EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 65
Rangel Alves da Costa*
Quanto mais se aproximavam da pequena propriedade familiar, mais Lúcia se enchia de saudades, alegrias e tristezas. Tudo ao mesmo tempo. Cada passo que dava era como se estivesse indo reencontrar com os velhos pais, cada um no seu afazer diário, indo limpar o pouco mobiliário da casa, varrer o piso e os arredores da morada, forrar as camas, colocar água e comida para os bichos, ligar o rádio e ouvir uma canção que falasse de amor. Tempos de sonhar ainda, eram aqueles. Agora somente passos, por este e outros caminhos e uma saudade imensa...
A jovem senhora ficou sem entender coisa alguma quando avistou o barracão. Ao sair dali, e não tinha muito tempo, nada daquilo existia. Foi preciso Lucas explicar tudinho, desde o começo, sobre a existência e os objetivos daquela construção, para encanto ainda maior da irmã.
- Que coisa maravilhosa Lucas. Nossos pais não entenderiam muito bem como isso funciona, mas certamente ficariam muito felizes e contentes quando encontrassem pessoas reunidas aqui, o padre celebrando missa, jovens e adultos tendo outros meios para serem alfabetizados, pessoas aprendendo ofícios e famílias reencontrando-se pelos arredores. Meu esposo, que tem um coração assim igual ao seu, sempre pensando mais nos outros do que em si próprio, certamente ficará muito admirado com a obra dos meninos. Digo meninos porque você não passará de um menino perto dessas pessoas tão jovens e já tão preocupadas com o presente e o futuro. Chamo isso de responsabilidade, e responsabilidade com a construção das coisas boas que ainda podem ser erguidas na vida. Parabéns, meu irmão. Depois que eu tomar um gole de água daquele pote, que é a água mais saborosa do mundo, iremos até lá ver de perto e por dentro esse verdadeiro templo divino.
Lucas fazia de tudo para não expor a emoção que tomava conta, para não mostrar à irmã os olhos insistindo em chover chuva de temporal. Contudo, ele tinha esquecido que ao sair havia deixado ali alguns meninos e seus parentes fazendo uma faxina na bagunça que restou do dia anterior. E de repente, a porta do barracão se abre e surgem Paulinho, Maria, Guiomar e Antonio, todos sujos da cabeça aos pés, com vassouras, panos e baldes nas mãos, espantados diante da presença daquela desconhecida.
- Venham cá, venham cá. Calma, não fiquem com vergonha por estarem assim porque esta pessoa aqui não é nenhuma desconhecida. Esta é minha irmã Lúcia, sobre quem eu já falei a vocês, lembram? – E começou a apresentá-los.
Lúcia ficou verdadeiramente encantada com aquelas figurinhas maravilhosas. E disse que desejava se reunir com todos no dia seguinte, ali mesmo no barracão, no horário que fosse melhor para eles. E assim os meninos voltaram para limpar ainda mais o barracão, como se ali ainda tivesse alguma coisa para ser cuidada. Na verdade, era o prazer imenso em serem reconhecidos naquilo que faziam.
Já na varanda da casa, antes mesmo da porta principal, Lúcia perguntou se o irmão estava fazendo alguma reforma, pois havia percebido uma porta nova. "Não, ainda não. Mudei as duas portas, a da frente e a dos fundos, porque já estavam muito velhas e sem dar mais segurança". Foi a única saída encontrada por ele, pois, por enquanto, não desejava falar sobre as ameaças e os atentados que vinha constantemente recebendo.
Como o prometido, Lúcia foi logo em direção ao velho pote, todo limpinho que parecia novo, e tomou com prazer uma caneca de água. Passou os olhos pela casa inteira, visitou o quarto dos pais, olhou as fotografias na parede, remexeu em coisas e baús e chorou muito. Nesses momentos ninguém pode conter tais lágrimas, pois são expressões tão verdadeiras que parecem vozes dizendo tudo o que sentem. E naquele instante o que Lúcia sentia era como se os seus pais estivessem ainda ali presentes, olhando para os dois e os abençoando uma vez mais. Talvez estivessem Lúcia, talvez estivessem Lucas...
Alguém poderia dizer que não, que seria impossível, mas o anjo do Senhor e todos os anjos que estavam ali também choravam. E em cada um a certeza de que se até eles, que são fortalecidos pelo sopro divino para suportar com firmeza todas as dificuldades, choravam e sentiam as fragilidades próprias dos seres humanos, quanto mais estes, que vivem saltando de pedra em pedra num rio imenso que é só de lágrimas.
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Uma lição para o tempo (Poesia)
Uma lição para o tempo
Não viveríamos hoje
o amor criança de ontem
porque desaprendemos
a construir sonhos
a ter singela felicidade
e a pensar que seria possível
crescer amando
sem que o tempo tirasse
nossos doces e as nossas purezas
olhe pra trás meu amor
eu também sinto saudades
de tudo aquilo
e ainda te vejo correndo
com uma flor na mão para
me encontrar embaixo da chuva
e não quero lembrar mais
porque você perdeu
o meu lencinho bordado de chorar
dê-me as mãos minha criança
e vamos brincar novamente
para que o tempo enfim aprenda
que não há um tempo para amar
mas amor a qualquer tempo
do tempo que ainda nos restar.
Rangel Alves da Costa
Não viveríamos hoje
o amor criança de ontem
porque desaprendemos
a construir sonhos
a ter singela felicidade
e a pensar que seria possível
crescer amando
sem que o tempo tirasse
nossos doces e as nossas purezas
olhe pra trás meu amor
eu também sinto saudades
de tudo aquilo
e ainda te vejo correndo
com uma flor na mão para
me encontrar embaixo da chuva
e não quero lembrar mais
porque você perdeu
o meu lencinho bordado de chorar
dê-me as mãos minha criança
e vamos brincar novamente
para que o tempo enfim aprenda
que não há um tempo para amar
mas amor a qualquer tempo
do tempo que ainda nos restar.
Rangel Alves da Costa
TODO MUNDO FAZ (E DIZ QUE ODEIA) (Crônica)
TODO MUNDO FAZ (E DIZ QUE ODEIA)
Rangel Alves da Costa*
É corriqueiro, é popular, está na boca de cada um que nunca é bom fazer com os outros aquilo que não quer que façam consigo. Meu avô dizia que a maldade é tão cega que nem se dá conta de que o tempo está lhe vigiando sempre. Já minha avó tinha o prazer em dizer que quem não souber atirar de baleadeira comece a virar o rosto. E sem medo de errar acrescento que as pessoas acham que os seus canhões só têm boca pra atirar. E vai que o bendito estoura bem na hora que o dono está limpando. Mas afinal de contas, onde se pensa em chegar com isso tudo?
Chegar apenas à certeza de que os seres humanos parecem ainda não haver aprendido algumas regras e fórmulas básicas da vida, tais como, por exemplo: toda ação provoca uma reação; ninguém está disposto a ser escravo de ninguém; ninguém tem sua honra garantida por seguradora para que qualquer um venha por trás e esculhambe; todo o que humilha esquece mais rápido do que o humilhado; aquele que apanha não pensa noutra coisa a não ser no momento certo para dar o troco; quem falou o que queria vai ouvir precisamente o que não queria. É tudo uma questão de causa e efeito, só para confirmar que as pessoas sentem o maior prazer em dar motivo e causar danos, porém sempre acham vitimadas demais quando o troco vem na medida ou em altura ainda maior.
Verdade é que coisas existem porque tudo mundo faz, mas sempre, com ares de inocência e santidade, afirmam que não suportam ver maldade sendo feita com ninguém. Quer dizer, agem errado, sabendo da maldade e da injustiça do ato, e ainda assim dizem que aquilo é o maior absurdo do mundo, que não se deve fazer com ninguém, que todos são filhos de Deus para serem respeitados. Mas isto só da boca pra fora, pois basta um rompante para que o outro seja um filho de não sei o que, tudo que de ruim possa existir.
Conheço muitas pessoas que se dizem equilibradas, se sentem honradas e honestas demais, possuem boa formação familiar, afirmar ler as Escrituras e ouvem os mandamentos, sabem criticar com honestidade as coisas erradas, mas não podem nem sonhar que alguma coisa envolve o nome delas. Sem saber a verdade ou a extensão real do fato, já abrem a boca e se tornam as pessoas mais nojentas do mundo. Esculhambam com o outro num segundo, rebaixam a tudo que possa existir de pior, e citam palavras que de tão covardes jamais serão esquecidas pelo que foi atingido.
"Seu ladrão safado, você nunca prestou, nem você nem sua raça, que deveria tá todo mundo preso"; "Seu corno, viado safado, xibungo, é isso que você é e diga que eu tô mentindo pra ver se não toma um tiro agora?"; "Imprestável, nojento, salafrário, ladrão de meia tigela, quem não presta é você e sua família"; "Prove que é mulher, sua puta safada, rampeira, que vive saindo com um e com outro, que não pode ver homem casado que vai em cima"; "Minha filha não, quenga é sua filha, que nunca foi mocinha e já é puta". Tais são apenas pequenos exemplos de absurdos ainda maiores.
Agora digam se estou mentindo, se não são estas as belas palavras que são proferidas de um instante para o outro por alguém que num segundo atrás estava com a bíblia embaixo do braço ou estava reconhecendo as qualidades do outro? É isso mesmo. Aquele que era uma pessoa maravilhosa e com as maiores lisonjas do mundo a um segundo atrás, se tornou de repente num ladrão, num corno, num viado safado. E a filha da outra que não tem nada a ver, coitada, nem sabe que está sendo chamada de tudo o que não presta. E tudo porque pessoas despreparadas ainda acham que têm o comportamento correto, normal.
Depois vão pedir perdão, invocar o nome do Senhor, de todos os santos e todos os anjos, e dizer que tudo aquilo não passou de um grande equívoco, de um momento de desequilíbrio, de um instante que parecia estar sem Deus no coração. Mas tem validade pedir perdão, se dali a instante vai abrir a boca novamente para dizer as mesmas besteiras com pessoas diferentes?
Tem gente que é assim, e é a grande maioria, que se acha incomodada demais se alguém disser que o seu lulu está sujando a calçada. Pra que dizer, se corre o risco de morrer, fora todo o tipo de baixaria que vai ouvir na mesma hora. Esculhambam, viram a cara e vão embora. Mas nem pensar que alguém diga contra a ela o mesmo, pois reconhecidamente não merece ouvir nada disso, pois é quase santa. Enquanto o outro, só porque ela quer, é tudo de ruim que possa existir.
Tenho um amigo que chama tais fatores de máximo grau da civilização. Tenho que concordar com ele.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
É corriqueiro, é popular, está na boca de cada um que nunca é bom fazer com os outros aquilo que não quer que façam consigo. Meu avô dizia que a maldade é tão cega que nem se dá conta de que o tempo está lhe vigiando sempre. Já minha avó tinha o prazer em dizer que quem não souber atirar de baleadeira comece a virar o rosto. E sem medo de errar acrescento que as pessoas acham que os seus canhões só têm boca pra atirar. E vai que o bendito estoura bem na hora que o dono está limpando. Mas afinal de contas, onde se pensa em chegar com isso tudo?
Chegar apenas à certeza de que os seres humanos parecem ainda não haver aprendido algumas regras e fórmulas básicas da vida, tais como, por exemplo: toda ação provoca uma reação; ninguém está disposto a ser escravo de ninguém; ninguém tem sua honra garantida por seguradora para que qualquer um venha por trás e esculhambe; todo o que humilha esquece mais rápido do que o humilhado; aquele que apanha não pensa noutra coisa a não ser no momento certo para dar o troco; quem falou o que queria vai ouvir precisamente o que não queria. É tudo uma questão de causa e efeito, só para confirmar que as pessoas sentem o maior prazer em dar motivo e causar danos, porém sempre acham vitimadas demais quando o troco vem na medida ou em altura ainda maior.
Verdade é que coisas existem porque tudo mundo faz, mas sempre, com ares de inocência e santidade, afirmam que não suportam ver maldade sendo feita com ninguém. Quer dizer, agem errado, sabendo da maldade e da injustiça do ato, e ainda assim dizem que aquilo é o maior absurdo do mundo, que não se deve fazer com ninguém, que todos são filhos de Deus para serem respeitados. Mas isto só da boca pra fora, pois basta um rompante para que o outro seja um filho de não sei o que, tudo que de ruim possa existir.
Conheço muitas pessoas que se dizem equilibradas, se sentem honradas e honestas demais, possuem boa formação familiar, afirmar ler as Escrituras e ouvem os mandamentos, sabem criticar com honestidade as coisas erradas, mas não podem nem sonhar que alguma coisa envolve o nome delas. Sem saber a verdade ou a extensão real do fato, já abrem a boca e se tornam as pessoas mais nojentas do mundo. Esculhambam com o outro num segundo, rebaixam a tudo que possa existir de pior, e citam palavras que de tão covardes jamais serão esquecidas pelo que foi atingido.
"Seu ladrão safado, você nunca prestou, nem você nem sua raça, que deveria tá todo mundo preso"; "Seu corno, viado safado, xibungo, é isso que você é e diga que eu tô mentindo pra ver se não toma um tiro agora?"; "Imprestável, nojento, salafrário, ladrão de meia tigela, quem não presta é você e sua família"; "Prove que é mulher, sua puta safada, rampeira, que vive saindo com um e com outro, que não pode ver homem casado que vai em cima"; "Minha filha não, quenga é sua filha, que nunca foi mocinha e já é puta". Tais são apenas pequenos exemplos de absurdos ainda maiores.
Agora digam se estou mentindo, se não são estas as belas palavras que são proferidas de um instante para o outro por alguém que num segundo atrás estava com a bíblia embaixo do braço ou estava reconhecendo as qualidades do outro? É isso mesmo. Aquele que era uma pessoa maravilhosa e com as maiores lisonjas do mundo a um segundo atrás, se tornou de repente num ladrão, num corno, num viado safado. E a filha da outra que não tem nada a ver, coitada, nem sabe que está sendo chamada de tudo o que não presta. E tudo porque pessoas despreparadas ainda acham que têm o comportamento correto, normal.
Depois vão pedir perdão, invocar o nome do Senhor, de todos os santos e todos os anjos, e dizer que tudo aquilo não passou de um grande equívoco, de um momento de desequilíbrio, de um instante que parecia estar sem Deus no coração. Mas tem validade pedir perdão, se dali a instante vai abrir a boca novamente para dizer as mesmas besteiras com pessoas diferentes?
Tem gente que é assim, e é a grande maioria, que se acha incomodada demais se alguém disser que o seu lulu está sujando a calçada. Pra que dizer, se corre o risco de morrer, fora todo o tipo de baixaria que vai ouvir na mesma hora. Esculhambam, viram a cara e vão embora. Mas nem pensar que alguém diga contra a ela o mesmo, pois reconhecidamente não merece ouvir nada disso, pois é quase santa. Enquanto o outro, só porque ela quer, é tudo de ruim que possa existir.
Tenho um amigo que chama tais fatores de máximo grau da civilização. Tenho que concordar com ele.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 64
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 64
Rangel Alves da Costa*
Enfim, chegou à igreja. Bem que poderia já ter se avistado há muito com o amigo Padre Josefo, se não fosse aquele absurdo de delegacia. E quanto a esta instituição policial, órgão constitucionalmente previsto para atuar na defesa dos direitos dos cidadãos, sentia que ao menos aquela dali estava tão apodrecida, em termos de seriedade nos trabalhos dos seus agentes, quanto os grupos de traficantes e bandidos comuns que estavam por todos os lados. Não tinha mais dúvidas sobre isso.
Contudo, havia chegado ao templo da cristandade mas ainda não havia ultrapassado as suas portas, e ainda não faria isto dessa vez, pois ouviu sua irmã Lúcia chamando pelo seu nome bem próximo de onde estava. Ao se virar, como forma de confirmar aquela boa surpresa, teve o prazer de enxergar sua querida irmã acenando de dentro de um carro.
Voltaria mais tarde para falar com o sacerdote, mas de qualquer maneira teria uma conversa com o amigo naquele mesmo dia. Pelas seguidas dificuldades, voltando sempre quando praticamente já estava com os pés dentro da igreja, o diálogo deveria ser bem gratificante e produtivo. Assim desejou Lucas, enquanto caminhava para abraçar Lúcia.
Depois dos cumprimentos, ela pediu ao seu esposo que seguisse com o veículo até a propriedade, pois desejava ir caminhando com o irmão até lá. O rapaz disse que preferia ir logo visitar os seus familiares, e somente depois é que seguiria até o lugar. E então os dois seguiram juntinhos. Ela colocando o braço no braço do irmão, parecendo um belo casal de enamorados.
Quem viu essa cena e ficou um tanto estremecida foi Ester, que por um acaso estava na casa de uma amiga no outro lado da rua. Se fosse mais de perto conheceria Lúcia imediatamente, mas de longe era qualquer mulher que certamente tinha muita facilidade em se aproximar dos braços de Lucas.
Quem seria aquela que contava com o prazer de segurar no braço daquele rapaz, ficava imaginando a futura médica. Ora, mas estou pensando asneiras, pois ele é apenas meu ex-namorado, continuava cismando a menina. Pensando bem, ele até que pode não estar lembrado, mas eu continuo sendo a namorada dele, pois nunca terminamos oficialmente. Se ele está com outra é porque está me traindo, e se está fazendo isso tenho que tomar satisfações. Mas deixe pra lá mulher, é melhor deixar pra lá, de modo a não incendiar de vez o coração. Tudo isso Ester imaginando de uma hora para outra, só por ter visto Lucas com outra mulher. Depois vou procurar saber direitinho quem é aquela zinha. Mas deixe o rapaz em paz mulher, pois você não abre de vez esse coração e fala a verdade pra ele, e agora quer se intrometer na vida dele. Ademais, hoje em dia as pessoas nem perguntam mais se o outro quer namorar nem avisa quando vai terminar. Começa e acaba sem ninguém precisar saber, principalmente os namorados. Ora, mas isso é com os outros, que não se amam de verdade, e não com a gente, que se ama de verdade desde criança. Se é assim, então crie coragem e vá, chegue perto dele, olhe bem nos seus olhos e diga simplesmente a coisa mais bonita e verdadeira do mundo, que é a expressão real do amor. Basta dizer: eu ainda te amo Lucas. E pronto. E seria bom que ele dissesse que não sente mais o mesmo, que não me ama mais, que é pra eu deixar de ser besta. Mas eu vou esquecer ele, eu juro. Quando eu quero faço de um jeito que ele nem percebe, como nas vezes que estive no barracão e nem me balancei pra ele. É isso, tenho que ser durona, bem durona, cada vez mais difícil pra ele. O problema é se ele me der um beijo, o que é que eu faço? Quem visse Ester nesse imaginário todo, diria que estava enlouquecendo. Até a amiga perguntou se estava com algum problema. Mas não, nada disso. Era somente o amor dando os seus sinais.
Enquanto isso, os irmãos seguiam adiante. Era uma forma de caminharem novamente por aquela estrada onde tanto caminharam juntos, ora para irem à escola, ora para fazerem uma coisa ou outra, mas sempre a pedido dos pais. Começariam também a colocar os assuntos em dia, a matar saudades, a reviver os tempos, a ser novamente uma família. Uma família formada praticamente por dois irmãos. Ela morando noutra cidade com o esposo, e ele naquela luta diária para sobreviver.
- Mas você está muito bem meu irmão, até mesmo parecendo que viver sozinho lhe fez bem em tudo. E esse coração como vai, já colocou algum rabo de saia casa adentro? – Perguntava sorrindo, e continuou – Só queria que você arranjasse uma namorada tão inteligente e séria quanto você. Você merece uma mulher jovem e bela e que ame de verdade. Hoje em dia é difícil, mas sei que você vai conseguir. Tem visto aquela sua namoradinha de infância, a Ester? Soube que ela faz estágio num hospital na cidade onde moro e é uma excelente médica, com um futuro brilhante, Quando soube disso logo lembrei de você...
- Lúcia, acho que temos coisas muito mais importantes para falar. Namoro, coração, paixão, é tudo que se faz no seu tempo certo. Essas coisas fazem parte das circunstâncias e consequencias da vida, mas não são necessariamente primordiais. Mas vamos falar, por exemplo, do meu sobrinho. Quando é que ele chega?
E caminhavam felizes, e mais tarde cuidariam de assuntos realmente muito mais importantes.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Enfim, chegou à igreja. Bem que poderia já ter se avistado há muito com o amigo Padre Josefo, se não fosse aquele absurdo de delegacia. E quanto a esta instituição policial, órgão constitucionalmente previsto para atuar na defesa dos direitos dos cidadãos, sentia que ao menos aquela dali estava tão apodrecida, em termos de seriedade nos trabalhos dos seus agentes, quanto os grupos de traficantes e bandidos comuns que estavam por todos os lados. Não tinha mais dúvidas sobre isso.
Contudo, havia chegado ao templo da cristandade mas ainda não havia ultrapassado as suas portas, e ainda não faria isto dessa vez, pois ouviu sua irmã Lúcia chamando pelo seu nome bem próximo de onde estava. Ao se virar, como forma de confirmar aquela boa surpresa, teve o prazer de enxergar sua querida irmã acenando de dentro de um carro.
Voltaria mais tarde para falar com o sacerdote, mas de qualquer maneira teria uma conversa com o amigo naquele mesmo dia. Pelas seguidas dificuldades, voltando sempre quando praticamente já estava com os pés dentro da igreja, o diálogo deveria ser bem gratificante e produtivo. Assim desejou Lucas, enquanto caminhava para abraçar Lúcia.
Depois dos cumprimentos, ela pediu ao seu esposo que seguisse com o veículo até a propriedade, pois desejava ir caminhando com o irmão até lá. O rapaz disse que preferia ir logo visitar os seus familiares, e somente depois é que seguiria até o lugar. E então os dois seguiram juntinhos. Ela colocando o braço no braço do irmão, parecendo um belo casal de enamorados.
Quem viu essa cena e ficou um tanto estremecida foi Ester, que por um acaso estava na casa de uma amiga no outro lado da rua. Se fosse mais de perto conheceria Lúcia imediatamente, mas de longe era qualquer mulher que certamente tinha muita facilidade em se aproximar dos braços de Lucas.
Quem seria aquela que contava com o prazer de segurar no braço daquele rapaz, ficava imaginando a futura médica. Ora, mas estou pensando asneiras, pois ele é apenas meu ex-namorado, continuava cismando a menina. Pensando bem, ele até que pode não estar lembrado, mas eu continuo sendo a namorada dele, pois nunca terminamos oficialmente. Se ele está com outra é porque está me traindo, e se está fazendo isso tenho que tomar satisfações. Mas deixe pra lá mulher, é melhor deixar pra lá, de modo a não incendiar de vez o coração. Tudo isso Ester imaginando de uma hora para outra, só por ter visto Lucas com outra mulher. Depois vou procurar saber direitinho quem é aquela zinha. Mas deixe o rapaz em paz mulher, pois você não abre de vez esse coração e fala a verdade pra ele, e agora quer se intrometer na vida dele. Ademais, hoje em dia as pessoas nem perguntam mais se o outro quer namorar nem avisa quando vai terminar. Começa e acaba sem ninguém precisar saber, principalmente os namorados. Ora, mas isso é com os outros, que não se amam de verdade, e não com a gente, que se ama de verdade desde criança. Se é assim, então crie coragem e vá, chegue perto dele, olhe bem nos seus olhos e diga simplesmente a coisa mais bonita e verdadeira do mundo, que é a expressão real do amor. Basta dizer: eu ainda te amo Lucas. E pronto. E seria bom que ele dissesse que não sente mais o mesmo, que não me ama mais, que é pra eu deixar de ser besta. Mas eu vou esquecer ele, eu juro. Quando eu quero faço de um jeito que ele nem percebe, como nas vezes que estive no barracão e nem me balancei pra ele. É isso, tenho que ser durona, bem durona, cada vez mais difícil pra ele. O problema é se ele me der um beijo, o que é que eu faço? Quem visse Ester nesse imaginário todo, diria que estava enlouquecendo. Até a amiga perguntou se estava com algum problema. Mas não, nada disso. Era somente o amor dando os seus sinais.
Enquanto isso, os irmãos seguiam adiante. Era uma forma de caminharem novamente por aquela estrada onde tanto caminharam juntos, ora para irem à escola, ora para fazerem uma coisa ou outra, mas sempre a pedido dos pais. Começariam também a colocar os assuntos em dia, a matar saudades, a reviver os tempos, a ser novamente uma família. Uma família formada praticamente por dois irmãos. Ela morando noutra cidade com o esposo, e ele naquela luta diária para sobreviver.
- Mas você está muito bem meu irmão, até mesmo parecendo que viver sozinho lhe fez bem em tudo. E esse coração como vai, já colocou algum rabo de saia casa adentro? – Perguntava sorrindo, e continuou – Só queria que você arranjasse uma namorada tão inteligente e séria quanto você. Você merece uma mulher jovem e bela e que ame de verdade. Hoje em dia é difícil, mas sei que você vai conseguir. Tem visto aquela sua namoradinha de infância, a Ester? Soube que ela faz estágio num hospital na cidade onde moro e é uma excelente médica, com um futuro brilhante, Quando soube disso logo lembrei de você...
- Lúcia, acho que temos coisas muito mais importantes para falar. Namoro, coração, paixão, é tudo que se faz no seu tempo certo. Essas coisas fazem parte das circunstâncias e consequencias da vida, mas não são necessariamente primordiais. Mas vamos falar, por exemplo, do meu sobrinho. Quando é que ele chega?
E caminhavam felizes, e mais tarde cuidariam de assuntos realmente muito mais importantes.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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domingo, 1 de agosto de 2010
A casa (Poesia)
A casa
Se você pedir eu construo
se você quiser vou erguer
uma casa de areia
uma casa de barro
uma casa de plástico
uma casa de folhas
uma casa de tijolos
uma casa de pedra
uma casa de ferro
uma casa sem paredes
uma casa sem nada
não tenha medo do vento
não tenha medo da água
não tenha medo do tempo
não tenha medo de nada
sua casa é segura
é de areia e de ferro
não tem parede nem nada
mas não tenha medo
coloquei você como alicerce
e a casa só vai cair
se teu cimento de mulher
começar a trair.
Rangel Alves da Costa
Se você pedir eu construo
se você quiser vou erguer
uma casa de areia
uma casa de barro
uma casa de plástico
uma casa de folhas
uma casa de tijolos
uma casa de pedra
uma casa de ferro
uma casa sem paredes
uma casa sem nada
não tenha medo do vento
não tenha medo da água
não tenha medo do tempo
não tenha medo de nada
sua casa é segura
é de areia e de ferro
não tem parede nem nada
mas não tenha medo
coloquei você como alicerce
e a casa só vai cair
se teu cimento de mulher
começar a trair.
Rangel Alves da Costa
TIQUIM DE PROSA (Crônica)
TIQUIM DE PROSA
Rangel Alves da Costa*
Tarde dessa, tava eu na malhada do terreno, debaixo do pé de umbuzeiro, estendido numa rede de descansar sonhador, como faço todo entardecer, quando o trabalhar permite e o tempo ajuda, depois que os ofícios estão encaminhados e a vida autoriza que o homem ainda tenha momentos só dele.
Se for no tempo certo, chega até cair umbu madurinho por cima do corpo estendido, e por isso mesmo é sempre bom ter uma garrafinha daquela branquinha do engenho por perto, bem embaixo da rede, cobrindo o formigueiro danado de atrevido. Nunca passa de dois ou três golinhos, mesmo que se vá juntando uma cesta de umbus madurinhos e docinhos.
Os bichos também gostam de umbu de vez, e na fome juntada ao faro apurado se acercam também do umbuzeiro e fazem a festa. E chega boi e chega vaca, passarinho dá por cima e por todo lado, até cobra aparece de vez em quando. Se der uma pinguinha a eles, também bebem de lamber os beiços, com certeza. É uma festa a vida, todas as vezes que seres é dado o direito de festejar.
Inté parece coisa de preguiçoso, mas garanto, seu moço, que não é não. Só Deus sabe o que é levantar ainda com o dia quase que enluarado, ralar as espigas de milho pra fazer o cuscuz, acender fogo pra coar café quentinho, depois ir até o curral pra tirar leite das três vaquinhas, colocar no vasilhame e ir pra beira da estrada esperar que o carro do leite passe e pague dois tostões. O que mais dói é saber que depois, se a gente quiser comprar um pedaço de queijo tem que pagar os olhos da cara. Mas isso é só uma parte do serviço, seu moço.
Mais tarde, ainda bem cedinho de alvorada, depois de comer um pedaço de cuscuz com tripa de porco – gosto mais de toucinho com ovos, quando tem -, vou soltar o gado, ajeitar uma coisa e outra, dar uma volta pelo roçado, limpar os matos que crescem demais e empatam que os pés de feijão e de milho vão crescendo como devem.
Tem planta rasteira de roça que se o cabra não tá arrancando ela todo dia, de repente ela já tomou a plantação todinha, botando a perder toda a lavoura que se deseja ter. Compadre meu descuidou três dias, e no quarto chega já tava tudo forrado, bonita, parecendo um lençol verdejante, só que de erva daninha, mata-pasto e tiririca. Depois, por baixo, só dá bicho ruim e cobra.
Quando o sol se levanta de vez já subo no jumento e vou pra onde me chamaram pra trabalhar naquele dia. Tem vez que é amigo tão pobre quanto eu que está na precisão. Quando é assim, a pessoa vai até lá plantar, colher, levantar uma cerca ou derrubar pé de pau só pra ajudar mesmo. Mais tarde a gente também precisa e o que não falta é amigo pra essas coisas.
Noutras vezes, e aí a gente vai por precisão mesmo, o trabalho é duro de lascar, arrebentando com o homem, tirando sua dignidade, que é ficar o dia inteirinho fazendo de um tudo na terra do ricaço em troca de quase nada. Mas não se pode fugir disso. Tem menino pra cuidar e menino chora com fome. Se gente grande tem barriga que ronca, menino tem boca que se abre num lamento só e pronto. E o pai tá ferrado. Quem mandou fazer o cabritinho? Agora tem que dar de comer.
Então, seu moço, deitar aqui nessa redinha não é luxo nem preguiça não. É difícil que sobre tempo, mas quando sobra não há coisa melhor, pois todo mundo também é filho de Deus. E quando tô aqui, ouvindo passarinho e bicho, me contento quando os amigos chegam pra um proseado ligeiro, rapidinho como a pressa do homem trabalhador.
É por isso mesmo que deixo sempre um banquinho de madeira bem ali, que é pra quando cada um chegar se assentar, tomar uma lapada, chupar um umbu, limpar o canto da boca e depois conversar conversa de qualquer prosa. Gosta das prosas deles, pois são muitos sabidos e sempre trazem novidades. Chegam a qualquer momento, assim, sem dá boa tarde nem avisar, mas gosto disso porque chegam sempre.
Já estou ouvindo o murmurejar de um que vem ali. Cabra bom é esse que vem ali. Chamam ele de vento, mas prefiro chamar de apressado. Me conta tudo, de longe, de lá longe. Não é fofoqueiro, é bem informado. Certa vez me disse que ouviu bem lá em cima, lá pra cima de uma nuvem, que um dia Deus vinha como um vento bem gelado pra arrepiar todo aquele que ele gostasse. Isso ele me disse um dia.
Estou esperando ele chegar. Mas não, só veio esse vento gelado demais, de arrepiar o corpo todo. Será o Deus, meu Deus? Que seja o bom Deus, meu Deus!...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertão.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Tarde dessa, tava eu na malhada do terreno, debaixo do pé de umbuzeiro, estendido numa rede de descansar sonhador, como faço todo entardecer, quando o trabalhar permite e o tempo ajuda, depois que os ofícios estão encaminhados e a vida autoriza que o homem ainda tenha momentos só dele.
Se for no tempo certo, chega até cair umbu madurinho por cima do corpo estendido, e por isso mesmo é sempre bom ter uma garrafinha daquela branquinha do engenho por perto, bem embaixo da rede, cobrindo o formigueiro danado de atrevido. Nunca passa de dois ou três golinhos, mesmo que se vá juntando uma cesta de umbus madurinhos e docinhos.
Os bichos também gostam de umbu de vez, e na fome juntada ao faro apurado se acercam também do umbuzeiro e fazem a festa. E chega boi e chega vaca, passarinho dá por cima e por todo lado, até cobra aparece de vez em quando. Se der uma pinguinha a eles, também bebem de lamber os beiços, com certeza. É uma festa a vida, todas as vezes que seres é dado o direito de festejar.
Inté parece coisa de preguiçoso, mas garanto, seu moço, que não é não. Só Deus sabe o que é levantar ainda com o dia quase que enluarado, ralar as espigas de milho pra fazer o cuscuz, acender fogo pra coar café quentinho, depois ir até o curral pra tirar leite das três vaquinhas, colocar no vasilhame e ir pra beira da estrada esperar que o carro do leite passe e pague dois tostões. O que mais dói é saber que depois, se a gente quiser comprar um pedaço de queijo tem que pagar os olhos da cara. Mas isso é só uma parte do serviço, seu moço.
Mais tarde, ainda bem cedinho de alvorada, depois de comer um pedaço de cuscuz com tripa de porco – gosto mais de toucinho com ovos, quando tem -, vou soltar o gado, ajeitar uma coisa e outra, dar uma volta pelo roçado, limpar os matos que crescem demais e empatam que os pés de feijão e de milho vão crescendo como devem.
Tem planta rasteira de roça que se o cabra não tá arrancando ela todo dia, de repente ela já tomou a plantação todinha, botando a perder toda a lavoura que se deseja ter. Compadre meu descuidou três dias, e no quarto chega já tava tudo forrado, bonita, parecendo um lençol verdejante, só que de erva daninha, mata-pasto e tiririca. Depois, por baixo, só dá bicho ruim e cobra.
Quando o sol se levanta de vez já subo no jumento e vou pra onde me chamaram pra trabalhar naquele dia. Tem vez que é amigo tão pobre quanto eu que está na precisão. Quando é assim, a pessoa vai até lá plantar, colher, levantar uma cerca ou derrubar pé de pau só pra ajudar mesmo. Mais tarde a gente também precisa e o que não falta é amigo pra essas coisas.
Noutras vezes, e aí a gente vai por precisão mesmo, o trabalho é duro de lascar, arrebentando com o homem, tirando sua dignidade, que é ficar o dia inteirinho fazendo de um tudo na terra do ricaço em troca de quase nada. Mas não se pode fugir disso. Tem menino pra cuidar e menino chora com fome. Se gente grande tem barriga que ronca, menino tem boca que se abre num lamento só e pronto. E o pai tá ferrado. Quem mandou fazer o cabritinho? Agora tem que dar de comer.
Então, seu moço, deitar aqui nessa redinha não é luxo nem preguiça não. É difícil que sobre tempo, mas quando sobra não há coisa melhor, pois todo mundo também é filho de Deus. E quando tô aqui, ouvindo passarinho e bicho, me contento quando os amigos chegam pra um proseado ligeiro, rapidinho como a pressa do homem trabalhador.
É por isso mesmo que deixo sempre um banquinho de madeira bem ali, que é pra quando cada um chegar se assentar, tomar uma lapada, chupar um umbu, limpar o canto da boca e depois conversar conversa de qualquer prosa. Gosta das prosas deles, pois são muitos sabidos e sempre trazem novidades. Chegam a qualquer momento, assim, sem dá boa tarde nem avisar, mas gosto disso porque chegam sempre.
Já estou ouvindo o murmurejar de um que vem ali. Cabra bom é esse que vem ali. Chamam ele de vento, mas prefiro chamar de apressado. Me conta tudo, de longe, de lá longe. Não é fofoqueiro, é bem informado. Certa vez me disse que ouviu bem lá em cima, lá pra cima de uma nuvem, que um dia Deus vinha como um vento bem gelado pra arrepiar todo aquele que ele gostasse. Isso ele me disse um dia.
Estou esperando ele chegar. Mas não, só veio esse vento gelado demais, de arrepiar o corpo todo. Será o Deus, meu Deus? Que seja o bom Deus, meu Deus!...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertão.blogspot.com
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 63
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 63
Rangel Alves da Costa*
No instante que ia colocando o primeiro pé na calçada da igreja, Lucas vê chegar um carro em correria maior que o normal para o centro de uma cidade e parar bem nas suas costas. Foi preciso dar um pulo para não ser atropelado. Era o carro da delegacia, de onde um policial falou lá de dentro mesmo: "O delegado manda lhe intimar pessoalmente para comparecer agora mesmo até à delegacia. Se quiser pode entrar no carro, senão vá andando mesmo, mas não deixe de ir".
Estranho, pensou Lucas. Só podem ter andado me vigiando para saber da minha presença aqui nesse momento, pois do contrário o delegado nem em sonhos saberia onde estou agora. Mas o que será que ele quer? Talvez já tenham encontrado pistas sobre qual o animal que foi até a porta da frente e depois até a porta de trás de minha casa, deu uma pesada que derrubou tudo.
Talvez já estejam com a impressão digital das patas e queiram que eu reconheça o meliante no álbum dos ruminantes criminosos. Coisa bonita pra polícia: "Procura-se boi destruidor de portas: é branco com malhas negras e possui porte de lutador de jiu-jitsu". Lucas sentia até vontade de gargalhar.
Assim que chegou na delegacia foi conduzido de imediato até a sala do delegado. O ambiente que viu o deixou totalmente surpreso, pois não é fácil de se ver salas de delegado com bancadas totalmente novas, sofás os mais requintados, cadeiras parecendo de palácios, geladeira, equipamentos tecnológicos de última geração, enfim, tudo.
Não havia como não parabenizar a autoridade policial, e assim o fez: "Desculpe, delegado, mas isso aqui parece que passou por uma reforma geral. Muito bom, realmente ficou muito bom. Parabéns". E o delegado emendou: "Obrigado, foi apenas uma ofertinha do senhor prefeito – Se engasgou totalmente, desconfiado -, digo melhor, do estado perfeito. É isso aí, do estado perfeito".
Lucas não quis interferir nas trapalhadas do delegado para não criar constrangimentos. Assim, ele mesmo puxou outra conversa:
- Pois não, senhor delegado, estava quase entrando na igreja quando os seus comandados avisaram que desejava falar comigo. Pois não, pode falar o que deseja.
E o rapaz, revirava uma coisa e outra, sempre de cabeça baixa, como quem estivesse procurando o que dizer. E de repente se voltou e falou:
- É sobre diversas queixas que tenho recebido do barulho que fiéis vêm fazendo lá no seu barracão, que vai desde o cair da noite até já de madrugada. Dizem que é uma pregação de alto-falante em punho que o pessoal das redondezas não pode mais nem assistir televisão, ouvir rádio, conversar, dormir, fazer nada. Por acaso o senhor virou pastor ou está alugando aquele barracão para alguma dessas igrejas evangélicas que surgem a cada dia e em cada ponta de rua?
Lucas parecia não estar acreditando no que ouvia, diante de tantos absurdos proferidos em tão pouco tempo. Por isso mesmo é que ele quase não começa a falar, pensou. Estava procurando como dizer tantas asneiras sem ter que cair no ridículo. Mesmo assim respondeu:
- Desculpe, senhor delegado, acho que houve um equívoco. Se tais queixas foram prestadas, certamente que foram contra outra pessoa, outro barracão e em outro lugar, pois lá no meu, a partir das seis horas da noite, as portas são todas trancadas e ninguém pode ouvir o menor ruído nem lá por dentro nem fora, a não ser os sons da natureza e os que são produzidos na minha casa. Portanto, procure averiguar onde fica esse barracão barulhento, pois lhe garanto que o meu ainda não caiu nesse exacerbado modismo religioso.
Agora de costas, ajeitando códigos novos numa estante também novinha, o delegado falou:
- Mas não restam dúvidas que é a baderna é no seu barracão mesmo. O prefeito – Engasgou de novo -, ou melhor, o perfeito cidadão não mente. Eu mesmo mandei que alguns policiais ficassem de campana por alguns dias e eles mesmos constataram que o seu barracão está infringindo todas as normas legais que garantem a paz, o silêncio e a ordem pública. O povo não suporta mais aquilo lá não e eu não tenho o que fazer senão mandar lacrar o barracão de vez. As provas estão todas juntadas ao inquérito, com fotos mostrando você pregando no mais alto som do mundo, fiéis se pranteando em lagrimas e palavras e aquela bagunça toda. Está tudo comprovado nos autos...
- E onde estão esses autos, tragam até aqui, tenho o direito de ver as provas que foram contra mim produzidas. Mostre as provas, senhor delegado... – Disse Lucas já irritado com tanto absurdo.
- As provas estão com o senhor prefeito. É que ele andou sabendo da situação e me pediu para analisar o caso em seu gabinete, que é pra ver se pode interceder de alguma forma em seu favor. Está entendendo?
- Estou entendendo muito bem. E passe muito bem o senhor também – E saiu sem ao menos perguntar se o delegado queria saber mais alguma coisa.
Assim que o delegado viu Lucas saindo enraivecido, levantou, foi até a porta e gritou:
- Ei rapaz, volte aqui. Você precisa falar também sobre aquela carvoaria no seu quintal que vem poluindo a cidade inteira...
A ilustre autoridade policial ficou irritada com a atitude do rapaz, desrespeitando alguém tão importante. O problema é que não tinha argumento algum para mandar prendê-lo por desacato. Principalmente porque aquele papel ridículo que estava fazendo não era papel nem de homem nem de autoridade alguma.
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
No instante que ia colocando o primeiro pé na calçada da igreja, Lucas vê chegar um carro em correria maior que o normal para o centro de uma cidade e parar bem nas suas costas. Foi preciso dar um pulo para não ser atropelado. Era o carro da delegacia, de onde um policial falou lá de dentro mesmo: "O delegado manda lhe intimar pessoalmente para comparecer agora mesmo até à delegacia. Se quiser pode entrar no carro, senão vá andando mesmo, mas não deixe de ir".
Estranho, pensou Lucas. Só podem ter andado me vigiando para saber da minha presença aqui nesse momento, pois do contrário o delegado nem em sonhos saberia onde estou agora. Mas o que será que ele quer? Talvez já tenham encontrado pistas sobre qual o animal que foi até a porta da frente e depois até a porta de trás de minha casa, deu uma pesada que derrubou tudo.
Talvez já estejam com a impressão digital das patas e queiram que eu reconheça o meliante no álbum dos ruminantes criminosos. Coisa bonita pra polícia: "Procura-se boi destruidor de portas: é branco com malhas negras e possui porte de lutador de jiu-jitsu". Lucas sentia até vontade de gargalhar.
Assim que chegou na delegacia foi conduzido de imediato até a sala do delegado. O ambiente que viu o deixou totalmente surpreso, pois não é fácil de se ver salas de delegado com bancadas totalmente novas, sofás os mais requintados, cadeiras parecendo de palácios, geladeira, equipamentos tecnológicos de última geração, enfim, tudo.
Não havia como não parabenizar a autoridade policial, e assim o fez: "Desculpe, delegado, mas isso aqui parece que passou por uma reforma geral. Muito bom, realmente ficou muito bom. Parabéns". E o delegado emendou: "Obrigado, foi apenas uma ofertinha do senhor prefeito – Se engasgou totalmente, desconfiado -, digo melhor, do estado perfeito. É isso aí, do estado perfeito".
Lucas não quis interferir nas trapalhadas do delegado para não criar constrangimentos. Assim, ele mesmo puxou outra conversa:
- Pois não, senhor delegado, estava quase entrando na igreja quando os seus comandados avisaram que desejava falar comigo. Pois não, pode falar o que deseja.
E o rapaz, revirava uma coisa e outra, sempre de cabeça baixa, como quem estivesse procurando o que dizer. E de repente se voltou e falou:
- É sobre diversas queixas que tenho recebido do barulho que fiéis vêm fazendo lá no seu barracão, que vai desde o cair da noite até já de madrugada. Dizem que é uma pregação de alto-falante em punho que o pessoal das redondezas não pode mais nem assistir televisão, ouvir rádio, conversar, dormir, fazer nada. Por acaso o senhor virou pastor ou está alugando aquele barracão para alguma dessas igrejas evangélicas que surgem a cada dia e em cada ponta de rua?
Lucas parecia não estar acreditando no que ouvia, diante de tantos absurdos proferidos em tão pouco tempo. Por isso mesmo é que ele quase não começa a falar, pensou. Estava procurando como dizer tantas asneiras sem ter que cair no ridículo. Mesmo assim respondeu:
- Desculpe, senhor delegado, acho que houve um equívoco. Se tais queixas foram prestadas, certamente que foram contra outra pessoa, outro barracão e em outro lugar, pois lá no meu, a partir das seis horas da noite, as portas são todas trancadas e ninguém pode ouvir o menor ruído nem lá por dentro nem fora, a não ser os sons da natureza e os que são produzidos na minha casa. Portanto, procure averiguar onde fica esse barracão barulhento, pois lhe garanto que o meu ainda não caiu nesse exacerbado modismo religioso.
Agora de costas, ajeitando códigos novos numa estante também novinha, o delegado falou:
- Mas não restam dúvidas que é a baderna é no seu barracão mesmo. O prefeito – Engasgou de novo -, ou melhor, o perfeito cidadão não mente. Eu mesmo mandei que alguns policiais ficassem de campana por alguns dias e eles mesmos constataram que o seu barracão está infringindo todas as normas legais que garantem a paz, o silêncio e a ordem pública. O povo não suporta mais aquilo lá não e eu não tenho o que fazer senão mandar lacrar o barracão de vez. As provas estão todas juntadas ao inquérito, com fotos mostrando você pregando no mais alto som do mundo, fiéis se pranteando em lagrimas e palavras e aquela bagunça toda. Está tudo comprovado nos autos...
- E onde estão esses autos, tragam até aqui, tenho o direito de ver as provas que foram contra mim produzidas. Mostre as provas, senhor delegado... – Disse Lucas já irritado com tanto absurdo.
- As provas estão com o senhor prefeito. É que ele andou sabendo da situação e me pediu para analisar o caso em seu gabinete, que é pra ver se pode interceder de alguma forma em seu favor. Está entendendo?
- Estou entendendo muito bem. E passe muito bem o senhor também – E saiu sem ao menos perguntar se o delegado queria saber mais alguma coisa.
Assim que o delegado viu Lucas saindo enraivecido, levantou, foi até a porta e gritou:
- Ei rapaz, volte aqui. Você precisa falar também sobre aquela carvoaria no seu quintal que vem poluindo a cidade inteira...
A ilustre autoridade policial ficou irritada com a atitude do rapaz, desrespeitando alguém tão importante. O problema é que não tinha argumento algum para mandar prendê-lo por desacato. Principalmente porque aquele papel ridículo que estava fazendo não era papel nem de homem nem de autoridade alguma.
continua...
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