SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

PARA TODO O SEMPRE, ADEUS!



*Rangel Alves da Costa


Não adianta manter árvore frondosa com água de cuia. Ou a planta se sustenta com suas próprias forças ou jamais terá o mesmo viço e a mesma beleza.
Assim também no amor. Não adianta tentar manter uma relação, quando a outra parte quebrou seu contrato de respeito e fidelidade e fez da traição uma escolha.
Não existem primaveras eternas. Sim, o jardim é belo, as flores são belas, as borboletas também. Mas sempre chega um outono. As folhas caem, tudo seca e morre.
O amor não se sustenta no fingimento, na falsidade, na traição. Aquele que ama e que deve confiar, de repente se vê achincalhado pelo triste e lamentável comportamento do outro.
Como diz o Eclesiastes, tudo tem o seu tempo de existir. Nada aconteça de um só modo para sempre. A tristeza se vai e vem a alegria, um dia passa e outro vem. No amor também.
Só que no amor, o outro lado da moeda, ou o vencimento das fases ruins, deve ser suportado com mais amor. Quando dois realmente se amam, quando guardam fraterno compromisso, nenhuma ventania poderá separá-los.
Contudo, impossível que o amor continue vingando quando o desrespeito aflora. Na lógica da vida e do respeito ao outro, não é coisa do outro mundo que alguém termine um relacionamento para em seguida começar outro. Mas trair?
A traição, como já disse o poeta, é o mais feroz dos punhais, é a mais sedenta das armas, é o mais terrível instrumento de destruição. Nada mais agonizante que o mundo inteiro saber e o traído ser o último a ser certificado daquilo que lhe fizeram.
Adjetivos para quem trai? Inúmeros, infinitos, infindáveis. Vil, vulgar, abjeta, desleal, infiel, pérfida, traidora, falsa, injusta. Ou, num linguajar mais apropriado à espécie: quenga, rampeira, safada, vagabunda.
Mas nada de tão ruim assim. Árvore boa não vinga frutos bons em meio a frutos ruins. Os frutos apodrecidos devem cair para que nasçam espécies novas. Como uma serpente, deve ser expulsa do paraíso.
Triste é o destino dos traidores. Um cão sarnento terá melhor destino. Uma barata asquerosa possui melhor destino. Um bicho putrefato de esgoto possui melhor destino. O mais abjeto dos seres possui melhor destino. E por quê?
Simplesmente por que o preço que será pago será muito alto. Logo receberá o desprezo, logo receberá traição ainda maior, logo baterá portas e nada mais encontrará. Vai querer morrer e não terá quem vele seu corpo imundo.
O pão lhe faltará, a roupa lhe faltará, a dignidade lhe faltará, o mínimo de sobrevivência lhe faltará. Ora, tudo isso tinha exatamente com quem lhe confiava e amava. Tudo isso tinha com quem acreditou que valia a pena conviver a seu lado. Mas valeu?
Mas eis que chega o outono. As árvores entristecem e depois renascem. Merecem viver, merecem ser felizes. Contudo, a folha morta jamais do chão se levantará. E nesta folha morta, imprestável, que estará a face da traiçoeira.
Quando chegam os novos tempos e tudo começa a florir novamente, resta ao arvoredo, sem piedade, olhar para baixo e, perante a folha morta, dizer: Para todo o sempre, adeus!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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