SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 67

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 67

Rangel Alves da Costa*


Na concepção de Lucas, na sua firmeza de caráter e disciplina espiritual, ir embora dali devido às pressões e ameaças que vinha sofrendo era igual a reconhecer a vitória das forças do mal e a sua fragilidade para lutar e superar tudo aquilo. Por isso mesmo estava decidido a ficar até onde os seus dois pés pudessem ficar assentados em pé.
Tantas e tantas vezes já havia lido sobre as tentações sofridas pelo Senhor no deserto da Judéia, cercado pelas constantes inventivas do mal, sem que tivesse se submetido. Lições maiores não poderiam existir e qualquer um poderiam tê-las por exemplo e se fortalecer para lutar contra os inimigos. Estava lá escrito na Bíblia nos evangelhos de Mateus 4:1-11, Marcos 1:12 e 13 e Lucas 4:1-15, ele lembrava bem:
"Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães. Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares. Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás. Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo". Assim dizia Mateus.
"Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome. Disse-lhe então o demônio: Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão. Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus. O demônio levou-o em seguida a um alto monte e mostrou-lhe num só momento todos os reinos da terra, e disse-lhe: Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. Jesus disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a ele só servirás. O demônio levou-o ainda a Jerusalém, ao ponto mais alto do templo, e disse-lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra. Jesus disse: Foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião. Jesus então, cheio da força do Espírito, voltou para a Galiléia. E a sua fama divulgou-se por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas e era aclamado por todos". Assim dizia Lucas, o evangelista de cujo nome havia sido homenageado por sua mãe.
Assim, Lucas preferia ficar, lutar contra todas as forças do mal e vencer, tomado que estava pelo exemplo do Senhor no deserto de um dia e das forças do Espírito Santo no presente. Ali era sua Galiléia, e ali continuaria para cumprir sua missão aqui na terra, junto aos amigos e ao seu povo. Ao menos era isso que desejava.
Vendo infrutíferas as tentativas para mudar o pensamento do irmão, Lúcia resolveu incentivá-lo ainda mais perante os seus objetivos. Reuniu-se em festa com os meninos, pessoas da comunidade e ela mesma pediu para dar a primeira aula de alfabetização para os adultos. Os idosos não davam conta de si de tanto contentamento, querendo saber quando seria a próxima aula da professorinha. Os meninos afirmavam sempre que ficariam com muitas saudades se ela fosse logo embora para onde morava.
E não demorou muito e Lúcia teve que retornar com seu esposo para a cidade onde ele era um importante funcionário de uma grande empresa. Contudo, não sem antes este moço nascido ali mesmo mostrar todo o seu encantamento pelo trabalho desenvolvido pelo cunhado e pelos meninos. Assim, decidiu que no mês seguinte já estaria depositado no banco uma quantia suficiente para que construíssem um barracão bem maior, todo de alvenaria, cobertura segura e algumas divisões internas. Ele mesmo fez a planta. A única condição que impunha era que a construção fosse ao lado do barracão já existente, de modo a não impedir ou dificultar os trabalhos que já vinham sendo realizados.
Enquanto os visitantes estiveram por ali nada de ruim aconteceu, nenhuma ameaça e nenhum tipo de violência. Contudo, bastou que partissem e na mesma noite os tormentos recomeçaram.


continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MEU BEM, MEUS BENS

MEU BEM, MEUS BENS

Rangel Alves da Costa*


Dentre outras áreas do direito milito também no cível, mais comumente na seara do direito de família. Neste aspecto, me deparo todos os dias com divórcios, reconhecimentos de paternidade, pedidos de pensão alimentícia e execução de obrigações alimentares, separações, pedidos de guarda, retificações e uma série de outras questões afins.
Pois bem. O direito em si é ciência das mais envolventes, buscando fazer justiça diante de situações conflitantes. O conflito entre partes que litigam, que querem ver suas pretensões reconhecidas, parece ser o cerne da prestação jurisdicional. Assim, no conflito, a busca pela justiça; e na justiça o reconhecimento daquele que tem direito. Contudo, indaga-se: Qual o direito de agir que possui a justiça diante de duas pessoas que até ontem juraram eterno amor e hoje querelam como se fossem inimigos históricos?
Chegamos ao ponto. Todos os dias chegam esposos queixosos, revoltados, cheios de ódio e rancor, inicialmente dizendo que casaram – casados, e não apenas conviventes – há menos de dois meses, mas que não suportam mais a vida a dois, porque o outro é isso e aquilo, fez isso e aquilo, que não aguentam nem mais olhar em seu rosto, que é preciso que a justiça os separe sob pena de acontecer o pior.
E dizem mais: Quero saber se tenho direito de tirar da casa tudo aquilo que comprei, e que quero a sala, o sofá, a cozinha, as panelas, os demais móveis e o carro porque tudo saiu do meu bolso e o outro quando casou não tinha nada, não levou nada pra dentro de casa, nem comprou um alfinete sequer. E acrescenta que se for para pagar pensão alimentícia prefere largar o emprego no mesmo instante do que dar um centavo àquela vagabunda, imprestável, filha de raça ruim, preguiçosa e um montão de coisas muito mais difamatórias. E tudo isso tanto diz o homem quanto a mulher, um com relação ao outro.
Está certo, sou advogado, fui contratado e passo a agir para resolver o problema, inegavelmente tentando resguardar as pretensões do meu cliente. Entretanto, mesmo sendo causídico também sou pessoa, sou gente, também tenho problemas familiares, conheço o que é convivência a dois, tenho sentimentos e, portanto, também sofro não somente com minhas próprias situações, mas igualmente com a dos outros, seja cliente ou não. E sofro pelos dois, que jamais deveriam estar passando por situações tão difíceis.
Daí que, enquanto ser humano que não abdica de ver o outro muito mais como paciente do que cliente, nos intervalos da minha rotina de trabalho fico instantes a fio me perguntando: O que faz um amor que ontem foi declarado judicialmente e abençoado pelo padre, com beijos e as mais puras expressões de felicidades, de repente se transformar numa teia de discórdias? O amor é chama que apaga tão cedo ou tão facilmente, é raiz tão frágil que não suporta os ventos das negativas ocasionais da vida, é tão frágil que cai num segundo e levanta no outro instante com olhos fumegando de ódio? Por que ontem quase um não chamava o outro pelo nome, mas sim pela expressão "meu bem", e hoje o que se fala e o que se quer são "meus bens, meus bens?".
Por mais que eu procure encontrar respostas para tais fatos sinto-me impossibilitado de encontrar ao menos uma breve lição que seja satisfatória. Contudo, num longo esforço de poeta e de pessoa triste, ouso dizer, mais entristecido ainda, que as pessoas crescem, pensam que aprenderam a viver, decoraram o que é amor, mas não aprendem mais o que é amar.
Infelizmente é isto, pois nada justifica que o amor saia da esfera do coração para ser decidido nas barras dos tribunais. Todos perdem, mas principalmente a feição de pureza que tem esse sentimento maior do ser humano.




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Ninguém jamais... (Poesia)

Ninguém jamais...


Porque o sol e todos viram
o que eu queria e sentia
sem jamais negar teu nome
para ser reconhecido
no amor que em mim existia
como se não houvesse existido

ninguém jamais me verá
nem em sonhos nem em mim

ninguém jamais me verá
nem na lembrança nem no que sou

ninguém jamais me verá
nem como ontem nem como nunca

ninguém jamais me verá
nem ao longe nem à sombra

porque ninguém jamais me verá
porque ninguém jamais me viu
porque ninguém pode enxergar
aquilo que ninguém consentiu.


Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 66

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 66

Rangel Alves da Costa*


A casa humilde onde nascemos e crescemos é a mesma manjedoura aonde o filho dos tempos veio confirmar sua eternidade perante todos, ricos e pobres, descendentes dos mais dignos sangues da humildade ou das linhagens mais nobres, pois dela qualquer ser humano, igualmente, surge para o mundo com a mesma qualidade de filho de Deus. As diferenças surgem depois, quando cada um passa a saber o destino que dá aos presentes recebidos dos reis magos que primeiro lhe viu chorar. Nossos pais sempre merecem que cuidemos bem dos presentes que nos concederam com a vida. Mais tarde disse Lucas à irmã.
Refeita das emoções iniciais, Lúcia começou a se sentir como jamais houvesse tirado os pés dali um só instante. Descalça, jogada numa poltrona, tomou um aspecto mais sério quando começou a expor outros motivos daquela visita:
- Estou aqui principalmente para resolvermos logo esse problema da herança, que na verdade não é nem um problema, apenas um modo de passar logo tudo para o seu nome. Nossos pais morreram e por mais que queiramos preservar as coisas no estado que estão, a lei nos obriga a obriga a abrir inventário e fazer a partilha dos bens. Tenho pra mim que esse procedimento todo só tem lugar quando há herdeiros muito mais interessados em bens do que na história familiar, que verdadeiramente não é o nosso caso. Contudo, para tudo ser muito mais rápido e simplificado, já que somos maiores e sabemos muito bem o que temos, até mesmo contar a dedo o que nossos pais nos deixaram, basta que procuremos o cartório para resolver tudo. E, como você já sabe, aquilo que eu teria direito entrego a você de bom coração, para que daqui por diante isto aqui seja seu e possa dispor mais tarde como pretender. Pelo seu senso humanitário, demonstrado que está logo ali naquele barracão, e pela sua luta incansável em progredir, sei muito bem que fará a melhor destinação de tudo. Quem fala isso não é uma estranha não, mas uma irmã que lhe conhece muito bem... – Quando foi interrompida por Lucas:
- Sabes muito bem que mesmo em meu nome, tudo isso aqui será também sempre seu. Ademais, Lúcia, do modo que você fala é como se nós, de repente, não fôssemos nos ver mais ou coisa parecida... – E foi a vez da irmã interromper:
- É até bom que você diga isso, pois de qualquer modo tenho que lhe dizer também umas coisas que andam me preocupando muito...
- Mas ora, já deveria ter falado. O que está havendo? – E se aproximou mais da irmã.
-Tem gente que não acredita, que nem liga para essas coisas, mas ultimamente eu tenho sonhado muito com os nossos pais. Juro a você que parece muito mais que sonhos, pois é como se eles, cada um por sua vez, estivessem realmente na minha presença, ali ao lado da cama, para me dizer que olhe mais por você porque sua vida está cercada de grandes perigos, com pessoas lhe perseguindo e querendo destruir os seus passos e suas realizações. Chegaram até a dizer, chorando, que na sua idade jamais queriam que você fosse para onde eles estão, que é um lugar divinamente bom, porém somente para as pessoas que são chamadas na hora certa. Está me entendendo? Assim, Lucas, temem que nesses perigos que corre você se torne uma vítima inocente. Por outro lado, sabem também que você está muito bem protegido por forças divinas muito poderosas. Contudo, na terra onde estamos o que está visível é perigoso demais para que o invisível impeça de praticar o mal. Até porque o mal sempre vai existir para confrontar o bem. Por isso aquele pode vencer por instantes, mesmo sabendo que a vitória é passageira e se transformará logo em derrota ainda maior para o mal. O problema é saber até onde o ser humano suporta estar nesse campo de batalha, nessa guerra entre o bem e o mal. Está me entendendo, Lucas?
- Muito bem minha irmã, mas só quero dizer uma coisa com relação a isso. Gostaria que os nossos pais viessem ao menos em sonhos falar comigo dessa maneira como você está dizendo, pois fico muito sentido em você ter que suportar ser porta-voz dessa história toda. Mas talvez eles não cheguem até mim desse jeito porque tudo isso tem muito fundamento e não deixa de ser verdade as preocupações. Por isso mesmo vou relatar calmamente o que vem ocorrendo comigo ultimamente...
E contou em detalhes as perseguições, as propostas indecentes do prefeito, as ameaças, os atos violentos cometidos contra a casa e o barracão, mas também sobre as aparições do anjo e a presença desses seres de luz sempre ao seu lado.
Durante todo o relato a irmã mostrou-se profundamente entristecida e por diversas vezes lágrimas rolaram sobre o seu semblante. No seu íntimo, aumentava cada vez mais o amor pelo irmão, sentimento tão verdadeiro esse que a fez pronunciar:
- Por que não vende tudo e vai embora daqui?


continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 3 de agosto de 2010

RITUAL DE INICIAÇÃO NO AMOR (Crônica)

RITUAL DE INICIAÇÃO NO AMOR

Rangel Alves da Costa*


Antropólogos e sociólogos definem ritual de iniciação como sendo cerimônias que condicionam determinados indivíduos a uma nova situação de vida; ofícios ordenados onde determinados membros são introduzidos em um grupo social, geralmente por membros mais antigos, após o cumprimento de determinadas formalidades ritualísticas; todos os rituais e cerimônias que propiciam a passagem de uma pessoa para uma nova forma ou fase de vida ou um novo status social. Em síntese, são celebrações que iniciam os indivíduos perante novas responsabilidades na vida.
Segundo o estágio cultural das sociedades e a sua visão de mundo, o ritual de iniciação se presta a uma infinidade de objetivos: nascimento, adolescência, morte, casamento, hierarquia, poder, separação, e por aí vai. Com o ritual, pressupõe-se que os indivíduos adquirem as experiências dos outros, dos mais experientes, e a partir daí poderão conduzir seus destinos segundo as normas estabelecidas naquela sociedade.
Contudo, muitas vezes a autoiniciação, quando o próprio indivíduo se prepara para vivenciar novas experiências e assumir novas responsabilidades, se torna muito mais importante do que a iniciação grupal, pois nesta há imposição, enquanto que aquela tem sua base simbólica nas escolhas ou preferências advindas do próprio iniciante. Neste sentido, quando se trata de inserir o indivíduo no contexto do amor pelo outro, enquanto desejo e não apenas como pessoa, nada melhor do que a própria pessoa cuidar do seu ritual de iniciação.
Preparar-se para o amor, para amar, para viver suas alegrias e desilusões, já traz consigo um sentido de ritualização. Ora, são os instantes das pretensões, das escolhas, do achar o que deve ser melhor e o que deve ser evitado. Num ritual de iniciação no amor, pressupõe-se, assim, que a pessoa vai definir como sente o amor, o que tem como amor, como pretende expressá-lo e o que pretende conseguir amando.
Veja-se, por exemplo, uma jovem diante de um fogaréu enorme com um tacho ou caldeirão maior ainda por cima, onde deverá jogar dentro dele folhas que representam todas as suas expectativas que tem sobre o amor dali por diante. À luz de velas, segura numa das mãos um imenso galho verdejante da árvore do paraíso e com a outra mão vai desfolhando e jogando cada folha dentro do recipiente com água tão fervente que solta fumaça. Aquilo que realmente deseja não afunda e some com a folha, mas aquilo que não deseja no amor vai subindo e fica transbordando sobre as borbulhas.
A menina pensa em manter castidade e continuar virgem até o casamento: a folha é jogada e some; quer ser recatada no amor e ter o menor número de namorados possível: a folha desaparece; a menina acha melhor experimentar o máximo das relações amorosas: a folha transborda suavemente; quer ser difícil para não se tornar vulgar: a folha não afunda; será compreensiva e amiga do seu namorado: a folha fica por cima da água; acha que naquela idade ainda não é tempo de arranjar namorado: a folha some; não vai contrariar os seus pais nem os familiares: a folha não é mais vista; terá o máximo de cuidado para não engravidar: a folha fica transbordando. Enfim, acha que já está em condições em decidir tudo sozinha sem precisar ouvir em nada os seus: o tacho quebra de vez e a água queima os pés da menina.
Como se observa, não é nada fácil a ritualização de iniciação no amor. Contudo, seria bom que cada um, tanto meninos como meninas, começassem seus rituais sempre com uma pergunta: quero amar de verdade porque o amor ainda existe e é possível amar, ou quero fazer do amor um caminho para o sexo, porque assim todos dirão que me ama?




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

A relva e a selva (Poesia)

A relva e a selva


Após a selva
onde agora estamos
há uma relva
um leito onde vamos
e uma flor e uma manhã
e uma alegria e um orvalho
e dizem que há felicidade
mas é melhor construí-la
antes que chegue a noite

depois do anoitecer
chegam as pessoas raivosas
cheias de ódio e rancor
e vão destruindo a relva
esmagando cada flor
semeando ciúmes e intrigas
soltando as feras em brigas
transformando noutra selva
pois assim pessoas vivem
e se satisfazem

mas amor, meu amor
se a gente puder construir
a maior felicidade do mundo
a noite será todinha iluminada
e as pessoas ruins e sem luz
terão que seguir outra estrada.


Rangel Alves da Costa

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 65

EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 65

Rangel Alves da Costa*


Quanto mais se aproximavam da pequena propriedade familiar, mais Lúcia se enchia de saudades, alegrias e tristezas. Tudo ao mesmo tempo. Cada passo que dava era como se estivesse indo reencontrar com os velhos pais, cada um no seu afazer diário, indo limpar o pouco mobiliário da casa, varrer o piso e os arredores da morada, forrar as camas, colocar água e comida para os bichos, ligar o rádio e ouvir uma canção que falasse de amor. Tempos de sonhar ainda, eram aqueles. Agora somente passos, por este e outros caminhos e uma saudade imensa...
A jovem senhora ficou sem entender coisa alguma quando avistou o barracão. Ao sair dali, e não tinha muito tempo, nada daquilo existia. Foi preciso Lucas explicar tudinho, desde o começo, sobre a existência e os objetivos daquela construção, para encanto ainda maior da irmã.
- Que coisa maravilhosa Lucas. Nossos pais não entenderiam muito bem como isso funciona, mas certamente ficariam muito felizes e contentes quando encontrassem pessoas reunidas aqui, o padre celebrando missa, jovens e adultos tendo outros meios para serem alfabetizados, pessoas aprendendo ofícios e famílias reencontrando-se pelos arredores. Meu esposo, que tem um coração assim igual ao seu, sempre pensando mais nos outros do que em si próprio, certamente ficará muito admirado com a obra dos meninos. Digo meninos porque você não passará de um menino perto dessas pessoas tão jovens e já tão preocupadas com o presente e o futuro. Chamo isso de responsabilidade, e responsabilidade com a construção das coisas boas que ainda podem ser erguidas na vida. Parabéns, meu irmão. Depois que eu tomar um gole de água daquele pote, que é a água mais saborosa do mundo, iremos até lá ver de perto e por dentro esse verdadeiro templo divino.
Lucas fazia de tudo para não expor a emoção que tomava conta, para não mostrar à irmã os olhos insistindo em chover chuva de temporal. Contudo, ele tinha esquecido que ao sair havia deixado ali alguns meninos e seus parentes fazendo uma faxina na bagunça que restou do dia anterior. E de repente, a porta do barracão se abre e surgem Paulinho, Maria, Guiomar e Antonio, todos sujos da cabeça aos pés, com vassouras, panos e baldes nas mãos, espantados diante da presença daquela desconhecida.
- Venham cá, venham cá. Calma, não fiquem com vergonha por estarem assim porque esta pessoa aqui não é nenhuma desconhecida. Esta é minha irmã Lúcia, sobre quem eu já falei a vocês, lembram? – E começou a apresentá-los.
Lúcia ficou verdadeiramente encantada com aquelas figurinhas maravilhosas. E disse que desejava se reunir com todos no dia seguinte, ali mesmo no barracão, no horário que fosse melhor para eles. E assim os meninos voltaram para limpar ainda mais o barracão, como se ali ainda tivesse alguma coisa para ser cuidada. Na verdade, era o prazer imenso em serem reconhecidos naquilo que faziam.
Já na varanda da casa, antes mesmo da porta principal, Lúcia perguntou se o irmão estava fazendo alguma reforma, pois havia percebido uma porta nova. "Não, ainda não. Mudei as duas portas, a da frente e a dos fundos, porque já estavam muito velhas e sem dar mais segurança". Foi a única saída encontrada por ele, pois, por enquanto, não desejava falar sobre as ameaças e os atentados que vinha constantemente recebendo.
Como o prometido, Lúcia foi logo em direção ao velho pote, todo limpinho que parecia novo, e tomou com prazer uma caneca de água. Passou os olhos pela casa inteira, visitou o quarto dos pais, olhou as fotografias na parede, remexeu em coisas e baús e chorou muito. Nesses momentos ninguém pode conter tais lágrimas, pois são expressões tão verdadeiras que parecem vozes dizendo tudo o que sentem. E naquele instante o que Lúcia sentia era como se os seus pais estivessem ainda ali presentes, olhando para os dois e os abençoando uma vez mais. Talvez estivessem Lúcia, talvez estivessem Lucas...
Alguém poderia dizer que não, que seria impossível, mas o anjo do Senhor e todos os anjos que estavam ali também choravam. E em cada um a certeza de que se até eles, que são fortalecidos pelo sopro divino para suportar com firmeza todas as dificuldades, choravam e sentiam as fragilidades próprias dos seres humanos, quanto mais estes, que vivem saltando de pedra em pedra num rio imenso que é só de lágrimas.


continua...




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com