SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 3 de novembro de 2012

PRESEPADA (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Que coisa mais deprimente, mais ridícula, verdadeira palhaçada. Outra coisa não é senão mais uma daquelas presepadas de quem não se respeita, não tem juízo ou não tem o que fazer. E vira assunto do dia, correndo de boca a boca, fofoca que chega ao assombro. Não acredito!
Amigo meu que não tinha o que fazer, se dizendo fervorosamente apaixonado, lascou-se a mandar presentes e mais presentes, jardins inteiros com bilhetinhos, versos amorosos e caixinhas floridas de bombons. Mas quando, ao acaso, a joia brilhosa foi recebida pelo marido da dita, nunca mais o apaixonado teve tempo de se apaixonar. Depois de tomar uma surra, teve de fugir correndo da cidade no meio da noite.
A mãe dizia menino não faça isso que vai acabar se dando mal; o pai repetia que deixasse de presepada para não acontecer o pior, mas como não tem jeito pra gente teimosa, eis que o danado apenas fingia que ouvia e se danava a fazer tudo o que os pais pediam pra não fazer. E continuou tomando banho nu na barragem tomada de piranhas miúdas, porém de dentes afiados que nem ponta de punhal. E um dia chegou em casa aos gritos, correndo de se acabar, pedindo por tudo na vida que tirassem a pirambela de dentes grudados no seu pingolim.
Extremamente ridícula, completamente destrambelhada, foi a atitude tomada por um conhecido de um amigo, que após ser chamado de coroa por um brotinho que havia dado psiu, resolveu mudar radicalmente seu visual. E começou pelo cabelo, que pintou sozinho com a tintura capilar mais enegrecida que havia. Não leu nada das indicações nem sobre o que deveria evitar, simplesmente tascou tinta no cabelo, limpou a testa e o pescoço e foi, com o sol a pino, passear pela praça, esperando o brotinho.
Mas não sabia que o calor, se derramando como suor da cabeça, trazia consigo um melado pegajoso, feito uma gosma preta descendo pela testa e chegando ao pescoço. Quando a mocinha o avistou teve pena. Tirou um espelhinho da bolsa e pediu que se olhasse. Que vexame, que situação! A partir daí passou a ser chamado monstro do pântano. E mesmo sem ao menos pensar em pintar novamente o cabelo, evitava ao máximo sair de casa para não encontrar os brotinhos.
Verdadeira palhaçada do moçoilo revoltado com a vida, principalmente com sua indecisão em assumir ou não. Sabia que os pais não iam gostar nada de saber que o seu garanhão desmunhecava, que gostava mesmo era de outra fruta. Todo choroso, dando chiliques, segredou à amiga confidente que tencionava acabar com a vida, que pensava em se matar. Não se suportava mais viver sendo ele queria ser ela, e por não poder assumir sua predestinação sexual, não havia outra saída que não ir para o céu das purpurinas.
A amiga aconselhou-o, pediu por tudo na vida, mas não teve jeito. No dia seguinte, o moçoilo se despediu da vida e pulou de cima de uma cadeira; e não machucou nem o pé; depois resolveu pular da janela a um metro do chão; e nenhum machucado; em seguida amarrou um cordão no lustre e pulou da cadeira para se enforcar, mas estatelou no chão com a luminária por cima. E como nada conseguia fazê-lo transformado em borboleta morta, tomou a medida crucial. E arranjou uma namorada com a intenção de morrer de desgosto. E conseguiu.
Dizem que havia um cabra que era tão cheio de presepada que ninguém acreditava no que dizia nem no que fazia. Por mais que tentasse fazer uma coisa certa, agir corretamente, sem mentiras ou estripulias, não havia jeito, pois sua fama impedia que dessem valia a qualquer coisa que lhe dissesse respeito. Mas um dia resolveu mudar de vez sua fama e obter respeito entre todos. Pensou e pensou no que deveria fazer, até que lhe brotou uma ideia genial.
Então começou a inverter as coisas. O que era mentira espalhava como verdade e o que era verdade dava ares da mais deslavada mentira. Chegou perto do padre e disse que ninguém sabia do seu romance com a beata, porém ia dizer nos quatro cantos que era tudo verdade. Chegou perto do marido traído e disse que andavam espalhando que ele estava tomando chifre, mas ia cuidar logo de dizer que era verdade mesmo. Assim ninguém mais acreditou nem no romance do padre nem na traição da mulher. E deu tanto certo que se o vigário safado ou o marido traído ouvissem alguém falando mal do mentiroso logo saía em sua defesa, tratando-o como o mais honrado dos homens.
Mas não para por aí não, pois nesse mundão o que mais tem é presepada e gente a presepar. Nem imaginem o que aconteceu com a viúva. Dizem que ela cismou que andava muito calorenta então resolveu não usar mais calçola por baixo. E assim, ao entardecer sentava pra se refrescar na cadeira de balanço colocada na porta de casa. Foi então que começou a sentir uma coisa diferente...
Mas depois eu conto o resto.

  
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

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