SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Remédio de saudade (Poesia)


Remédio de saudade


Amor meu amor
se estiver com saudade
não chore e não sofra
não silencie nem grite
apenas escreva no papel
o que deseja encontrar
o que atormenta de dor
o que angustia a alma
e depois lance ao vento
seus motivos de aflição
e terás uma resposta
assim que a brisa chegar
e trouxer o perfume
e aquela velha canção
que você sempre ouvia
antes do meu retornar
e depois abra o coração
e me deixe entrar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: a lógica da natureza


Rangel Alves da Costa*


A natureza possui uma lógica própria. O homem, imaginando poder vencê-la, vai agindo em surdina e pensando que não haverá qualquer consequência na sua ação. Silenciosa, calma, humilde, a natureza finge que a tudo suporta sem nada fazer. Imagina-se a passividade, o tanto faz da ação humana. Mas ledo engano. Quando o homem já está esquecido de sua nefasta ação, então, de repente, a natureza vai mostrando sua resposta. E isso pode levar dias, meses, anos, uma duração inimaginável de tempo. E desse modo o rio vai aos poucos perdendo sua força ao longo das margens sem mata. E não dura muito para sumir de vez. E desse modo o calor vai ficando cada vez insuportável sobre a terra. Por quê? Ano após ano o homem vem desmatando, dizimando floresta, arrancando todo pé de pau. Sem arvoredo que resista à inclemência do sol, sem a proteção natural e verdejante do solo, basta o sol bater e se espalhar como fornalha acesa. Assim também com a extinção das espécies da fauna e da flora, com as águas avançando pelas regiões costeiras, pelos tsunamis e outras catástrofes, pelas enxurradas de lama que engolem cidades e vidas. Basta um olhar ao passado e fácil será encontrar uma razão para que tudo aconteça assim. E a mão do homem sempre será avistada como responsável por toda destruição do seu próprio ambiente natural. Mas a natureza renasce, desperta, retoma seu lugar no planeta. Enquanto o homem, sempre pagando pelos tantos erros, apenas vai passando como poeira ao vento.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A VIDA, ÀS VEZES...


Rangel Alves da Costa*


Por mais que a vida seja dada com toda inteireza ao ser humano, impossível que este a aproveite completamente. Faz imaginar que a existência vai, aos poucos, perdendo seu real sentido de ser.
E assim acontece. Imperceptivelmente a vida esvai, lentamente tudo se prostrai, e de pó a pó o cume se desfaz e surge um deserto de penúria e tormento. Por que a essência se torna aparência, e se por fora brilha por dentro se apaga.
Como numa colcha bem trabalhada, devidamente costurada para os enfrentamentos dos usos, a primeira linha vai se rasgando, depois o tecido se desgastando, até surgirem as imperfeições. Assim também na vida humana.
A verdade é que o homem também foi feito ao uso, ao desgaste, ao definhamento. Por mais que lute para continuar com o melhor de sua essência corporal, sua força e vitalidade, logo ele estará se ressentido das fragilidades tão próprias à existência.
A própria existência vai deixando de ser uma soma de alegrias, sonhos e conquistas, para ir se transformando num rosário de problemas, desafios e dificuldades. De repente – porém sem espanto - a pessoa se vê à procura de quaisquer motivos que lhe traga alguma felicidade.
Como disse o profeta, o pote vai secando sem precisar que nele seja lançada a cuia. O próprio barro vai bebendo seu interior, o vento se sacia da umidade da argila, e assim tudo vai confluindo para a ilusão de uma fartura. E assim também a vida: vai evaporando pela idade.
Também se diz que o percurso do homem é de empobrecimento. Vai, a cada dia, ficando mais pobre. A criança vai perdendo sua inocência, o jovem vai perdendo seus sonhos, o adulto vai perdendo as esperanças, enquanto o velho vai perdendo a própria vida.
Os desejos afloram, ruborizam, se transformam em desejos ainda mais fortes. Mas tudo passa. A flor vai perdendo o viço, a cor, a beleza, e de repente jaz acinzentada e retorcida. Assim aconteceu com o girassol no dia que o sol não apareceu.
O Livro de Eclesiastes sintetiza bem o destino do homem, o que ele é o que será. Depois da alegria a tristeza, depois do sorriso o pranto. Só que na vida não há muita chance de recuperar o tempo perdido ou situações não aproveitadas. A lei do retorno nunca possui a mesma feição.
No espelho o retrato do homem, o ontem e o instante. Dificilmente a pessoa se percebe com veracidade e destemor. Procura sempre fugir de suas marcas ou fingir uma realidade inexistente. Contudo, jamais poderá dizer que o espelho lhe mente ou que é bem diferente daquilo avistado.
Semelhante à pedra, o homem foi se formando grão a grão, mas depois de se achar forte demais sequer percebeu que estava sendo consumido pela gota d’água que caía sobre seu corpo. Tão forte e tão frágil. Pouco a pouco a água vai rompendo as entranhas até nada restar da indestrutibilidade.
Não é difícil perceber o quanto se vai perdendo a cada instante de vida. E tudo vai se fragilizando muito mais rapidamente do que se imagina. Ou se aproveita o instante ou cada instante ou quase nada será possível fazer amanhã. Mesmo sem a higidez de outros tempos, sem o ânimo de outrora, a vida ainda chama ao viver.
A vida não se contenta em permanecer, pois deseja prosseguir. A vida não quer quarto fechado ou ambientes sombrios, pois precisa de luz, de claridade, de sol ou de lua. A vida não quer pranto, lágrima ou tristeza, e sim contentamento, alegria e felicidade. A vida não quer apenas esperar a morte chegar, mas continuar viva.
A vida, às vezes, quer simplesmente viver. Por mais que as tempestades surjam, a vida, às vezes, deseja apenas viver. E quem negar tal direito à própria existência, negando estará seu direito de continuar existindo.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Menino (Poesia)


Menino


Ah meu caminho infinito
da infância ainda ouço o grito

da infância ainda o varal estendido
com o sonho bonito não adormecido

e uma estrada se mostrando ao olhar
e o medo de seguir naquele caminhar

o temor de não ter mais brinquedo
ou um brinquedo de só fazer medo

tudo diferente do cavalo de pau
e do boi de barro no canto do quintal

a goiaba madura ao amanhecer
a brincadeira de tudo até o anoitecer

deixar para trás a alegria e o sorriso
enfrentar adiante um falso paraíso

mas o calendário não podia esperar
e na idade o vento voraz a soprar

ainda não aprendi o que seja destino
mas sei que ainda sou aquele menino.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: o lábio lilás da prostituta


Rangel Alves da Costa*


A prostituta é tão jovem e tão bela. Mas ela está tão velha e tão feia. A prostituta tem pele macia e cabelos dourados. Mas ela está com aspereza na pele e com cabelos estragados. A prostituta tem boca perfeita e lábio carnudo. Mas ela está com a boca tão feia e o lábio disforme. A prostituta possui dentes tão alvos e hálito tão puro. Mas ela está com os dentes estragados e cheirando a rum. A prostituta tem olhar angelical e feição de princesa. Mas ela está com olhar entristecido e rosto sem cor. A prostituta tem sonhos, tem planos, desejos na vida. Mas ela está acordada em pesadelos, desesperançada, cheia de aflições. A prostituta possui muita fé e ora e roga por dias felizes. Mas ela está longe da graça, em silêncio profundo, sem reconhecer uma santa promessa. A prostituta tem pais, tem irmãos, tem parentes. Mas ela está tão solitária, incompreendida, evitada em tudo. A prostituta tem um corpo, um sexo, uma honra. Mas ela se entregou desnuda, fez de seu sexo uma troca qualquer, e desonrada não possui mais respostas. A prostituta tem namorada, tem apaixonado, tem poeta que lhe escreve versos de amor. Mas ela está com qualquer homem, se diz apaixonada por uma moeda, prefere os espinhos às flores de ontem. A prostituta sorri, canta e é feliz. Mas ela lacrimeja nos instantes de solidão, chora embaixo dos panos, finge viver e até a felicidade. Guardo dela um retrato. Tão bela e tão singela. Mas a encontrei tão irreconhecível naquele lábio lilás. E tão irreconhecível estava que também não me reconheceu. Chamou-me para o sexo em troca de troco. E eu, que um dia havia lhe prometido o mundo, apenas baixei a cabeça e me vi chorando.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O SERTÃO E AS HORAS LAMURIOSAS


Rangel Alves da Costa*


Lamuriosas são as horas mais tristes, mais dolorosas, que causam mais sofrimento e consternação. Lamúria é lamentação, é queixume, é contínua expressão de dor diante de um infortúnio. E as lamúrias sertanejas estão presentes desde o instante em que se noticia a morte de alguém.
Os tempos são outros, as dores retraíram-se ao patamar do simples pesar ou tristeza. A vida em si perdeu grande parte de seu significado, e a morte muito mais. Não se lamenta mais uma perda como antigamente, não se chora mais a despedida como noutros tempos. A vulgaridade ou desprezo pela vida acaba transformando a morte num mero acontecimento.
Até mesmo as sentinelas, que consistiam em ritualisticamente guardar o falecido até a hora da condução à última morada, já não existe mais na profundidade requerida no passado. Não há se entoam mais os cânticos de despedida, as rezas de encomendação da alma, as ladainhas de adeus, as incelenças para a boa acolhida no mundo celestial.
Atualmente, a maioria dos velórios mais parece um encontro qualquer de pessoas que desde muito não se viam. O defunto é esquecido no meio da sala enquanto as conversas se prolongam, as piadas correm soltas, os sorrisos e as alegrias tomam conta do ambiente. Poucos são os choros ouvidos ou as lágrimas avistadas. O velório, pois, se tornou apenas numa oportunidade de encontro entre parentes e amigos, e não como ritual de pesarosa despedida.
As imposições do progresso, dos modismos e dos descasos humanos, ainda não se arvoraram totalmente da região sertaneja. Quanto mais distante for o sertão mais a morte é sentida, o defunto é respeitado e a despedida é mais sofrida. Assim acontece porque a vida ainda é tida como bem precioso, como dádiva divina, e será lamentado mesmo um falecido de idade bastante avançada.
Ainda hoje, basta que seja anunciada a morte de alguém e o sofrimento pode ser reconhecido em cada pessoa, principalmente naquelas de maior proximidade. As lágrimas ainda são verdadeiras, os desmaios também, bem como os choros incontidos, os gritos e lamentações incontidas. E logo velas são acesas entre preces de adeus.
Noutros tempos, quando as povoações eram formadas por núcleos familiares, compadres e conhecidos, e onde todo mundo conhecia todo mundo, a morte de alguém significava um pouco de perda em cada um. O sofrimento generalizava-se de tal modo que era difícil distinguir entre um familiar e um apenas conhecido. Também a força da religiosidade aprofundava ainda mais o sentimento perante aquele ato de chamamento divino.
Mas não somente após a morte se verificava tal conflagração sentimental e lamuriosa. O prolongamento de uma enfermidade de uma pessoa já a fazia cercada por cuidados especiais e visitas constantes de amigos. Estes sempre apareciam levando remédios caseiros, chás, ervas, e principalmente muitas orações e palavras de conforto. E não raro que muitos passassem as noites ao lado da cabeceira. Assim acontecia quando já se percebia que não havia mais cura.
Diante de um quadro irreversível, ou mesmo pela fragilidade de um corpo já muito enfermo e envelhecido, os últimos suspiros de vida eram dados na presença de muitos. O silêncio era entrecortado com choros velados, lágrimas que desciam parecendo gritar, corações tomados de aflições e faces sem poder disfarçar a dor e o sofrimento. E o instante final era acompanhado por uma exasperação incontida de gritos, gemidos, choros profundos e confissões lutuosas.
Dali em diante tudo ao redor parecia estar transformado. Não se falava noutra coisa senão sobre aquele infortúnio. As faces continuavam entristecidas, os olhos sempre chorosos, as vozes embargadas, a dor pulsante por todo lugar. As roupas deixavam de ser coloridas para ganhar tons escurecidos, enlutados. Muitos sequer varriam as casas após a morte nem permitiam que rádios ou vitrolas fossem ligados.
O velório era o mais autêntico possível, original no jeito de ser e de expressão do sentir. Flores do campo ao redor do defunto, a imagem do Senhor em cima de um pedestal, muitas velas acesas, choros e lamentos, lágrimas de conforto dirigidas aos familiares. Os homens de cabeça baixa e chapéu à mão reverenciando o defunto, as mulheres com vestes negras e até com véus também escuros encobrindo as cabeças.
Quando os homens se retiravam as mulheres faziam ecoar os mais tristes dos cantos fúnebres, os hinos sertanejos de despedida. E por aqueles descampados ecoavam vozes lamuriosamente cadenciadas, em rezas, sentinelas e ladainhas que mais pareciam lamentos chorosos cantados. O cenário tão triste se tornava ainda mais comovente com aqueles adeuses entoados pelas sofridas vozes sertanejas.
Depois o morto era levado pelos braços de amigos até o cemitério. Todos a pé, caminhando lentamente, sempre acompanhados dos cantos de despedida. E por muito tempo ainda o choro e a dor pela perda. Não só na face e no coração como no próprio vestir, eis que o luto fechado era respeitado por um ano inteiro. Tudo após um momento de dor, dando início às horas lamuriosas.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Restos (Poesia)


Restos


O amor
veio ao entardecer
trouxe-me uma saudade
e depois partiu

o amor
chegou ao anoitecer
trouxe-me a recordação
e depois sumiu

o amor
fez-me construir alicerces
fez-me erguer esperanças
e depois destruiu.


Rangel Alves da Costa