mitologia grega. Existia, sim, a noção de um espaço aberto, porém sem ser vazio, pois nele estavam contidos os elementos que formavam o caos. Ao conceber a noção de vazio, os filósofos pensaram na porção do espaço destituída de qualquer matéria; no espaço acaso existente e que não fosse ocupado por qualquer coisa; no espaço imaginário não ocupado, existente, porém despojado de qualquer matéria ou vida. Contudo, depois concluíram pela inexistência do vazio absoluto, vez que se supõe a existência de moléculas neste espaço. Verdade é que, de existência real ou não, o vazio passou a significar aquilo que não tem nada dentro, que não contém nada ou só contém ar, o que está oco, desocupado, despovoado, vão. Neste sentido, alguém diria, vida vã, vida vazia.
Como foi dito inicialmente, o mundo pode estar um caos, mas jamais um nada ou um vazio. Tal assertiva tem sua lógica de ser, principalmente pelo fato de que isto que chamamos de mundo está em constante mutação, fruto de um desordenamento das coisas e da falta de uma ordem que jamais é estabelecida. O desordenamento existente implica na existência de algo, e esse algo não seria o nada num espaço vazio.
Foi dito também que o amor pode ser um nada e/ou um vazio, porém jamais um caos. Ora, considerando que o amor não é algo tangível, não possui vida própria, possuindo existência somente na ideia, é lógico que para determinadas pessoas este tipo de sentimento simplesmente não existe ou que existiu onde é hoje um vazio. Enquanto ideia, o amor ou existe ou não existe; não há que se falar em quase-amor. Daí que quando não existe o que se tem é um nada e um vazio. Do contrário, quando a idéia de amor prevalece, é algo existente e por isso mesmo está ordenado no sentimento, jamais transparecendo ser um caos.
E por que a liberdade sempre será um nada, como dito acima? Sobre tal concepção não tecerei maiores comentários, bastando somente que alguém prove se o ser humano tem realmente liberdade, ao menos, de ser o que deseja ou de fazer o que quer. Não tem porque a liberdade é um ideal que só existe conceitualmente. Na vida prática não tem valor algum e por isso mesmo é um nada. Basta ver o vizinho espionando o seu quintal, o falso amigo falando mal de sua roupa, o policial que passa lhe dando tropeções, a lei que diz o que está certo e o que está errado e até onde você pode chegar. Somente porque não está preso, não significa que esteja em liberdade. Pelo contrário, o medo de não ser injustamente encarcerado já é um cerceamento da liberdade. Então, o que é a liberdade? Nada, simplesmente nada.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Pecado (Poesia)
Pecado
Conheço um conceito de pecado
que não é pecado dizer
e diz que o pecado nada mais é
do que não pecar
do que não temer
diante do corpo e da carne
diante do desejo e da entrega
porque estamos na terra
não estamos no céu
e por isso mesmo
o pecado se lava, se enxuga,
se usa e se abusa
porque estamos na terra
não estamos no céu
mas há quem pense diferente
e faz isso tudo sem pecar.
Rangel Alves da Costa
Conheço um conceito de pecado
que não é pecado dizer
e diz que o pecado nada mais é
do que não pecar
do que não temer
diante do corpo e da carne
diante do desejo e da entrega
porque estamos na terra
não estamos no céu
e por isso mesmo
o pecado se lava, se enxuga,
se usa e se abusa
porque estamos na terra
não estamos no céu
mas há quem pense diferente
e faz isso tudo sem pecar.
Rangel Alves da Costa
NO REINO DO REI MENINO – XXXIV
NO REINO DO REI MENINO – XXXIV
Rangel Alves da Costa*
O enviado do pequeno rei já estava retornando a Oninem para fazer suas surpreendentes revelações. Mas em Edravoc o seu soberano continuava colocando em prática suas estratégias covardes, fazendo do medo, do terror e da chantagem mecanismos para engordar seus cofres, para apropriação ilícita do que era dos outros. O pior é que ameaçava vidas com seus intentos diabólicos, como estava ocorrendo nesse exato instante em que interrogava os prisioneiros Lucius e Lize.
Segundo ele mesmo falou, estava bem alegre e contente depois do envio de mais uma proposta e de um belo presente para o menino rei. Tinha certeza que o mesmo ficaria muito feliz ao receber as madeixas louras de sua mãe, afirmou zombeteiramente. Porque estava assim nessa falsa disposição de ânimo é que resolveu que ouviria os dois fora da escuridão daquele quartinho imundo onde estavam jogados. Seria ao ar livre, disse, e por isso mesmo mandou que o casal fosse levado para uma pocilga, onde ficou ao lado de porcos fuçando os seus corpos o tempo inteiro.
Sentou do lado de fora, colocou uma bandeja com um pernil assado ao lado, num local onde os dois pudessem sentir bem o cheiro dos temperos, e com uma garrafa sempre ao alcance da boca começou a falar:
- Como podem ver, tudo isso aqui está uma bagunça, tudo se acabando sem que eu possa fazer nada. Me faltam os recursos. O castelo nem mais parece a moradia do soberano mais importante, poderoso e feroz de todo o País dos Voantes. Preciso reconstruir esse castelo todo, fazer mais jaulas e moradias para os meus amiguinhos de estimação, mas me faltam os recursos. Vocês não teriam algumas moedas para emprestar ao amigo não? – E levantando-se, agora falando alto e enraivecido – Vocês não teriam uma fortuna pra me dar não? Cadê a minha fortuna que estava aqui no meu castelo, que por direito me pertencia, e vocês roubaram? Onde diabos vocês esconderam minhas joias, o meu ouro e tudo aquilo que vale uma fortuna, digam? É só dizer e saírem daqui vivos, tomados banho, arrumados, com a barriga cheia de comida como esta que está aqui.. Querem provar, está uma delícia – e jogou fatias do assado no meio da lama – Peguem e experimentem, agora deve estar melhor ainda. Mas se não disserem, hoje mesmo...
Nem terminou de expor sua fúria e o baixinho mal-afamado olhou para cima assustado. É que de repente, em segundos, o céu escureceu totalmente, relâmpagos começaram a faiscar por todos os lados, trovões zoaram ensurdecedoramente e uma tempestade começou a desabar. Parecia coisa do outro mundo.
Então, como morria de medo diante dessas estranhas e inesperadas forças da natureza, o baixinho Otnejon começou a gritar por socorro, a chorar, espernear e por fim saiu em desembestada carreira sem rumo certo, sem saber para onde estava correndo. Apenas corria feito um enlouquecido, com suas pernas curtas tropeçando aqui e acolá e fazendo com que se esparramasse pelo chão. No outro dia de manhã, depois de procurar por todas as redondezas, os seus guardas foram encontrá-lo dormindo, todo arranhado pelos tombos e quedas, dentro de uma casinha de cachorros, uns dois quilômetros distante do castelo.
Assim que os guardas o encontraram naquele deplorável estado, o baixinho acordou assustado e foi logo falando desconfiado, mas já querendo impor: "Saí pra caçar sozinho, de repente me deu o maior sono e resolvi descansar um pouquinho aqui, mas pelo visto dormi demais. Mas se algum de vocês cometerem a loucura de espalhar por aí que me encontrou aqui nesse lugar já sabe que terá morte certa, e a mais fria e cruel e de todas as mortes. E como estão os meus preciosos prisioneiros?", terminou indagando. "Ora, meu rei, a gente pensava que vossa majestade sabia onde eles estavam, porque lá no castelo eles não estão de jeito nenhum. Já vasculhamos onde foi possível, mas nem sombra deles. Pelo jeito então sumiram, fugiram novamente".
A essa altura das palavras do guarda, o baixinho mal-afamado inchou de raiva, ficou numa vermelhidão arroxeada impressionante, estremecia como estivesse com frio e quem via diria que explodiria a qualquer momento. O pior é que tentava falar e não conseguia de jeito nenhum, remoia, pulava feito canguru e a voz não tinha jeito de sair. Nesse terrível acesso saiu em desabalada correria, com os seus homens correndo atrás.
Tal situação seria um prato cheio para que o rei Gustavo pudesse retomar sua vontade de sorrir, verdadeiramente gargalhar como somente as crianças sabem fazer. Não significa, contudo, que estivesse demasiadamente triste, não. Estava apenas preocupado, mas sabia que iria solucionar todos os problemas o mais rápido e da melhor maneira possível. Amanhã, quando o sacerdote chegasse com sua comitiva de interessados na compra da coroa real, talvez tudo já começasse a ser resolvido. Seria doloroso, mas teria que se desfazer daquela relíquia que era o marco maior de toda a história familiar. Tal era o pensamento do pequeno rei.
Já que dentre em pouco não teria mais aquele resplendor real ao seu alcance, resolveu mandar buscá-la para que pudesse tê-la ali ao seu lado, apreciando-a como numa despedida. Chamou Bernal e pediu que providenciasse a vinda do precioso objeto. Sempre obediente para não preocupar ainda mais o amigo, o feiticeiro do bem se dirigiu ao aposento onde estava o cofre do castelo, e ao abri-lo deparou-se com o local onde deveria estar a coroa totalmente vazio. Voltou em disparada e foi logo gritando pelos corredores:
- Roubaram a coroa, roubaram a coroa!
continua...
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O enviado do pequeno rei já estava retornando a Oninem para fazer suas surpreendentes revelações. Mas em Edravoc o seu soberano continuava colocando em prática suas estratégias covardes, fazendo do medo, do terror e da chantagem mecanismos para engordar seus cofres, para apropriação ilícita do que era dos outros. O pior é que ameaçava vidas com seus intentos diabólicos, como estava ocorrendo nesse exato instante em que interrogava os prisioneiros Lucius e Lize.
Segundo ele mesmo falou, estava bem alegre e contente depois do envio de mais uma proposta e de um belo presente para o menino rei. Tinha certeza que o mesmo ficaria muito feliz ao receber as madeixas louras de sua mãe, afirmou zombeteiramente. Porque estava assim nessa falsa disposição de ânimo é que resolveu que ouviria os dois fora da escuridão daquele quartinho imundo onde estavam jogados. Seria ao ar livre, disse, e por isso mesmo mandou que o casal fosse levado para uma pocilga, onde ficou ao lado de porcos fuçando os seus corpos o tempo inteiro.
Sentou do lado de fora, colocou uma bandeja com um pernil assado ao lado, num local onde os dois pudessem sentir bem o cheiro dos temperos, e com uma garrafa sempre ao alcance da boca começou a falar:
- Como podem ver, tudo isso aqui está uma bagunça, tudo se acabando sem que eu possa fazer nada. Me faltam os recursos. O castelo nem mais parece a moradia do soberano mais importante, poderoso e feroz de todo o País dos Voantes. Preciso reconstruir esse castelo todo, fazer mais jaulas e moradias para os meus amiguinhos de estimação, mas me faltam os recursos. Vocês não teriam algumas moedas para emprestar ao amigo não? – E levantando-se, agora falando alto e enraivecido – Vocês não teriam uma fortuna pra me dar não? Cadê a minha fortuna que estava aqui no meu castelo, que por direito me pertencia, e vocês roubaram? Onde diabos vocês esconderam minhas joias, o meu ouro e tudo aquilo que vale uma fortuna, digam? É só dizer e saírem daqui vivos, tomados banho, arrumados, com a barriga cheia de comida como esta que está aqui.. Querem provar, está uma delícia – e jogou fatias do assado no meio da lama – Peguem e experimentem, agora deve estar melhor ainda. Mas se não disserem, hoje mesmo...
Nem terminou de expor sua fúria e o baixinho mal-afamado olhou para cima assustado. É que de repente, em segundos, o céu escureceu totalmente, relâmpagos começaram a faiscar por todos os lados, trovões zoaram ensurdecedoramente e uma tempestade começou a desabar. Parecia coisa do outro mundo.
Então, como morria de medo diante dessas estranhas e inesperadas forças da natureza, o baixinho Otnejon começou a gritar por socorro, a chorar, espernear e por fim saiu em desembestada carreira sem rumo certo, sem saber para onde estava correndo. Apenas corria feito um enlouquecido, com suas pernas curtas tropeçando aqui e acolá e fazendo com que se esparramasse pelo chão. No outro dia de manhã, depois de procurar por todas as redondezas, os seus guardas foram encontrá-lo dormindo, todo arranhado pelos tombos e quedas, dentro de uma casinha de cachorros, uns dois quilômetros distante do castelo.
Assim que os guardas o encontraram naquele deplorável estado, o baixinho acordou assustado e foi logo falando desconfiado, mas já querendo impor: "Saí pra caçar sozinho, de repente me deu o maior sono e resolvi descansar um pouquinho aqui, mas pelo visto dormi demais. Mas se algum de vocês cometerem a loucura de espalhar por aí que me encontrou aqui nesse lugar já sabe que terá morte certa, e a mais fria e cruel e de todas as mortes. E como estão os meus preciosos prisioneiros?", terminou indagando. "Ora, meu rei, a gente pensava que vossa majestade sabia onde eles estavam, porque lá no castelo eles não estão de jeito nenhum. Já vasculhamos onde foi possível, mas nem sombra deles. Pelo jeito então sumiram, fugiram novamente".
A essa altura das palavras do guarda, o baixinho mal-afamado inchou de raiva, ficou numa vermelhidão arroxeada impressionante, estremecia como estivesse com frio e quem via diria que explodiria a qualquer momento. O pior é que tentava falar e não conseguia de jeito nenhum, remoia, pulava feito canguru e a voz não tinha jeito de sair. Nesse terrível acesso saiu em desabalada correria, com os seus homens correndo atrás.
Tal situação seria um prato cheio para que o rei Gustavo pudesse retomar sua vontade de sorrir, verdadeiramente gargalhar como somente as crianças sabem fazer. Não significa, contudo, que estivesse demasiadamente triste, não. Estava apenas preocupado, mas sabia que iria solucionar todos os problemas o mais rápido e da melhor maneira possível. Amanhã, quando o sacerdote chegasse com sua comitiva de interessados na compra da coroa real, talvez tudo já começasse a ser resolvido. Seria doloroso, mas teria que se desfazer daquela relíquia que era o marco maior de toda a história familiar. Tal era o pensamento do pequeno rei.
Já que dentre em pouco não teria mais aquele resplendor real ao seu alcance, resolveu mandar buscá-la para que pudesse tê-la ali ao seu lado, apreciando-a como numa despedida. Chamou Bernal e pediu que providenciasse a vinda do precioso objeto. Sempre obediente para não preocupar ainda mais o amigo, o feiticeiro do bem se dirigiu ao aposento onde estava o cofre do castelo, e ao abri-lo deparou-se com o local onde deveria estar a coroa totalmente vazio. Voltou em disparada e foi logo gritando pelos corredores:
- Roubaram a coroa, roubaram a coroa!
continua...
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