Meu amor
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Palavra Solta – pela estrada
*Rangel Alves da Costa
domingo, 30 de maio de 2021
CAFÉ TORRADO E OUTRAS SAUDADES
*Rangel Alves da Costa
Tudo
lembra sertão. Café torrado, sinos, cuscuz, quintais, varais, rosários e
terços, oratórios e imagens santas por cima das banquinhas. Fitas do Padim
Ciço, flores de plástico envelhecidas em jarro, retratos antigos nas paredes.
Tudo
lembra sertão. Não este sertão de agora, de modismos e negações das raízes e da
história, de desvalorização dos bons costumes e dos respeitos que conduziam as
vidas em comunidade.
Aquele
sertão antigo mesmo, o sertão do carro-de-bois, do autêntico vaqueiro, do
roceiro e do mateiro, do caçador e das valorosas mãos das parteiras. Seu João
Retratista, chegado diretamente da alagoana Pão de Açúcar para a Festa de
Agosto, testemunhava em preto e branco aquelas roupas de chita, as calças
boca-de-sino, as camisas finas de volta-ao-mundo.
Pano
enfestado não faltava. As irmãs Marques, Izabel, Mãezinha e Conceição de Timbé,
todas enfeitando o povo para as festanças, para os forrós com Zé Goiti, Zé
Aleixo, Dudu Ribeiro, Agenor da Barra, e tantos outros.
Tinha
forró comendo no centro, mas com um medo danado que Zé Valentim aparecesse no
meio do salão transformado no rato maior do mundo. Ainda assim Zelito,
pandeirista, zabumbeiro e cantador de Zé Aleixo, entoava para o prazer dos
corpos suados e cheirando a pinga de balcão: “Ai eu não posso ver ninguém
chorar, porque vem logo uma vontade em mim. Quem foi que disse que não chora
por amor, pois os meus olhos já chegaram ao fim...”.
A noite
virava e os chinelos continuavam chinelando pelos salões forrozeiros. Miltinho
ainda nem pensava em abrir um bar e depois transformar no salão forrozeiro mais
famoso da cidade, quando o toque das sanfonas já ecoava no Salão da Prefeitura
e no Bar de Delino, dentre outros locais.

Se o sapato
estava velho, desgastado ou com aparência não muito boa, não havia problema.
Era época de Manezinho Tem-Tem aparecer na cidade e passar de porta em porta
pergunta quem desejava que ele fizesse milagres com sua caixa de engraxate.
Expedito, o doido agalegado, não perdia uma festa. Parecia um tição de fogo
quando estava enraivecido com a rapaziada.
Depois, os
mais jovens passaram a ter a opção dos bailes dançantes, principalmente no
Mercado Municipal. R Som 7, Dissonantes, Impacto Som, Embalo D, dentre outras
bandas e conjuntos musicais. Eram
noites inesquecíveis, dançando agarradinhos, sob chuva de luzes, ao som de My
Mistake e outros sucessos: “There was a place that, i lived and a girl so young
and fair, i have seen many things in my life…”.
Como havia
escuridão por todos os lados, então a rapaziada sumia pelos cantos e becos e ia
namorar e fazer safadeza nos escondidos. Um sertão muito diferente, nostálgico,
bucólico, simples, porém grandioso em sua essência. Maria passando com pote na
cabeça em direção ao tanquinho.
Ao redor
do Tanque Velho, as comadres dando conta da vida dos outros enquanto esfregavam
panelas. De repente, o medo que a vaca de careta, correndo desembestada pelo
meio da rua, entrasse por qualquer porta. E entrava mesmo. Ao entardecer, o
cheiro oloroso, saboroso, forte, gostoso, do café torrado. Filas eram formadas
na porta de Dona Lídia em busca de um tiquinho de seu famoso café.
E logo os
sinos dobravam na igreja. Hoje não, mas antigamente a noite chegava sempre
abençoada pelos sinos. Eram instantes de fé, de devoção sertaneja, de abnegação
ao sagrado. A noite ia avançando entre os proseados nas calçadas e os abraços
da brisa boa. As mocinhas nas janelas, apenas sonhando com seus príncipes
encantados. Pelas ruas nuas, de pouco movimento, a criançada brincando de roda,
as mãos em ciranda e a pureza nos corações.
Com a
réstia de qualquer luz, as mãos da meninada transformavam as paredes em
verdadeiro cinema. Outros preferiam brincar de pega-de-boi em plena escuridão.
Um menino era escolhido como boi, e então corria para se esconder. Não demorava
muito e o restante saía em disparada atrás do bicho fogoso.
Assim era
a vida. Assim nos sertões de antigamente.
Escritor
blograngel-sertão.blogspot.com
Beije! (Poesia)
Beije!
O lábio solitárioressequido de solidãoao desvão caminhaem busca de outro lábio outro lábio entristecidosedento pra ser tocadoao desalento vaiem busca de outro lábio numa rua chamada destinoos dois lábio se avistammas seguem caminhandomesmo querendo ficar mas os olhos se avistame os passos fazem a voltachegando ao mesmo lugaronde queriam ficar então os olhos se abraçamos desejos se enlaçamos lábios se umedeceme o destino sorridente diz: beije! Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - quando chove
*Rangel Alves da Costa
Quando chove, ah quando chove! Eu sou nuvem
prenhe, nuvem cuspindo longe, nuvem em alvoroço, um rio que corre, um mar que
transborda. Quando chove eu sinto o livro revirar a página, jogar longe os
escritos ressequidos e encharcar de esperanças as suas folhas. Quando chove eu
leio na vidraça o que jamais consigo em tempos de sol. E tudo me diz da
nostalgia, da saudade, do desejo de ter novamente. Quando chove eu me torno
criança novamente, afloram-me os desejos de nudez e de sair correndo por aí por
cima das poças d’água. Quando chove eu me deixo molhar por dentro e por fora.
As nascentes da alma logo se tornam em leitos correntes, ávidos, impulsivos, em
busca de novos destinos. Meu corpo banhado, inteiramente respingando o
instante, deixa-se ser apenas ele na fria e gelidez que tanto me faz querer ser
abraçado e protegido. Quando chove eu sempre choro e entristeço, eu sempre
silencio e esmoreço. Não que a chuva seja ruim ou que causa aflição, mas por
que as águas se derramam sobre velhos baús e então tenho que reler as velhas
cartas de um passado. Da janela entreaberta eu olho cada pingo que vai caindo.
Abro a porta e me deixo levar na correnteza. Não sei se durmo ou se sonho. Só
sei que lá fora a chuva cai.
Escritor
quarta-feira, 26 de maio de 2021
BALA DE OURO PRA MATAR PREÁ (UMA HISTÓRIA DE CORONÉIS)
*Rangel Alves da Costa
Só que “Preá”
era o apelido dado ao coronel Tibúrcio. Aí foi que foi a gota serena.
Dentão, o
mais feioso e malvado dos jagunços, ao receber a bala de ouro logo pensou que
era coisa de engolir.
Só não
mastigou porque o coronel Leocádio adentrou na varanda logo dizendo: “Vou
cuspir. E antes que o cuspe seque eu quero a orelha do desgraçado jogada no
lugar da cusparada. Chispa daqui e vá logo matar Preá”.
Noite de
lua cheia, pelas matas os sons de estranhos uivos, o jagunço ficava ainda mais
zoiúdo tentando avistar a passagem do coronel Tibúrcio, o famoso Preá.
Era
certeza ele passar por ali, pois de volta da casa de Joaninha Boca de Mel, uma
rapariga mantida nas redondezas.
Mas
naquela noite o coronel não passaria por ali de jeito nenhum. E não faria normalmente
aquele caminho porque era exatamente a noite de ele virar lobisomem.
Sim, o
coronel virava lobisomem. Dentão, o jagunço, esperou e mais esperou e nada de
Preá passar.
E começou a matutar, já pensando na desgraceira que iria acontecer se não levasse a orelha do inimigo maior do patrão.
“Essa hora
o cuspe já secou. E se secou o coroné vai querer disforrá em riba deu”. Sentiu
a orelha queimando, passou a mão, e era como se a sentisse sendo arrancada a
canivete.
“Danou-se.
O coroné vai querê cortá minha oreia, mais isso num vai não”. Disse a si mesmo,
já revirando de raiva por dentro.
Como o dia
já clareava, resolveu voltar e enfrentar o que viesse pela frente. Antes de
sair do meio do tufo de mato, apontou a arma a um lugar qualquer e apertou o
gatilho, só não pra não perder de vez a viagem.
Mas a bala
viajou até acertar bem na testa de um homem que acabava de desvirar lobisomem.
Era o coronel Tibúrcio. O jagunço matou Preá sem saber que assim tinha feito.
Sem sequer
imaginar que o inimigo do patrão acabava de virar finado, e assim minimizar seu
problema com o cuspe já seco, assim que adentrou a porteira logo avistou o
coronel Leocádio virado na peste, raivoso que só a moléstia, em tempo de
estrebuchar de tanta raivice.
E
gritando: “Trouxe a orelha do safado?”. Então o jagunço simplesmente respondeu:
“Truxe”.
E apontou
outra arma em sua direção e apertou o gatilho. Assim que abriu a boca pelo
espanto do tiro recebido, o coronel engoliu o charuto aceso e emborcou pelo
chão fumaçando, e bem em cima da marca da cusparada.
Depois
disso, o jagunço fez de conta que nada tinha acontecido e saiu assoviando.
Não sabia,
contudo, que havia matado dois coronéis numa empreitada só, e terminado, assim,
uma das faces mais perversas do coronelismo nordestino.



