SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palavra Solta: Poço Redondo, uma criança de 62 anos


Rangel Alves da Costa*


Hoje, dia 25 de novembro, meu berço de nascimento está aniversariando. Foi nesta data que alcançou seu status de independência e teve sua emancipação política reconhecida. Anteriormente, uma povoação sertaneja do município de Porto da Folha, nos carrascais sergipanos do São Francisco, teve seus destinos entregues às próprias a partir de então. E já nasceu grande, como o município de maior área territorial em Sergipe, e de muitas grandezas históricas, principalmente porque foi nas suas terras que a 28 de julho, na Gruta do Angico, que o cangaço tombou de morte com a emboscada a Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros. Mas o tempo não foi prodigioso com o seu desenvolvimento e crescimento, eis que ainda padece de grandes sofrimentos e desesperanças. Mas tudo há de mudar, pois ainda numa idade de formação, de impulso e de encorajamento. Pensando bem, Poço Redondo, aos 62 anos, é novo demais para estar tão acabado assim, tão feio assim, tão desprezado e abandonado assim. Na idade dos tempos, é ainda criança de colo. Um dia haverá de ser cuidado como filho amado e por mãos que sejam da terra, que conheçam suas carências e necessidades. E assim crescer para orgulho de todos. QUEM DERA MINHAS MÃOS AFAGÁ-LO E CARINHOSAMENTE DIZER: QUE O TEU DESTINO NÃO SEJA APENAS DE SERTÃO SOFRIDO, MAS DE SERTÃO RENASCIDO PARA AS GRNDEZAS DA VIDA!


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 24 de novembro de 2015

MENINO NU


Rangel Alves da Costa*


Os tempos são outros, modernos, avançados demais. Contudo, apenas para umas coisas e outras não. A nudez, por exemplo, se tornou num espanto e prática de ato obsceno, com previsão penal para tal conduta, mas não deixou de refrear os atentados ao pudor que são cotidianamente cometidos por todo lugar. Quer dizer, criminalizou-se uma prática que jamais será respeitada por grande parte da sociedade pervertida pelo próprio meio. Contudo, é a conotação sexual da nudez que fere a lei e avilta o pudor público. Mas como, se a conotação sexual já se tornou cultura avessa?
Difícil delimitar a conotação sexual da nudez perante a sociedade que respira sexo, depravação, devassidão. Na verdade, o que a lei quis foi vestir forçadamente o povo, pois este nasce nu e por muito tempo andou completamente desnudo. Ainda hoje, principalmente entre as sociedades tribais, a nudez é a forma correta de andar, conviver e se mostrar ao mundo. Igualmente ocorre com os naturistas, ainda que tenham de buscar local permitido para se despir. Querer vestir o corpo como proteção é bem diferente de apenas vestir uma parte, sob a justificativa que esta vai de encontro aos princípios sociais. Princípios estes que já se depravaram.
Tem-se, pois, que o vestir como imposição e a nudez como criminalização, foi uma invenção da sociedade moderna. E talvez por medo da própria libido aflorada. Mas para esconder o que, se o feio é a roupa que se veste para encobrir o estado natural do homem? Mas para mostrar o que, se a completa nudez é menos pecaminosa que as “mini” que se usa para provocar a sexualidade com muito mais intensidade? Mas para dizer o que, se a nudez é socializadora, comum, e as vestimentas provocam divisão social, preconceito e discriminação? Ademais o nu é a verdade do corpo, seu espelho, sua feição, enquanto a vestimenta é a dissimulação e o meio para que o pensamento escancare o nu.
Como tudo se propaga no âmbito da cultura, aos poucos a sociedade foi forjando uma tradição no vestir, ainda que, insista-se, a nudez seja a vestimenta básica de todo mundo. Daí que, nos dias atuais, os olhos da sociedade - ou daqueles mesmos olhares acostumados a se deparar com outros tipos de nudez por cima de roupas - torna-se até inaceitável não ter uma roupa completa ou decente para vestir. Neste sentido, a nudez da pobreza é tão feia quanto a própria pobreza. E logo dizem que é falta de respeito uma pessoa viver quase mostrando as partes íntimas.
São coisas difíceis de aceitar numa sociedade moderna, dita aberta, pluralista, e tida como anti-conservadora. Prega um retorno ao estado natural, mas nega a nudez do indivíduo. Forçou que o nativo usasse folhas para esconder as genitálias, aplaudiu quando a nobreza se encobriu de pesadas roupas, exigiu que todo mundo andasse vestido, mas não cuidou de exigir regras no comportamento humano. Por consequência, o que se tem são roupas usadas exclusivamente para sexualizar o corpo, para transformar o vestir numa nudez explícita e desavergonhada.
Não se olvide que a pouca roupa, de modo premeditado e por insinuação, provoca muito mais que a nudez completa. E os olhares desnudam completamente a pessoa por causa da invenção do vestir. Acaso a nudez fosse ainda o comum sobre o corpo humano, certamente que os comportamentos seriam bem diferentes. Ora, se isto já ocorreu com a meninada, e num tempo de a criançada andar, correr e brincar, como veio ao mundo, então logo se tem que foi a própria sociedade que passou a se comportar diferente. Havia o menino nu e a menina quase nua, mas num ambiente de vida sem a perversão de agora.
Noutros idos, era costumeiro que até os oito anos, ou até mais, o menino permanecesse despreocupadamente sem roupa, tanto dentro de casa como pelos arredores. Até pelas ruas. De repente e um monte de menino nu era avistado correndo atrás de bola, soltando pipa, reinando perante o permitido pela idade. Era fato tão usual na vida interiorana que ninguém olhava de forma espantosa nem comentava a respeito. Um menino nu era igual a um menino vestido, simplesmente porque se avistava o menino e não o seu corpo nu.
Os meninos todos nus, magricelas ou mais rechonchudos, zanzando por todo lugar como se estivessem como vestimenta completa. Elas, as meninas, na mesma idade, apenas de calcinha. Todos vivendo o seu mundo, a sua idade, a sua infância e sem a vigilância de olhares maldosos ou sob o risco de pessoas degeneradas. Não havia um só olhar maldoso perante aquela nudez, não havia qualquer má intencionalidade perante aqueles sexos desnudos, não havia qualquer tentativa de abuso, assédio ou perversão.
Há de se observar que as genitálias dos meninos não mudaram. A nudez é a mesma, e certamente que andariam nus se a modernidade permitisse. Contudo, agora a devassidão e os transtornos sexuais são tamanhos que nem precisa a nudez para despertar as volúpias mais desavergonhadas. Mas os meninos não mudaram, nem os seus corpos, vestidos ou nus. Apenas a maldade humana.


Poeta e cronista
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Uma canção de amor e saudade (Poesia)


Uma canção de amor e saudade


E se
ao invés do vento
a brisa
ao invés do açoite
o perfume
sou eu
chegando na tarde
para o abraço
e o afago

e se
ao invés da nuvem
a lua
ao invés da chuva
a estrela
sou eu
descendo na luz
para dizer
te amo

e se
eu não chegar
e a lua sumir
eu não chegar
e a chuva cair
sou eu
em algum lugar
assim triste
a chorar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: meus amores perdidos


Rangel Alves da Costa*


Hoje, aos 52 anos, sou uma soma de amores perdidos. Recluso por opção, silencioso por devoção, solitário por destino, acaso deseje recordar o que seja amor tenho de voltar ao passado e nele encontrar os amores perdidos. Paquerei muito, namorei muito, beijei muito, tive relacionamentos mais duradouros. Já me dei e me doei, já recebi e já retribui, e hoje vivo na mais miserável situação amorosa. Ou talvez na hibernação depois de tanta efervescência de vidas. Não sei por que, mas a verdade é que jamais disse adeus e depois parti sem olhar pra trás. Jamais terminei com qualquer das namoradas, nunca pus fim aos romances mais alongados. Logicamente que todas as vezes fui simplesmente expulso dos corações, dos corpos, dos sexos, dos sentimentos. Todas as vezes fui esquecido, negado, relegado. Todas as vezes fui forçado a aceitar os términos, os fins e os sumiços. Todas as vezes fui tratado de tal forma como se um indesejado estranho estivesse em meu lugar. Não quero citar nomes, não pretendo culpá-las pelos ocorridos, não pretendo me fazer de vítima nem dizer que agiram erroneamente. Se assim aconteceu, certamente motivos existiram. Mas até hoje não conseguir entender quais seriam as motivações para os desprezos, os adeuses, os abandonos. Nunca maldisse o corpo, o sexo ou a alma. Sempre fui amante, poeta da sedução, andante de flor à mão e pronto para entregá-la. Talvez aí esteja o meu erro, talvez aí resida o meu infortúnio amoroso: entreguei flores demais. Quis amar demais. E acabei assim, no silêncio e na solidão.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

FLORES ARTIFICIAIS NA JANELA


Rangel Alves da Costa*


Depois de colhidas, dispostas em buquês, enfeitando arranjos ou colocadas em vasos bonitos, as flores do jardim não duram mais que alguns dias. Dizem da efemeridade na existência das coisas mais belas. As pétalas vão perdendo o viço, a cor, definhando, até se desprenderem já esqueléticas e feias. E o jarro tão bonito e enfeitado de repente se torna solitário e triste. E a pessoa também.
Certa feita uma mocinha disse ao namorado que preferia ser presenteada com flores de plástico, num simples buquê artificial, a ter de sentir o mesmo destino e sofrimento da flor nascida em jardim ou estufa. E acrescentou dizendo que as flores artificiais não trazem ilusões, não precisam de água para forjar sobrevivência, não vão entristecendo com o passar das horas, não perdem a simbologia da flor. E das outras flores somente os espinhos restarão.
Com flores de plástico não teria ilusões. As rosas permanecerão rosas até que num tempo distante o plástico resseque e se dobre pela idade. As orquídeas continuarão orquídeas até que a poeira vá tomando conta de suas entranhas e envelhecendo as pétalas. As violetas permanecerão violetas até que um novo arranjo chegue para tomar o seu lugar. Depois de jogadas ao lixo serão apenas restos de flores. E diferente ocorre com as flores naturais. Estas permanecem poesia mesmo depois de murchas.
Para muita gente talvez não haja qualquer diferença entre flores naturais e artificiais. Avista e sente as flores apenas como enfeites, como algo agradável aos olhos ou mesmo porque ficam bonitas dentro de um jarro enfeitando uma mesa ou qualquer móvel de uma casa. As flores são apenas enfeites, servem apenas para modificar as cores do ambiente, jamais as considerando na sua simbologia. O que simbolizaria uma flor artificial?
Talvez a noção de flor, a ideia de flor, a aparência de flor. Em muitos casos, nem assim acontece, pois as flores são vistas apenas como plásticos coloridos, enfeitados. Contudo, mesmo sendo raros, há casos em que as flores artificiais falam e provocam muito mais que qualquer jardim primaveril ou o mais belo buquê de flores que possa existir. E não apenas por questão de sentimento, mas porque - mesmo que a pessoa não tenha consciência que assim aconteça – reflete o próprio ser, traduz com exatidão o seu instante de vida.
E com isso dizer que as flores de plástico se amoldam às pessoas na justeza de suas angústias, de seus sofrimentos, seus estados de solidão, suas aflições e melancolias. E também por simbolizarem formas sem conteúdos, corpos sem essência, apenas aparências e ilusões. Existem pessoas que são verdadeiros jarros enfeitados de flores artificiais: são apenas as formas. Por fora uma aparência forjada, mas por dentro o mais cruel dos outonos. Ou ainda a demonstração da mais absoluta verdade: nada fingir do sofrimento que definha a alma.
Por isso mesmo que ter um jardim florido não significa nada a quem se reconhece como um mísero jarro de flores artificiais. O jarro está à mesa como a pessoa está na vida, o plástico vai se mostrando resistente na mesma ilusão que a pessoa tem na vida. Ou simplesmente pela imaginação de que a flor imutável, sólida, permanente, que não precisa de água ou sol, se amolda ao próprio jeito de ser e viver da pessoa. Ledo engano, pois se estará fugindo ao verdadeiro significado da flor artificial colocada num canto qualquer. E depois esquecida.
O plástico da flor afeiçoa-se à negação da vida. Uma vida plástica, efêmera, empoeirada, esquecida, relegada ao sofrimento. E o que dizer quando a dona de um jardim florido sequer recolhe uma flor para perfumar sua manhã e seus olhos parecem brilhar ante o jarro velho com algumas flores artificiais carcomidas pela idade? Ora, apenas se compraz com o sofrimento.
Um jardim florido adiante e mesmo assim um jarro de flores artificiais à janela. Eis o retrato mais fiel do sofrimento. Lá dentro a pessoa também não nega sua artificialidade perante a vida. Não quer nem aroma nem perfume, apenas que a poeira do tempo cuide de seu destino. E como flor de plástico seja esquecida em qualquer chão.


Poeta e cronista
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Além do olhar (Poesia)


Além do olhar


As belezas de um rio
sempre encantam o olhar
mas somente os que amam
avistam mais que um mar

uma noite enluarada
sempre traz ao olhar poesia
mas somente os que amam
avistam céu estrelado no dia

o silêncio e a solidão
tornam em aflição a saudade
mas somente os que amam
tornam em brisa a tempestade

somente os que amam
encontram as joias perdidas
desvendam mistérios profundos
encontram na vida outras vidas.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: as velhas parteiras


Rangel Alves da Costa*


As velhas parteiras estão como que esquecidas pelos rincões interioranos. Hoje em dia, apenas raramente se utilizam os ofícios das mãos calejadas e experientes das velhas senhoras. Mas noutros tempos foi bem diferente. Nos dias de antanho, quando não havia hospital, maternidade ou mesmo posto de saúde nas distâncias matutas de meu deus, quando as dores de parir começavam a surgir o primeiro pensamento era seguir em correria atrás da velha parteira. O jumento era chamado ao dever e o aflito esposo esporava o lombo do bicho em tempo de enlouquecer, pois tinha pressa de logo chegar e trazer no mesmo passo aquela senhora. Geralmente no meio da noite, sob a luz do candeeiro, então aquelas mãos mágicas se lançavam aos mistérios sagrados e através de meios os mais impensáveis. Uma bacia de água, panos, toalhas, tesoura e a experiência de muitas vidas trazidas ao lume. Sem saber ler nem escrever, vivendo na pobreza e no abandono, morando em tapera de cipó e barro, aquela velha senhora ganhava uma importância indescritível nos momentos mais difíceis. Ou ela prestava os seus cuidadosos préstimos ou tanto a criança como a mãe podiam correr risco de morte. Mas elas, aquelas velhas parteiras sertanejas, como se agissem por inspiração sagrada em cada parto, somente sossegavam quando a criança chorava à luz da vida. E elas, com olhos também marejados de satisfação, levantavam os pequeninos ante as mães para dizer se era homem ou mulher. E depois retornavam cortando veredas até que novamente batessem à sua porta pedindo ajuda. E assim cem, duzentas ou mais vidas nascidas daquelas mãos humildes. E por isso mesmo madrinhas por gratidão de um sertão inteiro.


Poeta e cronista
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