SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 22 de setembro de 2015

Palavra Solta: raízes profundas


Rangel Alves da Costa*


As raízes se resguardam escondidas, ao longe do olhar e do passo que segue, porém nada que revele mais do que suas ramificações. Nada existe sem uma raiz que sustente, que lhe dê suporte, que diga de qual geração ou semente foi gestado. Sua importância é indiscutível, mas sempre incompreendida pela ideia de que tudo é fruto ou filho apenas do tempo presente. A verdade é que não há presente sem passado, não há criatura sobre a terra que não tenha vindo de uma geração, não há tronco que não tenha nascido de um pequeno grão, e este de grãos de outros grãos, e assim em diante. Aí as raízes, os caminhos genéticos, hereditários, desde um passado distante. As raízes estão desde os pais dos pais dos nossos pais, num percurso desde a raiz primeira. As raízes estão nas distâncias, nos antepassados, nas sementes primeiras que brotaram sobre a terra. As raízes estão no fogo, na terra, no ar, no céu, em tudo aquilo que veio antes do homem e lhe permitiu um meio para vingar e de sustentação. Meu avô era raiz, minha bisavó também, o mundo de barro muito mais, a primitiva criatura muito mais ainda. E o que sou agora não representa nada mais que uma partícula de um cosmo chamado passado. Sou apenas a poeira dos antepassados e um pólen germinando o futuro. E quando me tornar pó já terei deixado raízes da raiz que fui. Eis que meus filhos serão frutos de uma árvore frondosa que não nasceu nem cresceu sozinha. Tudo da raiz primeira, enraizando em nome da geração familiar e de antepassados que não se avistam mais senão no sangue que corre nas veias.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A SAUDADE: O QUE É, O QUE FAZ, O QUE QUER


Rangel Alves da Costa*


A saudade é sentimento dos mais estranhos. Também dos mais exigentes. A saudade não vem a qualquer hora nem em qualquer lugar. Nem tudo provoca saudade. Ela exige motivação e ambientação para acontecer. É sempre romântica, nostálgica, cautelosa demais. Gosta de aparecer junto com o pôr do sol, debaixo do clarão da lua, em instantes de chuva, assim que ecoa uma canção antiga. Também gosta de ser provocada. Parece adorar quando a pessoa vai em busca de velharias, de baús, retalhos e velhos recortes dos tempos idos. Nada lhe atiça mais que um retrato de pessoa amada, uma carta de amor, uma visão ou perfume que produza aquele tão conhecido e doloroso sentimento de querer de novo. Tudo isso provoca saudade e disso ela se alimenta. Alimenta-se ainda da solidão, das casualidades da vida, das pequenas coisas que fazem relembrar. Gosta de ter um lenço ao lado, uma vela para ser acesa, um copo de bebida, uma taça de vinho, mas também três a cinco gotas de veneno. Por que ela também é devastadora. O dia inteiro ela se transmuda em sorriso, alegria, contentamento. Parece mesmo esperar o momento exato para reaparecer e agir. E sem querer, muitas vezes apenas porque ouviu a onda quebrando no cais, a pessoa começa a recordar e a sofrer. Então a saudade sorri, mas um sorriso dissimulado e frio. E também devastador.
A saudade é pássaro, é passo, é vento soprando. Possui asas, vai e volta em instantâneos voos. Num instante e já está trazendo no seu bico um bilhete que faz atormentar ainda mais. Com poder próprio de ação, de comando de vida e destino, ela abre a janela, escancara a porta, e segue adiante em correria. Não se incomoda com curvas, desafios ou perigos, pois sobe da terra e alcança as nuvens. O pensamento é seu caminho mais certeiro, aquele por onde trafegam as vontades, os desejos, as necessidades da alma. Basta pensar e já se está caminhando. Basta imaginar e já se está diante da pessoa que se deseja reencontrar. No encontro a desilusão, eis que mesmo tendo voz de súplica, a saudade não consegue transportar o outro até a presença de quem tanto entristece pela distância. Talvez esta seja sua maior falha: sente necessidade de ter bem ao lado, de usufruir, de se dar, e por isso mesmo se apressa em direção ao desejo, mas não pode transportar fisicamente a pessoa desejada. E a certeza de ter avistado na mente, a certeza de ter conseguido estar face a face, bem como a certeza que o reencontro fortaleceu ainda mais o amor sentido, são as consequências mais dolorosas provocadas pela saudade. A mente avista, o corpo sente, parece que está à presença, tudo se transforma em possibilidade, mas apenas a ilusão que conflagra e devora. Sofre, chora, se aflige, se atormenta, mas nunca desiste, pois toda grande saudade sempre retorna, e tantas vezes mais forte que a pessoas chega às portas do ensandecimento. E como vento vai, ganha asas novamente pelo ar e faz surgir da aflição uma velha cantiga de amor.
A saudade é tão ardilosa quanto estrategista. Se oculta, se mantem escondida, foge de situações para reaparecer em outros contextos. Sempre silenciosa, premeditadamente soturna, só fala intimamente e muitas vezes chegar a gritar o mais alto dos gritos. Talvez com poderes mágicos, acaba conduzindo a pessoa para ambientes propícios a desvelar seus mistérios. Abre a porta do quarto sem se preocupar em acender a luz e simplesmente diz: agora sinta toda saudade guardada no peito, incontida na alma, revelada no teu coração que desespera por tanto esperar qualquer reencontro. E no silêncio do quarto escuro, em meio a mais aflitiva das solidões, novamente faz surgir a sua silenciosa voz: agora reencontre na mente o que deseja, vá buscar no pensamento aquilo que lhe faz tanta falta, e não veja distância naquilo que pode ter agora ao teu lado. E vai fazendo com que a pessoa relembre a face do amor distante, traga ao pensamento os laços familiares que já estão em outra dimensão, relembre momentos e situações e tenha necessidade de ter tudo de volta, ao menos por alguns instantes. E não para por aí. Abre a janela para as cores do entardecer sejam avistadas, para que a poesia da noite recaia em versos, para que a chuva molhe o rosto e se misture às lágrimas. Depois de atormentar a alma, de afligir todo o ser, simplesmente vai embora.
Vai embora, a saudade vai embora, mas não sem antes deixar um rastro de agruras e sofrimentos. Sempre deixa para trás um lenço molhado, um olhar vazio, um coração fragilizado. Mas depois retorna. Espera somente o lenço enxugar para depois retornar.


Poeta e cronista
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Folha triste (Poesia)


Folha triste


Ai meu amor, meu amor
já não tenho fruta do teu doce pomar
já não tenho o azul do teu imenso mar
já não tenho sorriso nem brilho no olhar
já não ouço a canção da brisa a cantar
já não tenho poesia nem o verso ao luar
desaprendi a vida e não sei mais amar
sou a folha triste com o vento a soprar

ai meu amor, meu amor
quem dera a esperança neste recordar
quem dera uma estrada para você voltar
quem dera a alegria no lugar do chorar
quem dera a certeza de teu corpo abraçar
quem dera novamente tua boca beijar
mas desaprendi o sonho e nem sei mais sonhar
e sou a folha triste com seu adeus pelo ar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: ruas tristes


Rangel Alves da Costa*


As ruas andam tristes, chorosas, de lenço à mão. Sou de um tempo onde as ruas possuíam uma feição diferente. Recordo ruas com cadeiras nas calçadas, pessoas conversando, amigas cuidando da vida alheia, idosos nos seus ofícios de pinicar saudades. Ruas com casas de portas e janelas abertas, cachorros e gatos entrando e saindo, meninos surgindo em correria para a brincadeira pelos arredores. Mesmo em noites sem lua as ruas eram mais alegres, mais convidativas. Mesmo já tarde da noite e pessoas – boêmios, poetas da lua, noctívagos errantes – no seu passo estrelado. Mesmo nas noites chuvosas as ruas possuíam vida e pulsação. Mas agora tudo tão diferente, tudo tão feio e triste. As portas e janelas fecharam-se, as pessoas e vizinhos sumiram, as vozes calaram, e restou somente o medo. Hoje as ruas são do medo, da violência, da brutalidade, do desmedido perigo. Ninguém pode mais sentar sossegado à porta, ninguém pode mais se posicionar numa janela para uma fofoca com a vizinha, ninguém pode mais sair num rápido passeio com seu bicho de estimação, ninguém pode mais ir até ali e voltar já. Basta colocar o pé do lado de fora e o perigo já começa a rondar. Não há segurança, não há paz, não há sossego. O que agora há são ruas tristes, melancólicas, perdidas num vazio de solidão. As pessoas entrincheiradas nas suas casas e elas, as ruas, entregues aos passos do medo. Triste, muito triste que assim aconteça. Mas são os tempos novos que tomaram as ruas de seus verdadeiros habitantes.


Poeta e cronista
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domingo, 20 de setembro de 2015

ÀS SOMBRAS DO PARAÍSO


Rangel Alves da Costa*


Nos dias atuais, está cada vez mais difícil encontrar um lugar de paz para descansar, meditar, refletir sobre a realidade da vida e rebuscar as boas recordações. Quase não existem jardins públicos, praças arborizadas, lugares sossegados para um repouso ao entardecer.
Mais difícil ainda encontrar o silêncio, a doce melodia da valsa do vento, o canto passarinheiro ou o esvoaçar de borboletas e colibris. A cidade espantou suas aves, seus pássaros, suas cores da natureza. Difícil até encontrar um banco de praça ao redor de pombos e folhagens outonais espalhadas ao chão.
O ser humano precisa de paisagens assim, necessita de lugares que sejam um convite à reflexão. Necessita, mais do que tudo, de momentos onde a mente não se volte apenas para números, contas, insatisfações, problemas e mais problemas. Ninguém consegue viver somente ultrapassando portas e caminhando mecanicamente aos mesmos lugares, para fazer sempre o mesmo, para o mesmo desgastante cotidiano.
O homem está tão prisioneiro das mesmices cotidianas que se regozija com a chegada de um final de semana, com o despontar de um feriado, com uma forçada fuga às burocracias do dia a dia. Tão carente é de paz e de sossego, de pensamento e reflexão, que se enche de prazer ao abrir a janela para o amanhecer ou caminhar entre os caqueiros do seu quintal.
Ante a dificuldade de fazer diferente, de redirecionar o modo de viver em busca da paz interior, o homem começa a planejar e faz do sonho um alento para a conquista de um dia. E se enche de desejos que se tornam promessas. E logo lhe vem à mente paisagens de uma praia distante, dunas e areais ladeados de um azul de mar, montanhas encantadoras que levam aos portais do céu.
Precisa sonhar, precisa viajar, precisa passear, precisa ir muito além do que leva a porta de casa e seus caminhos. Precisa ter a proximidade da natureza, caminhar sobre trilhas, repousar nas pedras grandes da beira do cais, acender um candeeiro num rústico casebre de pescador, lançar uma rede na água pelo simples prazer de senti-la a seus pés. E abraçar a vida desde a alva do dia, beijar a boca do sol no primeiro raio, sentir-se tomado pela magia da lua imensa que enfeitiça a noite.
Mas são apenas sonhos e planos. Tudo muito normal numa pessoa que não mais suporta a vizinhança da violência, do barulho, da arrogância, da carestia, do medo. Seu paraíso é uma casa de portas e janelas fechadas, cadeados espalhados por todo lugar, cachorros soltos pelo muro. Mesmo assim não se sente com segurança alguma. Daí a vontade de ter asas para voar, de dar adeus a essa gaiola, de simplesmente sair por aí sem vontade de retornar.
Inevitavelmente, o homem vive e tem de suportar o mal das cidades. Não há fuga por cima do asfalto e ao redor do cimento. Ou vive o perigo de comprar o pão na esquina ou se deixa anular. Ou vive a cruel e perigosa realidade das ruas ou abdica de vez de viver, esquece que existe sol e lua e se contenta em avistar o mundo pelas frestas das janelas. Até que um dia encontra um prédio de vinte andares se arvorando de dono de todo o seu universo.
A loucura também nasce assim, do enclausuramento escolhido para viver. A insanidade também nasce assim, do sonho de viver diferente e ser forçado a nada realizar. Mas não somente dentro das casas estão os amentais pela brutal realidade urbana, pois as ruas estão cheias de loucos, malucos e até psicopatas. São pessoas presumivelmente normais, mas que a qualquer momento, até mesmo perante um simples olhar que imaginem ser de ofensa, transformam-se em verdadeiras bestialidades.
O que fazer então, se permanecer trancado enlouquece e se soltar pelas ruas é conviver com um hospício? Uma saída difícil para quem mal tem condições de pagar as vultosas contas do mês. Qualquer passeio custa muito caro, qualquer fim de semana numa beira de praia acaba dissipando todas as economias. E como também é uma ruptura difícil deixar a cidade grande e ir morar de vez numa pequena cidade interiorana ou num lugarejo perto do mato, outra coisa não há a fazer do que procurar viver às sombras do paraíso.
Como é possível viver às sombras do paraíso? A partir da conciliação entre o ser e o mundo que deseja para si. Não é tarefa fácil, mas sempre possível que o homem não se deixe totalmente urbanizar pelo simples fato de viver numa cidade grande. A pessoa precisa rebuscar seu estado natural, sua condição simples de ser humano, seu desapego às explorações das ruas. Necessita não deixar-se conduzir pelos apelos e reafirmar seu compromisso com suas raízes, suas tradições, seu cheiro de terra e de gente.
Certamente que a cidade grande tudo fará para transformá-lo em mais um ausente entre tantos. Mas não conseguirá. Se o seu compromisso é com a feição humana e natural da existência, não haverá fumaça que esconda o seu sol, não há edifício que esconda sua lua. E nada lhe arrebatará de surpresa o prazer pela vida. A não ser as sombras de outro paraíso.


Poeta e cronista
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Canto de saudade e mar (Poesia)


Canto de saudade e mar


Senti saudade
silenciei
e chorei

molhei o retrato
a face apaguei
reneguei

abri a porta
um mar avistei
viajei

no cais destino
na esperança aportei
e voltei

se o amor retorna
naquela que amei
não sei.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta: aqueles dias


Rangel Alves da Costa*


Dias existem que surgem somente para atormentar. Mesmo que a pessoa não tenha adormecido ou acordado com problemas, a verdade é que daí em diante tudo parece não acontecer. Espírito e alma se tornam aflitos, os bons pensamentos não surgem, nada consegue trazer alegria, até mesmo o olhar se perde sem direção alguma. O corpo parece cansado, pesado demais, a mente anuviada, há um desencorajamento em tudo. Nada contenta, anima, produz força de reação. Há uma fuga das pessoas, não desejar encontrar sequer aquelas que fazem tanto bem. Não há ânimo para qualquer leitura, para qualquer escrita, para qualquer diálogo, para nada. Tudo com aquela feição de casa com portas fechadas e um imenso vazio lá dentro. Mas por que assim? Ninguém tem uma resposta exata. Não são instantes passageiros, mas uma situação que se prolonga o dia inteiro. Não é nada com clara motivação, por isso mesmo mais instigante ainda. Sequer a chuva entristece mais, sequer o silêncio provoca o grito interno, sequer a solidão produz a reflexão. É um estado de letargia, de esmorecimento, de inafastabilidade de tudo. A feição é mais triste sim, mais aflitiva e angustiada, mas não por causa de ação motivadora de sofrimento. Simplesmente porque está distante de tudo. Afastado de tudo, da força, da motivação, da busca. E não se sabe até quando permanecerá tal mistério na alma. Até que o sopro triste que trouxe a indiferença na vida a transforme em razão de viver.


Poeta e cronista
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