SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 17 de dezembro de 2016

O PÁSSARO


*Rangel Alves da Costa


Ao longe eu já avistava os paredões altos do tanque. Mas somente quando cheguei mais adiante é que pude perceber a água se espalhando na fundura. Pelo tamanho da fonte, já se percebia que não demoraria muito tempo para tudo enlamear novamente. Mas ainda muita água, em se falando de um sertão já ressentido da estiagem.
De toda água ali contida, somente uma pequena parte estava à mostra, pois o restante toda encoberta por uma folhagem verde que o sertanejo denomina de “orelha de burro”. E serve não só para proteger a água dos raios de sol como para alimentar a vida piscosa acaso existente nas suas funduras. Assim, somente ao redor da margem se mantinha à vista, pois todo o resto do tanque recoberto pela especial e natural proteção.
Fui subindo pelos paredões até chegar ao ponto mais elevado. De lá, de um lado avistava uma vegetação cactácea, com xiquexique, jurubeba, mandacaru e cabeça-de-frade, bem como árvores secas e catingueiras de poucas folhagens, e do outro lado a descida íngreme do paredão até chegar à beirada do tanque. E neste um verdadeiro campo verdoso por cima da água. E também pássaros sertanejos calmamente passeando sobre as folhagens.
Não demorou muito e apenas um pássaro permaneceu no local. Talvez pressentindo a minha presença, os outros logo se apressaram em levantar voo e sumir pelos arredores. Mas aquele ficou. Ficou e ali permaneceu como se não desejasse se afastar de minha companhia. Lá no alto eu apenas mirava seus pequenos passos de canto a outro por cima das folhas verdes por cima da água. Outros pássaros passavam em rasante, porém ele nada de levantar voo e seguir.
E de repente ele se aproximou um pouco mais da beirada do paredão e ficou como que imóvel olhando na minha direção. Uns dois ou três pássaros pousaram um pouco mais adiante, uma revoada seguiu pelos horizontes, zunidos da natureza entrecortando os ares, mas nada disso fazia com que saísse daquele lugar, daquela posição e se desse conta das demais situações ao redor. Apenas continuava mirando na minha direção.
Quanta coisa me veio à mente diante do pássaro assim. Quanto pensamento me chegou perante aquela situação. O que ele estava avistando? Por que me olhar tanto assim? O que desejaria de mim? Estaria com medo, estaria pensando que a qualquer momento eu jogaria uma pedra na sua direção? Estaria imaginando que eu poderia ser aquele dono de seu último voo, de seu último respiro de vida?
Enquanto pensava sobre tanta coisa, inesperadamente veio-me uma lágrima ao olho. Eu estava comovido demais, mas não sabia que uma lágrima pudesse surgir como comprovação. Mas enquanto eu passava a mão pelo canto do olho, afastando por instante o olhar daquela direção, ao procurar avistar novamente nada mais encontrei: o pássaro havia sumido. Rapidamente olhei para o alto, pelos arredores, em todas as direções, mas nada consegui enxergar daquela pequena ave.
Estava com uma pedra à mão e, completamente desiludido, atirei-a na direção das águas, no mesmo lugar onde o pássaro estava. Enquanto eu, entristecido, observava os círculos se espalhando, eis que senti um leve toque no ombro. Era ele, o pássaro, chegado em voo tão leve que senti apenas como se uma folha seca caísse sobre mim. Que momento de emoção, que sensação mais doce e espantosa, que coisa mais indescritivelmente bela.
Então tudo se fez poema:

Um pássaro no meu umbro
um pássaro em mim
aquele que voa
naquele que quer voar
e nos dois a certeza
de que tudo é possível
quando o coração
por guardar um ninho
deixa de ser sozinho.

Desci do paredão e paguei o caminho de volta. Sentia ainda a presença do pássaro. Ele me acompanhava sem sair do lugar. E não sei quando voou, não sei quando partiu e me deixou. Apenas sei que de vez em quando o avisto voando acima de mim, por todo lugar. Seja no campo ou na cidade.


Escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

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