SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 22 de junho de 2016

Lá no meu sertão...


Dois meninos: Eu e José Neto. Eu por que me nego a crescer, a ficar adulto, a envelhecer. E Neto por que, graças a Deus, ainda não saiu da meninice.



O livro do amor (Poesia)


O livro do amor


Dentro de um antigo livro de poesias
onde o amor é tão belo quanto a flor
eu aprendi a desejar e querer diferente
não mais como amar para ter um amor
mas amar fazendo germinar a semente

em cada página desse livro vivo
cada poema me ensinou a ter coração
um coração pulsando amor verdadeiro
enobrecido pela dádiva da doce missão
de sempre amar e ser do amor mensageiro

tão belo livro me fez poeta e amante
e versos agora escrevo a um amor amado
uma flor brotada da aridez de um jardim
o mais suave perfume pelo amor exalado
uma canção da vida e amor ecoando sem fim.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Wesley Safadão no São João?


*Rangel Alves da Costa


Fiz a indagação acima por que não imagino como festa junina esse São João de agora. Tudo, micareta, bandalheira, festança qualquer, menos São João, ao menos na tradição nordestina e, mais de perto, aracajuana. Ora, os festejos juninos, tradicionalmente, são comemorados com forró, com o autêntico forró, de sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro, com o verdadeiro pé-de-serra. Mas quem disse que Wesley Safadão, Cavalheiros do Forró, Márcia Felipe e outros, são forrozeiros? Podem ser tudo, menos forrozeiros. Mas são estes que estão nos palcos juninos, ganhando uma dinheirama danada, para cantar a esbórnia, a dor de corno, o imprestável. Tempos, tempos, de palcos e arraiais com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Trio Nordestino, Clemilda, Marinês, Gerson Filho, dentre tantos outros autênticos expoentes da música nordestina. Mas não, quase não se convida mais quem ainda leva no fole a música de raiz, como um Adelmário Coelho e um Flávio José, um Santana e qualquer outro forrozeiro e cantador. Agora é safadão na safadeza do São João. É por essas e outras que não se vê mais fogueira, bandeirolas e fogos cortando os ares. Apenas o som de vergonha musical.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 21 de junho de 2016

OS COLIBRIS NÃO VOLTAM MAIS


*Rangel Alves da Costa


Há instantes na vida onde os jardins são sempre de outono, a brisa do entardecer cantarola tristezas, as paisagens ficam acinzentadas e os colibris não voltam mais. Mesmo com jardins floridos, brisas suaves e perfumadas, paisagens exuberantes e colibris voejando ao redor, nada parece existir desse jeito.
As alegrias florescem a vida, as manhãs e noites, os passos da existência. As esperanças boas renovam os ânimos, fortalecem o espírito, chamam ao renascimento. O amor então, que é tudo e sobre tudo age como fermento, açúcar e sal. São desejos permanentes no ser que cheguem e permaneçam as alegrias, as esperanças e o amor com seus ingredientes essenciais. Mas há instantes em que se olha pela janela e não se avista sequer a presença do voo de um colibri.
Em instantes assim tem-se a certeza que os colibris não voltam mais. Ora, mas o jardim é primaveril, está florido, cheio de aroma e perfume, exalando paz e contentamento. Borboletas, beija-flores, pássaros matinais, folhagens em festa, tudo se faz presente adiante e pelos arredores. Da janela e além toda essa pujança, essa paisagem em canção e flor, porém nada que brilhe e conforte o olhar, nada que traga alegria, nada que se mostre como um despertar ante tanta beleza.
Tempo, tempo, eis o senhor do ontem e do hoje, e tudo. Tamanha força possui que vai tingindo o olhar de uma penumbra tristonha, vai tornando o sorriso num laivo de melancolia. É como se os anos fossem emoldurando o ser e deixando somente a feição imóvel do passado. Sempre um triste retrato quando assim acontece. A pessoa quer ser e viver seu momento, quer vivenciar seus prazeres e felicidades, mas nunca vai além da recordação do passado. Neste, aparentemente, a única certeza de ter sorrido, vivido, amado.
O velho relógio de parede já não bate mais. O calendário parece ter esquecido que novos dias e novos anos foram surgindo. E tudo amarelado, estático, empoeirado pelo esquecimento que a vida existe em percurso, em passo, em caminhada. Como numa casa, apenas a porta dos fundos tem serventia, e além dela o ontem e o que pela estrada ficou, mas continuam avistados como se outra coisa não existisse para se viver.
Uma casa rodeada de jardim, de flores, de natureza, de voos e coloridos, de canções e cantos, de sopros perfumados e folhagens em valsas, mas o oposto da porta da frente e adiante, na varanda, na sala, nos quartos. Eis o silêncio profundo, a solidão mais profunda, o entristecimento mais doloroso. Sombras e restos mortos, escuridões e fantasmas antigos, espectros do que se chamou ao convívio.
Flores de plástico empoeiradas, retratos tortos pelas paredes, baús entreabertos e cartas e relicários espalhados ao chão. Uma cadeira de balanço rente à janela e alguém que parece viver. Nenhuma vela acesa perto do oratório, uma bíblia sem reza ou clemência, um livro aberto num canto de sofá e letras que parecem chorar: “Quando quis deixar de viver, ela não procurou morrer. Quando quis falecer em vida, ela simplesmente fechou a porta da frente e abriu a janela. Mas da janela nada avistava de realidade, apenas o que desejava enxergar: dentro de si e para os seus tormentos. E assim definhava, assim morria porque queria...”.
No livro aberto, a vida inteira, o resumo e síntese de uma escolha de vida. A ficção tornada realidade por desejo próprio. Ou haveria motivações para ser assim, ou todo aquele sofrimento, solidão e rejeição a todo o viver, encontraria justificativa num sofrimento maior e desconhecido pelos demais? Tudo um talvez. Existem razões que a própria razão desconhece. Não se julga o outro pelo que aparenta ser, eis que se desconhece a íntima dor e a íntima alegria em cada ser.
Assim ela vivia. Abria a janela, recordava, entristecia e chorava. Os colibris planavam no ar, beijavam as flores, faziam festa ante seu olhar. Os pássaros queriam um sorriso, um gesto de contentamento. Mas era como se nada acontecesse, como se nada existisse. Mas eles insistiam. Até que a janela nunca mais abriu. E os colibris se viram sem flor e partiram. Os colibris não voltam mais.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Pelos sertões, vida que segue no passo e compasso do dia. O velho carro-de-bois e sua trajetória pelas estradas e veredas sertanejas.




Ao velho vaqueiro (Poesia)


Ao velho vaqueiro


Quando a porteira é aberta
e o gado toma o estradão
o olho que fica chora
o aboio que fica silencia
a vida vaqueira sofre

quando a boiada passa
e a poeira vai levantando
o velho vaqueiro lacrimeja
o boi olha pra trás e berra
um adeus sem despedida

quando tudo enfim passar
vida, vaqueiro e boiada
talvez uma toada sofrida
ainda relembre que um dia
o sertão foi o homem e sua cria.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - bolas de neve


*Rangel Alves da Costa


Ao se referir a bola de neve, comumente a pessoa quer dizer que algo foi se acumulando de tal forma que chegou ao ponto de total descontrole. Um grão apenas que se descontrola e, ao desembocar adiante, já está uma bola, depois uma rocha, despencando cada vez mais forte, caindo, caindo, até não restar mais por onde rolar. O problema é que o grão não vai criando problemas apenas para si mesmo, se descontrolando e trazendo consequências somente para si, mas para muitos. Todos são afetados pela sua passagem, a sua queda, o seu arrasamento. Assim também com as pessoas. Os vícios são bolas de neve que nascem como experimentos e vão viciando, acumulando dores e problemas, chegando ao ponto de insustentabilidade. E sofre a pessoa, seus familiares e amigos. As compras e as dívidas descontroladas são bolas de neve, principalmente no cartão de crédito, pois chega o instante que tanto crescer a pessoa perde o crédito e ainda fica com o nome sujo e dívidas impagáveis. A paixão cega é uma bola de neve perigosíssima e com as mais danosas consequências, principalmente para aquele que não deseja se submeter ao querer doentio do outro. A corrupção é uma bola de neve que sai dos birôs, invade gabinetes, depois secretarias e ministérios, governos e governantes, políticos e partidos, e depois resulta nessa vergonhosa situação de agora, onde a maioria dos políticos e governantes estão enlameados até os cabelos. E assim as bolas de neve vão acontecendo. Uma coisinha simples, insignificante, mas que se transforma em algo incontrolável. Assim muito na vida e em tudo que acontece sem controles e sem limites. Assim todas as vezes que o medo de dizer não vai deixando que o sim nefasto simplesmente aconteça.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com