SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 1 de julho de 2010

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 32

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 32

Rangel Alves da Costa*


Mesmo temeroso pelo significado prático daquelas palavras, Lucas se comprazia de alegria íntima pela oportunidade de ouvir ensinamentos tão significativos e importantes e vindo de uma pessoa que já estava firme em apreciar e respeitar. Na voz carregada daquele senhor vinha o alento que tanto necessitava para o enfrentamento das mais nebulosas situações. Tinha uma igreja no coração sim, mas precisava de um amigo que compartilhasse desse encantamento que é o reconhecimento do homem a partir de sua própria fé. E Padre Josefo era esse amigo, descortinando o apenas imaginado para proveito do solitário no seu caminho.
E Lucas perguntou ao sacerdote o que achava que ele deveria fazer dali por diante, a partir daquele instante, até mesmo porque tinha uma vida para ser vivida e não podia ter os seus momentos totalmente tomados por preocupações daquela ordem. Então o padre respondeu:
- Viver Lucas, plena e totalmente viver, é o que você deve fazer, pois somente o fraco se deixa levar por ameaças do inimigo. Ademais, quanto mais vivemos e construímos mais ganhamos forças para vencer as forças negativas. As forças ruins vivem à espreita da fragilidade do homem, principalmente da fragilidade espiritual deste. Não devemos nos descuidar, é verdade, mas devemos agir como se cada instante nos chamasse a viver mais, a produzir mais, a realizar mais, pois a soma disso tudo chama-se felicidade e não há inimigo que não sucumba diante da fé e da felicidade do outro cristão consciente. Mas vamos confirmar isto através das palavras do Senhor. Pegue aquela bíblia ali e abra no segundo livro de Samuel, capítulo 23, versículos 2 a 7, depois leia, por favor.
"O Espírito do Senhor fala por mim, sua palavra está na minha língua. Deus de Israel falou, o rochedo de Israel me disse: O que governa com justiça, o soberano temente a Deus é como a luz da manhã quando se levanta o sol, manhã sem neblina, que faz cintilar de orvalho a relva da terra. Sim, minha dinastia é estável diante de Deus; ele fez comigo aliança eterna, a ser observada com absoluta fidelidade. Minha salvação e inteira felicidade não é ele quem faz germinar? Os homens maus são como espinhos, que todos evitam e ninguém pega com a mão; que se recolhem com um ferro ou com o cabo da lança, e são queimados no fogo". Lucas leu para que ouvissem, e em seguida Padre Josefo falou:
- A dinastia estável de um coração virtuoso é rochedo que inimigo algum consegue transpor. Tens um coração assim meu rapaz, mesmo que esteja mais para uma montanha onde se elevará a voz do Senhor. Tua voz ainda será ouvida por muitos e quiçá o inimigo estivesse presente para arrepender-se, mas não, pois ele já estará recolhido ao fogo e queimado pelas chamas do bem, pelas chamas que brotarão do teu coração glorioso.
Verdade é que Lucas se despediu do Padre Josefo muito mais animado do que quando chegara à igreja. As palavras do amigo, além do conforto essencial naqueles momentos, proporcionaram um encorajamento muito maior e a tomada firme da decisão de que enfrentaria sem nenhum temor todas as ameaças que, de quem quer que partissem, fossem intentadas e levadas adiante.
Retornando para casa, agora caminhando cheio de disposição e alegria, encontrou o menino Paulinho, e este dizendo logo que não fazia meia hora que havia estado em sua casa para deixar um recado. Então Lucas perguntou o que seria de tão importante para que tivesse ido lá. E o menino explicou:
- É que eu ia passando pelo beco das araras quando seu Sebastião e dona Marieta me chamaram. É aquele casal já idoso que mora por lá. Fui até lá meio espantado sem saber o que era, mas assim que entrei na taperinha eles me ofereceram um pedaço de cocada de frade, com os dois sempre envergonhados e meio que sem jeito. Assim, de cabeças baixas pela vergonha, me pediram para falar com você se tinha como eles dois irem até o barracão, nos dias que você puder, pra ver se aprendiam ao menos a ler, pois já estão naquela idade e dizem que a coisa mais triste pra eles é não saber nem ler nem escrever. E aí eu disse que tinha certeza que você aceitaria ensinar com maior prazer, mas primeiro tinha que falar e depois voltaria para dar a resposta. Chegaram até a chorar quando eu disse isso. E então Lucas, o que posso dizer a eles?
- Ora, Paulinho, mas que coisa boa. Até que enfim as pessoas tomaram consciência de que não há idade para aprender a ler e a escrever, para buscar alfabetização, e que bom se existisse aqui dezenas, centenas de pessoas com esse mesmo objetivo. Vamos até lá que eu quero conversar pessoalmente com eles. Mais que coisa boa Paulinho... – E os dois amigos seguiram conversando alegremente.


continua...




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quarta-feira, 30 de junho de 2010

COISAS DA LUA (Crônica)

COISAS DA LUA

Rangel Alves da Costa*


Já está mais que provado, cantado e decantado, que a lua sempre foi alcoviteira, feiticeira, traiçoeira, musa inspiradora, negligente e omissa. Para não dizer muito mais, como, por exemplo, que ela se esconde propositadamente para que os amantes se refugiem melhor por trás dos muros e nas varandas, que ilude corações apaixonados com aquela luz de promessas, que se faz bem bonita e cheia de romantismo para que os corações apaixonados se desesperem e que tem um pacto constante com a noite para que um esconda o que a outra permite fazer.
Não é brincadeira essa lua, e quem quiser que dê vintém por ela. Não tem o que fazer, e só para ver a menina chorar e o rapaz sofrer, se acende todinha e bonita no mesmo lugar onde estão, mesmo numa distância que só se chega em pensamento. A menina fica na janela da cidadezinha sertaneja olhando pra cima e chorando ao ver a lua que está, naquele exato momento, fazendo o rapaz tomar todas com saudade lá adiante da capital. E sobre eles incide os mesmos raios e o mesmo cenário poético. Isso é covardia da lua.
Dentre as muitas artimanhas da lua, uma das coisas que ela mais gosta de fazer é exatamente passar a mão por cima do que está errado, encobrir as safadezas, fazer tudo para que os adúlteros se encontrem e fazer acontecer coisas verdadeiramente do outro mundo. Assim, no instante em que o amante se dirigia ao quintal da mulher casada ela desapareceu entre as nuvens, deixando tudo na escuridão, e só reapareceu quando a porta dos fundos estava sendo fechada. O padre Horácio chega a implorar para que a lua se esconda quando as beatas vão chegando de mansinho pelos fundos da sacristia. E ela atende.
Certa feita ocorreu um episódio que até hoje se comenta lá pelas bandas do sertão. Como é que uma lua cheia, toda bonita, parecendo que estava grávida de tanta luz, brilhando toda faceira no céu estrelado, limpinho, sem nenhuma nuvem, de repente desaparece sem que ninguém ficasse sabendo o que tinha acontecido? Ora, não era tempo de eclipse, o tempo não mudou de uma hora pra outra, tudo estava normal no céu, menos a lua que não estava ali, e por isso mesmo a escuridão de breu começou a tomar conta de tudo.
Apareceu de repente, do mesmo jeitinho que estava antes, somente uma hora depois, contadinho no relógio. E depois desse acontecido, na mesma noite, João das Tarrafas pegou um cabra encangado com sua mulher embaixo da goiabeira; Maria fugiu com o filho de Zé Timotéo; o padre Horácio recebeu a visita da viúva mais recente para consolar nos muros da igreja mesmo. E o pior: pouco tempo depois começaram a aparecer virgem buchuda, rapaz se rebolando e muita dona de casa implorando pra lua se esconder novamente.
É uma verdadeira safada essa lua, que para dar uma de uma de astro exemplar e protegido coloca às suas portas um cavaleiro com seu cavalo e lança e um dragão soltando fogo só para amedrontar. E mais safada ainda pelo que todos ficaram sabendo do que ela, mais uma vez, descaradamente, fez na noite passada. Só que se deu mal, pois dessa vez o feitiço se voltou contra a própria feiticeira.
Eis que a dita foi chegando após o por do sol já toda enfeitada, bonita e cheirosa que só, cheia de raios novos, colares e bijuterias, com um batom bem vermelho na boca e uma bolsa cheia de estrelas. Assim que chegou, esperou que a noite aparecesse completamente e chamou ela num canto para pedir para sair um pouquinho mais cedo, pois tinha um encontro muito especial com alguém também radiante. E a noite aceitou imediatamente em ajudar a comparsa. Então, lá pelas nove horas a lua pegou sua bolsa com as estrelas e saiu, deixando a noite sozinha tomando conta de tudo.
Mas a noite, que também é falsa que só, deixou só o breu onde estava e saiu apagando tudo por onde seguia, até encontrar a lua que voltava chorando com um restinho de brilho. "Mas o que foi bela lua, que estais em prantos?", perguntou a noite. "Nada não, é que só sirvo mesmo para ajudar nos amores dos outros. Imagine que Júpiter, aquele ingrato, quando me viu disse que eu estou velha e cheia demais, e só procure ele novamente quando eu estiver lua nova".




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Por tanto desencanto (Poesia)

Por tanto desencanto


Sim
A andorinha voa
e no voo um verão
o trem apita
e no destino a estação
o barco singra
e no porto a paixão
o homem ama
e no final solidão

Sim
o dia escurece
para noite enluarar
o sol aparece
para a vida iluminar
a tarde chega
para a saudade recordar
a lágrima vem
para o passado lavar
a tristeza do amor
que vive a atiçar

Não
não quero mais versos
não quero palavras nem rimas
não quero nenhuma poesia
não quero mais nada
só queria o amor
e não encontro o amor
a não ser a palavra
que sempre rima com amor...



Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 31

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 31

Rangel Alves da Costa*


Mesmo antes de entrar na igreja, lá dentro os anjos dispersos pelo ar se reuniram imediatamente para comentar sobre sua chegada. Era um silencioso bater de asas que iluminava, mesmo em pleno dia, todo o templo cristão, com as vozes dos querubins, serafins e seres espirituais de toda ordem se elevando pelo ambiente e se espalhando pelas distâncias. Aquietaram-se em silêncio, olhando em sua direção, assim que Lucas entrou. Reverenciaram amigavelmente os outros dois anjos que acompanhavam o rapaz, que eram o seu anjo da guarda e o anjo superior que ainda estava cumprindo sua missão especial.
Ajoelhado no centro da igreja e sua solidão de fiéis, orando a oração que o Senhor ensinou, distante do mundo presencial naquele momento, após alguns instantes sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Levantou o olhar ainda contrito e enxergou o Padre Josefo ao seu lado. "Desculpe interromper suas orações, mas sei que bastam suas invocações de fé neste coração grandioso. Como vai Lucas?", se apresentou o amigo.
Lucas levantou com um sorriso nos lábios e fez uma rápida reverência ao religioso, sendo repreendido por este e convidado a se dirigir até à sacristia, onde poderiam conversar mais calmamente e sem interrupções de pessoas que poderiam chegar a qualquer instante.
Padre Josefo sentiu logo no semblante do rapaz que este não estava ali somente para uma visita ao templo e a ele. O próprio Lucas havia dito várias vezes que a sua igreja estava dentro de si, o que significava que os seus problemas religiosos a ele mesmo eram confessados e resolvidos. Achava bonito isso, essa ideia de que a religião e a fé são feitas pelo próprio homem, dentro de si, e não externamente, através da ritualização forjada nas igrejas e catedrais da vida.
Era padre e se sentia até estranho por pensar assim, porém o seu íntimo confirmava que as coisas de fé estão muito além de uma missa ou de um testemunho. A missa é o próprio homem e os seus caminhos diante das dificuldades em busca da proteção e salvação divinas. E o seu testemunho é a sua voz, o seu canto, o seu dizer interno, com os seus gritos de alegria ou de pavor. Mas a verdade é que Lucas estava ali e era preciso ouvi-lo, sem necessariamente dizer que tinha problemas e precisava relatá-los para que soluções pudessem ser encontradas.
- Depois daquele pânico com a chuvarada toda e da rápida visita que fiz, já faz algum tempo que não vou até o barracão. Como vão as coisas por lá Lucas, e como está você? – Perguntou o Padre Josefo, se servindo de um pequeno cálice de vinho, já oferecido ao rapaz e agradecido por este.
- Como dizem as palavras bíblicas, em verdade em verdade vos digo... – E contou tudo, desde os estranhos que chegaram destruindo parte do barracão e deixando avisos, até a ida até a delegacia e à prefeitura, relatando minuciosamente a conversa com o prefeito e a proposta recebida, bem como o encontro com a diretora.
E o Padre Josefo, sem demonstrar reação alguma de surpresa ou temor, foi logo falando:
- Nada disso me surpreende meu caro Lucas, nada disso é algo novo debaixo desse sol. Os ensinamentos bíblicos são claros ao nos revelar que o inimigo não quer ver ninguém construindo nada, erguendo o menor alicerce de felicidade, querendo subir pela vida pelos próprios esforços, e fazendo o bem muito pior. Contudo, o que me é estranho é que começaram a agir cedo demais, sem esperar ao menos se aquele humilde projeto de vocês vingaria. Certamente eles querem se antecipar aos fatos, começando a destruir pela raiz, mas não conseguirão e por diversos fatores...
- E que fatores seriam estes, Padre Josefo – Perguntou Lucas, interrompendo.
- Inúmeros são estes fatores, porém nenhum pode ser nomeado, pois não existem em palavras, mas através das ações imperceptíveis de Deus. O Senhor já está agindo diante disso tudo, já está intercedendo ao seu modo. Não esperemos, porém, respostas imediatas, aqui e agora, pois ele age na conformidade do destino que ele mesmo criou para cada um e para todos. Por isso mesmo, não haveremos de nos espantar se hoje à noite, amanhã ou outro dia, o mesmo inimigo retorne e não se contente derrubar somente uma porta ou outra parede, mas sim todo barracão...
- Seria como diz parte daquele poema de Eduardo Alves da Costa, que é mais ou menos assim: "Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada..." – Disse Lucas.
- É isso mesmo, chama-se "No caminho, com Maiakóvski" e é uma maravilha de poema, devendo ser lido por inteiro e todos os dias. Existem poesias que são como palavras bíblicas, mas a própria Bíblia é um grande poema, épico, lírico. Sim, mas voltando ao assunto. Não nos espantemos também se, após derrubarem o barracão, quiserem amedrontar você. Por isso mesmo devemos estar precavidos contra tudo isso. Mas digo mais uma vez, por mais que façam jamais destruirão o plano maior de Deus para com você, e disso eu tenho certeza. Quantos templos, Lucas, não foram derrubados diante de Cristo para impedir que Deus se expressasse em sua força? Derrubaram os templos, porém nunca derrubaram o homem.


continua....



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terça-feira, 29 de junho de 2010

DONA SINHÁ: RETRATOS, PALAVRAS E ENCONTROS (Crônica)

DONA SINHÁ: RETRATOS, PALAVRAS E ENCONTROS

Rangel Alves da Costa*


Seu cabelo já estava totalmente embranquecido, nuvens bonitas de lã que passeavam quando o vento soprava mais forte. A pele, com as cicatrizes e marcas do tempo, refletia os muitos e muitos anos vividos, num itinerário de alegrias e sofrimentos guardados no baú da memória. O olhar ainda bem vivo, nos olhos já opacos pelas miragens de sempre, era espelho e reflexo de fatos e acontecimentos que dá vontade de chorar só em lembrar.
As pernas ainda se erguiam fraquinhas, mas o andar quase não existia mais, apenas uns pequenos passos ao redor do enorme casarão de sala, varanda e quarto. Tão pequena que era a casa que não cabia nos seus aposentos as muitas lembranças que faziam moradia ali e viviam rondando o ambiente como espíritos bons que não querem partir.
Praticamente dia e noite sentada na varanda, de onde via o mundo e tudo, estradas, horizontes, plantas e bichos adiante, moleques brincando, conhecidos passando, estranhos chegando. Sua neta só chegava ali depois do entardecer, depois da escola e do namorar, para fazer uma coisa e outra, preparar o mingau e o banho, perfumar e dar remédios. Era boa essa menina, que muitas vezes deixava de ver televisão para ficar conversando com sua vó sobre os tempos idos.
A neta podia fazer o quisesse na casa, inventar de comprar novidades e remexer nos panos e lençóis, trocar os móveis de lugar, mas não podia, sob hipótese alguma, dar fim ao mobiliário antigo, fazer sumir as lembrancinhas que enfeitavam a prateleira e estavam espalhadas por cima de tudo e nem trocar de lugar as muitas fotografias antigas, amareladas e tristes colocadas nas paredes da sala e do quarto. Sua família estava ali, seu pai e sua mãe estavam ali, filhos, netos e bisnetos, todos estavam ali, dizia a velha senhora. Já que boa parte havia morrido e muitos estavam distantes, então se contentava em conversar com os seus através das fotografias.
Verdade é que conversava mesmo, de viva voz, falando com os retratos para quem quisesse ouvir, e coitado daquele que dissesse que Dona Sinhá estava broca, variando, falando sozinha ou vendo fantasmas. Recebia um troco na mesma hora: "Se você não respeita os seus, deixe-me viver e prosear com os meus!". E prosseguia no seu diálogo com os velhos retratos: "Sirineu, aí não deve ser tão safado como era aqui, hein cabra veio?", "Judite minha filha, como você está bonita e como estou com saudades", "Joãozinho, por que você se foi tão novo meu filho, deixando sua avó aqui nessa tristeza toda?", "Petinha, que falta você faz", "Maria não esqueça de dizer ao homem que guarde um lugar bem bonito pra mim, que breve estarei por aí...".
E assim, quando não estava na varanda conversando com a vida, com a natureza e os passarinhos, ficava as tardes inteiras conversando com suas fotografias. E tinha dias que escurecia e ela no maior diálogo com seus retratos, com os seus vestígios, com os seus entes queridos. Se fosse somente isso até que sua neta compreendia, vez que também sentia muitas saudades de seus parentes e mais de vez se viu conversando em silêncio com eles. O problema é que de uns tempos pra cá sua avó cismou de ter, dia e noite, um pequeno baú cheios de lembranças sempre ao colo.
Numa noite, quando sua neta perguntou porque não largava mais aquele baú que só tinha cartas antigas e velhas fotografias, Dona Sinhá respondeu: "Estava só olhando e conversando com os retratos na parede, agora posso abrir as portas dessas fotografias aqui e ir encontrar com quem eu quero. Ontem mesmo não suportei a saudade e fui visitar o meu velho Sirineu, abri a porta do retrato e fui lá dar um abraço nele. E ele me deu essa flor aqui, veja que bonita". E mostrou uma linda flor de lírio. A neta quase desmaia. Verdade é que alguém havia dado aquela flor à sua avó, pois ela estava ali toda bonita e cheirosa. "Será, meu Deus?". E não pôde conter as lágrimas.
Dois meses se passaram desde que Dona Sinhá partiu, morreu conversando com alguém e dizendo que já estava indo. E foi. Numa tarde, quando a neta ia passando com a velha cadeira de balanço para colocar na varanda e sentar um pouco, ouviu uma voz vindo de uma fotografia na parede. Olhou e Dona Sinhá parecia sorrindo: "Quando puder converse comigo minha neta querida!".




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Realidade (Poesia)

Realidade


E nem sonhei
nem lembrei
nem chorei
nem entristeci
nem me afligi
nem padeci
nem me aborreci
nem quis sumir
e muito menos morri

Como vê
foi tudo mentira
assim como você
assim como sou
assim como ensinaste
assim como aprendi
assim como somos

E por isso
estamos
brincamos
ficamos
fingimos
amamos
deitamos
gozamos
morremos
e tanto faz.


Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 30

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 30

Rangel Alves da Costa*


Ajeitando-se no conforto da cadeira, depois de tomar uma dose de uísque e acender um charuto, o prefeito começou a falar não demonstrando estar preocupado com as palavras pronunciadas por Lucas, buscando até mesmo conduzir o assunto por outro caminho:
- Os tempos andam difíceis rapaz, todos nós sabemos disso. O desemprego está aumentando cada vez mais e quem tinha seu emprego e perdeu parece não estar em bons lençóis, e pelo que me consta você perdeu o emprego que tinha de professor por má conduta. Ao menos foi o que me disseram. Fiz tudo pra não acreditar, mas o secretário de educação disse que você estava incitando os alunos a tocar fogo na escola. Outra versão disse que você estava ensinando os alunos a produzirem bombas caseiras para jogar na diretoria e tocar fogo em tudo...
Lucas ouvia aquilo tudo com a maior vontade do mundo de dar um muro naquela cara safada do prefeito. Fervia por dentro, mas procurava se conter, talvez que tivessem mesmo repassado aquelas informações para o mau caráter, e assim continuou ouvindo até chegar o seu instante de falar. E o prefeito continuou:
- Prefiro não acreditar em nada disso, pois sei que você é um menino muito bom, um rapaz muito útil e que será ainda muito mais útil. Na verdade, você só foi demitido porque a diretora, que é amante do vice-prefeito, exigiu sua cabeça. Mas isso é segredo e não conte a ninguém não, até porque tenho uma proposta irrecusável pra você...
- E qual seria tal proposta, senhor prefeito? – Perguntou Lucas, vermelho feito brasa e quase explodindo de raiva.
- Você vai receber o dobro do que ganhava e sem colocar os pés em escola nenhuma, em sala de aula nenhuma, sem fazer nada, nadica de nada, só em casa no bem bom e recebendo sua bolada todo final do mês. Como eu disse, você é meu amigo e eu trato bem os amigos. Assim, meu amigo, você vai assumir um cargo aqui na prefeitura e o resto deixe por nossa conta. Quer dizer, legalmente você trabalha, vai constar da folha do pagamento, mas no fim das contas tudo é de mentirinha, só um jeitinho de amigo para você ter o seu garantido sem fazer nada. Mas veja bem, tudo isso é legal porque todo mundo faz assim, e pode ver que não tem nenhuma prefeitura nesse mundão afora que não faça desse jeito. Só que isso é para uns poucos sortudos, e você foi um dos escolhidos. Topa?... – E o prefeito estava sorridente, acenando para que trouxessem outra dose de bebida.
- Se eu aceitar, senhor prefeito, será em troca de que? – Indagou Lucas, fazendo o possível para demonstrar que estava calmo.
- Em troca de sua utilidade, é isso. Em troca de sua utilidade, pois como eu havia dito você é um menino muito útil. Agora me pergunte, e útil como? Ora, meu rapaz trabalhando para que o povo que vai frequentar o seu barracão se torne meu eleitor, vote em mim e em meus candidatos. Com a inteligência que você tem e a facilidade nas palavras, basta dizer poucas coisas e o povo vai ficar bestinha por mim, vai achar que sou um político honesto e que por isso mereço continuar mandando politicamente no município. É isso, e não é fácil? Então topa?
Lucas olhou bem no fundo dos olhos do prefeito, levantou da cadeira e disse:
- Vou respeitar a prefeitura enquanto órgão público e por isso vou sair pacificamente, mas quanto a você saiba que não passa de um covarde, de um nojento, de um ladrão. Em síntese, você não vale nada e vai pagar caro, e bem caro por isso, não pelas minhas mãos, mas haverá de encontrar pedras pontiagudas pelo seu infame caminho – E foi saindo imediatamente, ainda ouvindo o prefeito que desesperadamente dizia:
- Eu dobro a oferta, triplico, volte aqui. E é melhor voltar senão quem foi lá derrubar umas coisinhas pode fazer pior...
Lucas saiu da prefeitura com aquelas últimas palavras na cabeça: "E é melhor voltar senão quem foi lá derrubar umas coisinhas pode fazer pior...". Não tinha mais dúvidas: tinha mão de gente grande por trás daquele episódio, e certamente que o prefeito estava envolvido. Ele mesmo, querendo ou não, acabava de confessar.
Caminhando totalmente desnorteado pela rua, sem querer deu de frente com a diretora da escola, que em tom esnobe, falou quase no seu ouvido: "Meus pêsames Lucas pelo que fizeram no seu barracão. É uma pena que nem esteja funcionando direito e pessoas ruins já se preocupam em ir até lá para ameaçar e destruir. Mas isto é abominável. Meus pêsames menino Lucas...". E foi saindo se requebrando.
Mas não pode ser, pensou. Não comentei isso com ninguém e primeiro vem o prefeito e fala sobre o assunto e agora vem essa coisa ruim e relata sobre o fato. Tem muito mais coisa nesse meio que preciso descobrir. E seguiu rumo à igreja com o juízo fervendo e a cabeça em tempo de explodir. Mesmo assim não era sua intenção comentar nada disso com o Padre Josefo.


continua...




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