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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ESTUDO PARA CORDEL: LÍNGUA DO POVO, QUE LÍNGUA! (Crônica)

ESTUDO PARA CORDEL: LÍNGUA DO POVO, QUE LÍNGUA!

Rangel Alves da Costa*


Cego Aderaldo quem foi, quem foi esse cabra da peste, que mesmo lhe faltando a visão, foi os olhos do Nordeste? É preciso o homem conhecer, para a glória lhe fazer merecer, não dando mais do que deve naquilo que deve ter. Por isso esse tal de Aderaldo, enxergando o que não via, iluminou o sertão, fazendo da noite o dia, merecendo a homenagem daquele que é seu irmão, montado no seu cordel, galopando nesse chão.
Aderaldo Ferreira de Araújo, no mar de seca o marujo, fazia cordel no cantar, quando improvisava com quem queria pelejar, chamando pro desafio, na poesia guerrear. Cego aos 18 anos, levou para o cordel cantado todos os seus desenganos, trovando o seu destino feito divinos planos. Seu cordel era cantado, da viola retirado com tanta força no verso, que aquele que chegava dizendo que lhe topava, já pensava em regresso. Como se espera de um rei, um reinado de sucesso.
Mesmo sem enxergar, um dia olhou ao seu redor, não vendo mais desafiante, então resolveu trovar só, nos deixando maravilhas, na sua crítica sem dó. Pronto no seu paletó, disse um dia um cordel que encantou minha avó: “Eu saí do Ceará/ Deixei meu triste mocambo/ Com medo do dezenove/ Este pesadelo bambo/ Vinha o coronel Monturo/ Junto com doutor Molambo.../ A dona fome na frente/ Na cadeira do trapiche/ Dizendo: No Ceará/ Tudo é fofo e nada é fixe/ Juro que aqui nesta terra/ Não vinga mais nem maxixe...”.
Mas peço licença ao rei para me meter no que sei, que é humildemente talhar um verso que não usei, transformando a pedra bruta na rima que passeei, falando sem piedade daquilo que com sinceridade causa até mortalidade. Falo da língua do povo, que sempre traz fato novo, mas tudo com inverdade.
Diz até a medicina, a universidade ensina que não há coisa pior do que uma língua ferina. É feio pra gente grande, pra menino e menina, é feio pra todo mundo que tem essa triste sina, que é viver soltando a língua, o outro deixando à míngua. Se falasse positivo, deixando o outro altivo, até que era coisa boa, mas a danada da língua a maldade lava e côa.
Dizem que é coisa de doença, mal já vindo de nascença, ou com alguma parecença de que vem do sangue a triste sentença: Você vai viver no mundo, vai falar de Raimundo, inventar de Edmundo, falar mal de todo mundo, e aquele melhorzinho vai chamar de vagabundo. Se a safadeza sobrar, não procure ignorar até mesmo a família, minta de pai e tia, não deixe ninguém de procurar fazer o inocente pecar.
Dizem que é mal feminino, que nasce com um destino de falar da vida alheia, dizendo que é fome a ceia, fazendo de monstro sereia, a beleza ficar feia. Mas não é só coisa de mulher, isso eu posso garantir, na verdade sem mentir, pois já vi muito marmanjo passar noite sem dormir, só pensando no que inventar para o outro denegrir.
A vizinha é famosa por espalhar falsa prosa, dizendo que um casado deu à mocinha uma rosa, afirmando que o padre chamou ela de gostosa, inventando estripulia, coisa de fazer da noite o dia, só para alimentar sua língua, dar prazer à sua cria. Depois que a conversa tá solta, fica atrás da moita, só vendo no que vai dar, toda aflita em oração, pra um fuzuê se formar, pois a maior decepção é sua mentira acabar.
A moça que era séria sentiu estar na miséria quando uma invejosa astuta inventou que era puta; outra de caráter respeitado, tendo solteiro enjeitado, teve seu nome envolvido logo com homem casado; a beata a orar, tristonha na igreja a rezar, foi a última a saber que ia com o padre deitar; o moço bem educado, cheiroso e apessoado, de repente virou estranho, parecendo afeminado. E tudo isso comprova que mesmo a língua sem prova o povo bota na cova, enterra e depois desova.
Fofoqueira, conversadeira, palavra sem eira nem beira, é a língua do povo falando, do outro fazendo feira. Nada de bom ela diz, só inventando besteira, mas se esconde quando o outro perde a estribeira e vai tirar satisfação do por que daquela asneira. Não sei de nada, ia passando e ouvi na estrada, foi a vizinha quem disse, aquela zinha safada, e assim vai se virando essa gente descarada.
Verdade é que a língua cata o que encontrar e mesmo sem nada achar algo tem logo a mostrar, que é a derrota do outro, a honra sangrar e a pessoa matar, como se a vida dependesse do que essa peste vai falar.




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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