EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 25
Rangel Alves da Costa*
Após o sermão, o Padre Josefo convidou os meninos que deram início, a partir da idealização de Lucas, à construção daquele local de reuniões para testemunharem sobre o significado e importância daquele barracão. Lucas falaria por último.
Paulinho, que foi o primeiro a se apresentar quando chamados, disse: "Tivemos a ideia de construir isso aqui pra gente brincar e de vez em quando estudar, mas agora gostaria que fosse muito mais, pois vejo nele algo muito maior que o meu coração ainda não sabe o que é".
Jorge se apresentou para dizer o seguinte: "A gente nunca pensou que esse barracão um dia ia receber tanta gente. O bom mesmo era que vocês tivessem tempo de vim aqui outras vezes, mesmo sem a presença do Padre Josefo, pois o nosso espaço também é pra discutir esses muitos problemas que a gente vê por aí e não somente para celebrar missa".
Foi a vez de Maria falar: "Vocês que estão aqui viram muito bem que ainda estamos precisando fazer muito neste barracão, e se quiserem que os seus filhos venham para cá outro dia para brincar, passar o tempo ou estudar, podem muito bem dar uma ajudinha pra gente organizar melhor o barracão".
Quando Guiomar foi chamada, perguntou apenas se aceitavam que sua mãe falasse por ela. Com a aceitação de todos, a senhora se aproximou e disse: "Não ia confiar nunca que uma menina ainda saísse de casa pra se bandear para cá com outros meninos se não fosse na confiança que tenho no professor Lucas, esse jovem que Deus há de olhar ainda muito por ele. Aliás, andei sabendo que Lucas, aquele mesmo que está ali – E apontou onde ele estava – perdeu o emprego de professor. Vocês sabiam? Pois é, e fiquei sabendo que foi despedido porque ensinava aos meninos de um jeito diferente, fazendo pesquisas na própria natureza e convidando pessoas inteligentes para palestrar sobre assuntos importantes. Acho que quem não gostou foi a diretora, aquela mesmo que está ali se escondendo com vergonha do que fez – Olhou para a diretora e apontou com o indicador, fazendo com que a mesma se cobrisse com um lenço enorme e ainda colocasse um guarda chuva por cima. Em seguida foi saindo de fininho, tateando para não cair, ouvindo chacotas de um e de outro – E a mãe de Guiomar continuou:
"Hoje minha filha está toda feliz e contente porque ajudou a levantar isso aqui e eu também me sinto do mesmo jeito, de coração agradecido e pedindo a Deus que iniciativas como esta sempre apareçam para que a juventude não tenha o pensamento voltado pra o que é ruim e nem siga pelo mau caminho".
Assim que o padre chamou Lucas para falar por um instante, chegaram ao local um carro da prefeitura e logo atrás um da polícia. Do primeiro, surgiu na porta um rapaz que chamou Lucas e entregou um papel e do outro veículo desceu um soldado e disse alguma coisa no seu ouvido. Em seguida os dois carros retornaram, deixando as pessoas cochichando e até apreensivas.
Sem demonstrar nenhuma preocupação, com a cara boa e ar de satisfação, Lucas se dirigiu para o local onde iria pronunciar algumas palavras de agradecimento. E assim se expressou: "Antes que fiquem imaginando coisas ruins ou até mesmo outras coisas, quero dizer logo sobre o que as pessoas que estavam nestes dois carros vieram fazer aqui. O primeiro, da prefeitura, veio entregar uma notificação para que eu dê explicações porque levantei esse barracão e não pedi permissão à prefeitura. E vocês bem sabem o que há por trás disso. E o segundo veio me dizer que o senhor delegado deseja falar comigo para que eu esclareça porque reuni tanta gente aqui e não comuniquei nada a eles. Segundo o agente que veio dar o recado, todo evento tem que ser realizado com a permissão da polícia. Pois é, os fatos foram estes, e que bom se ficasse só nisso mesmo. Agora faço uma pergunta: que obra grandiosa, alguma coisa de alvenaria ou qualquer tipo de prédio imponente foi construído aqui para que aja tanta exigência? Pelo que sei, os meninos foram procurar o senhor prefeito para pedir uma ajuda e ele nem quis recebê-los. Não ajudou e agora manda exigir em cima do que foi erguido. Do mesmo modo pergunto com respeito ao chamado para ir conversar com o senhor delegado: qualquer de vocês sabia que toda essa gente viria para cá hoje? Pelo que eu saiba, mesmo que houvesse sido marcada uma missa aqui, não haveria nenhuma necessidade de encaminhar ofício para que soldados viessem dar segurança ao ambiente ou evitar que os seguidores de São Marcos discutissem com os seguidores de São Mateus. Ou será que viriam enfrentar o exército de Pôncio Pilatos? De qualquer modo, são coisas que eu não consigo aceitar, principalmente porque, como diria o poeta Drummond, já querem colocar pedras no meio de nosso caminho. Eles certamente que são fortes e pensam que não somos nada. Ledo engano, pois onde houver comunhão e bondade, como ocorre neste barracão, podem chegar baionetas, exércitos e canhões que mesmo assim não amedrontarão...
E foi quando alguém gritou no meio do povo:
- E se eles quiserem mandar destruir o barracão?
Lucas, virando-se para o rapaz, respondeu:
- Eles conseguirão isso uma, duas, três, quantas vezes quiserem, mas não conseguirão destruir a vontade de reconstruir que sempre estará viva no coração desses meninos. Isso eles nunca destruirão.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
NOITES DO TEMPO (Crônica)
NOITES DO TEMPO
Rangel Alves da Costa*
Quando alguém quer falar sobre algo que aconteceu num passado distante, numa era já consumida pelas neblinas da idade ou naquilo que outrora aconteceu e que não se pode definir uma data, diz que isto ou aquilo se perdeu nas noites do tempo. Neste sentido, noites do tempo significaria o que já existiu e só é possível avistar na memória.
As noites dos tempos, secular estágio do que se foi, assombram pelo seu poder de estar presente em qualquer instante futuro, nos dias atuais, neste momento agora. E possui vozes, pois os clamores, a dicção angustiosa do passado, se expressam naquilo que a qualquer tempo chamamos de saudade, de lembrança, de recordação, de nostalgia, de pensamento do que foi um dia e não é mais. Daí serem doloridas e pesarosas as noites do tempo.
Hoje, ao cismar na janela e ver-se como numa viagem a um mundo distante no passado, o triste e solitário viajante nada mais faz do que caminhar os mesmos passos que um dia Cronos, o deus mitológico do Tempo, perseguiu para nortear seu destino infinito. Evoluindo sempre, porém evoluindo para o que, para onde, para chegar a qual estágio?
Um dia Cronos, com a foice afiada pela terra, cortou os testículos do pai Urano – que incessantemente fecundava sua mãe Gaia, a Terra - e impôs um reinado tão poderoso quanto o do seu genitor objetivando dar um andamento normal aos fatos e coisas, pois era o Tempo, e o tempo precisa evoluir dentro de uma normalidade. Contudo, o que se viu foi que o próprio Tempo, com sua insaciável fome devoradora da vida, com o seu ávido desejo de destruir para fazer renascer, nada mais fez do que propagar a instabilidade da vida, pois se percebeu a partir de então que nada é perene e tudo se consome.
Há alguma diferença entre o Tempo enquanto divindade mitológica que devora e quer mais e o tempo/vida que alimenta ilusões para depois devorar? Cronos, o Tempo, devorou seus próprios filhos, vivia desesperadamente cumprindo seu destino de regular a vida, revolucionar constantemente a natureza, e está provado que ainda hoje não conseguiu seus intentos, pois ele mesmo faz e ele mesmo destrói. Por sua vez, o tempo/vida, esse que se mostra no ontem e no hoje, fiel filho do outro tempo, nada mais faz do que temer que o seu pai venha lhe devorar, e por isso mesmo se antecipa aos fatos e vai destruindo tudo aquilo que egoisticamente se dizia sólido, indestrutível.
Verdade é que tudo na vida se fez refém do tempo. Das suas noites chegam as dores de um passado que atiça o lado mais perverso da memória, que é o de lembrar coisas tristes, e deixam em estado de constante instabilidade as situações, por temor de ser a próxima vítima, pelo medo de ser também devorado, pelo pavor de que lhe aconteça o indesejável.
Mas são as noites do tempo com os seus exemplos que nada mais são do que as lições que os seres humanos nunca têm tempo de aprender. Quanto se chega ao imaginado estágio do conhecimento, da sabedoria, da experiência pelos passos caminhados, então vem o tempo e chama para si tudo que se dizia existir. E então tudo volta a ser noite, nas noites do tempo.
Verdade é que as manhãs existem, a madrugada se vai, o mundo acorda, e vem o sol, os dias, as tardes, o entardecer, a penumbra, a noite e novamente a madrugada, tudo num percurso do tempo. E existem os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos, os séculos, a história, e tudo num ciclo de tempo. E o que se colhe nisso e disso tudo, senão a certeza de ser um grão nessa imensidão que durará até chegar a fome do tempo. Daí que o falso brilho que temos hoje, amanhã, quando muito, será somente uma réstia de qualquer memória nas noites do tempo.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Quando alguém quer falar sobre algo que aconteceu num passado distante, numa era já consumida pelas neblinas da idade ou naquilo que outrora aconteceu e que não se pode definir uma data, diz que isto ou aquilo se perdeu nas noites do tempo. Neste sentido, noites do tempo significaria o que já existiu e só é possível avistar na memória.
As noites dos tempos, secular estágio do que se foi, assombram pelo seu poder de estar presente em qualquer instante futuro, nos dias atuais, neste momento agora. E possui vozes, pois os clamores, a dicção angustiosa do passado, se expressam naquilo que a qualquer tempo chamamos de saudade, de lembrança, de recordação, de nostalgia, de pensamento do que foi um dia e não é mais. Daí serem doloridas e pesarosas as noites do tempo.
Hoje, ao cismar na janela e ver-se como numa viagem a um mundo distante no passado, o triste e solitário viajante nada mais faz do que caminhar os mesmos passos que um dia Cronos, o deus mitológico do Tempo, perseguiu para nortear seu destino infinito. Evoluindo sempre, porém evoluindo para o que, para onde, para chegar a qual estágio?
Um dia Cronos, com a foice afiada pela terra, cortou os testículos do pai Urano – que incessantemente fecundava sua mãe Gaia, a Terra - e impôs um reinado tão poderoso quanto o do seu genitor objetivando dar um andamento normal aos fatos e coisas, pois era o Tempo, e o tempo precisa evoluir dentro de uma normalidade. Contudo, o que se viu foi que o próprio Tempo, com sua insaciável fome devoradora da vida, com o seu ávido desejo de destruir para fazer renascer, nada mais fez do que propagar a instabilidade da vida, pois se percebeu a partir de então que nada é perene e tudo se consome.
Há alguma diferença entre o Tempo enquanto divindade mitológica que devora e quer mais e o tempo/vida que alimenta ilusões para depois devorar? Cronos, o Tempo, devorou seus próprios filhos, vivia desesperadamente cumprindo seu destino de regular a vida, revolucionar constantemente a natureza, e está provado que ainda hoje não conseguiu seus intentos, pois ele mesmo faz e ele mesmo destrói. Por sua vez, o tempo/vida, esse que se mostra no ontem e no hoje, fiel filho do outro tempo, nada mais faz do que temer que o seu pai venha lhe devorar, e por isso mesmo se antecipa aos fatos e vai destruindo tudo aquilo que egoisticamente se dizia sólido, indestrutível.
Verdade é que tudo na vida se fez refém do tempo. Das suas noites chegam as dores de um passado que atiça o lado mais perverso da memória, que é o de lembrar coisas tristes, e deixam em estado de constante instabilidade as situações, por temor de ser a próxima vítima, pelo medo de ser também devorado, pelo pavor de que lhe aconteça o indesejável.
Mas são as noites do tempo com os seus exemplos que nada mais são do que as lições que os seres humanos nunca têm tempo de aprender. Quanto se chega ao imaginado estágio do conhecimento, da sabedoria, da experiência pelos passos caminhados, então vem o tempo e chama para si tudo que se dizia existir. E então tudo volta a ser noite, nas noites do tempo.
Verdade é que as manhãs existem, a madrugada se vai, o mundo acorda, e vem o sol, os dias, as tardes, o entardecer, a penumbra, a noite e novamente a madrugada, tudo num percurso do tempo. E existem os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos, os séculos, a história, e tudo num ciclo de tempo. E o que se colhe nisso e disso tudo, senão a certeza de ser um grão nessa imensidão que durará até chegar a fome do tempo. Daí que o falso brilho que temos hoje, amanhã, quando muito, será somente uma réstia de qualquer memória nas noites do tempo.
Advogado e poeta
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O silêncio de Shakespeare (Poesia)
O silêncio de Shakespeare
Não questione Shakespeare
pois no amor está o amar
não há que duvidar
Se do impossível desejo
nasceu em nome do amor
o ódio e o rancor
e com a morte prevalecer a honra
de um coração apaixonado
que não pôde ser ouvido
mesmo em tardes de verão
não resta senão reconhecer
que faltou a palavra
que faltou o verbo
que faltou o falar
pois até as intrigas da corte
silenciariam para ouvir
a voz do coração
Questiono Shakespeare
por que teu amor foi tragédia
se tanto amor
se tanto desejar
se tanto ardor
poderia ser somente amor?
Rangel Alves da Costa
Não questione Shakespeare
pois no amor está o amar
não há que duvidar
Se do impossível desejo
nasceu em nome do amor
o ódio e o rancor
e com a morte prevalecer a honra
de um coração apaixonado
que não pôde ser ouvido
mesmo em tardes de verão
não resta senão reconhecer
que faltou a palavra
que faltou o verbo
que faltou o falar
pois até as intrigas da corte
silenciariam para ouvir
a voz do coração
Questiono Shakespeare
por que teu amor foi tragédia
se tanto amor
se tanto desejar
se tanto ardor
poderia ser somente amor?
Rangel Alves da Costa
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 24
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 24
Rangel Alves da Costa*
Diante da surpresa do rapaz, as duas crianças se acercaram dele, Paulinho colocou a mão no seu ombro e falou:
- É que resolvemos fazer uma surpresa pra você. Achamos que ia gostar de ver o barracão que tanto trabalho deu a gente cheio de pessoas, e como você está vendo, parece que p número de visitantes é bem maior do que a gente esperava. Cuidamos tudo direitinho pra que você não percebesse, mesmo quando a gente estava aqui ajudando aquela pobre família durante a semana. Tudo já estava certo. O Padre Josefo queria falar mas nós impedimos. Os outros meninos se encarregaram de avisar às pessoas, enquanto eu e Maria viemos mais cedo pra organizar o barracão, mas parece que todos já chegaram também, pois já estou enxergando alguns por ali. Se quiser pode ficar um pouco mais por aqui, mas nós temos que ir lá verificar como andam as coisas no barracão enquanto o Padre Josefo não chega – Após dizer isso, chamou Maria e se prepararam para sair, quando foram chamados por Lucas:
- Venham aqui seus danadinhos. Não precisavam fazer uma surpresa tão grande não, mas que surpresa encantadora. Só vocês mesmo e antecipo que já estou muito grato por isso tudo, viu? Isso demonstra o quanto estão interessados pela obra de vocês e a responsabilidade que passaram a ter para que tudo desse certo. Muito obrigado mesmo meus filhos. Agora vamos lá ver o que tem a fazer para que tudo dê certinho. Vamos... – E saíram em direção ao barracão.
Assim que o padre chegou num seu veículo caminhante tudo já estava organizado, porém com um pequeno problema ainda a ser solucionado. Com efeito, diante do número de pessoas que se aglomeravam ao redor – pessoas até mesmo estranhas na cidade, turistas ou viajantes, talvez – certamente que a missa não deveria ser realizada no barracão. Somente sendo três vezes maior para caber o número de fiéis ali presentes. De qualquer modo, a palavra final caberia ao sacerdote.
Quando desceu do veículo, que parecia já abrir a porta por conta própria, o homem da igreja ficou com os olhos brilhando de alegria. Contudo, intimamente demonstrava uma preocupação: a igreja não recebe tantos fiéis quanto os que estão aqui. Por quê?. Diante de tanta gente anunciou logo que o encontro pastoral seria realizado ali fora mesmo, diante e no meio da natureza, como uma forma de se aproximarem ainda mais de Deus. Falou sobre encontro pastoral e não de missa, demonstrando claramente que não queria que chegasse aos ouvidos da diocese que estava mudando de lugar o altar e o púlpito da igreja. Se soubessem disso seria repreendido, com certeza.
Desse modo, após rápidos preparativos e muito corre-corre dos meninos e de Lucas, diante de uma mesa rústica, bem diante da porta do barracão, o Padre Josefo começou a pregar. Inicialmente disse que não havia nenhuma pretensão em que considerassem aquilo como uma missa, pois não passava de um encontro onde um servo de Deus procuraria repassar ensinamentos ao seu rebanho. E acentuou bem que havia decidido proferir um sermão sobre a importância da ajuda do povo aos mais necessitados, tendo por base a grande generosidade de Deus perante todos. Então, o exemplo divino deveria recair nas mentes daquelas pessoas para que seguissem o caminho da generosidade para com o próximo, principalmente os afligidos pelas forças das circunstâncias.
Como introdução, falou sobre a família que naquela semana havia pernoitado naquele barracão, as circunstâncias pelas quais chegaram ali e a importância da ajuda do povo também pobre para que seguissem seu destino. Após isso, reverenciando sempre e colhendo das palavras contidas na bíblia, citou passagens de diversos livros e evangelistas, e tudo como forma de expressar a ideia da importância de servir aos mais necessitados. E assim falou:
"O dinheiro não é tudo na vida, como está em Provérbios, dizendo que há quem se faça rico, não tendo coisa alguma; e quem se faça pobre, tendo grande riqueza. O resgate da vida do homem são as suas riquezas; mas o pobre não tem meio de se resgatar.
Deus, meus irmãos, não se omitiu em honrar os pobres. Neste sentido é a lição extraída do livro de Tiago: Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?
Verdade é que Deus não esquece quem ajuda os pobres, pois está escrito: Bem-aventurado é aquele que considera o pobre; o Senhor o livrará no dia do mal. O que oprime ao pobre insulta ao seu Criador; mas honra-o aquele que se compadece do necessitado.
Em Isaías está bem claro meus irmãos: Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desamparados? que vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará. e a tua justiça irá adiante de ti; e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; e se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia. O Senhor te guiará continuamente, e te fartará até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca falham.
Em Lucas enxergamos a preferência de Deus pelos pobres: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
Por fim, que tenhamos em mente o que consta em Coríntios: O que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância em abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. E Deus é poderoso para tornar abundante em vós toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda suficiência, superabundeis em toda boa obra, conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá a semente ao que semeia e pão para comer também multiplicará a vossa sementeira e aumentará os frutos da vossa justiça; para que em tudo enriqueçais para toda a beneficência, a qual faz que por nós se dêem graças a Deus".
Neste sentido tomou percurso o sermão do Padre Josefo, e ao final de suas palavras muitos que estavam por ali choravam por fora ou se penitenciavam por dentro.
continua...
Advogado e poeta
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Rangel Alves da Costa*
Diante da surpresa do rapaz, as duas crianças se acercaram dele, Paulinho colocou a mão no seu ombro e falou:
- É que resolvemos fazer uma surpresa pra você. Achamos que ia gostar de ver o barracão que tanto trabalho deu a gente cheio de pessoas, e como você está vendo, parece que p número de visitantes é bem maior do que a gente esperava. Cuidamos tudo direitinho pra que você não percebesse, mesmo quando a gente estava aqui ajudando aquela pobre família durante a semana. Tudo já estava certo. O Padre Josefo queria falar mas nós impedimos. Os outros meninos se encarregaram de avisar às pessoas, enquanto eu e Maria viemos mais cedo pra organizar o barracão, mas parece que todos já chegaram também, pois já estou enxergando alguns por ali. Se quiser pode ficar um pouco mais por aqui, mas nós temos que ir lá verificar como andam as coisas no barracão enquanto o Padre Josefo não chega – Após dizer isso, chamou Maria e se prepararam para sair, quando foram chamados por Lucas:
- Venham aqui seus danadinhos. Não precisavam fazer uma surpresa tão grande não, mas que surpresa encantadora. Só vocês mesmo e antecipo que já estou muito grato por isso tudo, viu? Isso demonstra o quanto estão interessados pela obra de vocês e a responsabilidade que passaram a ter para que tudo desse certo. Muito obrigado mesmo meus filhos. Agora vamos lá ver o que tem a fazer para que tudo dê certinho. Vamos... – E saíram em direção ao barracão.
Assim que o padre chegou num seu veículo caminhante tudo já estava organizado, porém com um pequeno problema ainda a ser solucionado. Com efeito, diante do número de pessoas que se aglomeravam ao redor – pessoas até mesmo estranhas na cidade, turistas ou viajantes, talvez – certamente que a missa não deveria ser realizada no barracão. Somente sendo três vezes maior para caber o número de fiéis ali presentes. De qualquer modo, a palavra final caberia ao sacerdote.
Quando desceu do veículo, que parecia já abrir a porta por conta própria, o homem da igreja ficou com os olhos brilhando de alegria. Contudo, intimamente demonstrava uma preocupação: a igreja não recebe tantos fiéis quanto os que estão aqui. Por quê?. Diante de tanta gente anunciou logo que o encontro pastoral seria realizado ali fora mesmo, diante e no meio da natureza, como uma forma de se aproximarem ainda mais de Deus. Falou sobre encontro pastoral e não de missa, demonstrando claramente que não queria que chegasse aos ouvidos da diocese que estava mudando de lugar o altar e o púlpito da igreja. Se soubessem disso seria repreendido, com certeza.
Desse modo, após rápidos preparativos e muito corre-corre dos meninos e de Lucas, diante de uma mesa rústica, bem diante da porta do barracão, o Padre Josefo começou a pregar. Inicialmente disse que não havia nenhuma pretensão em que considerassem aquilo como uma missa, pois não passava de um encontro onde um servo de Deus procuraria repassar ensinamentos ao seu rebanho. E acentuou bem que havia decidido proferir um sermão sobre a importância da ajuda do povo aos mais necessitados, tendo por base a grande generosidade de Deus perante todos. Então, o exemplo divino deveria recair nas mentes daquelas pessoas para que seguissem o caminho da generosidade para com o próximo, principalmente os afligidos pelas forças das circunstâncias.
Como introdução, falou sobre a família que naquela semana havia pernoitado naquele barracão, as circunstâncias pelas quais chegaram ali e a importância da ajuda do povo também pobre para que seguissem seu destino. Após isso, reverenciando sempre e colhendo das palavras contidas na bíblia, citou passagens de diversos livros e evangelistas, e tudo como forma de expressar a ideia da importância de servir aos mais necessitados. E assim falou:
"O dinheiro não é tudo na vida, como está em Provérbios, dizendo que há quem se faça rico, não tendo coisa alguma; e quem se faça pobre, tendo grande riqueza. O resgate da vida do homem são as suas riquezas; mas o pobre não tem meio de se resgatar.
Deus, meus irmãos, não se omitiu em honrar os pobres. Neste sentido é a lição extraída do livro de Tiago: Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?
Verdade é que Deus não esquece quem ajuda os pobres, pois está escrito: Bem-aventurado é aquele que considera o pobre; o Senhor o livrará no dia do mal. O que oprime ao pobre insulta ao seu Criador; mas honra-o aquele que se compadece do necessitado.
Em Isaías está bem claro meus irmãos: Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desamparados? que vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará. e a tua justiça irá adiante de ti; e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; e se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia. O Senhor te guiará continuamente, e te fartará até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca falham.
Em Lucas enxergamos a preferência de Deus pelos pobres: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
Por fim, que tenhamos em mente o que consta em Coríntios: O que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância em abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. E Deus é poderoso para tornar abundante em vós toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda suficiência, superabundeis em toda boa obra, conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá a semente ao que semeia e pão para comer também multiplicará a vossa sementeira e aumentará os frutos da vossa justiça; para que em tudo enriqueçais para toda a beneficência, a qual faz que por nós se dêem graças a Deus".
Neste sentido tomou percurso o sermão do Padre Josefo, e ao final de suas palavras muitos que estavam por ali choravam por fora ou se penitenciavam por dentro.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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terça-feira, 22 de junho de 2010
Poema da Humildade (Poesia)
Poema da Humildade
Porque dizes que o mundo é teu
então vá e colha um coração
pois perdeste o sentimento por aí
E porque dizes que o mundo é teu
então corra e semeie a vida
porque a tua não é viver
E porque dizes que o mundo é teu
então apressaste para o encontro
pois a solidão te persegue
E porque dizes que o mundo é teu
então mostrai o que não tens
pois verá que te falta muito
E porque dizes que o mundo é teu
então usufrua desse todo ter
pois me alegra ter somente a Deus.
Rangel Alves da Costa
Porque dizes que o mundo é teu
então vá e colha um coração
pois perdeste o sentimento por aí
E porque dizes que o mundo é teu
então corra e semeie a vida
porque a tua não é viver
E porque dizes que o mundo é teu
então apressaste para o encontro
pois a solidão te persegue
E porque dizes que o mundo é teu
então mostrai o que não tens
pois verá que te falta muito
E porque dizes que o mundo é teu
então usufrua desse todo ter
pois me alegra ter somente a Deus.
Rangel Alves da Costa
JULIETA E ROMEU (Conto)
JULIETA E ROMEU
Rangel Alves da Costa*
Há muitos anos atrás, naqueles idos onde as famílias portentosas enviavam os filhos para se formarem doutores na capital, quando as disputas políticas ditavam a vida nos sertões e inflamavam os sangues, os ódios e os rancores, e ainda quando os resquícios do coronelismo impunham o mando e o desmando sobre as pessoas e os cotidianos, existiam duas famílias no interior nordestino que, desafiando a lógica do seu tempo, resolveram se unir e tudo fazer para que os seus filhos levassem adiante um amor que parecia impossível. Ela se chamava Julieta e ele Romeu.
Diz-se do amor impossível porque os dois se odiavam, nenhum queria saber do outro desde pequenininhos, quando as famílias se visitavam em lautos almoços, chás e confraternizações, única e exclusivamente para ver se naqueles dois corações infantis nascia a semente da afeição, do despertar para o amor.
Assim, quando uma família chegava na imponente residência senhorial da outra e os senhores começavam a digerir as falsidades, a lastrear mentiras e a buscar esconder a todo custo os ciúmes e os ódios existentes, as mães procuravam juntar na mesma sala ou no mesmo local de brincadeira as duas criancinhas lindas.
Faziam isso e ficavam de canto de olho torcendo para que os dois se aproximassem com sorrisos, trocassem palavras amigas, gesticulassem afavelmente. Mas não. O que se via era um esculhambando o outro, jogando objetos entre si, fazendo tudo para se afastar daquela companhia.
Certa vez Julieta jogou um jarro na cabeça de Romeu que a testa do menino ficou com um hematoma que deu muito trabalho para curar. Para não ficar para trás, na visita seguinte Romeu prendeu a ponta do vestido de Julieta numa linha e a amarrou no rabo de um gato. A menina ficou sem roupa e chorou por três dias. Foi um deus-nos-acuda.
Como já observado, as duas famílias forjavam convivência pacífica, respeito mútuo e amizade simplesmente porque tinham interesses comuns. Na verdade, não se suportavam. Desde as primeiras gerações que ali colocaram os pés que a discórdia pontuava nas relações. Problemas envolvendo terras, usurpações de ambos os lados, inimizade política e os mais abomináveis meios para se firmarem como os mais poderosos aos olhos dos outros, tudo isso fazia com que tanto os Nabuco quanto os Monteiro vivessem em pé de guerra ao longo dos anos.
Buscava-se agora transformar a inimizade em uma aproximação forçada simplesmente pelo interesse financeiro, objetivando somar heranças na união dos dois filhos únicos das duas linhagens mais ricas da região. Assim, faziam de um tudo para que os dois, unindo corpos e corações, unissem também as moedas, os latifúndios, os inúmeros bens.
Como tudo fizeram para que o amor entre os dois germinasse longo na infância e jamais conseguiram tal intento, vez que desde que mundo é mundo quem manda no amor é o coração e não a arrumação, quando os dois chegaram à idade de estudar na capital, a primeira preocupação que surgiu para as famílias foi encontrar um meio para que eles não se desencontrassem por completo.
Assim, providenciaram para que as casas dos parentes onde os dois passariam a morar na capital fossem na mesma rua, no mesmo trecho e quase lado a lado. E mais: colocaram os dois no mesmo colégio, contrataram amigos para influenciar no esperado romance e começaram a pagar bem pago aos colegas dos dois para que colocassem naquelas duas cabecinhas que um havia nascido para o outro. Eram jovens, bonitos, vindos do mesmo lugar, de famílias ricas e amigas, enfim, com um enredo na ponta da língua para tudo dar certo. Mas não tinha jeito que desse jeito.
Julieta passava por Romeu e nem um só bom dia dava. Todas as vezes que sabia que poderia encontrar com ele mudava de rumo; se ele viesse por uma calçada ela passava para o outro lado. Um dia um professor passou um trabalho em equipe e Romeu preferiu tirar nota zero a aceitar a presença dela no grupo. Certa vez, sem querer, se bateram de frente numa esquina e o quarteirão todinho parou para ver a esculhambação entre ambos.
No interior, as famílias ficavam sabendo dos entreveros e passavam a se sentir cada vez mais desanimadas. Era despesa demais para tentar unir um casal que parecia cada vez mais inimigo. Quanto mais gastavam mais ficavam sabendo do ódio cada vez maior entre os dois. Não tinham mais o que fazer, e um dia tiveram a triste ideia de usar a forma mais abjeta para forjar situações, que é a mentira.
Assim, pagaram a peso de ouro para que simulassem cartas, um mandando para o outro, pedindo perdão pelo comportamento desastrado, dizendo que por trás daquilo tudo havia um amor incontido e implorando que fizessem as pazes para que o coração pudesse agir por conta própria.
Foi pior, pois Julieta tocou fogo na carta e jogou bem em cima de Romeu, quase dando causa a um incêndio de gravíssimas proporções. Por seu lado, para revidar, ele fez espalhar pela escola que ela tinha um caso com um padre. Foram parar na delegacia e as famílias tiveram que viajar até à capital para resolver o problema.
Por conta própria, ele resolveu ir morar num bairro bem distante na capital. Disse que não suportava mais morar perto daquela víbora. Saiu daquele colégio e decidiu se matricular num bem desconhecido e distante. Ela fez o mesmo, mas sem saber onde era a nova residência dele, acabaram pertinho um do outro novamente. Assim, de repente se viram estudando no mesmo local novamente. No outro dia ele fez as malas e foi embora para outro estado. Era o único jeito, concluiu.
Vendo que os planos haviam ido por água abaixo, tanto a família Nabuco como a Monteiro começou a acusar uma à outra pelo fracasso, dizendo que o compromisso que tinham não havia dado certo porque uma estava traindo a outra às escondidas, sem se esforçar o suficiente para que os dois enfim namorassem.
Acabou com o pai de Julieta passando a culpa na cara do pai de Romeu, que não gostou nada daquilo e por muito pouco não saiu troca de tiros. Daí por diante se tornaram inimigos de fogo a sangue, com todos os membros das duas famílias se ameaçando. O sertão nordestino se transformou num terreno sangrento novamente e se alastrou nas cruentas disputas políticas entre os Nabuco e os Monteiro.
Passados alguns anos, já formados doutores, eis que Julieta e Romeu voltam ao local de nascimento para exercerem a profissão. Eram médicos e tinham que mostrar seus conhecimentos para os eleitores e garantir os votos que dessem prevalência à família nas disputas eleitorais.
Deter o poder político na região era uma honra que nenhuma família tencionava em perder. Mas os velhos já estavam alquebrados demais pelo tempo para suportarem uma disputa eleitoral de peso. E foi aí que Julieta e Romeu foram lançados como candidatos. Inimigos de morte que eram, a disputa prometia ser de uma violência sem precedentes.
Terminadas as eleições, Romeu venceu por um voto. Vendo Julieta tristonha, fez renascer em seu íntimo um gesto humanitário e foi falar com ela, pedir desculpas por todas as agressões proferidas na disputa e dizer da alegria em ter concorrido com uma pessoa tão inteligente quanto ela. Julieta olhou nos olhos dele, deu apenas um sorriso e saiu.
Vendo tal cena, os membros das duas famílias logo imaginaram que um estava dizendo desaforo ao outro e foi todo mundo se armar para a guerra. Quando todos acorreram para a praça dizendo os maiores impropérios com a outra família, ameaçando de morte e chamando para a briga. Eis que chega Romeu e diz:
- Me sacrifiquei o tempo inteiro porque nunca quis ouvir o meu coração; sacrifiquei-me agora porque quis fingir que continuava ainda sem ouvir o meu coração; e decidi não mais me sacrificar. Eu quero é paz e vocês parecem amar a guerra; eu tenho outro amor, e não este de querer matar o próximo. Fui eleito mas ainda não assumi o cargo nem assumirei. Na verdade, esta eleição quem venceu foi Julieta que não levantou a voz sequer para dizer que roubamos nas urnas. E nós roubamos nas urnas. Por isso mesmo essa vitória é dela, por direito e justiça...
E foi quando se ouviu Julieta falar:
- Mesmo assim aceito sua vitória, com a condição de que não finjamos mais e trabalhemos juntos em nome desse povo sofrido.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Há muitos anos atrás, naqueles idos onde as famílias portentosas enviavam os filhos para se formarem doutores na capital, quando as disputas políticas ditavam a vida nos sertões e inflamavam os sangues, os ódios e os rancores, e ainda quando os resquícios do coronelismo impunham o mando e o desmando sobre as pessoas e os cotidianos, existiam duas famílias no interior nordestino que, desafiando a lógica do seu tempo, resolveram se unir e tudo fazer para que os seus filhos levassem adiante um amor que parecia impossível. Ela se chamava Julieta e ele Romeu.
Diz-se do amor impossível porque os dois se odiavam, nenhum queria saber do outro desde pequenininhos, quando as famílias se visitavam em lautos almoços, chás e confraternizações, única e exclusivamente para ver se naqueles dois corações infantis nascia a semente da afeição, do despertar para o amor.
Assim, quando uma família chegava na imponente residência senhorial da outra e os senhores começavam a digerir as falsidades, a lastrear mentiras e a buscar esconder a todo custo os ciúmes e os ódios existentes, as mães procuravam juntar na mesma sala ou no mesmo local de brincadeira as duas criancinhas lindas.
Faziam isso e ficavam de canto de olho torcendo para que os dois se aproximassem com sorrisos, trocassem palavras amigas, gesticulassem afavelmente. Mas não. O que se via era um esculhambando o outro, jogando objetos entre si, fazendo tudo para se afastar daquela companhia.
Certa vez Julieta jogou um jarro na cabeça de Romeu que a testa do menino ficou com um hematoma que deu muito trabalho para curar. Para não ficar para trás, na visita seguinte Romeu prendeu a ponta do vestido de Julieta numa linha e a amarrou no rabo de um gato. A menina ficou sem roupa e chorou por três dias. Foi um deus-nos-acuda.
Como já observado, as duas famílias forjavam convivência pacífica, respeito mútuo e amizade simplesmente porque tinham interesses comuns. Na verdade, não se suportavam. Desde as primeiras gerações que ali colocaram os pés que a discórdia pontuava nas relações. Problemas envolvendo terras, usurpações de ambos os lados, inimizade política e os mais abomináveis meios para se firmarem como os mais poderosos aos olhos dos outros, tudo isso fazia com que tanto os Nabuco quanto os Monteiro vivessem em pé de guerra ao longo dos anos.
Buscava-se agora transformar a inimizade em uma aproximação forçada simplesmente pelo interesse financeiro, objetivando somar heranças na união dos dois filhos únicos das duas linhagens mais ricas da região. Assim, faziam de um tudo para que os dois, unindo corpos e corações, unissem também as moedas, os latifúndios, os inúmeros bens.
Como tudo fizeram para que o amor entre os dois germinasse longo na infância e jamais conseguiram tal intento, vez que desde que mundo é mundo quem manda no amor é o coração e não a arrumação, quando os dois chegaram à idade de estudar na capital, a primeira preocupação que surgiu para as famílias foi encontrar um meio para que eles não se desencontrassem por completo.
Assim, providenciaram para que as casas dos parentes onde os dois passariam a morar na capital fossem na mesma rua, no mesmo trecho e quase lado a lado. E mais: colocaram os dois no mesmo colégio, contrataram amigos para influenciar no esperado romance e começaram a pagar bem pago aos colegas dos dois para que colocassem naquelas duas cabecinhas que um havia nascido para o outro. Eram jovens, bonitos, vindos do mesmo lugar, de famílias ricas e amigas, enfim, com um enredo na ponta da língua para tudo dar certo. Mas não tinha jeito que desse jeito.
Julieta passava por Romeu e nem um só bom dia dava. Todas as vezes que sabia que poderia encontrar com ele mudava de rumo; se ele viesse por uma calçada ela passava para o outro lado. Um dia um professor passou um trabalho em equipe e Romeu preferiu tirar nota zero a aceitar a presença dela no grupo. Certa vez, sem querer, se bateram de frente numa esquina e o quarteirão todinho parou para ver a esculhambação entre ambos.
No interior, as famílias ficavam sabendo dos entreveros e passavam a se sentir cada vez mais desanimadas. Era despesa demais para tentar unir um casal que parecia cada vez mais inimigo. Quanto mais gastavam mais ficavam sabendo do ódio cada vez maior entre os dois. Não tinham mais o que fazer, e um dia tiveram a triste ideia de usar a forma mais abjeta para forjar situações, que é a mentira.
Assim, pagaram a peso de ouro para que simulassem cartas, um mandando para o outro, pedindo perdão pelo comportamento desastrado, dizendo que por trás daquilo tudo havia um amor incontido e implorando que fizessem as pazes para que o coração pudesse agir por conta própria.
Foi pior, pois Julieta tocou fogo na carta e jogou bem em cima de Romeu, quase dando causa a um incêndio de gravíssimas proporções. Por seu lado, para revidar, ele fez espalhar pela escola que ela tinha um caso com um padre. Foram parar na delegacia e as famílias tiveram que viajar até à capital para resolver o problema.
Por conta própria, ele resolveu ir morar num bairro bem distante na capital. Disse que não suportava mais morar perto daquela víbora. Saiu daquele colégio e decidiu se matricular num bem desconhecido e distante. Ela fez o mesmo, mas sem saber onde era a nova residência dele, acabaram pertinho um do outro novamente. Assim, de repente se viram estudando no mesmo local novamente. No outro dia ele fez as malas e foi embora para outro estado. Era o único jeito, concluiu.
Vendo que os planos haviam ido por água abaixo, tanto a família Nabuco como a Monteiro começou a acusar uma à outra pelo fracasso, dizendo que o compromisso que tinham não havia dado certo porque uma estava traindo a outra às escondidas, sem se esforçar o suficiente para que os dois enfim namorassem.
Acabou com o pai de Julieta passando a culpa na cara do pai de Romeu, que não gostou nada daquilo e por muito pouco não saiu troca de tiros. Daí por diante se tornaram inimigos de fogo a sangue, com todos os membros das duas famílias se ameaçando. O sertão nordestino se transformou num terreno sangrento novamente e se alastrou nas cruentas disputas políticas entre os Nabuco e os Monteiro.
Passados alguns anos, já formados doutores, eis que Julieta e Romeu voltam ao local de nascimento para exercerem a profissão. Eram médicos e tinham que mostrar seus conhecimentos para os eleitores e garantir os votos que dessem prevalência à família nas disputas eleitorais.
Deter o poder político na região era uma honra que nenhuma família tencionava em perder. Mas os velhos já estavam alquebrados demais pelo tempo para suportarem uma disputa eleitoral de peso. E foi aí que Julieta e Romeu foram lançados como candidatos. Inimigos de morte que eram, a disputa prometia ser de uma violência sem precedentes.
Terminadas as eleições, Romeu venceu por um voto. Vendo Julieta tristonha, fez renascer em seu íntimo um gesto humanitário e foi falar com ela, pedir desculpas por todas as agressões proferidas na disputa e dizer da alegria em ter concorrido com uma pessoa tão inteligente quanto ela. Julieta olhou nos olhos dele, deu apenas um sorriso e saiu.
Vendo tal cena, os membros das duas famílias logo imaginaram que um estava dizendo desaforo ao outro e foi todo mundo se armar para a guerra. Quando todos acorreram para a praça dizendo os maiores impropérios com a outra família, ameaçando de morte e chamando para a briga. Eis que chega Romeu e diz:
- Me sacrifiquei o tempo inteiro porque nunca quis ouvir o meu coração; sacrifiquei-me agora porque quis fingir que continuava ainda sem ouvir o meu coração; e decidi não mais me sacrificar. Eu quero é paz e vocês parecem amar a guerra; eu tenho outro amor, e não este de querer matar o próximo. Fui eleito mas ainda não assumi o cargo nem assumirei. Na verdade, esta eleição quem venceu foi Julieta que não levantou a voz sequer para dizer que roubamos nas urnas. E nós roubamos nas urnas. Por isso mesmo essa vitória é dela, por direito e justiça...
E foi quando se ouviu Julieta falar:
- Mesmo assim aceito sua vitória, com a condição de que não finjamos mais e trabalhemos juntos em nome desse povo sofrido.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 23
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 23
Rangel Alves da Costa*
Com um mês de inauguração, com as portas sempre abertas para quem quisesse visitá-lo ou fazer parte de sua comunidade, o barracão havia se tornado ponto de encontro certo para as mais diferentes pessoas a qualquer hora do dia.
Chegavam pessoas das redondezas, que passando próximo ao local resolviam ver o que era aquela novidade; uma animada e barulhenta criançada vinda de todos os lugares; mocinhas e rapazes que marcavam seus encontros por aquelas bandas; inúmeros curiosos e pessoas querendo saber como funcionava e como participar; professores e alunos da mesma escola onde Lucas ensinava e de outras escolas; pessoas desconhecidas no lugar, que paravam os seus veículos e desciam para ver o que era aquilo; outros que ficavam por muito tempo sentados ou passeando ao redor, como se tivessem perguntas a fazer; pessoas alegres e tristes, sorridentes e até com lágrimas nos olhos, todos, de uma forma ou de outra, marcavam presença ali. Até viram um dia quando a diretora da escola chegou escondidinha e ficou admirada com o que viu.
Por dois dias e duas noites serviu como moradia e cama para um casal de retirantes que passava por ali e pediu para descansar um pouco enquanto seguia viagem. Foram expulso da terra onde trabalhavam, disseram. Depois de sete anos se dedicando feito escravos na fazenda do rico fazendeiro, um dia que uma cobra mordeu e matou uma novilha o patrão jogou a culpa no pobre rapaz e deu duas horas para que saíssem dali, com direito somente a levar a criança de colo e a trouxa de panos.
Reclamou seus direitos, falou sobre aquele tempo todo se dedicando com unhas e dentes à propriedade, e o que ouviu do homem foi que se não saíssem por bem sairiam por mal. E mandou no mesmo instante que um dos capangas os acompanhasse até a porteira da fazenda. Foi esse capanga que deu uns tostões para que comprassem um pacote de biscoito. Por fim esse mesmo capanga chamou o desempregado num canto e disse que não dava mais porque não tinha. Viu lágrimas nos olhos desse homem, que acabou confidenciando que mais cedo ou mais tarde o seu destino seria aquele também, se saísse dali vivo.
Contaram essa mesma história a Lucas, que antes de poder ajudar no que fosse possível, ofereceu pernoite à pequena família no barracão. Entregou algum alimento e disse que providenciaria o dinheiro da passagem para seguirem adiante. Perguntou aonde iriam e ouviu que pra qualquer lugar, vez que até chegarem onde suas famílias moravam era muito longe, com muitas estradas e perigos. Disseram que os seus parentes viviam nos confins da Amazônia, lá pra cima do Xingu, nos escondidos do mundo.
Assim que passaram por ali e souberam de tal fato, os meninos marcaram uma reunião urgente para resolver como ajudar ao casal e o menininho. Juntaram todas as economias, foram pedir o auxílio do padre, e entregaram a Lucas para fazer a destinação correta. Este comprou alguns alimentos e o restante confiou nas mãos de Jugurta, o pai de família, e desejou que todos tivessem as bençãos de Deus onde fizessem parada e arranjassem emprego. Despediram-se chorando, implorando aos céus que aquele rapaz e aqueles meninos tivessem muita paz e saúde na vida. Silenciosos, Lucas e os meninos não sabiam se sorriam ou deixavam cair de vez as lágrimas escondidas.
No encontro do sábado seguinte, marcado para acontecer após as dez horas da manhã, o que Lucas percebeu foi que logo a partir das sete horas pessoas já estavam passeando por ali, vendo se o barracão estava aberto para entrar, trazendo banquinhos de madeira ou de plástico e até cestinhas com alimentos. Ora, pensou Lucas, o que faz aqui todas essas pessoas da cidade que nunca se dispuseram a passear por aqui, será que marcaram uma reunião por essas bandas, uma festinha, um piquenique ou coisa assim. Viu casais passeando, namorados namorando, amigos conversando, crianças brincando. E viu a diretora se escondendo por trás de uma moita para não ser vista. Estranho, muito estranho isso, ficou pensando.
Lucas observava tudo da janela de sua casa. Só sairia de lá quando os meninos chegassem e pudessem dizer alguma coisa sobre aquelas pessoas que se aglomeravam por ali. Somente elas poderiam dizer alguma coisa, vez que sabem de tudo do acontecido e do que vai acontecer. E Paulinho e Maria foram os primeiros a chegar, correndo logo pra dentro da casa do rapaz.
- Tá vendo Lucas, todas essas pessoas que estão aqui é porque o Padre Josefo vai celebrar uma missa dentro do barracão. Se lá dentro não couber as pessoas vai ser aqui fora mesmo, na natureza. Como se diz, uma missa campal... – Disse Paulinho com os olhos brilhando de satisfação.
- Missa... hoje... aqui?... – Lucas quase não fala e nem pergunta.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Rangel Alves da Costa*
Com um mês de inauguração, com as portas sempre abertas para quem quisesse visitá-lo ou fazer parte de sua comunidade, o barracão havia se tornado ponto de encontro certo para as mais diferentes pessoas a qualquer hora do dia.
Chegavam pessoas das redondezas, que passando próximo ao local resolviam ver o que era aquela novidade; uma animada e barulhenta criançada vinda de todos os lugares; mocinhas e rapazes que marcavam seus encontros por aquelas bandas; inúmeros curiosos e pessoas querendo saber como funcionava e como participar; professores e alunos da mesma escola onde Lucas ensinava e de outras escolas; pessoas desconhecidas no lugar, que paravam os seus veículos e desciam para ver o que era aquilo; outros que ficavam por muito tempo sentados ou passeando ao redor, como se tivessem perguntas a fazer; pessoas alegres e tristes, sorridentes e até com lágrimas nos olhos, todos, de uma forma ou de outra, marcavam presença ali. Até viram um dia quando a diretora da escola chegou escondidinha e ficou admirada com o que viu.
Por dois dias e duas noites serviu como moradia e cama para um casal de retirantes que passava por ali e pediu para descansar um pouco enquanto seguia viagem. Foram expulso da terra onde trabalhavam, disseram. Depois de sete anos se dedicando feito escravos na fazenda do rico fazendeiro, um dia que uma cobra mordeu e matou uma novilha o patrão jogou a culpa no pobre rapaz e deu duas horas para que saíssem dali, com direito somente a levar a criança de colo e a trouxa de panos.
Reclamou seus direitos, falou sobre aquele tempo todo se dedicando com unhas e dentes à propriedade, e o que ouviu do homem foi que se não saíssem por bem sairiam por mal. E mandou no mesmo instante que um dos capangas os acompanhasse até a porteira da fazenda. Foi esse capanga que deu uns tostões para que comprassem um pacote de biscoito. Por fim esse mesmo capanga chamou o desempregado num canto e disse que não dava mais porque não tinha. Viu lágrimas nos olhos desse homem, que acabou confidenciando que mais cedo ou mais tarde o seu destino seria aquele também, se saísse dali vivo.
Contaram essa mesma história a Lucas, que antes de poder ajudar no que fosse possível, ofereceu pernoite à pequena família no barracão. Entregou algum alimento e disse que providenciaria o dinheiro da passagem para seguirem adiante. Perguntou aonde iriam e ouviu que pra qualquer lugar, vez que até chegarem onde suas famílias moravam era muito longe, com muitas estradas e perigos. Disseram que os seus parentes viviam nos confins da Amazônia, lá pra cima do Xingu, nos escondidos do mundo.
Assim que passaram por ali e souberam de tal fato, os meninos marcaram uma reunião urgente para resolver como ajudar ao casal e o menininho. Juntaram todas as economias, foram pedir o auxílio do padre, e entregaram a Lucas para fazer a destinação correta. Este comprou alguns alimentos e o restante confiou nas mãos de Jugurta, o pai de família, e desejou que todos tivessem as bençãos de Deus onde fizessem parada e arranjassem emprego. Despediram-se chorando, implorando aos céus que aquele rapaz e aqueles meninos tivessem muita paz e saúde na vida. Silenciosos, Lucas e os meninos não sabiam se sorriam ou deixavam cair de vez as lágrimas escondidas.
No encontro do sábado seguinte, marcado para acontecer após as dez horas da manhã, o que Lucas percebeu foi que logo a partir das sete horas pessoas já estavam passeando por ali, vendo se o barracão estava aberto para entrar, trazendo banquinhos de madeira ou de plástico e até cestinhas com alimentos. Ora, pensou Lucas, o que faz aqui todas essas pessoas da cidade que nunca se dispuseram a passear por aqui, será que marcaram uma reunião por essas bandas, uma festinha, um piquenique ou coisa assim. Viu casais passeando, namorados namorando, amigos conversando, crianças brincando. E viu a diretora se escondendo por trás de uma moita para não ser vista. Estranho, muito estranho isso, ficou pensando.
Lucas observava tudo da janela de sua casa. Só sairia de lá quando os meninos chegassem e pudessem dizer alguma coisa sobre aquelas pessoas que se aglomeravam por ali. Somente elas poderiam dizer alguma coisa, vez que sabem de tudo do acontecido e do que vai acontecer. E Paulinho e Maria foram os primeiros a chegar, correndo logo pra dentro da casa do rapaz.
- Tá vendo Lucas, todas essas pessoas que estão aqui é porque o Padre Josefo vai celebrar uma missa dentro do barracão. Se lá dentro não couber as pessoas vai ser aqui fora mesmo, na natureza. Como se diz, uma missa campal... – Disse Paulinho com os olhos brilhando de satisfação.
- Missa... hoje... aqui?... – Lucas quase não fala e nem pergunta.
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