SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

UM VELHO CARRO-DE-BOIS NA ESTRADA DA MEMÓRIA


*Rangel Alves da Costa


Lá vem o velho carro-de-bois. Seu rangido lento, seu canto dolente, seu remoer arrastado por cima do estradão, já não deixa duvidar que lá vem o carro-de-bois. Na curva do caminho, tendo à frente os bois na canga, lá vem o velho transporte sertanejo. Logo surgirá por inteiro. Grande, imenso, tomando toda a estrada, ele vem rodando sem pressa.
Defronte seu casebre, casinha de cipó e barro nas distâncias do mundo, o velho sertanejo revive tudo isso na memória. Aperta os olhos, sente um gemido por dentro, mas não vai chorar. Já não chora mais. As lágrimas que descessem desembocam e correm por dentro e somem. Na face apenas a tez da agonia que a memória traz perante a recordação dos tempos idos.
O carro-de-bois se aproxima cada vez mais. Já dá para avistar as feições dois bois que carregam o carro. Um de pelo amarelado com pintas pretas, carnudo, sedoso, de olhos quase fechados pelo esforço do peso e da viagem. Outro em tom mais marrom, de um amarronzado claro, forte igual ao outro, parecendo até mais novo. Estes vão à frente e com dois mais atrás. Um de pelo alaranjado, puxando a cor do barro da terra, e ainda outro esbranquiçado. Todos cabisbaixos pela dureza imposta aos seus pescoços, lombos e passos. Um sofrimento danado aos bichos.
O velho sertanejo ajeita o chapéu de couro, em seguida lança mão de um cigarro de palha e o coloca pendurado no canto da boca. Não acende no mesmo instante. Seu pensamento está longe, sua face enrugada de tempo e de sol não nega. Abre mais os olhos e mira ao longe da estrada. Tem certeza que ouve e avista o carro-de-bois, tem certeza que já vê o velho carro sertanejo se aproximando, assim como noutros tempos fazia. Só que o carreiro era ele. Era ele que conduzia o transporte matuto pelas lonjuras sertanejas até retornar pela mesma estrada, entrar pela mesma curva e por ali despontar para o descanso da luta.
Todo carro-de-bois tem um canto triste, sofrido, agonizante. O toque pesado e firme da madeira no rolamento vai provocando um rasgado, uma fricção calorenta e gemida, um arrasto cortante que se transforma em verdadeiro gemido. Quanto mais a estrada é íngreme, esburacada, com pontas miúdas de pedras ou pedrinhas soltas, mais o velho transporte parece se arrastar como algo agonizante. Dependendo do peso, se em cima madeira ou sacos de milho ou feijão, o canto pranteado vai se tornando ainda mais aflitivo, como se os animais não fossem conseguir levar adiante aquela sina de lento e pesado sofrimento.
O velho sertanejo se esforça para levantar. Precisa ir um pouco adiante para saber se tudo não passa de ilusão. Esforça-se, mas recua pelo pensamento que lhe toma por inteiro. A memória coloca à sua frente o que jamais pensaria avistar novamente. Ele ainda moço, ainda na força e na disposição da luta. Vai chamando um boi e outro, Pintado, Flor da Serra, Mimoso e Lua Dourada, e vai perfilando adiante do carro-de-bois. Em cada um sua canga, seu silêncio, sua cabeça já abaixada. Em seguida vai colocando em cima do carro dois sacos de farelos e dois cestos de palma. Precisa fazer a entrega mais adiante, ao compadre que já espera a encomenda. Então lança mão da vara do chicote longo de couro cru e da vara de ferrão afiado e começa a viagem.
Os olhos do velho estão fechados, apertados, molhados por dentro e deixando cair um filete de água pelas dobras da face. O carro-de-bois se aproxima cada vez mais. Já passa pela malhada do casebre, rente ao juazeiro de sombra grande, inteiramente diante da cadeira onde o homem do sertão amarga sua dor na memória. Ao abrir os olhos, já não é mais aquele carreiro à frente dos bois, levando na mesa do carro os sacos de farelo e os cestos de palma, mas aquele retornado de outras viagens e agora, tomado de cansaço pelas idas e vinda do tempo, apenas avista passado e presente diante de si. E o mais espantoso ainda, coisa de não acreditar mesmo, é que o carreiro conduzindo aquele carro agora avistado não é outro senão ele mesmo. E com estava naquele momento, apenas um velho.
O velho não acredita no que vê. Não pode acreditar que ali esteja um carro-de-bois, com aqueles seus bois de antigamente, e nem que aquele carreiro possa ser ele mesmo. Faz o maior esforço do mundo e consegue se levantar. Espantando, de feição indefinida na tristeza e na alegria, sai como que tateando em direção ao carro logo adiante. Tudo está ali, só um passo mais, só um tiquinho mais de caminhada, e por isso faz de tudo para apressar o passo. Mas nunca chega. Nunca alcança o velho carro-de-bois.
Um chamado de dentro de casa o desperta daquele sonho. Alguém diz que o cuscuz já tá pronto. Como demora, a esposa segue até onde está e o encontra chorando. Pergunta o que foi e ele apenas pergunta se ela está ouvindo o rangido do carro-de-bois que acabou de entrar na curva da estrada. Nas curvas da memória.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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