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quinta-feira, 7 de abril de 2011

DESCONHECIDOS - 76 (Conto)

DESCONHECIDOS – 76

Rangel Alves da Costa*


Ao entardecer de cobre, ou cor de estanho avermelhado, Cristina avistou João pescador bem no local indicado pela amiga. Estava lá no alto, sentado, olhando pra cima, de vez em quando jogando pedrinhas na água muito mais abaixo.
Ela seguiu beirando o rio, molhando os pés aqui e ali, e chegou ao local sem que ao menos ele percebesse, de tão distraído que ficava nesses momentos de solidão cotidiana, ou quase sempre, pois ali não passava de uma solidão em tudo.
“Boa tarde João. Pensando na vida rapaz? Com certeza escolheu o melhor lugar para ficar pensando em coisas boas, para fazer um apanhado das realizações do dia e pensar no que fazer no futuro...”. Primeiro o susto, depois o nervosismo com a inesperada visita, mas conseguiu convidá-la a subir ali e apreciar um pouquinho da natureza, pois não demoraria muito e aquelas cores começariam a mudar.
Foi ajudá-la a subir, indicou o melhor lugar para sentar, e depois disse que era costume seu ficar ali quando a tarde já estava avermelhada de tristeza. Não tinha um santo dia que não viesse ali, parecendo que não ficaria bem o restante do dia se não conversasse um pouquinho com ninguém.
“Com ninguém não, João. Conversar sozinho é uma das melhores coisas que possa existir, pois além da gente se perguntar e responder, certamente a natureza e os seus seres ouvem tudo que é dito e o vento vai espalhando por aí as boas palavras...”, disse Cristina. “Mas só converso besteira e penso um monte de besteira também’, completou o pescador.
“Como besteira João, se tudo que a gente pensa tem um significado?”. De cabeça baixa, entristecido, ele apenas respondeu: “Deixe pra lá moça, deixe pra lá...”. E ela continuou: “Não quer me falar nada sobre isso? Deve ser pensando em sua falecida esposa, não é mesmo?”. “Deixe pra lá moça, deixe pra lá...”. Então Cristina achou melhor não prosseguir falando sobre esse assunto.
A seguir ela tirou do bolso um pequeno embrulho e disse: “Tome João, isso aqui é pra você, mas não é porque você me presenteou com aquele peixe e aquele lindo barquinho não. É apenas uma lembrancinha para você pendurar no pescoço e toda mulher que te olhar ficar apaixonada”. Sorriu ao dizer as últimas palavras e colocou nas mãos do pescador uma corrente de ouro.
“Mas num precisa não moça, num tenho nem como usar isso aqui tão bonito. Minha vida é aqui mesmo e não vou a lugar nenhum, nenhuma mulher vai me olhar mesmo. Precisa não, tome, fica bonita é na senhora mesmo”. Mas ela insistia e se aproximou para colocar a corrente no pescoço. Ali ao lado da moça bonita, tocando levemente no seu corpo, quase não dá conta de si com tanto nervosismo e arrepios.
Porém, enquanto Cristina entrelaçava as mãos ao pescoço dele para fechar a corrente por trás, o pescador rapidamente estremeceu por outra coisa que passou a ver. Sua falecida esposa surgiu bem por trás da moça, num vulto que depois foi tomando forma, de cabeça baixa de frente pra ele, com os cabelos bons todos desgrenhados e parecendo lavados há instantes, para em seguida levantar o rosto belo, bonito, perfeito, porém com os olhos vermelhos, o rosto entristecido e carregado de lágrimas, como se estivesse diante de uma coisa terrível. E depois sumiu num instante, sem dar tempo sequer dele poder dizer ou fazer alguma coisa.
“Seu corpo esfriou de repente João, o que foi? Até me pareceu que estremeceu por instantes”, perguntou Cristina, já tendo colocado a corrente. “Foi nada não”. E tentou disfarçar dizendo: “É que nunca tenho mulher assim pertinho de mim e fico sem jeito quando isso acontece. Mas num foi nada não”. “Mas agora com essa corrente você vai arrumar uma namorada bem bonita, isso eu garanto”, completou a jornalista, sorrindo.
Quando desceram das pedras o sol quase não existia mais, apenas alguns sinais vermelho-alaranjados já se escondendo por trás das nuvens. Era a noite que começava a dar os seus primeiros passos, num tom cinzento abrindo as portas para os seres desconhecidos que passam a rondar debaixo da lua.
João fez questão de acompanhar Cristina até a tapera de Pureza. Com o profeta esfarrapado aparecendo por todo lugar e a qualquer instante, não era bom que ela tivesse o desprazer de encontrá-lo sem que ainda o tenha conhecido, ao menos de longe. Mas foi o momento de conhecê-lo, pois enquanto caminhavam ele apareceu falando alto por cima de uma ribanceira:
“Já chegou mais uma. Falta muito pouco para todos acolherem aos caminhos da profecia. E não restará pedra sobre pedra, não haverá água que não vire sangue, não haverá sangue que não vire dor, não haverá dor que não vire morte. Quem se salvará? Também está escrito: só se salvará aquele que o menino quiser, pois nele estará o destino de todos. Mas nem ele, nem o próprio menino, pode se dizer que estará salvo. As forças são muitas, são poderosas demais, e tão cheias dos poderes mais maléficos que existem que antes de começar a dança vai tocar alegremente para distrair, e depois, e depois... Depois começa a dança, começa o festim, e todo mundo inebriado vai ser consumido ainda achando que está numa festa”.
E depois de profetizar para que ouvissem sumiu num segundo. Totalmente espantada, verdadeiramente amedrontada, a jornalista perguntou quem era. João tentou explicar rapidamente como ele havia aparecido ali, mas que ainda não sabiam verdadeiramente quem ele era. Então ela prometeu que depois procuraria analisar as coisas que ele dizia para ver se encontrava algum fundamento.
Verdade é que a jornalista queria ficar passeando um pouco mais pela beira do rio, observando a natureza enegrecida e quase que silenciosa. Mas diante do surgimento do profeta achou melhor entrar e procurar dormir. E sonhou com João pescador. Talvez o mesmo sonho sonhado por ele. Nos dois sonhos estavam juntos, mas sempre chegava alguém para separá-los.


continua...






Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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