SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 26 de julho de 2011

"PARA QUE CHORAR O QUE PASSOU, LAMENTAR PERDIDAS ILUSÕES..." (Crônica)

“PARA QUE CHORAR O QUE PASSOU, LAMENTAR PERDIDAS ILUSÕES...”

                                            Rangel Alves da Costa


Muitas vezes, é preciso que as luzes da ribalta se acendam para clarificar a certeza que a vida é um eterno caminho, um eterno continuar, não cabendo o ser humano tentar construir lamentando perdidas ilusões.
Ora, verdadeiramente as coisas não acontecem segundo desejamos sempre. Ao lado das alegrias pontuam as tristezas, as conquistas estão ladeadas com as derrotas, os amores são também temperados pelos dissabores.
Por tudo ser inevitavelmente assim, tudo que não foi conquistado será motivo para dar forças para novas lutas, novos empenhos, novas realizações. De nada adianta não tentar dar o passo seguinte porque o passo atrás foi em falso. As pedras, sempre as pedras no meio do caminho...
Essa necessidade que o homem possui de jamais esmorecer, jamais entregar os pontos e partir para o melhor a partir do fio tênue do medo, pensando sempre num amanhã muito melhor, está magistralmente expressa na genial letra de Charles Chaplin, o Carlitos, “Limelight”, que na versão brasileira feita por Antonio Almeida e João de Barro, o Braguinha, ganhou o título de “Luzes da Ribalta”.
“Vidas que se acabam a sorrir/ Luzes que se apagam, nada mais/ É sonhar em vão tentar aos outros iludir/ Se o que se foi pra nós/ Não voltará jamais/ Para que chorar o que passou/ Lamentar perdidas ilusões/ Se o ideal que sempre nos acalentou/ Renascerá em outros corações”. Eis a versão.
Então, o que nos quer dizer a genialidade de Chaplin? Imagine o próprio Carlitos como palhaço e, para cumprir seu ofício de proporcionar alegria à platéia, assim que as luzes se acendem tem que entrar na ribalta deixando todos os problemas pessoais para trás.
A vida pessoal do velho artista pouco importa nesse momento, pois quem tem a incumbência de tornar os outros felizes é o palhaço. Da cortina pra trás há todo um sofrimento, angústias infindas, tristezas, desamores, dificuldades de toda ordem, um verdadeiro caos. Mas isto não cabe ser vivenciado agora, pois as luzes da ribalta não se acendem para a tristeza nem para o sofrimento.
Todo mundo conhece uma história assim: o palhaço entra no picadeiro chorando e ainda assim tem que passar para as pessoas uma imensa felicidade, alegria contagiante, entusiasmo e prazer em tudo que faz. As pessoas não sabem do seu sofrimento íntimo, dos motivos daquele chorar interno que continua existindo, pois o próprio palhaço não deixa que nada disso transpareça. E por que ele faz isso? Porque sabe que um motivo ruim não pode ter a capacidade de destruir a vida totalmente.
E essa capacidade de fingimento que caracteriza o palhaço em ação, se levada a efeito na vida cotidiana certamente será de grande utilidade para o ser humano compreender que os problemas só podem ser vencidos se procurar superá-los com a certeza que nada está perdido. Ora, viver de lamentações, entregando os pontos, afirmando a si mesmo que tudo já está perdido, além de não modificar nada tenderá a fragilizar ainda mais o indivíduo.
Ademais, o velho palhaço sabe que as situações existentes precisam ser enfrentadas na sua feição presente e não revividas como se o ontem fosse mudar alguma coisa. A partir do já, do agora, do instante, o homem deve mirar seu olhar, dar o seu passo, ter a certeza que é pra frente que se anda e só conseguirá construir, apagando e destruindo velhos alicerces, se tiver a confiança que é capaz de tudo e tudo alcançará nessa força.
Esse denodo que deve ter o ser humano, segundo Carlitos, deve ser tão absoluto e extremo que mesmo a vida já estando chegando ao seu limite, ainda assim o ser humano, pela força que tem, continua sorrindo. E o que é mais importante, sem lamentar o que não foi conseguido, sem chorar o passado, sem tentar alcançar mais nenhuma ilusão perdida, pois o seu ideal foi conseguido: vencer!



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com       

Orgulho danado (Poesia)

 Orgulho danado



Quanto canto não canto
rumino baixinho a minha terra
quando ando não ando
galopo rumo ao pé da serra
quando falo não falo
murmurejo a paz sem a guerra
quando durmo não durmo
sonho a saudade que aferra
e ainda não é tudo não
porque minha roupa é gibão
calço alpercata pisando chão
guardo um casebre no coração
uma mãe, um pai e um irmão
e saudade correndo no ribeirão
mas qualquer dia desses
desando e quero muito mais
vou morar no meio dos animais
do progresso caminhar pra trás
renascer do chão feito uma semente
ser a natureza e o que ela sente
ser como o meu povo e a minha gente
ser aquele sol de chama mais ardente
ser o meu sertão e viver mais contente
ter aquela terra como o maior presente.



Rangel Alves da Costa

TEMPESTADE - 78 (Conto)

TEMPESTADE – 78

                          Rangel Alves da Costa*


Teté já havia conduzido sem problemas os meninos até a casa, já havia acompanhado todo aquele sofrimento inicial, mas não podia permanecer ali por muito tempo. Tinha que sair rapidamente porque precisava visitar o seminarista Tristão e saber como andava sua recuperação. Não confiava muito naquelas que cuidavam dele não, principalmente depois das maluquices de Antonieta.
Verdade é que tinha outros assuntos também pra tratar com o doente. Assuntos de amor, de amar, de revelação e consequencia. Para os dois amigos, faria esse papel de cupido com satisfação. O problema maior era a promessa pra ser padre levada a efeito por ele, mas também haveria de dar um jeito nisso. De qualquer forma, talvez o rapaz recebesse com muito agrado notícias do seu grande amor, da professorinha.
Assim que disse já estar saindo, Manuela chamou-lhe num canto e perguntou se já tinha falado a Marildinha sobre o que tinha acontecido com a casa, se a menina já sabia que a moradia havia sido completamente destruída pelas chuvas. Ele respondeu que não tinha tido coragem. Então, mais entristecimento se abateu sobre ela, vez que sabia não ser fácil conversar essas coisas de perda com a filha.
E antes mesmo que os dois acabassem a conversa, a menina chegou perto da mãe para dar um abraço. Fez um carinho e perguntou: “Mamãe, como a gente vai poder ir pra casa num escuro e numa chuva dessas?”. E Marilda sentiu um buraco se abrir e ser completamente tragada pela dor e pela impotência. O que dizer a filha num momento daqueles, em meio a um clima onde o silêncio era o menos gritante?
Teté já havia dado um passo pra sair e teve que recuar diante do que ouviu. Sabia que a coitada da mãe ia se derramar em prantos, se não desmaiasse mais uma vez, e acabaria complicando ainda mais as coisas. Por isso mesmo chamou as duas para irem à cozinha e ele mesmo revelaria de uma vez por todas o triste acontecimento.
Porque tinha pressa, procurou ser rápido, mas prático e eficiente no que ia dizer. E assim se esmerou pra falar:
“Marildinha, infelizmente vocês tão cedo não poderão retornar à sua casa. Ainda que venha a manhã e que saia um sol bem bonito, mesmo assim vocês não poderão ainda voltar. Pelo que você mesma viu e vê, essa tempestade trouxe muito prejuízo para a vida das pessoas, muitos viram os móveis que restavam sendo levados pelas correntezas, até pessoas foram levadas pela força das águas. A mãe de Tiquinho já estava doente sim, é verdade, mas esse tempo ruim demais talvez tenha sido a gota d’água pra ela piorar e morrer. E como eu já disse, não foi só ela que morreu não. Pra falar a verdade, só se viu dor e sofrimento nas últimas horas. A professorinha e o seminarista doentes são exemplos disso. O casal Antonio e Fabiana nem sei se conseguiram ficar bem depois do que passaram. Agora eu vou dizer uma coisa e preste bem atenção. Muitas casas não suportaram a força da ventania com a sede de destruição das águas e foram completamente derrubadas. Algumas pessoas estavam dentro de suas casas e ficaram feridas. Sorte que a sua casa...”.
E foi interrompido pela menina: “A nossa casa também foi destruída...”. Foi a vez de a mãe abraçar a filha e completar, chorosa de não acabar mais: “Foi, minha filha, foi. Foi completamente destruída e só sobrou a sua boneca por cima do barro”. Não se sabe como, mas nesse instante o maluquinho já estava chegando com a boneca, ainda suja, toda descabelada.
“Não fique triste não, mamãe. Como Teté disse, muito pior aconteceu, basta olhar ali pra Tiquinho e seu pai, coitados, tendo que lamentar de verdade. Mas graças a Deus minha filhinha foi salva da destruição. Agora é só dar um banho nela e colocar pra dormir. Numa tristeza dessa não sei como vai cochilar, mas tem que descansar”. Após dizer isso a menina pediu uma caneca de água ao maluquinho pra lavar seu brinquedo. Mas ele já tinha saído feito um raio da silibrina.
Saiu correndo e não falou com ninguém na sala não somente porque estivesse realmente apressado, mas principalmente porque sua cabeça só faltava explodir ecoando as palavras ditas à menina: prejuízo para as pessoas, morte de gente inocente, doenças, perdas irreparáveis. E então um mundo de culpa recaía sobre si de tal forma que precisava parar, pensar, acabar com aquilo tudo de vez.
Ora, a tempestade, a ventania, os raios, os relâmpagos, os trovões, tudo isso não estava ocorrendo por causa dele, que invocou as forças da natureza para castigar quem não gostasse de sua pessoa? Se agora ele mesmo estava sentindo a força destruidora da tempestade e o que ela já havia vitimado, então por que continuar com essa brincadeira de mau gosto?
Já estava correndo a mil pelo meio da rua, mais enlouquecido ainda, completamente transtornado. E de repente deu a volta e seguiu em outra direção. No desespero, iria retornar à montanha onde tudo aquilo havia tido início, onde ele havia implorando a Deus, de joelhos, para que lhe desse o dom de ser dono, por uma única vez, da tempestade.

                                                    continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com


segunda-feira, 25 de julho de 2011

A DOR E O LUTO PELA BELA SINÉSIA (Crônica)

A DOR E O LUTO PELA BELA SINÉSIA

                               Rangel Alves da Costa*


Diferentemente dos autores de novelas que matam seus personagens e ficam felizes porque aumenta a audiência de suas tramas, bem como dos romancistas que fazem da morte de suas criações uma forma eficaz de dar desenvolvimento aos enredos, sinto a morte de um personagem como algo realmente pesaroso.
Também escrevo romances e há cinco dias que não tenho forças nem encorajamento para escrever uma só linha. E tudo porque tive que matar uma personagem. É um luto angustiante e todas suas consequencias, pois parece que o mundo vai acabar pela partida inusitada, ainda que através de uma morte dignificante, se assim puder ser considerada uma morte, da bela e meiga Sinésia, a prostituta.
Segundo dizem, pois só o conheço como dor, o luto é uma reação da mente a perda de outro ser com grande significado, geralmente de um ente querido; sentimento de pesar ou tristeza pela morte de alguém; tristeza profunda causada por grande calamidade; dor, mágoa, aflição. O poeta diz ser a alma enegrecida pela ausência.
Reconheço que estou de luto porque estou com tristeza na alma. Não é apenas uma melancolia, com a perda de interesse na realização de coisas importantes e pelo mundo externo. Na concepção freudiana reconheço o meu luto, o meu intenso abalo psicológico pela retirada desse mundo, mesmo que através das minhas próprias mãos de escritor, da prostituta Sinésia.
Aliás, ao tratar do luto, Freud já afirmou que este é a reação à perda de uma pessoa amada, uma dor intensa e angustiante, a perda de interesse pelo mundo, a dificuldade de enxergar outra pessoa com as mesmas características, o desinteresse de realizar tarefas que digam respeito à pessoa que se perdeu. No luto o mundo torna-se vazio e insignificante, a vida só é refeita ao passo, ao peso e ao preço da dor.
Verdade é que agora totalmente enlutado, estou sendo vítima do meu próprio erro ao tirar das páginas do meu livro personagem tão importante. Desde que concebi a estória, alinhei toda a trama e elaborei as estratégias de desenvolvimento da obra, sempre colocava Sinésia como peça fundamental no desenrolar de tudo.
Ela, a doce e sensual Sinésia, ainda que carregando em si a pecha discriminatória de prostituta, de quenga de qualquer um e qualquer moeda, era uma das personagens principais, mais importantes, de cujas ações e pensamentos os outros acontecimentos se desenvolveriam.
Para ser mais sincero, ela estaria presente no desfecho da trama, a estória terminaria com aquilo que o destino lhe havia reservado. A glória ou a lama, a fruição de um sincero amor ou continuando na beira do cais à luz do luar? Não há mais como saber. Dor, triste dor, doce e bela Sinésia...
Era noite, estava chovendo, lembro muito bem. Estava escrevendo e saí com uma xícara de café na mão para o portão. Olhava a chuva de um jeito melancólico. Assim que tomei o café acendi um cigarro e fiquei pensando nas situações diferentes e inesperadas que haviam surgido na estória. Sinésia, para continuar sendo como imaginei desde o início, jamais deveria fazer o que acabava de ser feito.
Pelo impulso do escritor, fiz com que Sinésia, à altura da metade do romance, se mostrasse e assumisse na igreja, em meio às beatas e para espanto e quase morte do velho sacerdote, que era prostituta mesmo e tinha prazer e honra de vender o seu corpo para qualquer um. Mas que loucura, jamais poderia ter sido assim. Esse segredo a bela moça deveria guardar até o final, quando no confessionário contaria toda a verdade e revelaria o nome do seu grande amor.
Mas não, achei de revelar no meio do romance situações que estavam guardadas para o final e agora, totalmente desacreditada pela sociedade, não havia mais nenhuma razão para que ela continuasse viva nos meus escritos. Tive que colocar, através das mãos do sacerdote, uma hóstia envenenada em sua boca e ela morreu com a boca espumando, caída perto do altar.
Fiz isso porque estava apaixonado por Sinésia, personagem que criei e tive que covardemente matar. Crime passional, confesso. E matei para não vê-la mais se entregando aos braços de um e de outro, num apelo sexual desenfreado. Daí minha dor, daí o meu luto.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com  

Coisas de amor (Poesia)

Coisas de amor



Por qualquer lugar
que o amor quiser chegar
dê-lhe boas vindas
peça para entrar e sentar
se foi pela janela
ofereça um esconderijo
pois amor matreiro
chegando no pulo certeiro
e há alguém esperando
com coração palpitando
amor ou amante
na alcova se entregando
se foi pela porta
receba o buquê de flores
trejeite com mil amores
deixe cair e quebrar o perfume
e se demore e faça ciúme
mande mentir sobre outros
essa aflição faz sofrer
e assim que tão bela aparecer
ele beijará seu pé e sua mão
até que conquiste seu coração
e dê o devido troco a você.

Rangel Alves da Costa

TEMPESTADE - 77 (Conto)

TEMPESTADE – 77

                          Rangel Alves da Costa*


O velório de Mazé havia se transformado num palco silencioso de guerra entre a solteirona De Lourdes e a ex-casada Manuela. Continuavam sentadas pertinho uma da outra, mas essa proximidade servia apenas para o fustigamento.
As duas não perceberam, mas passaram a usar a mesma estratégia para, a um só tempo, afastar o viúvo da outra e resguardá-lo para si. Assim, De Lourdes cochichava no ouvido de Manuela e dizia que nunca tinha visto um homem tão feio igual aquele. Feio demais, esquisito, ridículo. E esta soltava que além de feio deveria ser bicho do mato, rude e ignorante que só. Um brutamonte no meio da civilização.
Mas não parava por aí não. A solteirona, tentando a todo custo afastar os olhares da amiga para o homem, falava baixinho que já ouviu dizer que ele deixava a família passando fome, batia na mulher e até acorrentava ela de vez em quando. Com a mesma intenção, Manuela chegou a dizer que as más línguas comentavam que ele puxava arma pra falecida, a fazia andar de joelhos e passar dias e mais dias a pão e água. E pouca água, e menos pão ainda.
Mas como se vê, tudo mentira, tudo a mais deslavada mentira, com á única e exclusiva intenção de ver a outra criando medo do homem e assim deixasse o caminho aberto para o bote futuro. Tanto era assim que o coração de cada uma sempre batia mais forte ao avistar o semblante do viúvo na meia luz, e diziam intimamente: mas que homem mais lindo, que pedaço de viúvo, quem dera eu poder cuidar dele daqui em diante!
Sinhá Culó não gostava de ver as duas naquele falatório baixinho enquanto rezava para a alma da defunta ali estirada. Não era só feio como era pecado não ficar constantemente jogando os olhos de piedade para o corpo velado. Lágrimas caíam muito bem nessa hora, orações e preces mais ainda, mas jamais fazer o que aquelas faziam, numa fofocagem que parecia sem fim.
E chegou ao ponto que o velho Timbé teve que pedir silêncio e exigiu que acompanhassem Sinhá Culó na reza de encomendação de alma:

“Tu anseias, eu bem sei, por salvação,
 tens desejo de banir a escuridão
 abre, pois de par em par teu coração
 e deixa a luz do céu   entrar
 Deixa a luz do céu entrar
 deixa a luz do céu entrar
 Deixa a luz do céu entrar
 deixa a luz do céu entrar
 abre bem as portas do teu coração
 e deixa a luz do céu entrar
 Cristo a luz do céu, em ti quer habitar
 para as trevas do pecado dissipar,
 teu caminho e coração iluminar
 e deixa a luz do céu entrar 
 Que alegria andar ao brilho dessa luz
 vida eterna e paz no coração produz
 Aceita agora o salvador Jesus
 e deixa a luz do céu entrar”.

Pela ordem recebida do velho Timbé, as duas tiveram de acompanhar Sinhá Culó de qualquer jeito. E entoariam outras preces e orações se não ouvissem o barulho na porta. Só podia ser Tetê, todos imediatamente pensaram. O velho dono da casa levantou apressado e foi abri-la imediatamente. E de repente as duas crianças já estavam entrando, cada uma correndo para braços diferentes.
O pai de Tiquinho quase dá um passamento quando enxergou a figura do filho querido vindo em sua direção, silencioso e de braços abertos. O homem não encontrou forças para levantar e abraçou o menino ali mesmo sentado, num aperto misturado às lágrimas, sem tempo para nenhuma palavra. Somente depois ele pôde murmurar: “Mamãe foi morar com Deus, meu filho. Vá até lá e de um abraço de despedida nela”.
Nesse momento, com o rosto coberto de lágrimas, Marilda largou os braços da mãe e foi pra perto do amigo, acompanhando-o no último abraço à falecida. Em seguida, com todos chorando pelos olhos e o coração, viram o menino ficar de joelhos ao lado da mãe e depois levantar e falar, pausadamente, com a voz entrecortada pelos soluços:
“Mãinha, quando eu saí de casa a senhora estava deitada, agora retorno e encontro a senhora novamente deitada. Só que há uma diferença grande entre estar deitada para esperar o filho voltar da escola e o estar deitada porque morreu, porque não pode mais levantar, porque não verá jamais o filho retornar. Mas voltei, Mãinha, e estou aqui a seu lado me despedindo pra dizer que a partir de agora eu, Tiquinho, com a fé e a confiança que tenho em Deus, ergo o seu corpo da morte, levanto o seu corpo da morte e convido para caminhar ao meu lado por toda a vida, por todos os caminhos que eu caminhar, por onde eu tiver que seguir. Digo isso porque sei que sempre estará ao meu lado, e como bom filho que sempre serei, jamais soltarei a tua mão, jamais esquecerei a sua lição, jamais farei da vida algo vão. E pela vida eternamente caminharei ao teu lado, segurando sempre sua mão, pois terei sempre a senhora erguida no meu coração. Vá com Deus Mãinha, e que o bom Senhor tenha sempre presente a senhora ao seu lado no paraíso”.
Todos ficaram encantados com as palavras de Tiquinho, e tanto que não cabiam mais em si de alegria pelo que ouviram e também de tristeza pelo momento e a circunstância em que foi dito.  O pai, que quase todo tempo ficava em silêncio, choroso, de cabeça baixa, enfim abriu a boca e disse: “Sua mãe deve estar muito orgulhosa de você, meu filho. Não se preocupe não que não vai faltar nada pra você, eu garanto”.
E num gesto impensado para o momento, De Lourdes deixou sair essa: “Quem sabe você não arranja logo outra mulher?”. Manuela tremeu de raiva, e sua mãe falou em tom de reprimenda: “De Lourdes, De Lourdes...”.

                                                     continua...






Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

  

domingo, 24 de julho de 2011

PEQUENAS VERDADES (Crônica)

PEQUENAS VERDADES

                         Rangel Alves da Costa*


Quanto mais caminha mais o homem sabe que um dia chegará a uma margem, a um limite, a uma fronteira; o problema é saber se colocará o pé no outro lado com consciência ou terá que ser forçado a ultrapassar a linha da vida.
A manhã sempre surge com cara de renascimento; o entardecer com feição de retorno ao passado através das recordações; e a noite com semblante de querer que venha logo a manhã seguinte. É este o ciclo da esperança e do desespero.
Há sempre orvalho na folha para o olhar que enxerga o jardim com ar de tristeza; se a lágrima cai sobre a folha é porque o jardim também precisa chorar. Em tudo há um modo próprio de se expressar o entristecimento.
Não é verdade que se a poesia de amor tivesse boca beijaria, tivesse mãos acariciaria, tivesse palavra diria eu te amo, tivesse sexo amaria; mas é verdade que se a poesia de amor tivesse tudo isso já estaria na solidão, pois dificilmente ainda amam com sublimação.
Para impressionar, um brilhante nem se compara a um buquê de flores do campo; o brilho tem um poder tão grande que as pessoas esquecem-se dos gestos simples e sinceros, como também esquecem que o amor não existe se não for construído através de gestos simples e sinceros, assim como um buquê de flores do campo.
Todo relógio é neutro, quieto, passivo, sem causar efeito algum. As pessoas é que marcam os acontecimentos, correm, se apressam, se adiantam, se atrasam, batem o ponto, fazem da vida um mecanismo com mostrador, ponteiros, minutos, horas e segundos. A culpa nunca é do relógio, mas dos olhos que o teme cada segundo.
Qualquer um pode passar pelo jardim e quebrar um galho com uma flor e jogar pelo chão; do mesmo modo qualquer um pisará no galho com a flor sem nenhum problema; contudo, se na tarde chuvosa estiver na janela sem jardim adiante e uma flor vier sendo trazida pela água, então logo enxergará a cena mais triste da vida.
Duvide de tudo. Duvide da ciência, da religião, da seita, da igreja, do governo, do parlamento, do vizinho, do dócil animal, do amigo, do jornal, da pesquisa, do muro novo que você vai passar ao lado, do avião que está lá em cima, de tudo que conhece e que não conhece. E duvide até de você se duvidar da existência e da presença de Deus.
Só converse coisas boas com o barbeiro, o açougueiro, o amolador de facas. É perigoso demais deixar nervoso ou raivoso quem vive com lâmina afiada na mão. Por conseqüência, faça o mesmo com a vizinha fofoqueira, pois nunca se sabe a sede ferina que possui sua língua.
Todo jardineiro é poeta sem saber; todos os dias ele escreve os mais belos versos sem saber; todas as manhãs ele vai juntando palavras na terra, depois espalha estrofes em canteiros, procura encontrar a métrica em cada raiz, rima cuidadosamente cores e espécies, traz um inigualável brilho em cada flor que se abre. Depois publica tudo num ramalhete e entrega à leitura dos olhos da amada.
Debaixo de um mesmo sol está o deserto, a praia, o sertão, a rua; debaixo da mesma lua está a metrópole, o campo, a praça, o mato, a escuridão desconhecida e a cidade iluminada; a mesma ventania sopra no varal, nos cabelos, na montanha, no mar, nas campinas; tudo que existe na está abaixo do céu, do firmamento, das nuvens, dos astros. O mesmo Deus é o Deus de todos, ainda que com outras designações. Por que a natureza humana é tão diferente?
Não há voz mais audível do que a do silêncio. Sempre que alguém se pergunta por que tanto silêncio está ouvindo a sua própria voz perguntando; sempre que não estiver sendo ouvida qualquer palavra, barulho ou sussurro é porque a pessoa também não está lá; sempre que a pessoa quiser silêncio absoluto deverá gritar para silenciar todas as outras coisas.
Todas as vezes que um espelho se quebra, as pessoas jogam foram seus pedaços sem recolher o álbum de fotografias que está no seu verso, no outro lado onde foram revelados e ficaram guardados os instantâneos da vida, cada momento que sem perceber a pessoa foi ali se olhar.
O adeus é sempre mais doloroso quando a pessoa que parte vai a Deus.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com