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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A SOLIDÃO E A ÁRVORE - Penúltimo (Conto)

A SOLIDÃO E A ÁRVORE - Penúltimo

Rangel Alves da Costa*


Os remédios caseiros de Maria pareciam realmente milagrosos. Nem precisou passar pela terceira vez as folhagens e as raízes amassadas, batidas até ficar pastosas, e o corpo do homem estava totalmente cicatrizado.
Tomou chás e foi forçado a ficar ao menos um dia em repouso. Enquanto era tratado, sentindo que estava sendo cuidado com carinho, guardou um silêncio profundo e um olhar mais triste e profundo ainda.
Fato estranho é que todas as vezes que ele olhava a filha ao seu lado, cuidando, dando remédios, os seus olhos começavam a lacrimejar. Mesmo assim ficava em silêncio profundo.
Para testá-lo, a filha se aproximou e disse que as plantas medicinais tinham acabado e seria preciso que ela fosse para o mato procurar mais. Isso era importante para o caso de uma necessidade urgente. Acrescentou.
Então ele abriu a boca e disse que para ele não precisava mais não, mas fosse se quisesse.
Aproveitando a situação, a filha procurou ir logo mais além e disse que estava faltando feijão em casa e como ele ainda não estava totalmente recuperado, bem que ela poderia ir comprar o feijão e conhecer a cidade.
Você não sabe ir sozinha não. Deixe isso pra lá que é muito perigoso. Mocinha por essa estrada não dá certo não. E eu também não tô com vontade de comer feijão não...
Mas estou, papai. Hoje eu quero comer feijão e com um pedaço de carne seca dentro e mais um toucinho de porco. O sozinho sabe que assim é muito bom. Disse Maria em seguida.
Então deixe que eu mesmo vou comprar na cidade. Eu tenho mesmo que resolver umas coisas por lá...
Assim eu também vou com o senhor! Quase grita a mocinha.
Já disse que a cidade é coisa muito perigosa pra mocinha como você. Lá tem muita gente e é um povo esquisito, sabe? Olha pra gente como se fosse coisa de outro mundo, e quem dirá pra uma moça bonita como você...
Você me acha bonita papai? E Maria estava radiante, brilhante, estonteante...
E o homem quis disfarçar o que havia dito sem querer. E disse que ele não dito que ela não era nem feia nem bonita, apenas que ela era teimosa demais.
Mas Maria sentiu que estava amolecendo o rochedo no coração do pai. E insistiu: Diga, não minta nem invente não, você me acha bonita papai?
Já disse que é feia, e feia por demais e pronto. Agora está satisfeita? É feia por demais e pronto...
Mas não suportou e com lágrimas caindo na face enrugada estendeu os braços e disse baixinho: Venha cá dá um abraço no seu pai, minha coisa mais linda do mundo!
E a mãe e esposa, que tremendo e nervosa ouvia tudo por trás da cortina, não suportou a emoção daquele momento e caiu desmaiada.
Com o baque, os dois ouviram e correram até o local. Mas enquanto o marido aflito corria para ir buscar água, a mulher abriu os olhos para a filha e disse que não se preocupasse. E continuou deitada esperando a reação do marido.
Será que é grave minha filha? E enquanto o esposo virava a cabeça para falar com a menina, ela piscava o olho e dava um leve sorriso.
Então Maria teve uma ideia genial nesse momento. Começou a fingir que chorava e disse ao pai que talvez fosse preciso chamar um médico na cidade.
Então corra minha filha, corra e vá chamar logo o doutor na cidade! Disse o homem, autorizando enfim que sua filha fosse conhecer a cidade, fosse ver pessoas, fosse conhecer outro mundo.
Em dois tempos a menina estava saindo da porta de casa, linda como nunca, a mais bela flor na aridez milagrosa da natureza.
A umburana cabocla, que estava ali disfarçada de vento, soprou na menina e lhe desejou boa sorte.
Dentro de casa, sozinhos marido e mulher, ele passava a mão pelos cabelos dela e dizia que ficasse boa logo porque não suportaria viver sem a sua presença.
E roçou a barba crescida no rosto da esposa para fazer-lhe uma carícia com um beijo. Parecia milagre, mas havia amor naquele coração atormentado.


continua...




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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