SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um céu com estrela e tudo... (Poesia)

Um céu com estrela e tudo...


Ainda é manhã e já sonho
a mesma viagem ao teu lado
e quero uma valsa no céu
e quero passear nas montanhas
e quero soltar estrelas no ar
e quero dançar na nuvem
e quero voar passarinho
e quero no amor o prazer
e quero acordar com você

Vivo desses sonhos
porque só sei amar
e se soubesse viver
era pra te encontrar
dar um presentinho
de quem ama muito
dar o que posso dar
que me envergonhe
e me faça mudo
dar um céu com estrela e tudo...


Rangel Alves da Costa

REINO ENCANTADO DO AMOR (Crônica)

REINO ENCANTADO DO AMOR

Rangel Alves da Costa*


Dizem que num Reino Encantado um rei muito safado mandou o seu filho menino, jovem bonito e sapeca, ser safado também e desfrutar pelo reino inteiro todos os segredos e delícias do amor.
Porém o rei safado era muito zangado e ficava acabrunhado quando sua filha menina dizia que um dia iria namorar e amar.
O rei baixou um decreto ordenando que o seu filho tivesse quando quisesse todas as jovens do reino, todas as mulheres casadas e todas as viúvas ainda boas de serem usadas. E todo mundo aceitou porque era ordem do rei e o mulherio de bom grado confirmou.
O rei baixou outro decreto proibindo que os homens olhassem para sua filha e pagava com a pena de morte todo aquele que ao menos suspirasse perto dela.
O rei mandou contratar no oriente e no ocidente, nas terras frias e mais quentes, todos aqueles especialistas na arte do bem amar, na arte do galanteio e na arte do se fartar, para nos leitos sedentos o seu filho desbravar.
O rei mandou escolher pelo mundo religiosas envelhecidas, senhoras jamais queridas, para cuidar do recato e educação de sua filha, que deveria ser prendada eternamente na arte do silêncio e da clausura.
O filho safado do rei mal podia descansar, pulando de uma cama a outra fazendo valer seu vigor e a força de sua idade, deixando o próprio pai num misto de alegria e saudade. E dizem que era tão afoito, que escolheu três irmãs para se unir num só coito.
A pobre filha do rei, sonhando em namorar, não podia nem dizer aquilo que desejava, pois ficava de castigo ou ali mesmo apanhava. Saía da cama molhada e diziam que era febre, enchiam ela de chá quando queria um homem já.
Um dia o rei ficou chateado com o que o seu lindo reclamou, dizendo que o mulherio do reino estava mesmo um horror, que não suportava mais deitar com a mesma duas vezes, e que o pai precisava castigar aqueles que estavam escondendo suas filhas mais novas, pois filha não era pra pai e sim para suas alcovas.
Um dia o rei ficou injuriado com o que vieram lhe dizer, que sua filha era mocinha e precisava divertir, e mesmo que não namorasse mas precisava sair. Ver o mundo, tomar ares, conhecer cada empregado, porém na navalha passar o que ficasse enamorado.
O rei mandou construir um harém para o seu filho, quase do tamanho do reino, com mais de mil quartos enfeitados, com banheiras e solares e camas com almofadados, com todos os tipos de óleos e cremes, com orquestras de cegos e massagistas eunucos.
Coitada da filha do rei, mais doente a cada dia, e quanto mais tempo passava mais ela perdia alegria, com um calor a lhe subir, a vontade a consumir, tudo querendo lhe possuir, mas nenhum homem por ali.
O querido filho exigiu e o rei mandou contratar mil mulheres no estrangeiro. Não queria contrariar, mas custava muito dinheiro e do jeito que a coisa ia tinha que hipotecar o reino inteiro. Mesmo assim era feliz porque seu lindinho provava que naquele reino era a macheza que imperava.
Um dia a filha do rei morreu e o pai não ficou nem sentido, pois estava preocupado em atender o seu querido, pois agora cismou que queria mais mil novatas no harém. E o rei já empobrecido, um tanto desconfiado, resolveu ir até lá e quase caiu sentado. O filho tinha enjoado das mulheres e já estava de noivado marcado, mas não com nenhuma virgem, deixando o rei espantado. Não se sabe o porquê, mas caiu esparramado.





Advogado e poeta
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EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 52

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 52

Rangel Alves da Costa*


Como é difícil a vida dos que vivem ilhados pela imposição do medo, do desamparo e da incerteza, pensava Lucas, enquanto juntava os cacos, como se dizia por lá. E medo pelo terror espalhado e a segurança que nunca se tem; desamparo por não poder contar com a proteção mínima daquilo que se deveria esperar; incerteza pela dúvida do que poderá ocorrer agora, mais tarde, sempre...
Acrescido a isso o fato de que a impotência estava chamando a violência. E somente Deus sabe quais os instrumentos eficazes de justa violência que devem ser usados contra as armas mortais da violência gratuita. Não matar, mas também não morrer. Seria pecado o homem proteger sua vida acima de tudo, acima de todo o mal, acima de sua jura de não violar princípios?
Sem que lembrasse de ter deixado a bíblia aberta em cima do sofá, mesmo assim ela estava lá como se chamando para ser lida em alguma coisa, pois mesmo com o vento entrando pela porta aberta as folhas não se moviam, como que silenciosamente tristes também. E os olhos de Lucas atenderam o chamado, naquilo que estava sendo mostrado pelo quinto capítulo do livro da Sabedoria:
"Então, com grande confiança, o justo se levantará em face dos que o perseguiram e zombaram dos seus males aqui embaixo. Diante de sua vista serão presos de grande temor e tomados de assombro ao vê-lo salvo contra sua expectativa; tocados de arrependimento, dirão entre si, e, gemendo na angústia de sua alma, dirão: Ei-lo, aquele de quem outrora escarnecemos, e a quem loucamente cobrimos de insultos! Considerávamos sua vida como uma loucura, e sua morte como uma vergonha. Como, pois, é ele do número dos filhos de Deus, e como está seu lugar entre os santos? Portanto, nós nos desgarramos para longe da verdade: a luz da justiça não brilhou para nós e o sol não se levantou sobre nós! Nós nos manchamos nas sendas da iniqüidade e da perdição, erramos pelos desertos sem caminhos e não conhecemos o caminho do Senhor! O que ganhamos com nosso orgulho, e que nos trouxe a riqueza unida à arrogância? Tudo isso desapareceu como sombra, como notícia que passa; como navio que fende a água agitada, sem que se possa reencontrar o rasto de seu itinerário, nem a esteira de sua quilha nas ondas. Como a ave que, atravessando o ar em seu vôo, não deixa após si o traço de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem; como quando uma flecha, que é lançada ao alvo, o ar que ela cortou volta imediatamente à sua posição de modo que não se pode distinguir sua trajetória, assim, também nós, apenas nascidos, cessamos de ser, e não podemos mostrar traço algum de virtude: é no mal que nossa vida se consumiu! Assim a esperança do ímpio é como a poeira levada pelo vento, e como uma leve espuma espalhada pela tempestade; ela se dissipa como o fumo ao vento, e passa como a lembrança do hóspede de um dia. Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles. Por isso receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo, afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos."
Eis porque não estou sozinho, pensou em seguida. Mesmo na solidão, tenho um exército a meu favor. E os inimigos não sabem quais armas possuo, porém sou até mesmo forçado a temer por não saber quando chegarão a meu favor as armas da justiça do Senhor, enquanto os malfeitores já colocam os pés na minha fronteira, invadem meu terreno, olham para a minha solidão e derrubam as minhas portas. Se depois de violarem as janelas, os telhados e as paredes, o que pensarão em fazer em seguida? Tudo isso pensava Lucas, num misto de fé e de temor. Porém, com muito mais fé, que era o alicerce do encorajamento.
Quando já ia saindo para providenciar portas novas, que deveriam ser colocadas naquele mesmo dia, percebeu algo que pela agitação da manhã e pela visita dos policiais, não pôde observar mais cedo. Uma vaca, das poucas que haviam sido deixadas por seu pai, estava morta embaixo do pé de umburana, mais adiante da casa, onde gostava de sentar no tronco sombreado. Contudo, não havia sido morta por idade nem por mordida de animal, mas pelas mãos do próprio homem, ali deixadas no sangue que ainda escorria de sua barriga.
Invadiram meu terreno, olharam para minha casa e a minha árvore e avistaram essa vaquinha, derrubaram minhas portas e mataram meu animal. Já havia lido algo parecido num poema. Só que aquilo já estava se transformando num grito.


continua...





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terça-feira, 20 de julho de 2010

LUA, LUAR, LUARAR (Crônica)

LUA, LUAR, LUARAR

Rangel Alves da Costa*


Quando quero luarar eu vou pra qualquer lugar, que tenha noite bonita ou não, que tenha silêncio e medo, que tenho escuridão de mistério e segredo, que tenha ou não estrela ao redor, acompanhado ou só, eu vou pra qualquer lugar só pra ver o luarar.
Lua, luar, enluarar, luarar é a mesma coisa boniteza, lindeza que os olhos entendem mais que a pessoa, que cintila só de ver e falar com ela toda bonita lá em cima, amarelada, dourada e cheia, com olhos de fogueira abertos e jogando sobre a terra um brilho que é de cegar apaixonado e esmagar coração.
Da terra de onde vejo o luarar, endoideço se não vejo lá por riba lá em cima, no meio das nuvens ou sozinha, imperando na celeste escuridão, ao lado das estrelas fogosas e namoradeiras, aquele círculo encantado que se derrama em mim e sobre o poeta da rua espalha versos de inspiração. Ai, quanta canção boêmia e versos cambaleantes a lua enluarada já bebeu comigo. Poemas cheirando a limão, rimando com a lua no meio da rua.
Enlouqueço, endoideço se na minha noite que prometeu mais triste me faltar a lua enluarada, mesmo que numa réstia escondida lá em cima. Perco e juízo e amoleço a ideia, dou uivos feito lobo solitário, barulho feito cachorro louco, mio no telhado do gato, me espanto igual lobisomem na mataria. Cadê minha lua São Jorge, cadê meu luar seu dragão, cadê a auréola da noite, cadê poesia do coração, cadê da noite a razão?
Que não brinquem comigo tempo de enchuvecer, nuvem negra engravidar, tempestade se formar por todo lado e o negro retinir só porque vem relâmpago e trovão. Não quero saber não, não mandei chover agora e quero minha lua no lugar, quero luarar de volta, pois é noite e quero me apaixonar. Se ficar no duvidar, nesse chove sem molhar, nesse mais ou menos esquisito, pego uma escada e vou subindo ao céu pra plantar jardim defronte da lua e sentar lá só pra espiar. Não tenho culpa, é noite e quero me apaixonar.
Alguém lá de cima por favor afaste as nuvens, desilumine esse raio e cale de vez o trovão, espante essa coisa pra longe, chame chamando as estrelas que certamente não virão só. Logo a lua surge ao redor pra clarear os olhos de quem não aguenta mais buscar a lua num poste. Lua de poste também é bonita, porque a rua parece um céu quando tá solitária.
Sou assim, doido de lua cheia, apaixonado de lua crescente, solitário de lua nova, abandonado das outras luas. Mas mesmo assim sou teimoso, não perco uma noite sequer sem sair no meio do mundo, vagando no meio do tempo, só pra ver em qual cantinho a lua vou encontrar. A escuridão já me conhece e deixa passar quando quero.
Não troco um quarto bonito, com uma lâmpada acesa e um montão de coisa em redor, por uma janela porta aberta e uma vereda lá fora pra botar pé sem ter medo de sair na noite e olhar pra cima pra ver meu amor onde está. E tem dias que nem precisa olhar que ela já vem por cima como se quisesse engolir, numa doçura que é melhor do que a lua de mel. Lua tem dessas coisas, de querer safadar às vezes.
Se me falta a lua no céu, saio da janela e vou pra rua mirar a lua no poste, que também é bonita, incandescente, que não se esconde quando o tempo tá fechado e que também faz tudo ficar mais triste e feio quando está quebrada. Essa lua do poste também tem muitos seguidores noctívagos, pois basta ver quantos bêbados se encostam bem embaixo dela para chorar suas desilusões, quantos cachorros levantam as pernas bem embaixo do poste só pra ver se a lua está segura lá em cima, quantas crianças brincam de astronautas com a lua e jogam espaçonaves de plástico bem nos olhos de sua luz. E plashtblou! a lua apaga e cai.
Um dia a lua caiu perto de mim. Como ficou tudo escuro, não sei mais se dali em diante vivi ou morri.




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Te amava tanto... (Poesia)

Te amava tanto...


Te amava tanto
meu amor que um dia
na promessa de viver feliz
me vi menino
e sonhei demais
jurei que amava
e amaria mais

E dessa jura
e desse amor demais
só me arrependo
de não ter perguntado
sobre o seu amor
se também amava
ou prometia dor

Ainda te amo
meu amor eu juro
sozinho mesmo
largado no escuro
porque a felicidade
ainda persigo
porque o meu erro
só divido comigo.



Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 51

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 51

Rangel Alves da Costa*


Diante do intenso barulho na entrada da casa, Lucas levantou num pulo e saiu correndo para verificar o que teria sido. A porta tinha sido afetada de tal modo que estava despedaçada, com partes ainda presas no portal e pedaços de madeira jogados dentro da sala. Dificilmente poderia se imaginar como tinham feito aquilo, pois o baque causado e o dano resultante pareciam ter sido provocados por uma poderosa arma de guerra.
Passando por cima do que restou, dos estilhaços por todos os lados, Lucas saiu pra fora no intuito de tentar enxergar quem ou o que tinha causado aquilo tudo. Na escuridão ainda predominante naquele horário, no entremear entre a noite e a madrugada, por mais que olhasse e andasse rapidamente de um lado para o outro, não conseguiu ver nada que indicasse a presença de pessoas nos arredores. Se procurava ouvir mais atentamente para localizar alguma coisa, os sons que chegavam eram só os dos bichos também acordados e assustados com o ocorrido.
De repente, ouviu um novo barulho na mesma proporção e com as mesmas características do primeiro. Desta vez na parte dos fundos da casa, para onde se dirigiu imediatamente e encontrar os mesmos estragos feitos. Do mesmo modo que fizeram com a porta da frente fizeram com a porta de trás. Somente a violência e os danos, mas sem poder ver ou avistar os responsáveis por aquele absurdo.
Meu Deus, quem poderia ter vindo aqui essa hora da noite, causado isto e por qual motivo? Era o que Lucas ficava se perguntado de um lado para o outro, temendo que outra violência pudesse ser causada a qualquer instante. E se agora viessem agir contra ele, totalmente desprotegido naquela situação? Resolveu que o melhor a fazer naqueles momentos em era não parar um só instante em lugar algum, de modo a evitar ser surpreendido pelas costas ou coisa parecida. E assim, ainda sem entender nada e procurando respostas para tudo, é que ficou zanzando de um lado para o outro até o amanhecer.
Assim que o dia foi clareando foi medindo as consequencias dos estragos, observando se tinham atingido outros locais e deixado pistas. Nenhum vestígio de identificação havia sido deixado pelo malfeitor ou malfeitores. Um dano naquelas proporções dificilmente poderia ter sido causado por um único indivíduo. Decidiu ainda não tocar em nada até que fosse até a delegacia relatar o ocorrido e policiais viessem até ali para verificar o fato e começar a investigar.
Quando dois policiais chegaram até o local já passava das oito horas da manhã. Perguntados por que haviam demorado tanto, vez que desde às seis horas já havia dado conhecimento ao policial de plantão, foi informado apenas que era praxe na delegacia os agentes só atenderem as ocorrências depois de terem tomado o café da manhã. Como é que a gente pode enfrentar bandido de barriga vazia?. Foi o que indagou um.
Contudo, diante das investigações preliminares, da verificação do fato e dos danos, a primeira conclusão tirada pelos policiais, que se olhavam constantemente, deixou Lucas totalmente estarrecido.
- Pelo que podemos verificar, de antemão posso dizer que não foi gente que causou isso aqui não. Não há nenhuma pista de que indivíduos tenham feito nada disso e me parece ter sido obra de algum animal... – Falava um dos policiais, sempre olhando para outro, para ter a certeza de que concordava com o que dizia.
- Mas isto é um absurdo. Não estão vendo que nenhum animal viria até aqui com a intenção de derrubar primeiro a porta de frente e depois a dos fundos?... – Dizia Lucas indignado, quando foi interrompido pelo outro policial.
- É que, sabe, tem muito bicho inteligente, até mesmo mais astucioso que o homem. Você é inimigo de algum animal, de algum cavalo, boi ou de alguma onça? Isso me parece ter sido coisa de algum animal que não gosta de você. Sabendo que você estava aqui dentro, não podendo chamar você para dizer umas duas, até mesmo porque não falam, então resolveram dar uma pesada ou marrada na porta só para fazer raiva a você. O mesmo bicho depois foi para o outro lado e fez o mesmo. Pode até ter sido um cachorro, desses bem grandão. Você já viu a patada de um cavalo?...
- Mas vocês estão de brincadeira. Virem até aqui, verificar essa situação toda, terem a certeza de que isso só poderia ter sido feito por gente muito perigosa e ainda afirmar que foi causado por animais, me desculpe, mas acho que vocês enlouqueceram...
- E isso mesmo, pode ter sido um cachorro louco – Disse um policial, na maior seriedade do mundo.
E Lucas continuou:
- Cachorro louco que nada, mas gente muito sadia sim, sadia e que a essa hora deve estar sorrindo ou prestando contas pelo que fez. Mas já que concluem que foi algum animal, por favor abram um inquérito que depois vou repassar os dados para a imprensa. E vai sair no jornal: Polícia despreparada para enfrentar e prender animais bandidos.
Foi quando os dois se olharam mais uma vez, e entre engasgos e nervosismos, um falou:
- O problema é que a gente não pode prender animal, pois isso é lá com o pessoal que cuida dos bichos. Também como é que ia colocar uma algema num cavalo ou numa onça? Deus me livre. Se fosse gente, a gente ia atrás, mas com bicho é diferente. E tem outra: se observar algum boi ou cavalo suspeito rodando a casa tome cuidado...
- Passem muito bem – E Lucas indicou-lhes o caminho de volta.



continua...




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segunda-feira, 19 de julho de 2010

FARINHA COM AQUILO (Crônica)

FARINHA COM AQUILO

Rangel Alves da Costa*


Quando se tem o que comer, no sertão se come cedo. Nem dá o meio-dia e os meninos já estão todos avexados, malinando pelos cantos, doidinhos pra abrir a boca e pedir que a mãe traga seu pratinho. Os menorzinhos começam logo a chorar, e choram quase toda hora porque a fome parece que é de minuto a minuto. Isso quando tem o de comer, pois quando não a mãe coloca qualquer enganação pela boca e faz com que durmam novamente. Daí há pouco vem o berreiro de novo, ouvindo-se na malhada, cortando o silêncio do sertão, atiçando o olhar dos passarinhos que só faltam pousar na mão.
É um perigo passarinho na casa de sertanejo pobre. Pode ter vida curta. A qualquer momento Toinho pode botar ele na brasa sem colocar nem um pingo de sal. Por isso passarinho é cismado, marca presença, faz voo rasante, canta e vai embora para o pé de aroeira logo em frente. Que não me venha baleadeira, pois sou amigo da família, sou passarinho de manhã e tarde. Sou também o passarinho do sonho do menino, canto noite adentro sem parar cantar. Mas é melhor não confiar...
Como dito, pertinho do meio-dia, quem tem prato pra espalhar e tigela pra fumegar é hora de derrubar sobre a mesa. Quem não tem, o que fazer? Ali mesmo no fogareiro se avista tudo que tem. Se tem uma panela no fogo é porque só tem aquilo mesmo, e nem adianta procurar comida em outro lugar porque comida nunca sobra em casa de sertanejo. Quando são três panelas é porque no almoço terão o feijão com gorgulho, o arroz quebrado, de segunda ou quarta, e a carne cheirosa demais. Eita tempero bom! Não, é que a fome se delicia com tudo...
Carne de preá é boa, mas não tem mais preá se não tem mais mata fechada, mais toca de macambira, mato rasteiro cortante; nambu ou perdiz só quando chove muito e junta água nos banhados e elas vão matar a sede e depois acabam matando a fome, e diga-se o mesmo com outros animais menores e de carne gostosa, como a galinha do mato, o caititu, a lebre. Até o veado se caçava nas beiradas dos tanques. Uma questão de sobrevivência, quando o homem mata por necessidade de matar a fome que aflige os seus.
Outra carne muito boa é a de carneiro, quentinha ainda para o caldo não visgar, e a de ovelha sem ser muito gorda, pra gordura não virar sebo dentro do prato. Mas quem tem milhão pra dar tanto dinheiro num quilo de carneiro, bode ou ovelha? Aquilo que é ali mesmo do sertão se tornou um luxo que quase ninguém pode mais comer, de tão caro que é.
A carne de boi ou de porco nem se fala, pois são as carnes que todos gostam e também gostariam de ter no fogão ao menos três vezes por semana, quando muito. Gente que ia pra feira há dez anos atrás e trazia três quilos de carne de gado e dois de porco, agora dá graças a Deus se puder comprar um quilo de carne de gado de segunda, com mais osso do que pelanca, e um de porco magro. O interessante é que ninguém quer matar pra comer a galinhazinha que tem no quintal. O sertanejo passa fome, mas faz de tudo pra não acabar de vez com sua única criação. Muitos não matam de jeito nenhum dizendo que é pra chamar mais, até que chega um farrista da madrugada e leva a coitada pra comer tomando pinga.
Mas já estava em cima da hora do de comer e naquele dia até o fogareiro estava apagado, as brasas dormindo nas cinzas e uma tristeza danada. Naquele dia não havia grão nenhum pra botar no fogo, não apareceu caça nenhuma pra cozinhar, não tinha nada o que comer. A mulher já tinha revirado por todos os lados e não achou nem um pedaço de toucinho esquecido. Mortadela não tinha, bolacha não tinha, massa de cuscuz não tinha, não tinha nada. "E agora, o que fazer se já tá na hora do menino se avexar de barriga vazia e pedir que leve o pratinho lá pra frente?", matutou o pai triste que só, uma velha baraúna em pé, sem saber o que fazer nem dizer.
Tomara que goste do que está assistindo na televisão e esqueça que tá na hora de comer, disse à esposa. Ali tinha televisão porque em todo lugar, seja na casa mais pobre do mundo, que não tenha mais nada pelo barraco inteiro, mas tem que ter uma televisão, não tem jeito. Também se não tiver televisão vai ser menino nascendo que não acaba mais.
De repente, Zequinha grita: "Mãe, tô com fome". "E agora, meu Deus, nunca chegamo a uma situação dessas de não ter nada mesmo para oferecer, nem um tiquinho de nada", disse o pai aflito. Foi quando a esposa falou: "O que achei foi um restinho de farinha que tá ali. O jeito que tem é dizer a ele que só tem isso mesmo. O que fazer, né meu veio?".
E o pai seguiu com um pratinho de farinha na mão em direção ao filho. Chegando perto dele, de olhos lacrimejando, explicou a situação e perguntou se queria a farinha seca. E para seu espanto Zequinha respondeu:
"É assim mesmo pai, vou comer a farinha pensando que estou comendo aquilo ali..." E quando o pai olhou pra televisão viu uma família almoçando feliz numa mesa que tinha de tudo que se podia imaginar.
E Zequinha engolia a farinha seca e comia os outros pratos com os olhos...





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