SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O cordel das temeranças de Lampião


Rangel Alves da Costa*


Alguns escritos dão conta que Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, era homem possuidor de feições pouco conhecidas. Alastrou-se espantosamente muito mais o seu lado tenaz, bravio, guerreiro e até cruel e sanguinário. Fala-se muito no bandoleiro de sangue no olho que nada temia no seu mundo catingueiro, no intrépido dos carrascais espinhentos que devolvia em dobro o estampido de fogo, no algoz de todo aquele que estivesse em seu encalço.
Muito se escreveu acerca das rixas entre vizinhos e as perdas familiares que serviram como motivações ao enfrentamento dos poderosos. A vindita particular do rapaz Virgulino se transformaria numa guerra pública do sertanejo Lampião. Os seus desafetos se transformaram em apenas alguns para serem avistados em todos aqueles que representassem o poder opressor, a submissão do homem da terra, a perseguição ao fraco e a manutenção da impiedosa balança condutora de todas as injustiças sociais. Os inimigos então passaram a responder pelo nome de Estado, governo, política e poder. Sobre tudo isso muito se escreveu.
Também muito se escreveu acerca do vaga-lume que se transmudou em perigosa tocha de fogo. E assim para mostrar o quanto Virgulino soube aproveitar os inconformismos do sertanejo de então para transformar tantas iras em respostas organizadas aos desmandos continuamente praticados. Outros grupos cangaceiros já preexistiam à sua chegada, e até fez parte do bando de Sinhô Pereira, mas nenhum orientado estrategicamente por um líder nato, nenhum que conseguisse despertar para suas fileiras tantas pessoas que se sentiam perseguidas ou necessitavam fazer ecoar suas revoltas. E Lampião foi mestre maior na condução desse levante até então apenas gestado.
Com os aparos e os recortes, o Capitão até que se ajusta nessa moldura, mas nele havia outras vertentes conhecidas de muitos, porém pouco disseminadas. A verdade é que pouco se escreveu acerca do homem Lampião, o sujeito em si, aquele de sobrenome Virgulino Ferreira da Silva. A maior parte do que foi dito e escrito - e em grande parte inventado - diz respeito ao cangaceiro, ao líder de bando, àquele retratado no meio da mata de chapéu estrelado, paramentos encourados e geralmente de arma em punho. Mas o outro Lampião, aquele que estava no homem, no seu íntimo, onde estava e como era?
Digo logo o nome do cabra que melhor assuntou sobre isso: Pelôco de Biribeira, apelido de um hoje desconhecido cordelista e repentista. Nascido na região do Mundaréu e tendo vivido até uns vinte anos após a morte de Lampião em 38, ficou conhecido de feira e feira como o mais fiel cantador dos feitos do Capitão. Não só dedilhava a história na viola como transcrevia para o cordel toda a sua saga. Contudo, o folheto que mais fez sucesso na voz e no papel foi um onde retratava o homem Lampião, ou o Virgulino em si mesmo.
“As temeranças de Lampião” foi o título consignado ao cordel que depois de pendurado no barbante em dia de feira se transformou em sucesso absoluto. O folheto artesanal, rudemente impresso e com capa de tosca xilogravura, parecia apenas mais um dos tantos escritos por aquele menestrel das proezas debaixo do sol. Onde houvesse uma feirinha em arruado e lá estava Pelôco da Biribeira levantando sua tenda de esteira e ripa e fincando seus varais de barbante. Aí pendurava seus cordéis e depois sentava num tamborete de viola em punho para cantarolar pelejas e feitos.
Mas por que o tal do “As temeranças de Lampião” fez tanto sucesso pelo mundão interiorano? Ora, simplesmente porque abordava o lado mítico do Capitão, envolvendo aspectos de sua religiosidade, suas virtudes cristãs, seus receios pelas coisas do céu, suas crenças terrenas, os seus temores enfim. Daí o termo “temeranças” no título, indicando que o livreto tratava exatamente dos medos do maior dos cangaceiros. Deixando também claro que o homem tão temido guardava consigo temores de coisas difíceis de acreditar. Aspectos, pois, bem conhecidos do sertanejo perante o seu mundo misto de fé, fanatismo e crendice.
Pelôco da Biribeira, mesmo sem o intuito da pesquisa, foi buscar na oralidade nordestina essa vertente curiosa do Capitão. Sertões adentro, de boca em boca, proseados se alongavam dando conta do imenso fervor religioso de Lampião, do seu respeito incontido às coisas sagradas, do seu devotamento. E também sobre o homem supersticioso de não acabar mais. Diz o cordelista que não havia quem fizesse o Capitão pegar em arma na sexta-feira santa, que logo arribava do coito se ouvisse uma ave agourenta piando a noite inteira.
Atualmente muito já se conhece acerca da feição religiosa de Lampião. Mesmo a luta sanguinária travada no dia a dia jamais diminuiu seu fervor místico, sua devoção às coisas sagradas e seu temor a Deus. Rezava todos os dias e levava consigo algumas orações, principalmente para manter o corpo fechado. Tinha devoção especial por Padre Cícero, a quem tinha como verdadeiro santo nordestino. Não admitia que cangaceiro de seu bando brincasse com as coisas sagradas e maldissesse qualquer aspecto da fé católica.
É famosa a passagem onde Lampião e parte de seu bando assistem missa celebrada pelo Padre Arthur Passos na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. O vigário aceitou celebrar o ofício perante os cangaceiros, mas com a obrigação de deixarem as armas pesadas do lado de fora. E assim foi feito, com a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas sobre os versos de Biribeira, alguns deles serão citados depois.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

A voz do coração (Poesia)


A voz do coração


Não, não há que declarar o amor
o amor não precisa ser declamado
não precisa de termos ou conceitos
não precisa de palavras ou adornos
senão ser apenas e sempre declarado
nos gestos e atitudes que proclamam
como o sentimento deve ser expressado

por isso não há que declarar o amor
emudeça, porém verdadeiramente ame
silencie, mas faça provar o que sente
não diga nada e diga tudo e mais
deixe que o seu silêncio seja a voz
daquilo que somente o coração é capaz.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 862


Rangel Alves da Costa*


“Havia um tempo...”.
“Quero um tempo cativante...”.
“Um tempo humanista...”.
“Um tempo sentimental...”.
“Tempo de quintais...”.
“Tempo de varais...”.
“Tempo de amizades...”.
“Tempo sem tantas crueldades...”.
“Um tempo de amor...”.
“Tempo de jardim e de flor...”.
“Um tempo de janelas abertas...”.
“E de portas entreabertas...”.
“Um tempo de bondade...”.
“De partida e de saudade...”.
“Um tempo de esperança...”.
“Um tempo de noivado e aliança...”.
“Um tempo de calçadas...”.
“De comadres animadas...”.
“Um tempo que havia...”.
“Um tempo que não há mais...”.
“Tempo perdido no tempo...”.
“Na desilusão e contratempo...”.
“Quem dera aquele tempo...”.
“De lições e cafunés...”.
“De bolo de macaxeira...”.
“De vaga-lumes na noite...”.
“De luas imensas nos descampados...”.
“De bilhetes e cartinhas...”.
“De beijos escondidos...”.
“E versos rimando amor...”.
“Um tempo de inocência...”.
“De cantiga de roda ao luar...”.
“Da roda rodando animada...”.
“Na festa da criançada...”.
“Tempo de sinos solenes...”.
“De roupas dominicais...”.
“Dos cartazes de belos filmes...”.
“De algodão doce e pipoca...”.
“Um tempo que envelheceu...”.
“Um tempo que já morreu...”.
“Mas como disse o poeta...”.
“Ai que saudade que tenho...”.
“Da aurora da minha vida...”.
“Da minha infância...”.
“Do tempo que era meu...”.
“E do meu eu já sem tempo...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

TODO MUNDO TEM UM PÉ DE LARANJA LIMA


Rangel Alves da Costa*


Quem já leu “O Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro Vasconcelos, certamente jamais se esquecerá da seguinte passagem, já no finalzinho do livro, quando o pai do menino tenta esconder a verdade sobre o que foi feito com sua árvore: - Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima. Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá. Agarrei-me soluçando aos seus joelhos. - Não adianta, Papai. Não adianta... E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei como um morto: - Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima”.
É o instante em que o menino Zezé relata sua tristeza com o que fizeram com o amigo de toda vida, que outro não é senão o seu pé de laranja lima. Tinha aquela árvore como fiel companheira, verdadeira amiga e confidente nas horas alegres e tristes, um tronco com folhas e frutos alimentando suas esperanças adolescentes. Não encontrava refúgio melhor que no quintal de sua casa e ao lado daquele sombreado bom, conversando, segredando seus mistérios juvenis. E o pé de laranja lima com ele dialogava como somente os grandes amigos conseguem.
O livro de José Mauro de Vasconcelos - que ao modo de “O Pequeno Príncipe”(Antoine de Saint-Exupéry) e “A História de Fernando Capelo Gaivota” (Richard Bach) -, logo ultrapassou sua destinação infanto-juvenil para alcançar status entre os grandes clássicos para todas as idades, cuida, pois, da amizade entre um menino e um pé de laranja lima. Uma amizade de conversas, de aconselhamentos, de afetos verdadeiros. Um estranho mundo onde somente uma árvore conseguia compreender um menino nas fantasias e desilusões de sua idade.
O menino Zezé possuía outro grande amigo e confidente, o Portuga, um bom proseador que o acolhia como verdadeiro neto, mas nada igual ao seu pé de pau, sua árvore de quintal. Acostumara com ela de tal modo que entristecia e adoecia somente em pensar em possível separação, em qualquer coisa que lhe tirasse aquele quintal e principalmente seu pé de laranja lima. Mas nunca lhe tinha passado pela cabeça que um dia sua árvore pudesse ser arrancada com tronco e tudo, deixando de existir de vez. E foi o que acabou acontecendo.
Mas por que Zezé era tão apegado ao seu pé de laranja lima? Por que foi aprendendo a gostar da árvore bem mais que aos humanos? Por que fazia daquele quintal um mundo de encontro consigo mesmo e do pé de pau uma extensão de seus sentimentos? Por que foi nutrindo tamanha confiança com o pé de laranja lima, de modo que somente a ele tudo podia revelar? Por que o diálogo, a palavra entre o menino e a árvore? Creio que apenas uma resposta: O ser humano necessita criar e cultivar aquilo que lhe dê confiança.
Não apenas cria aquilo que possa confiar como faz de sua criação, real ou imaginária, um espelho onde possa se avistar, dialogar e comungar sentimentos. Elege algo que lhe sirva de voz e ouvido, que esteja sempre presente quando necessita, e assim vá fortalecendo uma relação fiel e duradoura. De certo modo, parece mesmo que o ser humano confia mais e busca refúgio naquilo que não seja necessariamente pessoa. Assim acontece porque é sempre mais fácil refletir-se naquilo que possa ser moldado ao que já foi construído.
A proximidade e o prazer da presença, aliados ao senso de confiança e conforto, vão tornando as relações entre as pessoas e outros seres em algo tão profundo como a própria existência. É como se sentisse necessidade de dialogar com um animal de estimação, com uma pedra de montanha. É como se sentisse fortalecido no convívio com plantas e somente a elas ser capaz de transmitir seus verdadeiros sentimentos. A representatividade escolhida acaba suprindo carências, sonhos, anseios e esperanças. O mais importante, contudo, é a confiança que nasce entre o ser e aquele outro ser que talvez seja um nada aos olhos de muitos.
Desse modo, não seria exagerado dizer que todo mundo tem e convive com seu pé de laranja lima e, igualmente ao receio de Zezé, também temendo que a qualquer instante sua árvore seja cortada. E tudo se inicia ainda na mais tenra idade da vida, ainda quando não é possível compreender o valor de uma grande e verdadeira amizade. Basta ter em mente o exemplo de um simples pedaço de pano na vida do bebê. A criancinha se apega de tal modo ao pano que só adormece se estiver sentindo aquele calorzinho a seu lado. E chora incansavelmente se alguém lhe retira seu objeto de amizade.
E assim acontece também com os adultos. Todo mundo possui seu pé de laranja lima num gato ou num cachorro, num papagaio ou num passarinho. Tudo mundo tem sua árvore companheira no seu quarto fechado, na sua agenda, no seu livro de cabeceira, num baú escondido. Não são raras as pessoas que elegem um cantinho de jardim ou um banco de praça para os diálogos existenciais. Muitos escolhem a solidão do alto da montanha para edificar um templo de paz e meditação, e também para o diálogo com as forças divinas. Até mesmo pequenos objetos servem como ombros amigos e companheiros fiéis.
O apego a tais objetos e situações é tamanho que se torna verdadeiro sofrimento o simples pensamento de perdê-los. Ninguém quer sofrer a dor de Zezé e dizer que seus sonhos morreram na semana passada.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Noites tristes (Poesia)


Noites tristes

Como é triste fechar um livro
por que a história chegou ao fim
como é triste fechar a janela da noite
quando a lua permanece brilhando
como é triste amargar a recordação
quando se tem apenas a saudade
como é triste ficar triste assim
uma tristeza nascida na solidão
e sem que nada possa trazer alento
para diminuir tanto sofrimento
como é triste ficar triste assim
sem uma bela história para ser lida
ou para escrever uma nova vida.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 861


Rangel Alves da Costa*


“Apenas uma casa abandonada...”.
“Uma velha casa abandonada...”.
“Porta e janela fechadas...”.
“Ou de vez em quando entreabertas...”.
“Coisa da ventania feroz...”.
“Que ia entrando para saber...”.
“O que restou daquela gente...”.
“Da velha casa abandonada...”.
“E só o vento sabe responder...”.
“Conhece o que resta lá dentro...”.
“Pois nenhuma pessoa sabe o que aconteceu...”.
“Quando a casa foi fechada...”.
“E quais as motivações para tal...”.
“E agora apenas a solidão...”.
“Dia e noite naquele triste desvão...”.
“Quando noutros tempos...”.
“Quem passasse pela estrada adiante...”.
“Logo enxergava a flor morena à janela...”.
“Com laço de fita e rosa como enfeite...”.
“Cantando cantiga apaixonada...”.
“E a porta entreaberta para a vida...”.
“Com cachorro entrando e saindo...”.
“Com vulto de gente pelo quintal...”.
“Um cheiro bom de bolo de macaxeira...”.
“O café torrado subindo pelo ar...”.
“Havia até um pequeno jardim...”.
“Ressequido pela secura do tempo...”.
“Mas uma ideia de jardim...”.
“Mas tudo mudou de repente...”.
“De hora pra outra e ninguém mais avistou...”.
“Nem a janela aberta nem a moça bonita...”.
“Ninguém mais sentiu o cheiro do café quentinho...”.
“Ninguém mais ouviu voz ou cantiga...”.
“Apenas a solidão e o abandono...”.
“E a tristeza triste dos cemitérios...”.
“Das ausências que não deixam notícias...”.
“Ninguém sabe das motivações...”.
“Mas todo mundo sumiu dali...”.
“E não há estrada que saiba dizer...”.
“Para qual norte o seu destino...”.
“Apenas dizem que continuam ali...”.
“Fechados para a eternidade...”.
“Como se o mundo lá fora...”.
“Fosse mais doloroso que as sepulturas...”.
“Abertas em cada um...”.
“Sem cruzes ou saudades...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

SILÊNCIO NA SOLITÁRIA NOITE


Rangel Alves da Costa*


A noite chegou e a janela permaneceu aberta. A porta também. O sopro da ventania entrava sem pedir passagem. Mas nada que fizesse barulho ou qualquer ruído, apenas aquele som de folhas tremulando ao longe.
O candeeiro continuava apagado, apenas a chama de uma vela cintilava ao lado do velho oratório num canto do quarto. Assim, a penumbra envolvia as paredes e a vida. E os olhos avistavam apenas a cor lutuosa da noite.
Havia luz elétrica, mas só de vez em quando acendia uma lâmpada. Gostava mesmo da luz de candeeiro, de lampião, de vela. E assim entremeava a poesia da luz chamejante com a tristeza da escuridão adiante.
Era triste. Gostava de tristeza. Não do entristecimento cortante, dolorido, rasgando as entranhas pela dor, pela ausência ou pela saudade. Mas daquela tristeza circunspecta, meditava, chamando para si pequenas angústias e melancolias.
Gostava que seu olhar se perdesse no horizonte escurecido. E se esquecesse de voltar da paisagem nua. E até se sentia confortada quando o retorno trazia na face uma lágrima encontrada em qualquer lugar.
De vez em quando parecia ouvir uma velha canção pelo ar. Uma ária triste que aumentava a entonação com a força do vento. Mas nada além da ilusão do mesmo canto ouvido pelos solitários nas noites vazias.
Também de vez em quando parecia ouvir alguém batendo na porta ou na janela, mesmo que as duas estivessem entreabertas. Mas foi percebendo que a ventania também se anuncia quando quer trazer de longe alguma notícia.
E cartas e versos eram trazidos e deixados pelo chão. Nada além de folhas mortas esvoaçadas nos sopros vorazes. Apenas folhas mortas, outonais, mas trazendo consigo poesias tristes que necessitavam ser lidas. E bilhetes dizendo apenas “a noite na noite...”.
Tinha um baú repleto de poesias trazidas ao vento. Mas algumas já chegavam esfarelando, se partindo em pedaços, quase como as cinzas de outono. Bastava avistar uma folha estendida num canto e logo imaginava o verso sofrido ali existente.
Suas poesias, aquelas de próprio punho e solidão, tinham o mesmo destino das folhas secas. Escrevia-as sempre no umbral da janela e ali mesmo as deixava guardadas no diário do tempo. E o açoite do vento cuidava de levá-las adiante, aos olhos cegos do além.
Mas sentia-se bem assim, com sua tristeza apenas triste. Não conseguiria mais viver diferente. Não suportaria mais estar em ambientes que não retratassem aquele mundo próprio: uma casinha, uma porta e uma janela à frente, jardins ilusórios ao redor, a pedra da solidão adiante, a imensidão do horizonte por todo lugar.
Mas era após o entardecer, quando o vermelho afogueado do sol ia se escondendo atrás das montanhas e das nuvens, que sua vida realmente começava a acontecer. E os sentimentos se enchiam da cor do instante. E nas sombras ia avistando sua existência. E na noite ia acendendo os vaga-lumes da alma.
Com a porta e a janela abertas, a pequenina casa em meio à vastidão, acabava se tornando parte do ambiente, da natureza. E se ao redor os galhos tortos gemiam nas árvores, as folhas esvoaçavam querendo voar, também ela era apenas uma imagem triste.
A noite com sua cor, a escuridão com seus mistérios, a poesia noturna, tudo brilhava naqueles olhos tristes. E da porta mirando o luar ou sentada na pedra da solidão, já não era ela senão alguém que viaja sem sair do lugar.
Não sentia a lágrima cair, não percebia a moldura envolvendo o retrato que avistava, não sabia se ouvia ou se falava em silêncio. Apenas sentia a noite e com ela adormecia na solidão entristecida de todos os dias.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com