SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 28 de junho de 2010

VENTO NORTE VAI PRO SUL (Crônica)

VENTO NORTE VAI PRO SUL

Rangel Alves da Costa*


Dizem que o vento norte, num dia de muita angústia e solidão, resolveu que na tarde do dia seguinte seria o último entardecer que sopraria por ali. Estava muito triste por ser sempre incompreendido, acusado de causar transtornos pelos quais não tinha culpa sozinho, visto como malfeitor e até abusado demais quando soprava e levantava as saias e os vestidos das meninas. Muitas famílias chegavam ao disparate de fechar as portas e janelas quando ele estava por ali passeando.
Por diversas vezes foi destratado quando chegava, ouvindo bem na sua corrente que não passava de sopro de calor e de agonia no corpo das pessoas. Chamavam de calor dos diabos, de insuportável onda de coisa ruim. Ora, mas quem já se viu vento ser chamado de calor?. Se perguntava indignado. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é vento. Procurava somente soprar, procurava fazer seu trabalho, cumprir as ordens superiores advindas de Eolo, que é o deus dos ventos, mas mesmo assim sempre negligenciaram sua importância no ciclo climático e na vida do lugar.
Quantas pessoas, principalmente as mais idosas, não estavam acostumadas com sua presença e até esperavam sentadas nas suas cadeiras de balanço ao entardecer, todas alegres e satisfeitas, misturando o calorzinho soprado com os olhares na vida alheia? Quantas lavadeiras usavam de seus préstimos quando estendiam suas roupas nos varais? Quantos marmanjos preguiçosos diziam que não iam plantar porque o vento soprando quente daquele jeito era sinal de chuva demais caindo na terra? Quantas mocinhas vestiam propositadamente sainhas de dois dedos e iam passear só para sentirem a safadeza do vento levantando tudo? Os molecotes eram todos amigos do vento norte.
Aqueles que faziam suas besteiras, suas armações amorosas e seus negócios feios, e não queriam assumir por medo ou por vergonha, não botavam a culpa em outra pessoa ou coisa, mas sempre no vento norte. Além de mal visto, era culpado por tudo de mais infame que acontecia. Certa feita foi acusado de engravidar Joaninha das Flores, uma solteirona com os seus trinta e tantos anos, que vivia na janela vendendo ramalhetes e esperando homem passar.
Segundo ela, um dia o bonitão do Totonho passou e avisou que uma flor havia caído do lado de fora da janela, e quando ela deu a volta e se abaixou para apanhá-la, e como tinha esquecido que estava desprevenida – sem a roupa de baixo –, o vento veio por trás e não deu outra. Ela só lembra daquela coisa quente subindo por suas partes, e pronto. Diz que desmaiou. Meses depois nasceu um menino que, não se sabe porque, mas às escondidas chamam de Totoinho Ventania.
Por essas e outras, era acusado de safado, de insuportável calor, de causar todos os tipos de transtornos na vidas pessoas. Nessas condições, era melhor ir embora. Ao menos ia ver se conseguia ser útil soprando algum moinho pelas estradas da vida. Isso se conseguisse, pois passaram até mesmo a dizer que vento norte não move moinho. Que absurdo!
Lembra com saudade dos tempos em que teve um romance meio maluco com a ventania. Foi tanta paixão que quase enlouquece. Ao entardecer, quando o sol já estava arrumando a mochila, ele ficava soprando em ziguezague, indo pra cima e pra baixo sem saber o que fazer, diante da vontade que a ventania chegasse logo. E de repente ela vinha passando por cima de tudo, soprando com ferocidade, levando perucas pelo ar e deixando muitas matronas só de espartilho. Ao encontrar seu amado, faziam um redemoinho abraçados que destruía o que estivesse por perto. Mas sabia que aquilo não ia dar certo. A ventania amava muito apressadamente e sempre dava uma desculpa para ir logo embora. Depois ficou sabendo que ela tinha um caso mais adiante com o vendaval. Ficou tão triste que pensou em se jogar do ar.
Mas agora estava decidido. Iria partir e não tinha jeito. Estava somente esperando a brisa chegar para deixar um recado e depois pegar um pegar de vento e rumar para o sul. Dizem que vento norte vive bem no sul, pois ali o vento é muito fresco e ele sempre se dá bem. Quer dizer, rola outro clima e coisa e tal.




Advogado e poeta
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Palavras de amor (Poesia)

Palavras de amor


Palavras de amor
quem sabe pronunciá-las
quem sabe identificá-las
quais serão as palavras de amor?

Um dia ouvi
da boca da minha amada
que o amanhã era nosso
e me senti muito amado
outro dia e noutro
ainda do meu amor ouvi
que teríamos a eternidade
e imaginei amado para sempre
alguém que amava muito
disse que o outro é essência
e esse disse ao outro
que é a feliz existência
outros e outros disseram
todas as palavras de amor
que seu amor é tudo e mais
que é aquilo que satisfaz
e todos com sua razão
mesmo que não entendam
a pronúncia silenciosa do coração.



Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 29

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 29

Rangel Alves da Costa*


Lucas passou a manhã inteirinha consertando os estragos. Sozinho, remexendo de um lado para o outro com uma maleta de ferramentas, puxando paus e movendo folhas e outros objetos, conseguiu aos poucos colocar tudo em ordem novamente. Teve que trocar muita coisa, mas era assim mesmo. Achou melhor ter sido assim, sem que ninguém tivesse aparecido por ali para fazer perguntas.
Não gostaria que os meninos ficassem sabendo do incidente, ao menos por enquanto. Com o Padre Josefo falaria mais tarde, quando fosse ao centro da cidade. Iria resolver logo os problemas criados pela prefeitura e pela delegacia. Talvez fosse até bom prestar uma queixa sobre o ocorrido, mas pensaria nisso depois. Sabia que existem coisas que é melhor relevar do que deixar rendendo, criando até mais problemas. Se ao menos soubesse nomes, tivesse visto quem fez aquilo, se as pistas deixadas fossem esclarecedoras. Mas não, apenas os estragos consumados e os avisos deixados. Estes guardariam sim, pois talvez tivessem grande utilidade mais tarde.
Assim, com tudo no seu lugar novamente, Lucas comeu qualquer coisa, descansou um pouco e depois rumou para o centro da cidade. Primeiro passou na delegacia, onde foi bem recebido pela autoridade policial que disse nem estar lembrado mais daquela intimação e que aquilo ali havia sido apenas um procedimento de praxe para evitar que as pessoas deixem de avisar à polícia todas as vezes que forem reunir grande número de pessoas. Sabendo com antecedência, alguns policiais são enviados para evitar tumultos.
Contudo, perguntou se ele tinha algum inimigo ou recebido alguma ameaça recentemente, vez que chegaram a procurar a delegacia para prestar um boletim de ocorrência dizendo que o barracão poderia colocar em risco a vida de pessoas que porventura estivessem dentro dele. Porém, como a delegacia não era competente para averiguar a segurança estrutural de nenhuma obra, deixou de receber a queixa. Neste ponto, Lucas perguntou quem teria sido, mas lhe foi respondido que o nome ou nomes não poderiam ser citados.
Seria o momento oportuno para falar sobre o ocorrido na madrugada, para prestar a queixa sobre a invasão e destruição e pedir providências. Contudo, resolveu silenciar e se dar por satisfeito na sua passagem ali pela delegacia. E assim que saiu de lá foi diretamente até a prefeitura resolver a questão sobre o licenciamento da obra. Obra, que obra? Grande construção aquela onde vândalos chegam e sem maiores esforços destroem o que querem. Caminhava se perguntando e imaginando.
Ao chegar à sede da prefeitura, nem bem entrou direito para perguntar onde era o setor competente para ser atendido e logo apareceu um almofadinha dizendo que o senhor prefeito desejava muito recebê-lo, e que por favor o acompanhasse. E assim, cercado por mil cordialidades, águas e cafezinhos, foi conduzido até o gabinete da autoridade municipal, o senhor prefeito, que o estava esperando de pé, com um sorriso novelesco e braços abertos parecendo que estava recebendo um velho amigo.
Mas o que é mesmo que está havendo por aqui, se perguntava Lucas. Quantas vezes já tentei falar com esse homem e nunca fui recebido? Quantos ofícios já encaminhei para a prefeitura pedindo apoio para o desenvolvimento de projetos com os alunos e nunca enviaram uma só resposta? E por que agora essa consideração toda? Ficava se perguntando ao mesmo tempo em que começava a se enojar com aquela encenação toda, com aquela falsidade explícita e com o aquele jogo de interesses em desenvolvimento. Foi-lhe puxada uma cadeira e sentou, e começou a ouvir do "grande amigo senhor prefeito":
- Mas que bom tê-lo por aqui meu bom rapaz. Lucas, o seu nome é Lucas não é mesmo? Mas como eu poderia esquecer de um nome tão importante no nosso município, de um amigo fiel, de uma pessoa tão preocupada com as melhores ações sociais, de um amigo que nos pode ser tão útil... – Dizia o prefeito entusiasticamente, tecendo considerações imaginárias sobre ele, quando foi interrompido por este:
- Útil em que senhor prefeito, poderia ser mais claro?
- Ora, meu amigo, os amigos são sempre úteis. E você tem demonstrado que é mais do que um amigo para o prefeito, pois sua obra prodigiosa comprova que na verdade é um grande amigo do município. Sendo amigo do município, das crianças do município, da educação e aprendizagem de todos do município, me é muito útil também...
- Por favor, senhor prefeito, queira ser mais claro, mais objetivo – Insistia Lucas.
- Vou logo ao ponto. É que as eleições se aproximam e pessoas como você pode nos ajudar muito. Sabe como é. Você lida com o povo, com muita gente, construiu aquela obra maravilhosa lá no seu terreninho, coisa que deverá crescer muito mais, e assim é o que podemos chamar de um cabo eleitoral dos bons, daqueles que... – Pareceu não gostar muito, mas foi interrompido por Lucas:
- Desculpe senhor prefeito, mas essa utilidade me deixa muito honrado. Acredito vivamente que uma das maiores honras e virtudes de um homem é servir de capacho, de cabide para as pretensões eleitorais dos outros, nessa realidade vil e nojenta que é a política, e na qual estão inseridos os políticos...
Foi interrompido abruptamente pelo prefeito, que se sentindo desconfortável pediu urgentemente um gole de qualquer coisa. Preferia de uísque.


continua...




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domingo, 27 de junho de 2010

Dia (Poesia)

Dia


Dia amarelo
sem sol ter saído
dia nublado
sem chuvisco caído
dia sem tarde
com manhã já ter ido
dia sem horas
nesse tempo sumido
dia sem grito
no espanto contido
dia sem dia
pelo dia traído
dia sem amanhã
pelo ontem destruído
dia mais triste
sem que eu tenha vivido
dia que vivo
com medo de ter morrido.


Rangel Alves da Costa

MAIS QUE PALAVRAS (Crônica)

MAIS QUE PALAVRAS

Rangel Alves da Costa*


Do livro da vida, as lições e os exemplos só faltam implorar para serem lidos ou seguidos. Em qualquer situação ou circunstância que o homem se encontre, certamente numa página qualquer desse livro estará seu norte e caminho.
Como ensinamento não há livro mais perfeito do que a Bíblia. Nela estão as graças e as virtudes que devem ser observadas pelo homem fiel aos mandamentos do seu Deus. Contudo, mesmo nas frases soltas, nos pequenos esboços e nas folhas perdidas, haverá sempre lições a serem seguidas. Tudo ensina, tudo pode ser uma grande lição numa frase mesmo despretensiosa. Daí os ditados, os provérbios, as máximas e os dizeres de um povo que são repassados de geração a geração como virtuosa sabedoria. Basta ler, ouvir e procurar entender.
De modo específico, algumas expressões latinas, pelo seu conteúdo implícito e muitas vezes sem uma eficiente tradução, nunca foram tão acessíveis e assimiladas pelo povo. Mas muito do seu conteúdo, como se verá, são verdadeiras pérolas, joias que encontramos e afirmamos que a reconhecemos de algum lugar, de alguma situação na vida. Senão vejamos:
Abyssus non tollit usum: Um abismo atrai outro. Um erro, um engano, ocasiona ou provoca outro. Daí que é preciso agir com muito cuidado e prudência, pois uma atitude errada nunca vem sozinha.
Acta est fabula: Elevar-se aos astros, ainda que com dificuldades. É preciso pensar alto para alcançar os grandes objetivos, mesmo que tudo pareça mais difícil do que as forças do momento.
Ad augusta per augusta: Consentânea da anterior expressão, significa que através das dificuldades é que se chega aos grandes resultados. Quer dizer, todos os grandes feitos exigem grandes sacrifícios.
Ad kalendas graecas: No dia de São Nunca, dia este que nunca chegará. Como se sabe, todos os dias do ano dão nomes aos santos da igreja católica, mas nunca existiu nenhum santo com o nome de São Nunca, daí que citar esse dia é afirmar que algo jamais existirá.
Ad perpetuam rei memoriam: Para perpetuar a lembrança de uma coisa, fato, acontecimento. Significa que os fatos marcantes devem ficar na memória para a eternidade.
Aequam memento rebus in arduis servare mentem: Lembra-te de manter o ânimo justo nos momentos mais difíceis. Conservar o ânimo e o encorajamento é fundamental para o enfrentamento dos momentos difíceis da vida.
Aere perenius: Mais durável que o bronze, eterno. Diz-se com relação aos grandes amores que nada pode destruir.
Alea jacta est: A sorte foi lançada. A decisão que foi tomada não pode voltar atrás. Agora não tem mais jeito, e o que se tem de fazer é contar com a ajuda da sorte, pois não se pode mais rever o que já foi decidido.
Alter ego: Outro eu. Pessoa de nossa absoluta confiança e amizade, que pode representar-nos em tudo. De tão conhecedora que é das razões que movem uma pessoa na sua tomada de decisões e atitudes, outra pessoa pode agir como se fosse a outra e em seu lugar.
Amantes, amentes: Os amantes são doidos. Os que estão sob um sentimento muito forte não raciocinam corretamente. Quer dizer que o amor em demasia tem o poder de enlouquecer as pessoas, que fazem todas as insanidades do mundo como se estivessem agindo dentro da normalidade.
Amicus Plato, amicus Socrates, sed magis amica veritas: Platão é amigo, é amigo Sócrates, mas a verdade é ainda mais amiga. Quer dizer: devemos preferir a verdade à amizade, ainda que seja de Platão ou de Sócrates.
Amor omnis vincit: O amor vence tudo. O verdadeiro amor tem o poder de vencer os maiores desafios.
Ars longa vita brevis: A arte é longa e a vida breve. Quer dizer que toda uma existência é ainda pouca, para o aperfeiçoamento de um artista segundo requer a própria arte.
Audaces fortuna juvest: A sorte ajuda os audazes. Os que são corajosos, intrépidos e arrojados contam com a ajuda da sorte nas suas ações.
Brevis esto et placebis: Sê breve e agradarás. Por que ficar repisando, em demoras, se podes dizer tudo em poucas palavras?
Cogito ergo sum: Princípio da filosofia de Decartes: Penso, logo existo. Significa que através do pensamento o indivíduo é capaz de encontrar a verdade sobre as coisas e sobe si mesmo. É o princípio fundamental da filosofia racionalista, que tem o uso da razão como pressuposto básico.
Contraria contrariis curantur: Contrários com contrários se curam. É o princípio básico da alopatia: deve-se dar o remédio que seja contrário, que produza efeitos contrários ao que produz a doença. Opõe-se ao princípio da homeopatia: similis similibus curantur: curam-se as doenças tomando remédios que produzem os mesmos efeitos produzidos pela enfermidade.
Cor unum et anima una: um só coração e uma só alma. Diz-se da perfeita harmonia entre as pessoas, fato cada vez mais difícil de acontecer. Até o momento da aceitação do outro diante do padre observa-se a ocorrência deste princípio. Depois...
Cuique suum: A cada um o que é seu, princípio básico da justiça.
De nihilo nihil fit: De nada, nada se faz. Não se pode esperar resultado algum daquilo que não existe, que não foi iniciado.
Docendo discimus: Ensinando, aprendemos.
Dum vita est, spes est: Enquanto há vida, há esperança.
Ego sum qui sum: Eu sou aquele que é por si mesmo, que não foi criado por outrem, Deus (Palavras ouvidas por Moisés no monte Sinai).
Errare humanum est: Errar é próprio do ser humano.
Fiat lux: Faça-se a luz! É do Gênesis, ao descrever a sequência da criação das coisas.
Fiat voluntas tua: Expressão de resignação em face de um sofrimento ao qual não se pode fugir. Faça-se a tua vontade!: Foram palavras de Cristo após orar e ver que morreria crucificado.
Homo homini lupus O homem é o lobo do homem. Quer dizer que o maior inimigo do homem é o próprio homem, contra si mesmo e o próximo.
Magnificat: Primeira palavra da resposta de Maria ao anjo que lhe anunciava que ela seria a mãe de Cristo: Magnificat anima mea Domino: a minha alma engrandece ao Senhor.
Memento homoquis es pulvis et in pulverem reverteris: Lembra-te, homem, de que és pó e em pó te hás de tornar.
Nascuntur poetas, fiunt oratores: os poetas nascem, os oradores se fazem.
Nihil novi sub sole: Palavras de Salomão: Não há nada de novo sob o sol.
Non omnis moriar: Não morrerei completamente. Procura passar a ideia de que o espírito sobreviverá.
Si vis pacem, para bellum: Se queres a paz, prepara a guerra. Quer dizer: para viver em paz, deve uma nação estar armada como se fosse entrar em guerra. Só o medo das armas da paz aos povos.
Tempus edax rerum: O tempo destrói as coisas. Frase de Ovídio.
Vulnerant omnes; ultima necat: Todas as horas ferem, mas a derradeira mata. Inscrição de velhos relógios da Europa.
Se mesmo assim ainda não encontrou a expressão latina que mais de perto expresse uma pequena lição de vida, que tome das palavras cotidianas e reflita que "homem é passarinho no ninho da natureza".




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EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 28

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 28

Rangel Alves da Costa*


Naquela noite, antes de adormecer profundamente ali mesmo na sala, aleatoriamente Lucas havia lido passagens da bíblia que falavam exatamente sobre ameaças e destruições, sobre o inimigo que chega querendo destruir, e em muitas daquelas palavras havia certamente que havia lido:
"Surgiram então, do pórtico superior que olha para o norte, seis homens trazendo cada um na mão o instrumento de destruição. Encontrava-se no meio deles um personagem vestido de linho, trazendo à cintura um tinteiro de escriba. Entraram para se colocar de pé ao lado do altar de bronze" (Ez 9,2).
"Quando os homens disserem: Paz e segurança!, então repentinamente lhes sobrevirá a destruição, como as dores à mulher grávida. E não escaparão" (I Tes 5,3).
"Há destruição e ruína nos seus caminhos" (Rom 3,16).
"O invasor agirá à sua vontade sem que ninguém possa enfrentá-lo. Deter-se-á no país que é a jóia da terra; e a destruição estará em suas mãos" (Dan 11,16).
"Tenho procurado entre eles alguém que construísse o muro e se detivesse sobre a brecha diante de mim, em favor da terra, a fim de prevenir a sua destruição, mas não encontrei ninguém" (Ez 22,30).
"Incendiaram o templo, destruíram os muros de Jerusalém, entregaram às chamas seus palácios e todos os tesouros foram lançados à destruição" (II Cr 36,19).
“Ele me livra de meus inimigos; sim, tu me exaltas sobre os que se levantam contra mim; tu me livras do homem violento" (Sal 18,48).
"(...) pois Deus não ameaça como os homens e não se deixa arrastar como eles à violência da cólera" (Jdt 8,15).
"Os que odeiam a minha vida, armam-me ciladas; os que me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de planejar traições" (Sal 37,13).
"(...) me fez conhecer que há um povo mal-intencionado, disperso entre os outros povos do mundo, de costumes contrários aos dos outros, que despreza continuamente as ordens dos reis, a ponto de ameaçar a concórdia que reina em nosso império" (Est 13,14)
"Aqueles que a queimaram e cortaram pereçam em vossa presença ameaçadora" (Sal 79,17).
"Não receeis as ameaças do pecador, porque sua glória chega à lama e aos vermes" (I Mac 2,62).
"Diante da profanação que ameaçava o templo, o povo se precipitava em multidão para fora das casas, a fim de se ajuntarem à prece comum" (II Mac 3,18).
"Sabendo disso, Judas mandou que o povo invocasse o Senhor, noite e dia, para que nessa circunstância, mais do que nunca, ele viesse em socorro daqueles que estavam ameaçados de perder a lei, a pátria e o templo" (II Mac 13,10).
"Reconhecido isso, ó rei, pela benevolência que testemunhas a todos, toma as medidas necessárias para a salvação de nosso país e de nossa raça ameaçada" (II Mac 14,9).
"Reformai, portanto, vossa vida e modo de agir, escutando a voz do Senhor, vosso Deus, a fim de que afaste de vós o mal de que vos ameaça" (Jer 26,13).
Estas e outras passagens bíblicas Lucas havia lido naquela noite, sem saber que mais tarde, lá fora, bem pertinho de sua casa, no barracão, um desconhecido ou desconhecidos, pessoas invasoras agindo como inimigos, e sabe-se lá seguindo quais ordens ou tendo quais motivações, chegaram de mansinho, na forma como agem os frios e traiçoeiros, e deixaram ali os primeiros sinais de que aquela construção estava incomodando, não haviam gostado daquela missa celebrada ali naquela manhã, não gostavam das pessoas que estavam à frente daquela rústica obra ou simplesmente quiseram amedrontar para deter avanços maiores e deixar algum recado maior suspenso no ar.
Com efeito, assim que madrugou e levantou espantado por haver adormecido na sala, Lucas abriu a porta e mesmo na pouca luz já existente pôde perceber que havia buracos num dos lados do barracão, pedaços de madeira e ripas estavam pelo chão e palhas espalhadas por toda parte. Ao se dirigir ao local encontrou as duas portas violadas, todos os bancos de madeiras de pernas para o ar, a mesinha com as quatro pernas quebradas e demais pertences do casarão totalmente revirados ou destruídos.
Pelas paredes estavam espetados alguns avisos: "Isso foi só começo", "Pensem bem no que estão fazendo", "Casa em pé, casa caída". Mas quem terá feito essa brincadeira de mau gosto? Ficou imaginando Lucas, enquanto procurava revirar os banquinhos. Depois saiu para fora e redondezas para ver se encontrava alguma pista, e nada. O inimigo continuava desconhecido.


continua...




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sábado, 26 de junho de 2010

DIÁRIOS DA SOLIDÃO (Crônica)

DIÁRIOS DA SOLIDÃO

Rangel Alves da Costa*


Deserto da Judéia, sexta-feira, num tempo muito distante: Fui enviado para este deserto pelo Espírito Santo onde, em meio ao frio e ao calor, ventanias e tempestades de areia, sendo constantemente tentado pelo inimigo que quer ver a todo custo onde estão as minhas fragilidades, estou em jejum já perto dos quarenta dias e quarenta noites e mesmo assim me sinto fortalecido de espírito. A solidão não me atrapalha nem entristece, pois nunca estamos sós em lugar algum, pois são muitas as presenças do desconhecido e do conhecido que não quer aparecer. Estou cumprindo o Plano de Deus, e isto já serve como maior conforto e alento, pois certamente ainda terei muitas obras a fazer pela vida, e todas em nome do Homem e para o homem.
Tsou, China, quinta-feira, 470 a. C.: Verdade é que a minha linhagem nobre e meus pais e os muitos irmãos, e sou o mais novo dentre todos, não conseguiram me segurar no berço familiar. Preferi, como sempre prefiro, vagar pelos reinos com meu jeito humildade de ser. Abdiquei de qualquer bem material para viver onde encontro abrigo e onde me doam algum tipo de alimento. Contudo, na minha fragilidade não pensem que não estou vendo as hostilidades com que os soberanos tratam os seus súditos e as práticas nefastas que humilham ainda mais os mais humildes. Busco, em tudo que faço, que seja garantido a cada um o direito de viver segundo seus pensamentos e em harmonia consigo mesmo, através dos princípios do ren (humanidade), li (cortesia), zhi (sabedoria), xin (integridade), zhing (fidelidade) e yi (honradez).
Bodh Gaya, Índia, quarta-feira, 576 a. C.: Desde os vinte e nove anos que me ausentei do conforto e da suntuosidade do palácio do meu pai, o rei Suddodhana, e agora, já com mais de trinta e cinco anos, suponho, que procurei refúgio embaixo dessa figueira onde vivo a meditar em busca de iluminação para encontrar respostas para as dores do mundo e ajudar as pessoas a encontrarem felicidade através das boas ações. Há muitos dias que uma cobra Naja me importuna, fazendo tentações em nome do mal, do mesmo modo surgem outras aparições buscando me enveredar por outros caminhos. Mas nesta solidão aprendi que toda iluminação é fruto da persistência. Persistirei até alcançar meus objetivos.
Caverna do Monte Hira, Meca, segunda-feira, ano 610: Estou com quarenta anos e já cansado das muitas viagens na minha vida de mercador. Os negócios enriquecem os bolsos, mas nenhuma fortuna faz chegar ao espírito. Aqui nessa caverna, na solidão dessa vastidão de montes, venho meditar sempre guiado por uma força superior que me faz crer que serei escolhido para uma longa e difícil missão, vez que serei desacreditado até mesmo pelo meu povo. Ontem me apareceu o Anjo Gabriel e trouxe consigo uma mensagem difícil de acreditar, dizendo que serei o último profeta enviado por Deus. As escolhas divinas não podem ser ignoradas, por isso mesmo estou disposto a cruzar os desertos cumprindo o que me foi confiado.
Nova Delhi, Índia, quarta-feira, 1915: Não faz muito tempo que regressei da África do Sul, onde em meio a tantas barbaridades impostas pelos colonizadores britânicos na região, consegui esforçar-me o que pude para defender os direitos dos hindus ali vivendo em total menosprezo. Já de volta à minha terra, vejo-me diante dos mesmos problemas e dos mesmos agressores. Minhas armas eles já conhecem, pois não passam do diálogo, da busca da pacificação através do entendimento, da luta pelo reconhecimento dos direitos com desprezo a qualquer forma de violência. Como leitura que me fortalece, tenho cotidianamente no amanhecer O Sermão da Montanha e o Baghavad-Gita, cujas palavras são como sopro de ânimo para continuar lutando pela total independência do meu povo. Viver como estranho na própria terra é como a solidão na alegria da família.
Igreja dos Capuchinhos, Aracaju, 26 de junho de 2007: Eis-me aqui, Senhor, humilde servo para dizer apenas que hoje, nesta noite, mesmo após ter feito durante o dia tudo aquilo que me agrada e agrada à minha, que é a Vossa Igreja, e tendo ouvido os aflitos, ajudado os carentes e celebrado a vossos ensinamentos, não sei bem porque mas me sinto triste e solitário. Eis que me vem uma criança pedinte e me pergunta o que fazer para falar com o Senhor. E respondi que isto somente seria possível através da oração, e foi quando ela me disse que sabia um jeito melhor de fazer isso. Então perguntei qual era e ela respondeu: Não sei se é assim, mas todas as vezes que peço alguma coisa e a pessoa me dá de bom coração, eu acho que o Senhor está me ouvindo.




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