Rangel Alves da Costa*
Vereda é palavra que nasce matuta,
entrincheirada nos apertados do mundo, quase sempre escondida nas matarias. Mas
também pode ressoar como percurso onde se avista o destino ou a esperança.
Vereda pode significar tanta coisa.
Dependendo da intencionalidade da palavra,
vereda pode expressar atalho, caminho estreito, clareira aberta na vegetação;
mas também lugar de maior abundância em meio à caatinga, local apropriado para
o cultivo. Nas veredas da vida, a existência.
Mas aqui, onde a viagem é por trilhas
matutas, sertanejas, vereda tem somente um significado, mas de longo alcance:
os difíceis, estreitos e espinhentos caminhos, incrustados no meio da mataria,
envoltos em pedras e cactáceas, por onde o sertão caminha.
Naquela vereda Lampião mil vezes passou na
sua luta de todo dia. Saía do coito, desaparecia, entrava no mato e inventava
uma estrada. Avançava em meio a xiquexiques, tocos espinhentos, cipós e
galhagens, num silêncio de cobra rastejante.
A mata é perigosa, possui ouvidos e olhos,
por trás da moita o inimigo, nos escondidos a traição. E a vereda apenas espera
que o andante apresse o passo, não perca tempo afastando garranchos e
folhagens, apenas siga rumo à clareira ou ao esconderijo debaixo das pedras
grandes.
A via é estreita, difícil demais, mas o bando
inteiro, conhecedor da vereda e seus segredos, parecia estar caminhando por uma
estrada aberta, enxergando porteira lá adiante. Mas havia de ser assim. O mato
fechado e caminho apertado eram uma coisa só para quem tinha de estar
acostumado com os perigos de cada passo na estrada.
Vereda era trilha do coiteiro, do caçador, do
homem do mato. Onde ninguém mais avistava chão possível de caminhar, lá ia o
roló para pisar no caminho. Estradinha que não tinha errada, pois ia dar no
coito cangaceiro, no tufo onde a caça se escondia, no esconderijo mais
escondido do mundo.
E foi abrindo veredas que o sertão se fez
conhecido. A vereda foi sua primeira estrada. Num tempo de mata fechada, ainda
virgem e exuberante, sem curva ou norteamento, somente o facão para derrubar pé
de pau, afastar o mato rasteiro e permitir caminhada. Seguir para onde? Ora,
apenas ir adiante, sempre adiante.
Naquela vereda o velho desbravador, primeiro
bandeirante sertanejo, caminhou sem destino, derrubando na foice o empecilho,
vencendo na lâmina os tufos impedindo
passagem. Seguiu adiante e deixou atrás as primeiras estradas. E sabido é que
onde o homem pisa o mato não cresce do mesmo jeito.
Naquela vereda o homem da terra foi abrindo porteira
para novos horizontes. Tudo mataria, tudo mato fechado, perigoso e desafiador,
e só mesmo a força dos conquistadores para vencer os espigões, as pontas
cortantes, os animais peçonhentos, até alcançar descampados e estabelecer
moradias, fundar vilas e cidades.
Naquela vereda passou Antônio Conselheiro na
sua trilha sertaneja de revolta e fé; por aquela vereda passou o forasteiro
temendo o desconhecido, avançando às cegas para fugir das bocas e olhos
avistados na escuridão das folhagens; naquela vereda caminhou o boi e o
jumento, o cavalo e o bicho doméstico, o homem e sua família, em busca de
assento na imensa e desconhecida casa chamada sertão.
Naquela vereda passou meu avô, meu pai e eu
também. E por suas trilhas também passarão os meus filhos e os filhos dos meus
filhos, uma geração inteira desde a primeira, porque somente através dela é
possível encontrar o lar, um pedaço de terra, o grão e a semente, a vida
inteira.
Toda vereda é meu chão. Estrada e passo do
meu sertão. Ainda que o asfalto desponte adiante, liso e reto, eu prefiro
caminhar pelas trilhas onde me reconheço e encontro minha razão de ser tão
sertanejo.
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com
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