SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O livro (Poesia)


O livro


Ao longo dos anos
estivemos escrevendo um livro
e agora precisamos ler cada palavra
para compreendermos nossa história
e tudo que vivenciamos nessa caminhada

mas as páginas se apressam demais
voam e esvoaçam diante do nosso olhar
e tenho medo que chegue logo ao final
sem que eu me lembre o que esteja escrito

ao longo de todo o livro
nada mais escrevemos que a verdade
desde o primeiro olhar ao primeiro beijo
desde o compromisso com a caminhada
ao que o destino ofertasse por merecimento

mas as páginas se apressam demais
voam e esvoaçam diante do nosso olhar
e tenho medo que chegue logo ao final
sem que eu me lembre o que esteja escrito.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 867


Rangel Alves da Costa*


“Mande para mim...”.
“Uma notícia boa...”.
“Ou venha logo aqui...”.
“Para uma visita...”.
“Preciso de um dengo...”.
“Quero cafuné...”.
“De abraço apertado...”.
“Um carinho qualquer...”.
“Não deixe que a distância...”.
“Vá se tornando saudade...”.
“Não deixe que a estrada...”.
“Vá se tornando sem fim...”.
“Penso em você...”.
“Como penso em mim...”.
“Não posso esquecer...”.
“Nada do nosso passado...”.
“O que foi construído...”.
“E permanece alentado...”.
“Muito mais que amor...”.
“Fomos bons amigos...”.
“Muito mais que desejo...”.
“Tivemos afeição...”.
“Por isso gosto tanto...”.
“De pensar em você...”.
“Beijando e abraçando...”.
“Entregando um café...”.
“Rimando poesia...”.
“No verso que era seu...”.
“Compartilhando sua vida...”.
“Como pedaço de mim...”.
“Por isso venha...”.
“Ou mande notícias...”.
“Comprarei um bom vinho...”.
“E um charuto cubano...”.
“Prepararei uma sobremesa...”.
“Na medida do açúcar...”.
“E depois deixaremos que o instante...”.
“Diga o que devemos fazer...”.
“Talvez apenas a palavra...”.
“Ou quem dera o silêncio do beijo...”.
“Mas tanto faz...”.
“Se o prazer é a presença...”.
“E amarei de todo amor...”.
“Ainda que me chame somente de amigo...”.
“Ainda que retorne depois do anoitecer...”.
“E a solidão novamente me faça...”.
“Pensar e pensar em você...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

EM ALGUM LUGAR NO SERTÃO


Rangel Alves da Costa*


Casinha sertaneja, nas distâncias do fim do mundo, moradia de uma gente que não diferencia muito do que existe pelos arredores. Uma gente calango, preá, macambira, xiquexique, catingueira, bicho de moita. Mas também com feição da lua e do sol.
Como retrato e moldura, assim é a gente e o seu entorno. Vegetação rala, acinzentada de secura; árvores tronchas, miúdas, recurvadas pelo peso da seca. E uma gente magra, ossuda, de feição carcomida e pele abrasada do queimor do dia a dia.
Uma casinha de barro no meio do mundo, quase caindo, em tempo de despencar de vez. Uma porta na frente e uma porta atrás, uma janela e um telhado misto de palha, telha e tábua. Mas nada que protegesse de alguma coisa. Quando o vento queria entrava por todo lugar, de cima a baixo.
Um quintal sem cercado, nenhuma galinha ciscando, nada de bicho caseiro. O papagaio se despediu dessa vida cantando um aboio dolente: Vejo o céu se abrindo e me vejo subindo. Mas puxam minha asa e não é gente de casa, quem será, quem será? Preciso subir e a São Pedro pedir pra chuva chegar...
Com o cachorro aconteceu algo mais triste ainda. A coruja agourenta piou durante três noites seguidas e no quarto dia o urubu pousou num pé de pau defronte ao casebre. O coitado do cachorro, já sem força pra correr ou se defender, só viu quando o bicho preto avançava em sua costela. E foi comido ainda vivo.
A coruja voltou na semana seguinte e durante muitas noites piou aquela sentença ruim. Preocupados com o que pudesse acontecer, os donos da casa redobraram as rezas. E quando o filho reclamou de doença então se viram desesperados. Era a morte no pio da agourenta. Mas Deus era mais, assim conceberam com maior devoção.
Por duas noites seguidas fizeram vigília com um saco à mão. Precisavam prender a danada e acabar com a maldição. Mas ela agourava ora num canto ora noutro, e sempre se escondendo na escuridão. Foi preciso trazer o oratório pro meio do tempo e deixar que a fé espantasse a coisa ruim. E nunca mais ela piou ao redor nas noites escurecidas.
Quando o menino se deu por sadio, o passo seguinte foi caçar calango pra jogar em cima da brasa do fogo de chão. Os seus pais olhavam a cena e ficavam em tempo de se acabar, mas sabiam que ou ele comia aquilo ou seria pior. A seca estava impiedosa demais, sem comida de mato nem preá pra misturar à farinha.
Quando saía para caçar, e durante o dia inteiro sem colocar um só corredor dentro do aió, o sertanejo começava a lançar o olhar pelos arredores das pedras. A esperança era de que algum cágado surgisse de dentro de uma loca. Não pra matar o bicho, pois malvadeza demais comer aquilo que se mexe com a panela já fervendo, mas com outra expectativa.
Ora, todo sertanejo sabe que quando cágado sai da loca em época de seca é porque trovoada se aproxima. É dito e certo. Basta que o bicho seja encontrado pelos descampados ardentes e não demora muita para o tempo começar a mudar. O horizonte enegrece, as nuvens escuras aparecem e os trovões começam a pipocar.
Mas enquanto o cágado não aparece e a barra do amanhecer não dá sinal de qualquer chuvarada, então não há muito a fazer. Mas o verdadeiro sertanejo nunca se entrega, nunca se dobra aos infortúnios. Reforça sua fé, aumenta sua esperança, se faz cada vez mais forte num corpo cada vez mais frágil.
É um mundo de contrastante. Um casebre despencando, fogo de chão apagado, panela vazia e resto de nada pra matar a fome do menino. Pote com água barrenta, moringa vazia, nenhum preá que sirva pra enganar a danada.
E do lado de fora aquele sol imenso, escaldante, iluminando uma paisagem tristemente bela que parece sumir em miragem. Quando a noite cai surge a lua encantadora com todo o seu esplendor. E é quando todo o sertão se transforma numa magia indescritível.
No meio do tempo, debaixo do sol, o casebre tomado de uma luz tão forte que desnuda todas as entranhas e deixa à mostra as costelas da miséria. No meio do mesmo tempo, só que debaixo da lua, aquela casinha envolta pela grandeza do luar. O luar sertanejo que sempre surge radiante para alentar todo sofrimento.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Mar (Poesia)


Mar

Mar
o que será
o que é
o mar

o mar
está no olhar
ou além
no além-mar

o mar está
no além-mar
além do olhar
além do mar

amar
o mar
o mar além
e no olhar.
  

Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 866


Rangel Alves da Costa*


“E vem o sol...”.
“E depois a chuva...”.
“Assim a vida...”.
“Cheia de alegrias e sofrimentos...”.
“E vem a noite...”.
“E depois o dia...”.
“Assim a vida...”.
“Cheia de faces e contrastes...”.
“E vem o vendaval...”.
“E depois a calmaria...”.
“Assim a vida...”.
“Entre temores e esperanças...”.
“E vem a vida...”.
“E depois a morte...”.
“Assim a vida...”.
“Com suas chegadas e partidas...”.
“E vem a multidão...”.
“E depois a solidão...”.
“Assim a vida...”.
“Com seus encontros e desencontros...”.
“E vem a fome...”.
“E depois o pão...”.
“Assim a vida...”.
“Num eterno ter e nada ter...”.
“E vem o sonho...”.
“E depois o pesadelo...”.
“Assim a vida...”.
“E seus profundos mistérios...”.
“E vem a voz...”.
“E depois o silêncio...”.
“Assim a vida...”.
“Em tudo a incompreensão...”.
“E vem a certeza...”.
“E depois a inexistência...”.
“Assim a vida...”.
“Numa filosofia incerta...”.
“E vem o agora...”.
“E depois o passado...”.
“Assim a vida...”.
“Num pêndulo à ventania...”.
“E vem o amor...”.
“E depois a discórdia...”.
“Assim a vida...”.
“Na incerteza do sentimento...”.
“E vem o trem...”.
“A única certeza é o trem...”.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

DEUSES SEDENTOS DE SANGUE


Rangel Alves da Costa*


O convívio com os deuses nem sempre foi pacífico ao longo dos tempos. Parece sempre ter havido um relacionamento muito mais conturbado do que se imagina. Se por um lado o ser humano confiava sua existência à ação das forças superiores, e para atrair proteção se lançava a práticas extremas, por outro lado tais divindades sempre se mostraram exigentes nas oferendas feitas em seu nome, deixando demonstrar que não se davam por satisfeitos com quaisquer rogos ou preces.
A verdade é que a história da humanidade está repleta de deuses sedentos de sangue e de outros sacrifícios hoje tidos como cruéis. De um lado, por simbolizar a vida e a expiação do pecado; e de outro, por ser poderoso fluído da vida terrena transformado em seiva da divindade, o sangue humano e do animal sempre foi o escolhido para abundar no cálice ritual continuamente ofertado aos seres espirituais. O problema é que os deuses não se contentavam com outro brinde. E tinham uma sede descomunal.
Os antigos – e até os modernos perante diversos rituais – acreditavam que somente oferecendo holocaustos chamavam a atenção das divindades para os seus anseios, aplacavam suas fúrias e os tornavam agradecidos pelas intercessões. Procuravam, assim, nos rituais esparramados de sangue, confirmar suas crenças e devotamentos. Acreditavam que o sangue jorrado confirmava o pacto entre o terreno e o divino, entre a fé e o sobrenatural. Ora, o deus deveria reconhecer que aqueles gestos extremos mereciam ser recompensados.
Mas será que os deuses, na concepção de seres míticos e sobrenaturais e idealizados como benfeitores e protetores, necessitavam de sangue derramado, de sacrifícios cruéis, imolações e atitudes humanas degradantes, para agir perante seus protegidos? Exigir isso do seu séquito de adoradores não transmudaria a feição de um deus do bem, da paz e da bondade, para um deus perverso e desumano? A justificativa de limpeza espiritual através do sangue não contradiz o pecado de matar para ser perdoado?
Somente no mundo das crenças o sangue pela morte pode significar redenção. Mas assim acontecia, e partindo dos exemplos dados pelos seguidores da divindade maior. A moderna concepção de divindade aponta para uma contradição religiosa extremada, mas naqueles idos tudo parecia se justificar para a sobrevivência em meio ao temor, ao pecado e ao sobrenatural. De repente traduzia-se que um sacrifício deveria ser praticado como exigência divina e assim se fazia. E desse modo inocentes e animais eram colocados diante da lâmina afiada.
Os sacrifícios em nome da divindade não foram, contudo, prerrogativas apenas de povos pagãos, mas também dos povos bíblicos. A Bíblia está repleta de exemplos de sangue derramado como oferenda de invocação ou como agradecimento pela ação. Mas principalmente para remissão dos pecados. Acreditava-se no seu poder de purificação, que o sangue ofertado seria um pacto com a divindade. E por isso mesmo estaria perdoado todo aquele que fizesse do sacrifício uma prova de veneração.
Em Gênesis 8:20, Noé toma animais e aves limpas para oferecer em holocausto. Em Levítico 4:3-4, Moisés diz aos israelitas que seus pecados serão perdoados com o oferecimento de sacrifícios. E não com o sacrifício de um animal qualquer, mas de preferência novinho e saudável. E para ser degolado perante o altar. O livro sagrado está repleto de situações assim, onde o sangue da morte servia para salvação de almas, pois lavava as impurezas, e para lembrar o próprio sacrifício de Cristo.
Não se discute aqui o mérito ritualístico, a justificativa religiosa de então para que assim acontecesse. A crença do povo se sustenta em razões tão espirituais e pessoais que se torna improvável dizer do acerto ou não dos meios utilizados para a confirmação da fé e do pacto com a divindade. Mas não se pode negar que é difícil conceber que fosse preferível ter o sangue derramado a se contentar com preces, súplicas e veneração. Em obediência ao desejo sagrado, o povo encharcava de vermelho o que hoje o cristão venera na eucaristia e no respeito aos mandamentos.  
Observa-se, pois, que o sangue possuía significação especial para os povos antigos. Não era apenas o líquido vermelho que circulava nas veias e artérias, mas a própria sorte da existência. Através do sangue se penitenciava para obter redenção. Sacrificar para o sangue se derramar significava ter os pecados remidos. E se os seguidores de Deus se utilizavam de sacrifícios para sua proteção, então logicamente que outros povos se viram no direito de dar continuidade aos rituais, mesmo que tivessem crenças politeístas, com deuses desde o sol ao pedaço de pau.
Entre os incas, maias e astecas, por exemplo, o sacrifício de seres humanos era de normalidade cotidiana. Acreditava-se que as pestes, as longas estiagens, as catástrofes naturais e tudo que ameaçasse a existência do povo, eram provocadas pelas fúrias dos deuses. Então ofereciam sangue humano como forma de aplacar as cóleras divinas e se fazerem merecedores de suas dádivas. Nos constantes rituais, principalmente crianças e jovens saudáveis eram deitados na pedra de expiação e seus corações arrancados. Ainda pulsando eram erguidos em direção ao sol e aos astros.
Atualmente, o sangue animal – e até humano - ainda é jorrado em muitos rituais. Mas as leis e o próprio homem buscam preservá-lo de todos os tipos de sacrifícios. E o que era devoção aos deuses se tornou um crime. Hoje é a lei penal que diz os limites da fé.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Com asas e sonhos (Poesia)


Com asas e sonhos


O tempo esvoaça e passa
e sem ter asas para acompanhar
rogo que a solidão se desfaça
e na terna paz enfim caminhar

nada quero além da esperança
que a estrada permita encontrar
o acaso que seja a mudança
e no amor o coração libertar

e libertado ter asas e sonhos
e voando alto a sorrir e a cantar
a mesma alegria de astros risonhos
que brilham por viver para amar.


Rangel Alves da Costa