OU TERRA OU HISTÓRIA
Rangel Alves da Costa*
Uma das primeiras incursões na região sertaneja dos movimentos organizados em defesa da reforma agrária ocorreu na fazenda Barra da Onça, município de Poço Redondo, lá pelos idos de 1986, quando o braço campesino da Diocese de Propriá se uniu ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, para lutar pela desapropriação do latifúndio improdutivo.
Conseguiram e, a partir dessa empreitada de sucesso, foram atrás de mais latifúndios na região e começaram a empreender novas e cada vez maiores e organizadas invasões, resultando no que se verifica hoje, ou seja, um sertão quase desapossado de imensas propriedades improdutivas, mas também com enormes problemas. Os assentamentos de Poço Redondo e Canindé do São Francisco são exemplos fecundos disso.
Desapareceram os latifúndios e surgiram centenas de assentamentos improdutivos e glebas que só valem como moeda de troca ou para dar ciência ao governo que ali moram assentados e que, por isso mesmo, terá de sustentá-los pelo resto da vida ou mandar que os olhos de sua justiça se fechem quando invadem, roubam, furtam, saqueiam.
Contudo, o problema maior não é a terra dividida sem ter quem cuide do seu quinhão, mas sim as marcas que deixam na terra e que jamais poderão ser reparadas. Não significa que o sertão teria que continuar caracterizado pelo latifúndio de poucos e os quintais de muitos, mas o que não se pode admitir é que a terra invadida por forasteiros, por gente que muitas vezes nunca andou no sertão, tenha que se tornar abandonada, totalmente descaracterizada nas suas raízes e sem o suor do seu povo molhando cada semente plantada.
O que os forasteiros, os sem-terra fizeram e fazem não significa outra coisa senão tomar o sertão do sertanejo, não deixar espaço para que o conterrâneo se situe mais e, o que parece pior, ir aos poucos apagando uma história construída ao calor da luta, no sangue de tantos embates e nas conquistas quase sem vitórias. O que eles estão fazendo é isso: descaracterizar totalmente o sertão e apagar de vez sua história.
Para se ter uma ideia, mesmo com todo sofrimento tão característico do sertanejo, não há um só matuto, um cabra verdadeiramente de lá, que não tenha saudades daquele seu mundão caipira, de seca e desolação, de trinta anos atrás, de antes da chegada dos exterminadores.
Ora, a pobreza se estendia pelos quatro cantos, os quatro sóis se estendiam em oito ou mais, as esperanças de dias melhoras eram poucas, mas ainda assim todos tinham orgulho de ser conhecer, de chamar o outro de compadre, de sair ao entardecer pelas ruas e dar boa tarde a todo mundo, de conversar com todos, de viver num mundo onde todos compartilhavam alegrias e sofrimentos. Mas hoje não. Depois que os sem-terra começaram a invadir tudo, os campos e as cidades, tudo se misturou numa química ruim, tudo ficou muito pior, muitas vezes insuportável.
Outro dia escrevi um artigo nesse mesmo sentido que merece ser transcrito em parte. No texto intitulado "Eu, sertanejo, com orgulho da gente e não do povo", assim me expressava:
"Aos poucos, o joio sorrateiramente começou a chegar e fez moradia por entre o trigal, e como não se pode, no início da gestação, arrancar o joio sem danificar o trigo, o sertanejo teve que forçadamente acolher o estranho, mesmo sabendo que a partir dali nada mais seria como antes.
Atualmente, joio e trigo estão espalhados no sertão indistintamente, como se fossem uma coisa só. Conseqüência disso é que a gente da terra, o trigo que não pode mais ser dono do seu próprio destino, paga o preço de todos os tipos de aberrações praticadas pelo joio forasteiro. Para quem não vive o contexto, não conhece as novas situações criadas, o sertanejo se tornou, antes de tudo, também um malfeitor.
Como ter orgulho do estranho que chega, vai engolindo as cidades, espalhando-se desordenadamente pelos arredores, formando grupos de escusos interesses comuns, andando impunemente armado, semeando violência e confusões, tirando a paz do pacato interiorano, tornando o sertão tão negativamente maculado como jamais se viu na história?
Não significa afirmar que há santidade, infinita bondade na gente do lugar, pois tem muito caipira que não é flor que se cheire, mas não se pode negar o óbvio: hoje, é preciso refazer, continuar vivendo o ontem para continuar admirando o sertão".
Portanto, dói dizer, mas não hei de pecar pelo silêncio que precisa de voz: os sem-terra construíram um mundo no sertão, mas estão acabando com a história desse mesmo sertão. E o pior: nada será com antes, o amigo, a família, o boa tarde, a vida humilde enfim; mas a violência, o medo, o assombro pelo desconhecido que está ao seu lado e quer tomar o seu lugar.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Perdoar por amor (Poesia)
Perdoar por amor
Ainda que nada me encoraje
e o egoísmo e a vaidade tentem impedir
que o meu lado humano fale com sua voz
e o murmúrio ou o grito cheguem a ti
como palavras que venceram o vento
como sopros que não somem ao acaso
creia como se acredita no destino divino
que a manhã de amanhã só nascerá como dia
que a tarde e a noite só surgirão como esperança
se o perdão ainda possa ser reconhecido
como o gesto que se pede e se dá
porque a vida perderá sua razão de ser
sem que a desculpa pelo tão grave erro
seja transformado em amor renovado.
Rangel Alves da Costa
Ainda que nada me encoraje
e o egoísmo e a vaidade tentem impedir
que o meu lado humano fale com sua voz
e o murmúrio ou o grito cheguem a ti
como palavras que venceram o vento
como sopros que não somem ao acaso
creia como se acredita no destino divino
que a manhã de amanhã só nascerá como dia
que a tarde e a noite só surgirão como esperança
se o perdão ainda possa ser reconhecido
como o gesto que se pede e se dá
porque a vida perderá sua razão de ser
sem que a desculpa pelo tão grave erro
seja transformado em amor renovado.
Rangel Alves da Costa
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 10 (Conto)
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 10
Rangel Alves da Costa*
Quando tudo estava mais calmo, o pai de Lucinha foi até o jardim procurar Seu Heleno para saber se este poderia informar sobre aquela história maluca da tristeza na menina causada pelas rosas.
Seu Heleno já sabia que isso poderia acontecer, que as explicações sobre aquela história toda iriam acabar sobrando pra ele. Já havia pensado e repensado sobre o caso e decidido que não deixaria de forma alguma que o problema ganhasse proporções além do jardim. Por isso mesmo é que respondeu a Paulo:
"Parece coisa do outro mundo, Dr. Paulo, mas se eu disser uma coisa o senhor não vai acreditar. Pode olhar ao redor que o senhor vai perceber que está tudo normal, tudo silêncio, tudo na santa paz de Deus. Mas o senhor não sabe de nada, por isso mesmo que se eu disser o senhor não vai acreditar, mas a verdade é que as plantas, as flores, os bichos, os passarinhos e até as pedras desse jardim falam como gente, ouvem como gente, tem sentimento como gente; não andam como gente, mas possuem um jeito de sair do lugar e ir pra onde quiserem que eu nem sei explicar. Agora mesmo estão ouvindo a gente e assim que o senhor for embora vai ser a maior zuada. Mas só quem pode ouvir elas conversando e até conversar também somos nós, Lucinha e eu, ninguém mais tem esse poder..."
Paulo, que era moreno claro, ficou da cor de carambola sem casca quando ouviu essa história. Procurava dizer alguma coisa, porém não encontrava palavra nem sabia o que expressar diante daquela maluquice toda, segundo ficou imaginando no primeiro momento. Conseguiu abrir a boca pra tentar falar qualquer coisa:
"Deixe isso pra lá que a vida já é uma loucura demais para que eu enlouqueça mais cedo junto com ela. Vou procurar um médico de cabeça pro senhor, como costumam dizer – Disse sorrindo -. Se minha filha me disser isso vou levá-la ao psicólogo na hora. Mas deixe isso pra lá. E sobre essa história que as rosas querem ver minha filha triste? Como é que elas podem fazer isso se já morreram?".
Então foi a vez do jardineiro procurar palavras para responder e não conseguir encontrá-las. Olhou ao redor e sentiu as flores pulsando, chegando a ouvir a margarida dizer "Cuidado com o que vai falar!". E falou sem pensar muito no que ia dizer:
"Nada disso existe Dr. Paulo, o senhor bem sabe que somente Deus pode dispor sobre nossa tristeza e nossa alegria. É ele quem coloca no coração a chama ardente da alegria ou a frieza da tristeza, mas isso depende também muito do que a gente faça na vida. Se faz o bem, certamente Deus reconhecerá com a alegria no coração, que vai se irradiando por tudo...".
Estava filosofando demais, parecendo que dava rodeios sem chegar ao ponto que interessava a Paulo, então foi interrompido por este:
"Mas vamos ao que interessa. Lembre que eu fiz duas perguntas, que vou resumir pra apenas uma, e quero a resposta: Que história é essa que as rosas que já morreram querem ver minha Lucinha triste?"
Aí Seu Heleno ficou sem saída e teve que encontrar a resposta cabível para o momento:
"Doutor Paulo lembra que eu disse que essas espécies todas existentes no jardim falam e agem como se fossem gente, não foi? Então é fácil perceber que elas também têm sentimentos, e a meu ver o ciúme é o que está mais presente nelas. Eita turminha ciumenta é essa, cheia de futrica e de falsidade. Por causa desse ciúme todo de umas flores para com as outras é que as rosas, que sempre se acharam mais bonitas, cheirosas e importantes que as demais, nunca se deram bem, por exemplo, com as margaridas, os girassóis, os lírios e as violetas. Era o maior bafafá entre elas, com discussões de espalhar pétalas pelo ar. Então, doutor Paulo, as rosas achavam que a pequena Lucinha gostava mais das outras flores do que delas, só porque via a menina toda alegre conversando com elas. As rosas queriam porque queriam que Lucinha voltasse sua atenção somente pra elas, sem ao menos dirigir palavra ou sorriso para as outras. Tudo vaidade e egoísmo em demasia. Assim, como Lucinha não deu o braço a torcer, não trocou a amizade das outras flores para satisfazer o ego metido a besta das rosas, é que começou essa conversa toda, dizendo que as rosas tinham roubado o sorriso dela. O problema é que depois de uma mudança repentina no tempo, com uma verdadeira tempestade, as rosas apareceram mortas. E até hoje ninguém sabe quem fez a besteira..."
Então Paulo interrompeu, bastante interessado no caso: "E com a morte das rosas morreu também a alegria de Lucinha, não é isso?".
"Mas isso não existe. Essa conversa de roubo do sorriso não existe...". O jardineiro tentou dar um basta no assunto.
"Mas ora, Seu Heleno, se isso não existe e por que a menina está vivendo numa tristeza de não acabar mais? E por que aquelas malditas rosas foram parar lá no quarto dela e estavam debaixo da cama junto com a menina?". Perguntou Paulo, para total desespero do jardineiro.
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Rangel Alves da Costa*
Quando tudo estava mais calmo, o pai de Lucinha foi até o jardim procurar Seu Heleno para saber se este poderia informar sobre aquela história maluca da tristeza na menina causada pelas rosas.
Seu Heleno já sabia que isso poderia acontecer, que as explicações sobre aquela história toda iriam acabar sobrando pra ele. Já havia pensado e repensado sobre o caso e decidido que não deixaria de forma alguma que o problema ganhasse proporções além do jardim. Por isso mesmo é que respondeu a Paulo:
"Parece coisa do outro mundo, Dr. Paulo, mas se eu disser uma coisa o senhor não vai acreditar. Pode olhar ao redor que o senhor vai perceber que está tudo normal, tudo silêncio, tudo na santa paz de Deus. Mas o senhor não sabe de nada, por isso mesmo que se eu disser o senhor não vai acreditar, mas a verdade é que as plantas, as flores, os bichos, os passarinhos e até as pedras desse jardim falam como gente, ouvem como gente, tem sentimento como gente; não andam como gente, mas possuem um jeito de sair do lugar e ir pra onde quiserem que eu nem sei explicar. Agora mesmo estão ouvindo a gente e assim que o senhor for embora vai ser a maior zuada. Mas só quem pode ouvir elas conversando e até conversar também somos nós, Lucinha e eu, ninguém mais tem esse poder..."
Paulo, que era moreno claro, ficou da cor de carambola sem casca quando ouviu essa história. Procurava dizer alguma coisa, porém não encontrava palavra nem sabia o que expressar diante daquela maluquice toda, segundo ficou imaginando no primeiro momento. Conseguiu abrir a boca pra tentar falar qualquer coisa:
"Deixe isso pra lá que a vida já é uma loucura demais para que eu enlouqueça mais cedo junto com ela. Vou procurar um médico de cabeça pro senhor, como costumam dizer – Disse sorrindo -. Se minha filha me disser isso vou levá-la ao psicólogo na hora. Mas deixe isso pra lá. E sobre essa história que as rosas querem ver minha filha triste? Como é que elas podem fazer isso se já morreram?".
Então foi a vez do jardineiro procurar palavras para responder e não conseguir encontrá-las. Olhou ao redor e sentiu as flores pulsando, chegando a ouvir a margarida dizer "Cuidado com o que vai falar!". E falou sem pensar muito no que ia dizer:
"Nada disso existe Dr. Paulo, o senhor bem sabe que somente Deus pode dispor sobre nossa tristeza e nossa alegria. É ele quem coloca no coração a chama ardente da alegria ou a frieza da tristeza, mas isso depende também muito do que a gente faça na vida. Se faz o bem, certamente Deus reconhecerá com a alegria no coração, que vai se irradiando por tudo...".
Estava filosofando demais, parecendo que dava rodeios sem chegar ao ponto que interessava a Paulo, então foi interrompido por este:
"Mas vamos ao que interessa. Lembre que eu fiz duas perguntas, que vou resumir pra apenas uma, e quero a resposta: Que história é essa que as rosas que já morreram querem ver minha Lucinha triste?"
Aí Seu Heleno ficou sem saída e teve que encontrar a resposta cabível para o momento:
"Doutor Paulo lembra que eu disse que essas espécies todas existentes no jardim falam e agem como se fossem gente, não foi? Então é fácil perceber que elas também têm sentimentos, e a meu ver o ciúme é o que está mais presente nelas. Eita turminha ciumenta é essa, cheia de futrica e de falsidade. Por causa desse ciúme todo de umas flores para com as outras é que as rosas, que sempre se acharam mais bonitas, cheirosas e importantes que as demais, nunca se deram bem, por exemplo, com as margaridas, os girassóis, os lírios e as violetas. Era o maior bafafá entre elas, com discussões de espalhar pétalas pelo ar. Então, doutor Paulo, as rosas achavam que a pequena Lucinha gostava mais das outras flores do que delas, só porque via a menina toda alegre conversando com elas. As rosas queriam porque queriam que Lucinha voltasse sua atenção somente pra elas, sem ao menos dirigir palavra ou sorriso para as outras. Tudo vaidade e egoísmo em demasia. Assim, como Lucinha não deu o braço a torcer, não trocou a amizade das outras flores para satisfazer o ego metido a besta das rosas, é que começou essa conversa toda, dizendo que as rosas tinham roubado o sorriso dela. O problema é que depois de uma mudança repentina no tempo, com uma verdadeira tempestade, as rosas apareceram mortas. E até hoje ninguém sabe quem fez a besteira..."
Então Paulo interrompeu, bastante interessado no caso: "E com a morte das rosas morreu também a alegria de Lucinha, não é isso?".
"Mas isso não existe. Essa conversa de roubo do sorriso não existe...". O jardineiro tentou dar um basta no assunto.
"Mas ora, Seu Heleno, se isso não existe e por que a menina está vivendo numa tristeza de não acabar mais? E por que aquelas malditas rosas foram parar lá no quarto dela e estavam debaixo da cama junto com a menina?". Perguntou Paulo, para total desespero do jardineiro.
continua...
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
SOMOS RICOS DEMAIS (Crônica)
SOMOS RICOS DEMAIS
Rangel Alves da Costa*
Talvez não tenhamos agora mais que duas moedas no bolso, um monte de contas a pagar, ainda não foi feita a feira, e certamente faltará o gás e um monte de coisas que só faltam quando a gente está sem dinheiro.
No rosto, um ar de preocupação; em cima da mesa a falta do leite e do pão. Não é bom nem abrir a geladeira para não entristecer ainda mais. De repente, surge uma dorzinha de cabeça exatamente quando não tem mais remédio no armário. Já faz tempo que comprou uma calça nova, um chinelo ou uma camisa. Tudo ainda é novo porque de pouco uso, menos a certeza da volta por cima.
Para esquecer os problemas nada melhor do que procurar se distrair com os programas de televisão. E chegam as notícias dizendo que um milionário foi preso por sonegação de impostos, outro perdeu milhões em menos de meia hora na bolsa de valores; em qualquer lugar do mundo deram um rombo de bilhões e um banco faliu, outro banco teve lucro recorde de tantos por centos, e também foi o que mais aumentou suas taxas de juros. Dinheiro, dinheiro, dinheiro!...
Para que vale o dinheiro? Haverá de se perguntar, pois é inevitável a pergunta. Ao menos naquele instante em que falta tudo, não tem nenhum tostão e está endividado até dizer chega, ter muito dinheiro seria a coisa melhor do mundo. Seria mesmo?
É difícil compreender, mas ainda existem pessoas assim. Pessoas que estão com muitas dificuldades, mas ainda assim têm a certeza que o dinheiro não resolverá sozinho os problemas. E o que farão, então, para alimentar a esperança de dias melhores sem ter que fazer um empréstimo ou arranjar dinheiro de qualquer jeito?
Ora, compreendem a vida como o bem maior, sem nenhum valor que a possa usurpar, sem nenhuma fortuna que tire o seu significado, sem nenhum banco onde possa ser depositada. Compreender o significado da vida é por si só saber a inestimável fortuna depositada na mente, no espírito e no coração de cada um.
Basta dar a ela o que ela exige para ser afortunado sempre, que é dividir com o próximo o pouco que se tem; compartilhar com o outro os encantos da felicidade advinda dela própria; fazer da doação uma comunhão com Deus, porque somente este Homem sabe e pode agradecer em nome de todos.
Certamente o pote não secará nem a moringa se esvaziará se oferecer uma caneca de água àquele que tem sede. Quantas fortunas valem um cantil de água no deserto, quando não há mais oásis nem esperança. E quanto doce é água oferecida na sede e bebida com o coração!
Não há mais pão, mas ainda há biscoitos ou bolachão, e porque não oferecer um pedaço a teu irmão que mostra que tem fome? Muitos reis, soberanos e poderosos já deixaram apodrecer seus pães sem permitir que eles fossem doados aos famintos. De repente, os castelos, todos construídos com o fermento da maldade, começaram também a apodrecer. Ainda assim o pobre estenderá um pedaço de pão para o rei.
Se não há nada a oferecer que seja de beber, de comer, de vestir, certamente será possível encontrar coisas muito mais importantes para doar. Todos aqueles de bom coração têm uma palavra amiga, um gesto de conforto, uma atitude solidária, um apoio a abonar num momento de precisão. Certa vez uma criança só tinha o olhar e olhou de tal modo que todos compreenderam o significado do grito do dor. E bastou segurar na sua mão...
Por isso somos ricos demais. E de uma fortuna tão imensa que somente se iguala ao valor da bondade, do respeito a si mesmo e ao próximo, do amor verdadeiro, dessa joia inestimavelmente preciosa que se chama Deus!
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Talvez não tenhamos agora mais que duas moedas no bolso, um monte de contas a pagar, ainda não foi feita a feira, e certamente faltará o gás e um monte de coisas que só faltam quando a gente está sem dinheiro.
No rosto, um ar de preocupação; em cima da mesa a falta do leite e do pão. Não é bom nem abrir a geladeira para não entristecer ainda mais. De repente, surge uma dorzinha de cabeça exatamente quando não tem mais remédio no armário. Já faz tempo que comprou uma calça nova, um chinelo ou uma camisa. Tudo ainda é novo porque de pouco uso, menos a certeza da volta por cima.
Para esquecer os problemas nada melhor do que procurar se distrair com os programas de televisão. E chegam as notícias dizendo que um milionário foi preso por sonegação de impostos, outro perdeu milhões em menos de meia hora na bolsa de valores; em qualquer lugar do mundo deram um rombo de bilhões e um banco faliu, outro banco teve lucro recorde de tantos por centos, e também foi o que mais aumentou suas taxas de juros. Dinheiro, dinheiro, dinheiro!...
Para que vale o dinheiro? Haverá de se perguntar, pois é inevitável a pergunta. Ao menos naquele instante em que falta tudo, não tem nenhum tostão e está endividado até dizer chega, ter muito dinheiro seria a coisa melhor do mundo. Seria mesmo?
É difícil compreender, mas ainda existem pessoas assim. Pessoas que estão com muitas dificuldades, mas ainda assim têm a certeza que o dinheiro não resolverá sozinho os problemas. E o que farão, então, para alimentar a esperança de dias melhores sem ter que fazer um empréstimo ou arranjar dinheiro de qualquer jeito?
Ora, compreendem a vida como o bem maior, sem nenhum valor que a possa usurpar, sem nenhuma fortuna que tire o seu significado, sem nenhum banco onde possa ser depositada. Compreender o significado da vida é por si só saber a inestimável fortuna depositada na mente, no espírito e no coração de cada um.
Basta dar a ela o que ela exige para ser afortunado sempre, que é dividir com o próximo o pouco que se tem; compartilhar com o outro os encantos da felicidade advinda dela própria; fazer da doação uma comunhão com Deus, porque somente este Homem sabe e pode agradecer em nome de todos.
Certamente o pote não secará nem a moringa se esvaziará se oferecer uma caneca de água àquele que tem sede. Quantas fortunas valem um cantil de água no deserto, quando não há mais oásis nem esperança. E quanto doce é água oferecida na sede e bebida com o coração!
Não há mais pão, mas ainda há biscoitos ou bolachão, e porque não oferecer um pedaço a teu irmão que mostra que tem fome? Muitos reis, soberanos e poderosos já deixaram apodrecer seus pães sem permitir que eles fossem doados aos famintos. De repente, os castelos, todos construídos com o fermento da maldade, começaram também a apodrecer. Ainda assim o pobre estenderá um pedaço de pão para o rei.
Se não há nada a oferecer que seja de beber, de comer, de vestir, certamente será possível encontrar coisas muito mais importantes para doar. Todos aqueles de bom coração têm uma palavra amiga, um gesto de conforto, uma atitude solidária, um apoio a abonar num momento de precisão. Certa vez uma criança só tinha o olhar e olhou de tal modo que todos compreenderam o significado do grito do dor. E bastou segurar na sua mão...
Por isso somos ricos demais. E de uma fortuna tão imensa que somente se iguala ao valor da bondade, do respeito a si mesmo e ao próximo, do amor verdadeiro, dessa joia inestimavelmente preciosa que se chama Deus!
Poeta e cronista
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Dividir somar (Poesia)
Dividir somar
Não sou mais tudo
mais todo, inteiro
não sou mais imenso
mais único, verdadeiro
não sou mais o máximo
mais adiante, primeiro
não sou mais infinito
mais ilimitado, ponteiro
não sou mais rápido
mais veloz, ligeiro
não sou mais nome
sobrenome, herdeiro
não sou mais eterno
mais dezembro, janeiro
não sou mais luar
mais luz, candeeiro
e o que resta
se divide igual
na minha parte
e na sua metade
porque não sou nada
sem amor de verdade.
Rangel Alves da Costa
Não sou mais tudo
mais todo, inteiro
não sou mais imenso
mais único, verdadeiro
não sou mais o máximo
mais adiante, primeiro
não sou mais infinito
mais ilimitado, ponteiro
não sou mais rápido
mais veloz, ligeiro
não sou mais nome
sobrenome, herdeiro
não sou mais eterno
mais dezembro, janeiro
não sou mais luar
mais luz, candeeiro
e o que resta
se divide igual
na minha parte
e na sua metade
porque não sou nada
sem amor de verdade.
Rangel Alves da Costa
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 9 (Conto)
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 9
Rangel Alves da Costa*
"Filhinha, pelo amor de Deus, o que você está fazendo aí?". Perguntou a mãe aflita, enquanto o pai já se jogava no chão e olhava para debaixo da cama.
"Venha, venha cá filhinha, é papai que está aqui lhe chamando, venha!". Falava Paulo, deitado no chão, olhando Lucinha toda encolhidinha lá no meio e esticando o braço para alcançar a menina.
Não teve jeito dela querer sair dali, continuando com um choro baixinho e persistente. Foi preciso que Paulo e Nadir levantassem a cama com as mãos, colocando mais de lado, para que ela fosse alcançada e levantada do chão.
"Mamãe jogue essas flores lá fora e diga a elas para não aparecerem mais aqui...". Disse Lucinha assim que sua mãe a levantou e segurou nos braços. Os pais não compreenderam de imediato as palavras da menina, mas olharam para o chão, bem no local onde estivera deitada, e viram rosas murchas estendidas. Mas que coisa mais estranha, pensaram.
E quando Paulo se dirigiu até o local para recolher as flores murchas, ao erguê-las percebeu que mesmo com a aparência bastante deteriorada das pétalas, ainda assim continuavam inteiras e percebia-se que eram rosas pela imponência que parecia não morrer jamais.
"Jogue logo essas flores, papai. E bem longe que é pra elas não voltarem mais aqui". Disse a menina tristonha nos braços da mãe. "Vá, vá logo Paulo, faça o que ela pediu e depois volte rápido para cá que precisamos ter uma conversa muito importante". Falou Nadir, expressando agora um certo temor e uma reconhecível preocupação.
Será que minha Lucinha está enlouquecendo? Perguntou a si mesma, deixando cair pelo canto do olho uma lágrima teimosa. A menina não podia ver aquele início de pranto de jeito nenhum. Não naquele momento, quando precisava estar ao menos aparentando firmeza para enfrentar o que viesse pela frente.
Assim que o pai retornou, a primeira coisa que Lucinha perguntou foi onde ele tinha jogado as rosas. "Entreguei ao jardineiro e mandei que ele fosse bem longe, perto de um algum lixão, para jogar aquelas flores murchas por lá. Mas me diga uma coisa minha filha, porque essa preocupação toda com as flores já sem vida e sem cor, que daqui há instantes não restará mais nada delas?". Respondeu o pai, indagando.
"É que elas me fazem ficar triste...", disse Lucinha em seguida. "Mas como assim, minha filha, pode explicar a gente, bem calmamente?", perguntou Nadir, chamando Paulo para sentar ao seu lado.
A menina desceu dos braços da mãe, caminhou até a janela e olhando para fora, para o jardim, começou a falar com uma voz que parecia soprada no vento, leve e distante:
"Aquelas flores não gostam de mim. Aquelas flores já morreram e voltaram aqui, não queriam sair do meu quarto porque não gostam de mim. Aquelas flores não podem fazer mal às outras flores do jardim porque a força da natureza existente ali impede que façam isso, então elas vieram para o meu quarto para exigir que eu destrua todas aquelas flores do meu jardim. Como eu disse que não ia fazer isso de jeito nenhum, então elas disseram que eu, além de nunca voltar a ter alegria, passarei a ter elas no meu quarto dia e noite, me atormentando, até que eu faça o que elas querem, que é matar as outras flores...".
A mãe não podia mais esconder as lágrimas e chorava com a cabeça no ombro do esposo. Foi quando este perguntou: "Mas porque essas rosas querem que você destrua as outras flores, filhinha?".
"Porque alguma coisa do jardim, podendo ter sido uma flor, uma planta, um bicho ou um passarinho, matou elas. Segundo elas mesmas me disseram, não morreram por morte natural ou por qualquer praga, mas foram mortas de verdade. Então como elas já tinham inimizade com as outras flores e não sabem ao certo quem causou a desgraça, então querem que eu destrua todas as flores. É uma vingança das rosas através das minhas mãos, papai. E isso eu não vou fazer nunca, nem com minhas flores nem com nada nessa vida... Tudo só é bonito vivendo! Tudo só é importante vivendo! A vida é tudo papai!...".
E o pai completou: "É filhinha, a vida é tudo!". Levantou, foi até perto dela e deu um abraço apertado. Em seguida fez mais uma pergunta: "E que história de tristeza é essa?".
"Só quem podia responder isso eram as rosas, mas elas não estão mais aqui. Elas não vão voltar mais aqui, não é papai?".
continua...
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Rangel Alves da Costa*
"Filhinha, pelo amor de Deus, o que você está fazendo aí?". Perguntou a mãe aflita, enquanto o pai já se jogava no chão e olhava para debaixo da cama.
"Venha, venha cá filhinha, é papai que está aqui lhe chamando, venha!". Falava Paulo, deitado no chão, olhando Lucinha toda encolhidinha lá no meio e esticando o braço para alcançar a menina.
Não teve jeito dela querer sair dali, continuando com um choro baixinho e persistente. Foi preciso que Paulo e Nadir levantassem a cama com as mãos, colocando mais de lado, para que ela fosse alcançada e levantada do chão.
"Mamãe jogue essas flores lá fora e diga a elas para não aparecerem mais aqui...". Disse Lucinha assim que sua mãe a levantou e segurou nos braços. Os pais não compreenderam de imediato as palavras da menina, mas olharam para o chão, bem no local onde estivera deitada, e viram rosas murchas estendidas. Mas que coisa mais estranha, pensaram.
E quando Paulo se dirigiu até o local para recolher as flores murchas, ao erguê-las percebeu que mesmo com a aparência bastante deteriorada das pétalas, ainda assim continuavam inteiras e percebia-se que eram rosas pela imponência que parecia não morrer jamais.
"Jogue logo essas flores, papai. E bem longe que é pra elas não voltarem mais aqui". Disse a menina tristonha nos braços da mãe. "Vá, vá logo Paulo, faça o que ela pediu e depois volte rápido para cá que precisamos ter uma conversa muito importante". Falou Nadir, expressando agora um certo temor e uma reconhecível preocupação.
Será que minha Lucinha está enlouquecendo? Perguntou a si mesma, deixando cair pelo canto do olho uma lágrima teimosa. A menina não podia ver aquele início de pranto de jeito nenhum. Não naquele momento, quando precisava estar ao menos aparentando firmeza para enfrentar o que viesse pela frente.
Assim que o pai retornou, a primeira coisa que Lucinha perguntou foi onde ele tinha jogado as rosas. "Entreguei ao jardineiro e mandei que ele fosse bem longe, perto de um algum lixão, para jogar aquelas flores murchas por lá. Mas me diga uma coisa minha filha, porque essa preocupação toda com as flores já sem vida e sem cor, que daqui há instantes não restará mais nada delas?". Respondeu o pai, indagando.
"É que elas me fazem ficar triste...", disse Lucinha em seguida. "Mas como assim, minha filha, pode explicar a gente, bem calmamente?", perguntou Nadir, chamando Paulo para sentar ao seu lado.
A menina desceu dos braços da mãe, caminhou até a janela e olhando para fora, para o jardim, começou a falar com uma voz que parecia soprada no vento, leve e distante:
"Aquelas flores não gostam de mim. Aquelas flores já morreram e voltaram aqui, não queriam sair do meu quarto porque não gostam de mim. Aquelas flores não podem fazer mal às outras flores do jardim porque a força da natureza existente ali impede que façam isso, então elas vieram para o meu quarto para exigir que eu destrua todas aquelas flores do meu jardim. Como eu disse que não ia fazer isso de jeito nenhum, então elas disseram que eu, além de nunca voltar a ter alegria, passarei a ter elas no meu quarto dia e noite, me atormentando, até que eu faça o que elas querem, que é matar as outras flores...".
A mãe não podia mais esconder as lágrimas e chorava com a cabeça no ombro do esposo. Foi quando este perguntou: "Mas porque essas rosas querem que você destrua as outras flores, filhinha?".
"Porque alguma coisa do jardim, podendo ter sido uma flor, uma planta, um bicho ou um passarinho, matou elas. Segundo elas mesmas me disseram, não morreram por morte natural ou por qualquer praga, mas foram mortas de verdade. Então como elas já tinham inimizade com as outras flores e não sabem ao certo quem causou a desgraça, então querem que eu destrua todas as flores. É uma vingança das rosas através das minhas mãos, papai. E isso eu não vou fazer nunca, nem com minhas flores nem com nada nessa vida... Tudo só é bonito vivendo! Tudo só é importante vivendo! A vida é tudo papai!...".
E o pai completou: "É filhinha, a vida é tudo!". Levantou, foi até perto dela e deu um abraço apertado. Em seguida fez mais uma pergunta: "E que história de tristeza é essa?".
"Só quem podia responder isso eram as rosas, mas elas não estão mais aqui. Elas não vão voltar mais aqui, não é papai?".
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
MANUAL DO HOMEM DE BEM (Crônica)
MANUAL DO HOMEM DE BEM
Rangel Alves da Costa*
Partindo-se do pressuposto que ao lado da vida, a liberdade humana é o bem mais precioso e almejado por todos, há que se considerar que a manutenção desse status não só de homem livre, mas também isento de perseguições e possuidor de nome respeitado onde chegue, diferentemente do que muitos possam imaginar, depende somente do respeito que o próprio homem dá a si mesmo.
Logicamente que esse respeito próprio deve sempre estar acompanhado de alguns aspectos comportamentais, físicos, mentais e até espirituais, próprios do homem dentro de sua normalidade. Tais aspectos seriam honestidade, integridade, dignidade, respeito ao próximo, respeito às leis e aos bons costumes, dentre alguns mais que a ninguém é dado o direito de omitir nas suas ações.
Somente a título de exemplificação, age com honestidade aquele que não se aproveita de determinadas situações para tirar proveito de modo abusivo ou ilegal; age com integridade aquele que não procura esconder a verdade dos fatos nas suas relações pessoais ou de direito; age com dignidade aquele que procura sempre operar para edificar e não para destruir; age com respeito ao próximo aquele que não procura humilhar nem ter o outro como inimigo a qualquer custo; age com respeito às leis e aos bons costumes aquele que se comporta dentro dos limites permitidos pelo direito e pela sociedade.
Contudo, nada do que foi dito até agora terá alguma importância se o espírito do homem não seja convicto da máxima validade daqueles dez mandamentos da lei divina: "Amar a Deus sobre todas as coisas; Não tomar Seu santo nome em vão; Guardar domingos e festas de guarda; Honrar pai e mãe; Não matar; Não pecar contra a castidade; Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo); Não levantar falso testemunho; Não desejar a mulher do próximo; Não cobiçar as coisas alheias".
Sem deixar de se ater e preservar os outros ensinamentos, observando-se com estreiteza quatro desses mandamentos já é possível evitar grandes problemas com a justiça, ou dela sair incólume.
Assim, os mandamentos de Não matar, Não furtar, Não levantar falso testemunho, e Não cobiçar as coisas alheias, possuem repercussão também na esfera judicial penal, bem como no cível e outras áreas, em alguns casos. Até pouco tempo atrás o adultério também era crime, deixando de sê-lo talvez pela impossibilidade da máquina estatal judiciária condenar todos os adeptos dessa pouca vergonha chamada infidelidade conjugal.
Não matar, pois se praticar o crime será imputado na tipificação do art. 121 do Código Penal e sofrerá suas consequencias, podendo ainda responder pela mera tentativa de homicídio.
Não furtar, pois se "subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel sem a prática de violência ou grave ameaça ou de qualquer constrangimento físico ou moral à pessoa", poderá ser condenado pelo crime previsto no art. 155 do Código Penal.
Não praticar falso testemunho, pois esta prática é também tipificada no art. 342 do Código Penal, consistindo em fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade perante a justiça. O Código de Processo Penal, no art. 203, exige "a promessa de dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado", ou seja, a testemunha prestará o compromisso de dizer somente a verdade.
Por fim, Não cobiçar as coisas alheias é preceito não verificado em tipificação específica, mas observável em todos aqueles atos onde a ganância, a avidez, a busca da riqueza material a qualquer custo, predispõe a pessoa a cometer os mais diversos atos ilícitos, como a fraude, a apropriação indébita, o estelionato, o roubo e muitos outros delitos.
Ademais, nem será preciso esmiuçar que o homem que realmente se impõe diante do seu destino e busca preservar sua existência contras falsas acusações, contra as invejas e os ódios que se espalham esquina a esquina, jamais ficará desatento e se voltará somente para a prática do bem. Agindo com lealdade, seriedade e dentro dos ditames da justiça divina e humana, certamente ainda poderá dormir tranquilo e igualmente sonhar coisas boas.
Diante de tudo o que foi dito, mesmo que a carne humana fraqueje, procure reerguer as melhores virtudes e caminhar pelo mesmo caminho por onde um dia seguiu o velho sábio: a estrada que vai sendo construída passo a passo, enquanto se caminha na vida!
Poeta e cronista
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Rangel Alves da Costa*
Partindo-se do pressuposto que ao lado da vida, a liberdade humana é o bem mais precioso e almejado por todos, há que se considerar que a manutenção desse status não só de homem livre, mas também isento de perseguições e possuidor de nome respeitado onde chegue, diferentemente do que muitos possam imaginar, depende somente do respeito que o próprio homem dá a si mesmo.
Logicamente que esse respeito próprio deve sempre estar acompanhado de alguns aspectos comportamentais, físicos, mentais e até espirituais, próprios do homem dentro de sua normalidade. Tais aspectos seriam honestidade, integridade, dignidade, respeito ao próximo, respeito às leis e aos bons costumes, dentre alguns mais que a ninguém é dado o direito de omitir nas suas ações.
Somente a título de exemplificação, age com honestidade aquele que não se aproveita de determinadas situações para tirar proveito de modo abusivo ou ilegal; age com integridade aquele que não procura esconder a verdade dos fatos nas suas relações pessoais ou de direito; age com dignidade aquele que procura sempre operar para edificar e não para destruir; age com respeito ao próximo aquele que não procura humilhar nem ter o outro como inimigo a qualquer custo; age com respeito às leis e aos bons costumes aquele que se comporta dentro dos limites permitidos pelo direito e pela sociedade.
Contudo, nada do que foi dito até agora terá alguma importância se o espírito do homem não seja convicto da máxima validade daqueles dez mandamentos da lei divina: "Amar a Deus sobre todas as coisas; Não tomar Seu santo nome em vão; Guardar domingos e festas de guarda; Honrar pai e mãe; Não matar; Não pecar contra a castidade; Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo); Não levantar falso testemunho; Não desejar a mulher do próximo; Não cobiçar as coisas alheias".
Sem deixar de se ater e preservar os outros ensinamentos, observando-se com estreiteza quatro desses mandamentos já é possível evitar grandes problemas com a justiça, ou dela sair incólume.
Assim, os mandamentos de Não matar, Não furtar, Não levantar falso testemunho, e Não cobiçar as coisas alheias, possuem repercussão também na esfera judicial penal, bem como no cível e outras áreas, em alguns casos. Até pouco tempo atrás o adultério também era crime, deixando de sê-lo talvez pela impossibilidade da máquina estatal judiciária condenar todos os adeptos dessa pouca vergonha chamada infidelidade conjugal.
Não matar, pois se praticar o crime será imputado na tipificação do art. 121 do Código Penal e sofrerá suas consequencias, podendo ainda responder pela mera tentativa de homicídio.
Não furtar, pois se "subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel sem a prática de violência ou grave ameaça ou de qualquer constrangimento físico ou moral à pessoa", poderá ser condenado pelo crime previsto no art. 155 do Código Penal.
Não praticar falso testemunho, pois esta prática é também tipificada no art. 342 do Código Penal, consistindo em fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade perante a justiça. O Código de Processo Penal, no art. 203, exige "a promessa de dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado", ou seja, a testemunha prestará o compromisso de dizer somente a verdade.
Por fim, Não cobiçar as coisas alheias é preceito não verificado em tipificação específica, mas observável em todos aqueles atos onde a ganância, a avidez, a busca da riqueza material a qualquer custo, predispõe a pessoa a cometer os mais diversos atos ilícitos, como a fraude, a apropriação indébita, o estelionato, o roubo e muitos outros delitos.
Ademais, nem será preciso esmiuçar que o homem que realmente se impõe diante do seu destino e busca preservar sua existência contras falsas acusações, contra as invejas e os ódios que se espalham esquina a esquina, jamais ficará desatento e se voltará somente para a prática do bem. Agindo com lealdade, seriedade e dentro dos ditames da justiça divina e humana, certamente ainda poderá dormir tranquilo e igualmente sonhar coisas boas.
Diante de tudo o que foi dito, mesmo que a carne humana fraqueje, procure reerguer as melhores virtudes e caminhar pelo mesmo caminho por onde um dia seguiu o velho sábio: a estrada que vai sendo construída passo a passo, enquanto se caminha na vida!
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