Amor de poema e poesia
Segurar a pétala
escrever na pétala que és flor
e sentir o perfume das palavras
seria o supremo poema de amor
Colher a folha e ressecar ao sol
e escrever nela com mão de artesão
ainda o teu nome e o meu amor
seria fiel expressar dessa paixão
Guardar o orvalho da manhã
para molhar o teu desnudo ser
e me banhar na sede do prazer
seria fazer poesia em você
Buscar na natureza
motivos de amor e de paixão
seria um nada quase vão
sem você poema no coração.
Rangel Alves da Costa
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
terça-feira, 20 de abril de 2010
A ILHA SOLITÁRIA (Crônica)
A ILHA SOLITÁRIA
Rangel Alves da Costa*
Não conheço nada debaixo do sol que seja mais solitário do que uma ilha. Até o conceito de ilha provoca uma sensação de solidão: prolongamento do relevo, cercada de água por todos os lados, num oceano, mar, lago ou rio; porção de terra, isolada do continente pelas águas. Tudo isso nada mais é do que a água separando a terra da terra, isolando-a, deixando-a solitária.
Uma ilha é assim, algo como se fosse uma terra desprezada pela vastidão do continente, que por motivos que a natureza guarda a sete chaves, degredou, deportou, relegou ao abandono bem no meio das águas, que para não tentar fugir nas noites de luar, nadar de volta pra praia e namorar novamente com a digníssima esposa do rei dos sete mares, mas que mora em terra firme.
Lá, no seu cantinho, rejeitada pelas orlas e pelas margens, a ilha vive o seu drama de ser paisagem de beleza que esconde em si mil sofrimentos, histórias de abandono, de náufragos desesperados, de medo e de dor. Assim, a exuberância da paisagem apenas encobre um cenário que só conhece quem vive na ilha os temores e as desesperanças da ilha.
Dizem que um famoso imperador francês, como castigo porque quis se tornar um deus da espada e do sangue, foi levado desterrado para uma ilha com um nome de santa, a quem implorou para que tivesse a solidão do abandono a menos dolorida possível. Não suportou ali suas próprias recordações e morreu solitário e triste, o que prova que o paraíso insular também é de dor, de desespero, de vontade de fugir e ir pra qualquer outro lugar. Menos ficar, pois ilha só acolhe com menos sofrimento aquele que vê nela a única saída para não morrer nas águas.
Dizem que um aventureiro solitário um dia chegou numa ilha e ficou tão encantado que achava que ali era um local de paz em sua plenitude, até descobrir que não estava sozinho e quase tudo ao redor era de ameaças, de medo e de terror. A própria natureza, tão encantadora por todos os arredores, guardava em seu seio olhos que diziam que a ninguém é dado o direito de viver em paz, mesmo que numa ilha. Pelo contrário, pois a ilha nada mais é do que o microcosmo do mundo em todo seu espanto.
Mesmo que na ilha não haja um vivente ou sobrevivente sequer, ainda assim ali fará moradia a solidão com os seus habitantes ocultos: certeza de vazio e isolamento, profunda separação, dor, angústia e outros sentimentos e ressentimentos, tais como sensação de abandono, insegurança, senso de rejeição, descrença e falta de esperança. Ninguém vê, impossível de enxergar, mas todas as vezes que o vento sopra nos coqueirais ou as ondas se aproximam na praia, é como se todos esses sentimentos estivessem dizendo que estão presentes, pois agem para atormentar ainda mais a solidão da ilha.
Mas o pior é que a solidão, igual ao personagem do livro, não está vivendo sua solidão sozinha na ilha solitária. Insista-se: solidão sozinha na ilha solitária, porque a noção de solidão não se contenta em ser só solidão, e tem que ser também com todos os detalhes que digam uma coisa só: solidão é tão só que não quer nenhuma solidão ao seu lado quando está só. Contudo numa vem ou está desacompanhada. Daí que para complicar a vida da ilha solitária, descobriu-se que cada planta, cada folha, cada, musgo, cada bicho, cada grão, cada vento, cada onda e cada tudo, tudo sofria. Era uma ilha de solidão e sofrimento, cercada por elementos solitários por todos os lados.
Assim, a ilha solitária, vivendo povoada por elementos solitários e tristes, um dia pensou em se afogar nas águas para dar cabo de vez a todo aquele martírio e desesperança. Porém, numa tarde de brisa entediada enxergou ao longe um pequeno barco que se aproximava mais e mais. Alegrou-se um pouco porque poderia estar chegando um visitante que falasse de coisas boas e que o mundo existe e nele ainda é possível ser feliz. Mas não, era apenas um barco vazio, solitário, que aportou nas margens e não demorou muito para se despedaçar e ser levado pela correnteza.
Esse ao menos teve coragem, pensou a ilha...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Não conheço nada debaixo do sol que seja mais solitário do que uma ilha. Até o conceito de ilha provoca uma sensação de solidão: prolongamento do relevo, cercada de água por todos os lados, num oceano, mar, lago ou rio; porção de terra, isolada do continente pelas águas. Tudo isso nada mais é do que a água separando a terra da terra, isolando-a, deixando-a solitária.
Uma ilha é assim, algo como se fosse uma terra desprezada pela vastidão do continente, que por motivos que a natureza guarda a sete chaves, degredou, deportou, relegou ao abandono bem no meio das águas, que para não tentar fugir nas noites de luar, nadar de volta pra praia e namorar novamente com a digníssima esposa do rei dos sete mares, mas que mora em terra firme.
Lá, no seu cantinho, rejeitada pelas orlas e pelas margens, a ilha vive o seu drama de ser paisagem de beleza que esconde em si mil sofrimentos, histórias de abandono, de náufragos desesperados, de medo e de dor. Assim, a exuberância da paisagem apenas encobre um cenário que só conhece quem vive na ilha os temores e as desesperanças da ilha.
Dizem que um famoso imperador francês, como castigo porque quis se tornar um deus da espada e do sangue, foi levado desterrado para uma ilha com um nome de santa, a quem implorou para que tivesse a solidão do abandono a menos dolorida possível. Não suportou ali suas próprias recordações e morreu solitário e triste, o que prova que o paraíso insular também é de dor, de desespero, de vontade de fugir e ir pra qualquer outro lugar. Menos ficar, pois ilha só acolhe com menos sofrimento aquele que vê nela a única saída para não morrer nas águas.
Dizem que um aventureiro solitário um dia chegou numa ilha e ficou tão encantado que achava que ali era um local de paz em sua plenitude, até descobrir que não estava sozinho e quase tudo ao redor era de ameaças, de medo e de terror. A própria natureza, tão encantadora por todos os arredores, guardava em seu seio olhos que diziam que a ninguém é dado o direito de viver em paz, mesmo que numa ilha. Pelo contrário, pois a ilha nada mais é do que o microcosmo do mundo em todo seu espanto.
Mesmo que na ilha não haja um vivente ou sobrevivente sequer, ainda assim ali fará moradia a solidão com os seus habitantes ocultos: certeza de vazio e isolamento, profunda separação, dor, angústia e outros sentimentos e ressentimentos, tais como sensação de abandono, insegurança, senso de rejeição, descrença e falta de esperança. Ninguém vê, impossível de enxergar, mas todas as vezes que o vento sopra nos coqueirais ou as ondas se aproximam na praia, é como se todos esses sentimentos estivessem dizendo que estão presentes, pois agem para atormentar ainda mais a solidão da ilha.
Mas o pior é que a solidão, igual ao personagem do livro, não está vivendo sua solidão sozinha na ilha solitária. Insista-se: solidão sozinha na ilha solitária, porque a noção de solidão não se contenta em ser só solidão, e tem que ser também com todos os detalhes que digam uma coisa só: solidão é tão só que não quer nenhuma solidão ao seu lado quando está só. Contudo numa vem ou está desacompanhada. Daí que para complicar a vida da ilha solitária, descobriu-se que cada planta, cada folha, cada, musgo, cada bicho, cada grão, cada vento, cada onda e cada tudo, tudo sofria. Era uma ilha de solidão e sofrimento, cercada por elementos solitários por todos os lados.
Assim, a ilha solitária, vivendo povoada por elementos solitários e tristes, um dia pensou em se afogar nas águas para dar cabo de vez a todo aquele martírio e desesperança. Porém, numa tarde de brisa entediada enxergou ao longe um pequeno barco que se aproximava mais e mais. Alegrou-se um pouco porque poderia estar chegando um visitante que falasse de coisas boas e que o mundo existe e nele ainda é possível ser feliz. Mas não, era apenas um barco vazio, solitário, que aportou nas margens e não demorou muito para se despedaçar e ser levado pela correnteza.
Esse ao menos teve coragem, pensou a ilha...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – III
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – III
Rangel Alves da Costa*
Assim, no sertão o eleitor sabe que não há momento mais apropriado de dar o bote do que em época eleitoral. O filho geralmente nascer nesse período não é por outro motivo. É só chamar um dos candidatos a prefeito ou a vereador e tudo fica resolvido.
É bom lembrar que no sertão batismo é coisa séria. E seria mais sério ainda se o pai soubesse o seu real significado: primeiro sacramento da igreja católica, através de cerimônia ritual, que serve para purificar a criança, dando-lhe graça e conversão. Contudo, como o intuito do pai é outro, uma coisa fica valendo pela outra.
Feito o convite, é lógico que vai ser aceito. Um convite como este – há de pensar o candidato – certamente que vem acompanhado de alguns votinhos. Por outro lado, é também tática dos pais da criança, quando na presença do convidado, ficar sempre em cima do muro, não prometendo nadica de nada. Pra qualquer efeito, é compadre pra cá e compadre pra lá.
Aí é onde entra a esperteza maldosa do sertanejo, pois quando a presa, que é o compadre, está amansada, domada, comendo na mão, só falta pegar pelo rabo e exigir. É quando começa o chororó, o nhém-nhém-nhém, a conversa matreira: "É cumpade, nem um roupinha posso comprar pra batizar meu fiinho. Coitadinho, nem o de comer ele yem direito. Em casa anda uma pobreza que só vendo. Outro dia minha mulé perguntou se eu podia uma festinha no dia do batizado. Mas veja só cumpade, perguntar logo isso pra quem anda nas condições que eu ando, só tando mesrmo desajuizada. Até que seria do meu maior gosto dar uma festinha, mas num posso não, a não ser que o cumpade..."
Essas palavras foram pensadas, gravadas, repetidas e, com a maior cara de pau, finalmente ditas. O que o futuro compadre ia dizer, na condição de candidato que é, diante do chororó já era sabido de antemão, faltando somente a confirmação: O compadre não se preocupasse que tudo seria resolvido por sua conta, com roupinha bordada, roupa pra família, festança e tudo mais. Só exigia que pelo amor de Deus não se esquecesse daqueles votinhos e que, se não fosse pedir muito, que o compadre conversasse também com seus parentes e amigos.
Batizado é dia de festa. Comida e bebida não faltam na casa dos pais da criança. Que homem bom e generoso é esse padrinho que não deixou faltar nada, mandou até um carro-de-som para a porta do compadre. Pudera, o homem é candidato. E assim muitos batizados são comemorados no período eleitoral. A festa também vai ser grande se o compadre candidato ganhar. Ele prometeu.
O bom na política é que no funil só passam os mais espertos, os outros ficam engasgados ou boiando, derrotados. A sorte do derrotado é que não vai continuar carregando nas costas certos tipos de compadres, falsos até dizer chega, aproveitadores até dizer basta. O afilhado, coitado, como não tem culpa no cartório, se não der pra safado igual ao pai, vai, pelo resto da vida, continuar respeitando e dando a benção ao padrinho, que muitas vezes nem lembra que tem aquele afilhado. Mas é assim mesmo. Pior é na guerra, onde Marina foi lavar o sangue e esqueceu o sabão.
Depois de relatar tais fatos, o velho respirou fundo, passou a mão pelos cabelos esvoaçantes, e em seguida abençoou alguém que tinha lhe pedido a invocação divina.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@htmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Assim, no sertão o eleitor sabe que não há momento mais apropriado de dar o bote do que em época eleitoral. O filho geralmente nascer nesse período não é por outro motivo. É só chamar um dos candidatos a prefeito ou a vereador e tudo fica resolvido.
É bom lembrar que no sertão batismo é coisa séria. E seria mais sério ainda se o pai soubesse o seu real significado: primeiro sacramento da igreja católica, através de cerimônia ritual, que serve para purificar a criança, dando-lhe graça e conversão. Contudo, como o intuito do pai é outro, uma coisa fica valendo pela outra.
Feito o convite, é lógico que vai ser aceito. Um convite como este – há de pensar o candidato – certamente que vem acompanhado de alguns votinhos. Por outro lado, é também tática dos pais da criança, quando na presença do convidado, ficar sempre em cima do muro, não prometendo nadica de nada. Pra qualquer efeito, é compadre pra cá e compadre pra lá.
Aí é onde entra a esperteza maldosa do sertanejo, pois quando a presa, que é o compadre, está amansada, domada, comendo na mão, só falta pegar pelo rabo e exigir. É quando começa o chororó, o nhém-nhém-nhém, a conversa matreira: "É cumpade, nem um roupinha posso comprar pra batizar meu fiinho. Coitadinho, nem o de comer ele yem direito. Em casa anda uma pobreza que só vendo. Outro dia minha mulé perguntou se eu podia uma festinha no dia do batizado. Mas veja só cumpade, perguntar logo isso pra quem anda nas condições que eu ando, só tando mesrmo desajuizada. Até que seria do meu maior gosto dar uma festinha, mas num posso não, a não ser que o cumpade..."
Essas palavras foram pensadas, gravadas, repetidas e, com a maior cara de pau, finalmente ditas. O que o futuro compadre ia dizer, na condição de candidato que é, diante do chororó já era sabido de antemão, faltando somente a confirmação: O compadre não se preocupasse que tudo seria resolvido por sua conta, com roupinha bordada, roupa pra família, festança e tudo mais. Só exigia que pelo amor de Deus não se esquecesse daqueles votinhos e que, se não fosse pedir muito, que o compadre conversasse também com seus parentes e amigos.
Batizado é dia de festa. Comida e bebida não faltam na casa dos pais da criança. Que homem bom e generoso é esse padrinho que não deixou faltar nada, mandou até um carro-de-som para a porta do compadre. Pudera, o homem é candidato. E assim muitos batizados são comemorados no período eleitoral. A festa também vai ser grande se o compadre candidato ganhar. Ele prometeu.
O bom na política é que no funil só passam os mais espertos, os outros ficam engasgados ou boiando, derrotados. A sorte do derrotado é que não vai continuar carregando nas costas certos tipos de compadres, falsos até dizer chega, aproveitadores até dizer basta. O afilhado, coitado, como não tem culpa no cartório, se não der pra safado igual ao pai, vai, pelo resto da vida, continuar respeitando e dando a benção ao padrinho, que muitas vezes nem lembra que tem aquele afilhado. Mas é assim mesmo. Pior é na guerra, onde Marina foi lavar o sangue e esqueceu o sabão.
Depois de relatar tais fatos, o velho respirou fundo, passou a mão pelos cabelos esvoaçantes, e em seguida abençoou alguém que tinha lhe pedido a invocação divina.
continua...
Advogado e poeta
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
Eu e minha sombra (Poesia)
Eu e minha sombra
Já tive medo da sombra
porque ela existia
e eu nunca via
porque ela me seguia
e eu não sabia
porque quando chovia
ela sumia ou morria
Hoje não tenho mais medo
e já descobri o segredo
que a sombra sou eu
e quando sou sombra
deixo de ser eu
porque tenho medo de mim
e não tenho medo da sombra
Sei que me canso
e a sombra não descansa
enquanto o sol não se cansa
só me resta agora saber
quando já é entardecer
se quando anoitecer
e o cansaço chegar
e eu for deitar, descansar
onde estará minha sombra
e que sonho vai sonhar.
Rangel Alves da Costa
Já tive medo da sombra
porque ela existia
e eu nunca via
porque ela me seguia
e eu não sabia
porque quando chovia
ela sumia ou morria
Hoje não tenho mais medo
e já descobri o segredo
que a sombra sou eu
e quando sou sombra
deixo de ser eu
porque tenho medo de mim
e não tenho medo da sombra
Sei que me canso
e a sombra não descansa
enquanto o sol não se cansa
só me resta agora saber
quando já é entardecer
se quando anoitecer
e o cansaço chegar
e eu for deitar, descansar
onde estará minha sombra
e que sonho vai sonhar.
Rangel Alves da Costa
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – II
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – II
Rangel Alves da Costa*
As mulheres, já chegando nos dias de dar à luz, com a barriga imensa, os pés inchados e todos os problemas próprios das que estão em vésperas de parir, mesmo assim seguiam de rodilha e pote na cabeça rumo ao tanque ou barragem; partiam com a trouxa de roupa suja em direção ao riachinho; com braços doídos e mãos calejadas, ainda assim iam apanhar lenha nas redondezas.
Com todo esse sacrifício, em plena exaustão, quando começavam a surgir os primeiros sintomas que o momento do filho nascer havia chegado, lá estavam elas portentosas, fortes como bichos do mato, sofrendo feito mães. O alívio de tudo, o bálsamo suarento, sempre vinha pelas mãos experientes e donas de muitas vidas, que jamais desprezaram suas sinas: as negras velhas parteiras.
As parteiras sertanejas, essas obstetras formadas nas mais prementes necessidades, ajudaram a nascer grande parte da raiz familiar que se tem hoje. Pessoas pobres, humildes, de muitos afazeres nas lavagens de roupas para os que podiam pagar; fateiras de beira de riacho, criadas de companhia, empregadas domésticas, ainda a velha sinhá, elas, com suas mãos rudes, zelosamente cuidaram de fazer aparecer para o mundo um verdadeiro exército de infantes sertanejos.
Doce e difícil, muitas vezes desvalorizado e não reconhecido, o ofício das parteiras. Chamadas a qualquer instante do dia e principalmente no meio da noite, em passos descompassados pela pressa percorriam mesmo distantes caminhos para socorrer aquelas que esvaíam-se nas dores que antecedem o parto. Atenciosas, ágeis como na feitura de ofício divino, num piscar de olhos já estavam botando água para amornar, arrumando bacias, ajeitando panos limpos e colocando uma tesoura amolada nas proximidades. O corte do cordão umbilical deve ser visto como coisa séria, um ritual sagrado, pois é neste momento que o filho é separado do corpo da mãe, quando realmente é colocado no mundo, num destino a ser cumprido.
Essas senhoras agrestes, de mãos duras e rudes, durante muito tempo foram uma espécie de segunda mãe para muita gente. Esse eu vi nascer, esse eu tenho como verdadeiro filho, era o que mais se ouvia sertão adentro. Como agradecimento, muitas ensinavam aos filhos que, sob a pena do pecado, quando encontrassem uma tal senhora tinham que dar a benção. Naqueles tempos de antanho nenhuma autoridade, exceto o coronel, era mais convidada do que as parteiras para batizar crianças.
As crianças nascidas assim, de forma rudimentar e geralmente com pouca higiene, nem por isso deixaram de crescer normais, robustas, sapecas e viciadas em comer barro. Barrigudinhas muitas vezes, ficavam quase nuas a remexer pelos cantos da casa ou no quintal, atirando pedras nas galinhas. Crescidinhos, os meninos não faziam outra coisa senão caçar passarinhos, construir e armar ara puçás pelos pastos, tomar banho de riacho, brincar de pega-de-boi, levantar cercadinhos de madeira dizendo que era fazenda e encher de pontas de gado.
Comprar e vender as pontas não era nada fácil, pois a moeda corrente era o papel das carteiras de cigarro. Nota de cigarro Clássico valia tanto, se o cigarro fosse Iolanda o valor seria outro tanto, e sendo Astória teria ainda mais valor, e assim por diante. Depois vinham as brincadeiras com bola de gude, o jogo de bola, tudo que fizesse a alegria da meninada. Tempos...
As piruetas do tempo fazem com que o crescimento do lugar vá mudando também a mentalidade das pessoas. Criança nascer em casa, amparada por parteira, só se for onde Judas perdeu as botas, lá pelos cafundós ou em casos de reconhecida pobreza. Tornou-se um risco de morte, como dizem e querem os sabichões; é "démondé", fora de moda, como diz a ilustríssima senhora metida a besta. Assim, como não é difícil encontrar uma maternidade na região, por perto, nos dias que antecedem os primeiros sinais a mulher é logo transportada para um confortável leito, de onde só sai com a criancinha vestida num conjuntinho azul ou rosa. O nome da criança ainda está num impasse, coisa ainda a ser decidida, mas a verdade é que não pode deixar de ser nome "ingrês" ou de personagem de novela da "grobo". Certa feita um pai queria porque queria botar o nome do filho de Zeca Diabo, e Júnior ainda mais: Zeca Diabo Júnior. Ô coisa grande em tudo é esse sertão...
Mas quem quiser pense que matuto é besta. Pelo contrário, pois ninguém é mais estrategista do que o sertanejo. Na verdade, existem muitos que só articulam, só pensam bem quando é pra tirar proveito, mas não é um proveitinho qualquer não. Assim, quando chamam políticos para serem padrinhos dos seus filhos sempre há uma intençãozinha por trás dessa amizade toda, e isso não significa outra coisa senão uma mordomia, uma festa, encher o guarda-roupa, pensar que tem proteção e ainda abrir o verbo, na boca muitas vezes desdentada: "Muito mais do que canidato, meu cumpade é a salvação do sertão". E nem vai votar no compadre, pois já tem compromisso com outro, às escondidas. Mas é assim mesmo...
Ocorre que nos meses que antecedem os pleitos eleitorais, com candidatos a prefeito e a vereador, cada um destes tira suas carapuças e suas escamas de cobra ruim e passa a viver bajulando o eleitor, catando votos a qualquer custo, fazendo os mais mirabolantes favores, prometendo o que não pode dar de jeito nenhum, enfim, submetendo-se, e todos sabem o porquê, às mais absurdas exigências dos eleitores. Por isso mesmo é que há o troco mais tarde, quando são eleitos, pois não há coisa mais deplorável do que um eleitor, só porque tem um voto e obrigatoriamente vota, tornar-se pidão, esmoler contumaz, facadista pelo resto da vida, mas principalmente em época de eleição. E tudo isso o velho sabia e dizia...
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Rangel Alves da Costa*
As mulheres, já chegando nos dias de dar à luz, com a barriga imensa, os pés inchados e todos os problemas próprios das que estão em vésperas de parir, mesmo assim seguiam de rodilha e pote na cabeça rumo ao tanque ou barragem; partiam com a trouxa de roupa suja em direção ao riachinho; com braços doídos e mãos calejadas, ainda assim iam apanhar lenha nas redondezas.
Com todo esse sacrifício, em plena exaustão, quando começavam a surgir os primeiros sintomas que o momento do filho nascer havia chegado, lá estavam elas portentosas, fortes como bichos do mato, sofrendo feito mães. O alívio de tudo, o bálsamo suarento, sempre vinha pelas mãos experientes e donas de muitas vidas, que jamais desprezaram suas sinas: as negras velhas parteiras.
As parteiras sertanejas, essas obstetras formadas nas mais prementes necessidades, ajudaram a nascer grande parte da raiz familiar que se tem hoje. Pessoas pobres, humildes, de muitos afazeres nas lavagens de roupas para os que podiam pagar; fateiras de beira de riacho, criadas de companhia, empregadas domésticas, ainda a velha sinhá, elas, com suas mãos rudes, zelosamente cuidaram de fazer aparecer para o mundo um verdadeiro exército de infantes sertanejos.
Doce e difícil, muitas vezes desvalorizado e não reconhecido, o ofício das parteiras. Chamadas a qualquer instante do dia e principalmente no meio da noite, em passos descompassados pela pressa percorriam mesmo distantes caminhos para socorrer aquelas que esvaíam-se nas dores que antecedem o parto. Atenciosas, ágeis como na feitura de ofício divino, num piscar de olhos já estavam botando água para amornar, arrumando bacias, ajeitando panos limpos e colocando uma tesoura amolada nas proximidades. O corte do cordão umbilical deve ser visto como coisa séria, um ritual sagrado, pois é neste momento que o filho é separado do corpo da mãe, quando realmente é colocado no mundo, num destino a ser cumprido.
Essas senhoras agrestes, de mãos duras e rudes, durante muito tempo foram uma espécie de segunda mãe para muita gente. Esse eu vi nascer, esse eu tenho como verdadeiro filho, era o que mais se ouvia sertão adentro. Como agradecimento, muitas ensinavam aos filhos que, sob a pena do pecado, quando encontrassem uma tal senhora tinham que dar a benção. Naqueles tempos de antanho nenhuma autoridade, exceto o coronel, era mais convidada do que as parteiras para batizar crianças.
As crianças nascidas assim, de forma rudimentar e geralmente com pouca higiene, nem por isso deixaram de crescer normais, robustas, sapecas e viciadas em comer barro. Barrigudinhas muitas vezes, ficavam quase nuas a remexer pelos cantos da casa ou no quintal, atirando pedras nas galinhas. Crescidinhos, os meninos não faziam outra coisa senão caçar passarinhos, construir e armar ara puçás pelos pastos, tomar banho de riacho, brincar de pega-de-boi, levantar cercadinhos de madeira dizendo que era fazenda e encher de pontas de gado.
Comprar e vender as pontas não era nada fácil, pois a moeda corrente era o papel das carteiras de cigarro. Nota de cigarro Clássico valia tanto, se o cigarro fosse Iolanda o valor seria outro tanto, e sendo Astória teria ainda mais valor, e assim por diante. Depois vinham as brincadeiras com bola de gude, o jogo de bola, tudo que fizesse a alegria da meninada. Tempos...
As piruetas do tempo fazem com que o crescimento do lugar vá mudando também a mentalidade das pessoas. Criança nascer em casa, amparada por parteira, só se for onde Judas perdeu as botas, lá pelos cafundós ou em casos de reconhecida pobreza. Tornou-se um risco de morte, como dizem e querem os sabichões; é "démondé", fora de moda, como diz a ilustríssima senhora metida a besta. Assim, como não é difícil encontrar uma maternidade na região, por perto, nos dias que antecedem os primeiros sinais a mulher é logo transportada para um confortável leito, de onde só sai com a criancinha vestida num conjuntinho azul ou rosa. O nome da criança ainda está num impasse, coisa ainda a ser decidida, mas a verdade é que não pode deixar de ser nome "ingrês" ou de personagem de novela da "grobo". Certa feita um pai queria porque queria botar o nome do filho de Zeca Diabo, e Júnior ainda mais: Zeca Diabo Júnior. Ô coisa grande em tudo é esse sertão...
Mas quem quiser pense que matuto é besta. Pelo contrário, pois ninguém é mais estrategista do que o sertanejo. Na verdade, existem muitos que só articulam, só pensam bem quando é pra tirar proveito, mas não é um proveitinho qualquer não. Assim, quando chamam políticos para serem padrinhos dos seus filhos sempre há uma intençãozinha por trás dessa amizade toda, e isso não significa outra coisa senão uma mordomia, uma festa, encher o guarda-roupa, pensar que tem proteção e ainda abrir o verbo, na boca muitas vezes desdentada: "Muito mais do que canidato, meu cumpade é a salvação do sertão". E nem vai votar no compadre, pois já tem compromisso com outro, às escondidas. Mas é assim mesmo...
Ocorre que nos meses que antecedem os pleitos eleitorais, com candidatos a prefeito e a vereador, cada um destes tira suas carapuças e suas escamas de cobra ruim e passa a viver bajulando o eleitor, catando votos a qualquer custo, fazendo os mais mirabolantes favores, prometendo o que não pode dar de jeito nenhum, enfim, submetendo-se, e todos sabem o porquê, às mais absurdas exigências dos eleitores. Por isso mesmo é que há o troco mais tarde, quando são eleitos, pois não há coisa mais deplorável do que um eleitor, só porque tem um voto e obrigatoriamente vota, tornar-se pidão, esmoler contumaz, facadista pelo resto da vida, mas principalmente em época de eleição. E tudo isso o velho sabia e dizia...
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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A PONTA DO LÁPIS DE ZEZINHO (Crônica)
A PONTA DO LÁPIS DE ZEZINHO
Rangel Alves da Costa*
Assim que Zezinho entrou pra escola deram a ele um caderninho, uma borracha e um lápis. Só que o lápis do menino não tinha e nem nunca teve ponta. Levava o lápis no bolso mas não escrevia as lições e nem podia desenhar a professora. Cada lição ele fingia que escrevia mas guardava tudo na mente, na memória, onde tinha a certeza que jamais seria esquecida num canto, rasgada ou apagada. Zezinho ficou até conhecido como o menino do lápis sem ponta.
Zezinho foi crescendo e foi aprendendo as lições da vida em outra escola, esta sem quatro paredes, sem quadro de giz na parede e professorinha. Que escola grande é essa onde Zezinho tem que aprender, com um sol ou uma lua como teto; quadros com realidades de miséria, pobreza, abandono, desrespeito e atentado às condições mínimas de sobrevivência com dignidade humana. Todo mundo é professor de si mesmo, ensinando diuturnamente que a grande lição da vida é simplesmente torná-la menos dolorida.
Zezinho hoje é formado, com doutorado em luta, desafios e esperanças por dias melhores. Não esqueceu a primeira lição que diz que é preciso aprender para crescer, e nem a última, onde aprendeu que o homem com dignidade jamais deve se curvar para reverenciar o outro que lhe quer submeter, subjugar e ainda escravizar. A ponta do lápis do menino apareceu somente agora, e não é de grafite não, mas sim na ponta da língua, na voz, nas palavras que se tornaram instrumentos de conscientização das pessoas que vivem ao seu redor.
Zezinho continua pobre. Prometeram a ele um emprego de não fazer nada, porém não aceitou quando soube que receberia somente uma parte do salário e a outra iria para não sabe onde. Foi denunciar tal fato num jornal, mas quando disse o nome de quem estava por trás disso quase foi expulso do lugar. "Você vai ser preso se continuar falando essas inverdades sobre o nobre parlamentar, cujo único erro é querer ajudar pessoas mal agradecidas quanto você. Se ele ficar sabendo que forjou essa mentira para prejudicá-lo estará até mesmo correndo risco de vida. Agora saia e não olhe nem pra trás, do contrário telefonarei para o nosso benfeitor agora mesmo", foi o que disse o jornalista.
Não se intimidou e procurou o Ministério Público pensando que iriam ouvi-lo e apurar a denúncia. Ledo engano, pois também afirmaram que ali não era órgão para apurar afirmações inconsistentes. Foi orientado a esquecer o caso, para o próprio bem. Nem pestanejou e foi procurar a sede da oposição.
Chegou convicto de que a acusação que tinha a fazer seria um prato cheio para que os inimigos políticos destruíssem a carreira política do parlamentar corrupto. Contudo, outra decepção. Simplesmente alegaram que explorar um fato como aquele seria colocar em risco até mesmo os parlamentares da situação, pois aí muitos podres seriam descobertos e ninguém queria isso. Seria melhor deixar como estava, cada um recebendo a parcelinha do salário, que na verdade pertencia ao deputado, foi o que disse a assessora. E que ele mesmo revisse a proposta oferecida.
Totalmente indignado, raivoso até dizer chega e com os absurdos ouvidos lhe corroendo por dentro, sentou no primeiro banco de praça que encontrou. Levantou a cabeça, e ao mesmo tempo em que mirava as nuvens que passava e imaginava como seria a vida sem as desonestidades, as imoralidades e os desvirtuamentos de condutas em todos os setores da vida, decidiu intimamente que jamais se deixaria levar por tais tentações nem que seria agente passivo diante da prática de tais arbitrariedades. Resolveu usar a ponta do lápis que tinha, que era a voz e a coragem.
Assim que retornou à sua comunidade logo correram para lhe avisar que, não se sabe como, o seu barraco havia sido totalmente destruído pelo fogo, num incêndio de uma hora pra outra, que atingiu somente onde morava. Nem quis ir lá verificar a situação e saber o que tinha restado do seu quase nada. Mas disse, bem alto para quem quisesse ouvir, quais as motivações que poderiam estar por trás daquilo tudo. O pior: desafiou que mostrassem o contrário, que provassem que estava mentindo.
Por cerca de dez anos, ficou se mudando de comunidade para comunidade, conscientizando o povo e mostrando os podres da politicagem e das autoridades, e sempre tendo que sair forçosamente sair de onde queria apenas residir e trabalhar honestamente. As pessoas confiavam na sua palavra e sabiam que era tudo verdade o que dizia, mas só ia até aí, pois continuavam submissas e pobres de encorajamento.
Um dia refletiu profundamente e concluiu que seria inútil continuar com aquela luta vã, pois precisava deixar de ser perseguido e fixar residência duradoura em qualquer lugar. Assim, a partir daquele instante não utilizaria mais da ponta do seu lápis verbal. Contudo, o outro homem que seria jamais foi visto ou encontrado. Pois o outro homem que seria jamais foi visto e encontrado. Jamais encontrado...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Assim que Zezinho entrou pra escola deram a ele um caderninho, uma borracha e um lápis. Só que o lápis do menino não tinha e nem nunca teve ponta. Levava o lápis no bolso mas não escrevia as lições e nem podia desenhar a professora. Cada lição ele fingia que escrevia mas guardava tudo na mente, na memória, onde tinha a certeza que jamais seria esquecida num canto, rasgada ou apagada. Zezinho ficou até conhecido como o menino do lápis sem ponta.
Zezinho foi crescendo e foi aprendendo as lições da vida em outra escola, esta sem quatro paredes, sem quadro de giz na parede e professorinha. Que escola grande é essa onde Zezinho tem que aprender, com um sol ou uma lua como teto; quadros com realidades de miséria, pobreza, abandono, desrespeito e atentado às condições mínimas de sobrevivência com dignidade humana. Todo mundo é professor de si mesmo, ensinando diuturnamente que a grande lição da vida é simplesmente torná-la menos dolorida.
Zezinho hoje é formado, com doutorado em luta, desafios e esperanças por dias melhores. Não esqueceu a primeira lição que diz que é preciso aprender para crescer, e nem a última, onde aprendeu que o homem com dignidade jamais deve se curvar para reverenciar o outro que lhe quer submeter, subjugar e ainda escravizar. A ponta do lápis do menino apareceu somente agora, e não é de grafite não, mas sim na ponta da língua, na voz, nas palavras que se tornaram instrumentos de conscientização das pessoas que vivem ao seu redor.
Zezinho continua pobre. Prometeram a ele um emprego de não fazer nada, porém não aceitou quando soube que receberia somente uma parte do salário e a outra iria para não sabe onde. Foi denunciar tal fato num jornal, mas quando disse o nome de quem estava por trás disso quase foi expulso do lugar. "Você vai ser preso se continuar falando essas inverdades sobre o nobre parlamentar, cujo único erro é querer ajudar pessoas mal agradecidas quanto você. Se ele ficar sabendo que forjou essa mentira para prejudicá-lo estará até mesmo correndo risco de vida. Agora saia e não olhe nem pra trás, do contrário telefonarei para o nosso benfeitor agora mesmo", foi o que disse o jornalista.
Não se intimidou e procurou o Ministério Público pensando que iriam ouvi-lo e apurar a denúncia. Ledo engano, pois também afirmaram que ali não era órgão para apurar afirmações inconsistentes. Foi orientado a esquecer o caso, para o próprio bem. Nem pestanejou e foi procurar a sede da oposição.
Chegou convicto de que a acusação que tinha a fazer seria um prato cheio para que os inimigos políticos destruíssem a carreira política do parlamentar corrupto. Contudo, outra decepção. Simplesmente alegaram que explorar um fato como aquele seria colocar em risco até mesmo os parlamentares da situação, pois aí muitos podres seriam descobertos e ninguém queria isso. Seria melhor deixar como estava, cada um recebendo a parcelinha do salário, que na verdade pertencia ao deputado, foi o que disse a assessora. E que ele mesmo revisse a proposta oferecida.
Totalmente indignado, raivoso até dizer chega e com os absurdos ouvidos lhe corroendo por dentro, sentou no primeiro banco de praça que encontrou. Levantou a cabeça, e ao mesmo tempo em que mirava as nuvens que passava e imaginava como seria a vida sem as desonestidades, as imoralidades e os desvirtuamentos de condutas em todos os setores da vida, decidiu intimamente que jamais se deixaria levar por tais tentações nem que seria agente passivo diante da prática de tais arbitrariedades. Resolveu usar a ponta do lápis que tinha, que era a voz e a coragem.
Assim que retornou à sua comunidade logo correram para lhe avisar que, não se sabe como, o seu barraco havia sido totalmente destruído pelo fogo, num incêndio de uma hora pra outra, que atingiu somente onde morava. Nem quis ir lá verificar a situação e saber o que tinha restado do seu quase nada. Mas disse, bem alto para quem quisesse ouvir, quais as motivações que poderiam estar por trás daquilo tudo. O pior: desafiou que mostrassem o contrário, que provassem que estava mentindo.
Por cerca de dez anos, ficou se mudando de comunidade para comunidade, conscientizando o povo e mostrando os podres da politicagem e das autoridades, e sempre tendo que sair forçosamente sair de onde queria apenas residir e trabalhar honestamente. As pessoas confiavam na sua palavra e sabiam que era tudo verdade o que dizia, mas só ia até aí, pois continuavam submissas e pobres de encorajamento.
Um dia refletiu profundamente e concluiu que seria inútil continuar com aquela luta vã, pois precisava deixar de ser perseguido e fixar residência duradoura em qualquer lugar. Assim, a partir daquele instante não utilizaria mais da ponta do seu lápis verbal. Contudo, o outro homem que seria jamais foi visto ou encontrado. Pois o outro homem que seria jamais foi visto e encontrado. Jamais encontrado...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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domingo, 18 de abril de 2010
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – I
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – I
Rangel Alves da Costa*
O sol nascente incidia sobre as nuvens do sertão, dando-lhe uma coloração avermelhada. Era o arrebol sertanejo. Poucos minutos depois as nuvens espalhavam-se e sumiam, e o clarão escaldante avançava impiedosamente sobre o cenário agreste. Mais um dia nascia. Todos aqueles que levantavam, com sua tez de cicatrizes, provavelmente deitarão mais tristes. Mas não importava, se mais um dia nascia era preciso simplesmente viver. Sonhar muitas vezes é sonho.
De uma das inúmeras portas abertas saiu um velho, pegou um litro de leite com um menino e ficou mirando o horizonte. Nada de novo, refletiu. Nos arredores, crianças corriam com olhos ainda amassados de sono: mulheres varriam e vizinhas já consumiam e espalhavam fofocas saídas do forno; homens saíam com seus apetrechos e ferramentas de trabalho, outros simplesmente ficavam por ali mesmo ciscando, remexendo numa coisa e noutra, sem ter um serviço lucrativo que fazer. Nada de novo, nem no firmamento nem debaixo do sol.
O velho era o mais antigo morador daquela ruazinha. Todos os que chegaram depois dele nada sabiam sobre o seu passado, se tinha familiares ali ou em outros lugares; nem o seu nome sabiam, era simplesmente o velho. Morava sozinho, mas pouco tempo ficava na sua acanhada vivenda. Durante todo o dia afastava-se para o centro da cidade, o que, segundo ele, servia para aproximar-se mais da realidade e das mudanças pouco ocorridas no sertão. Nos bancos das praças, nas sombras das árvores, nos botequins tomando sua casca de pau, eram os locais costumeiros, onde ele poderia sempre ser encontrado.
A idade do velho tornara-se impossível de adivinhar. Não sei quantos e tantos anos, alguém poderia dizer. E isto muito contribuiu para a história que corria entre todos que ele era o maior sábio do sertão. Ele sabia que tinha lá suas qualidades, seus conhecimentos, mas tudo fruto de uma longa experiência acumulada na palmatória do mundo sertanejo, bem como o prazer em adquirir a cada dia novas informações sobre o mundo lá fora. Fatos históricos, coisas, pessoas, sobre tudo ele sabia um pouco e tinha uma explicação inteligente, muitas vezes falando de forma bem humorada e brincalhona e outras vezes numa seriedade e tristeza de dá dó. Todos o procuravam; todos queriam ouvir suas palavras de fácil entendimento. E de tanto ouvi-lo, muitos guardaram suas lições, como se verá daqui em diante.
Com o vento soprando e espalhando sua cabeleira de pura branquidão, as palavras saíam de sua boca como a absorver a todos que o ouvia. Em tudo que dizia, no ouvinte a meditação, o acolhimento, a ira ou o sorriso. E o velho gostava de conversar, palear, como sempre dizia. E começava a contar seus "causos" e histórias.
Nascer no sertão sempre foi uma dádiva divina. Mas Deus não põe ninguém no mundo sem lhe dar algum tipo de provação ou privação. Muitos nascem em berço de mandacaru e xiquexique, por isso mesmo não tem medo de caminhar por estradas de espinhos. Esses são verdadeiramente sertanejos, prontos para desbravar veredas e vencer tocaias de sangue. Outros nascem no conforta da cama macia, e passam pela vida com calos feitos somente pelos sapatos da moda. Esses também são sertanejos, mas de um sertão de hoje, onde, muitas vezes, a privação maior é a da vergonha. Dizia o velho.
O mundo moderno apagou da cabeça do povo muitas palavras essenciais. Respeito, educação, coragem e vergonha parecem coisas estrambólicas, do outro mundo. Pais, existiam pais. O menino na capoeira da casa e o pai olhando; nos arredores mais distantes e o pai de olho; com certas amizades, nem pensar, nem ali nem em outro lugar. Se hoje não é mais assim e os filhos se amoitam onde querem, a culpa é de quem não sabe criar. Amanhã, quando o pior faz uma visita, os pais são os últimos que ficam sabendo dos estragos. Mas de certa forma já sabiam. Também, só se leva o bem do berço se tiver quem cuide desse berço, que são os pais. E mais tarde, para estes pais que não tiveram pais, tudo de ruim que os filhos fizerem nunca vai ser demais.
Para ter filhos não é preciso mais nem namorar. Pra que namorar se, como dizem, a moda é ficar, e dar uma e depois nem lembrar do rosto do outro? Tão bonzinho isso, até que pega na veia e a bomba explode e começa o deus-nos-acuda. Quando não tem jeito mesmo e a garota arruma um besta de plantão que assuma, a única certeza que se tem é que mais uma criança vai nascer e caminhar perante a irresponsabilidade dos ditos pais.
Fazer filho, pra não dizer outra coisa, é coisa séria, dizia o velho. Hoje em dia o descaramento é tanto que planejam para os filhos nascerem de cinco a seis meses antes de cada eleição municipal. Calendário espertíssimo, de gente cabreira, atilada, que conta nos dedos o tempo de dar o bote. Quando a mulher embucha, o pai fica um tempão matutando sobre o nome mais bonito para colocar na criança. O marido sentencia logo: "Mulé, seja menino ou menina, o nome tem que ser ou "ingrês" ou de artista de novela da "grobo". Quanto ao padim, num se preocupe não que vai ser um político, um candidato nessa eleição, e que seja pra ganhar".
Antigamente, nem de longe se ouvia falar nessas coisas. João, Maria, Antonio, Josefa, Pedro, Francisco, Lurdes, Sebastião, José, Severino, Joana, Marina, tudo nome simples, bonito, sem enfeite ou frescura, nome de verdade, de respeito mesmo. Nenhum pai queria saber de artista, se o artista era ele mesmo, vivendo na corda bamba, fazendo acrobacias numa imensidão de palco de sol e sofrimento para sobreviver.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Rangel Alves da Costa*
O sol nascente incidia sobre as nuvens do sertão, dando-lhe uma coloração avermelhada. Era o arrebol sertanejo. Poucos minutos depois as nuvens espalhavam-se e sumiam, e o clarão escaldante avançava impiedosamente sobre o cenário agreste. Mais um dia nascia. Todos aqueles que levantavam, com sua tez de cicatrizes, provavelmente deitarão mais tristes. Mas não importava, se mais um dia nascia era preciso simplesmente viver. Sonhar muitas vezes é sonho.
De uma das inúmeras portas abertas saiu um velho, pegou um litro de leite com um menino e ficou mirando o horizonte. Nada de novo, refletiu. Nos arredores, crianças corriam com olhos ainda amassados de sono: mulheres varriam e vizinhas já consumiam e espalhavam fofocas saídas do forno; homens saíam com seus apetrechos e ferramentas de trabalho, outros simplesmente ficavam por ali mesmo ciscando, remexendo numa coisa e noutra, sem ter um serviço lucrativo que fazer. Nada de novo, nem no firmamento nem debaixo do sol.
O velho era o mais antigo morador daquela ruazinha. Todos os que chegaram depois dele nada sabiam sobre o seu passado, se tinha familiares ali ou em outros lugares; nem o seu nome sabiam, era simplesmente o velho. Morava sozinho, mas pouco tempo ficava na sua acanhada vivenda. Durante todo o dia afastava-se para o centro da cidade, o que, segundo ele, servia para aproximar-se mais da realidade e das mudanças pouco ocorridas no sertão. Nos bancos das praças, nas sombras das árvores, nos botequins tomando sua casca de pau, eram os locais costumeiros, onde ele poderia sempre ser encontrado.
A idade do velho tornara-se impossível de adivinhar. Não sei quantos e tantos anos, alguém poderia dizer. E isto muito contribuiu para a história que corria entre todos que ele era o maior sábio do sertão. Ele sabia que tinha lá suas qualidades, seus conhecimentos, mas tudo fruto de uma longa experiência acumulada na palmatória do mundo sertanejo, bem como o prazer em adquirir a cada dia novas informações sobre o mundo lá fora. Fatos históricos, coisas, pessoas, sobre tudo ele sabia um pouco e tinha uma explicação inteligente, muitas vezes falando de forma bem humorada e brincalhona e outras vezes numa seriedade e tristeza de dá dó. Todos o procuravam; todos queriam ouvir suas palavras de fácil entendimento. E de tanto ouvi-lo, muitos guardaram suas lições, como se verá daqui em diante.
Com o vento soprando e espalhando sua cabeleira de pura branquidão, as palavras saíam de sua boca como a absorver a todos que o ouvia. Em tudo que dizia, no ouvinte a meditação, o acolhimento, a ira ou o sorriso. E o velho gostava de conversar, palear, como sempre dizia. E começava a contar seus "causos" e histórias.
Nascer no sertão sempre foi uma dádiva divina. Mas Deus não põe ninguém no mundo sem lhe dar algum tipo de provação ou privação. Muitos nascem em berço de mandacaru e xiquexique, por isso mesmo não tem medo de caminhar por estradas de espinhos. Esses são verdadeiramente sertanejos, prontos para desbravar veredas e vencer tocaias de sangue. Outros nascem no conforta da cama macia, e passam pela vida com calos feitos somente pelos sapatos da moda. Esses também são sertanejos, mas de um sertão de hoje, onde, muitas vezes, a privação maior é a da vergonha. Dizia o velho.
O mundo moderno apagou da cabeça do povo muitas palavras essenciais. Respeito, educação, coragem e vergonha parecem coisas estrambólicas, do outro mundo. Pais, existiam pais. O menino na capoeira da casa e o pai olhando; nos arredores mais distantes e o pai de olho; com certas amizades, nem pensar, nem ali nem em outro lugar. Se hoje não é mais assim e os filhos se amoitam onde querem, a culpa é de quem não sabe criar. Amanhã, quando o pior faz uma visita, os pais são os últimos que ficam sabendo dos estragos. Mas de certa forma já sabiam. Também, só se leva o bem do berço se tiver quem cuide desse berço, que são os pais. E mais tarde, para estes pais que não tiveram pais, tudo de ruim que os filhos fizerem nunca vai ser demais.
Para ter filhos não é preciso mais nem namorar. Pra que namorar se, como dizem, a moda é ficar, e dar uma e depois nem lembrar do rosto do outro? Tão bonzinho isso, até que pega na veia e a bomba explode e começa o deus-nos-acuda. Quando não tem jeito mesmo e a garota arruma um besta de plantão que assuma, a única certeza que se tem é que mais uma criança vai nascer e caminhar perante a irresponsabilidade dos ditos pais.
Fazer filho, pra não dizer outra coisa, é coisa séria, dizia o velho. Hoje em dia o descaramento é tanto que planejam para os filhos nascerem de cinco a seis meses antes de cada eleição municipal. Calendário espertíssimo, de gente cabreira, atilada, que conta nos dedos o tempo de dar o bote. Quando a mulher embucha, o pai fica um tempão matutando sobre o nome mais bonito para colocar na criança. O marido sentencia logo: "Mulé, seja menino ou menina, o nome tem que ser ou "ingrês" ou de artista de novela da "grobo". Quanto ao padim, num se preocupe não que vai ser um político, um candidato nessa eleição, e que seja pra ganhar".
Antigamente, nem de longe se ouvia falar nessas coisas. João, Maria, Antonio, Josefa, Pedro, Francisco, Lurdes, Sebastião, José, Severino, Joana, Marina, tudo nome simples, bonito, sem enfeite ou frescura, nome de verdade, de respeito mesmo. Nenhum pai queria saber de artista, se o artista era ele mesmo, vivendo na corda bamba, fazendo acrobacias numa imensidão de palco de sol e sofrimento para sobreviver.
continua...
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