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sábado, 1 de setembro de 2012

BARANGAS (Crônica)


                                         Rangel Alves da Costa*


Coitadas delas. Prostitutas iguais a tantas outras, somente porque perderam o viço extasiante, o físico atraente, as marcas do tempo e da vida difícil logo se espalharam pelo corpo inteiro, agora são chamadas barangas. Simplesmente barangas. Triste sina!
Mas na profissão, escolha ou costume, é sempre assim mesmo. Quando novinha, jeitosa, perfumada, toda requebrante, parecendo mocinha acima de qualquer suspeita, então os olhares se lançam famintos, sedentos, e até sonhadores. E não é a mulher qualquer, mas a musa, a ninfeta tão desejada.
Verdade é que nesse metiê a juventude e o aspecto noviço têm peso de ouro. Por ser nova, jovem, atraente, com tudo em cima, ainda que se comente de canto a canto sobre o outro lado mulher de sua vida, sobre os seus pecaminosos hábitos, não será nesse momento que será chamada de puta nem considerada mulher de vida fácil.
De jeito nenhum. Ora, seria um desperdício chamar um piteuzinho, uma florzinha ao vento, de meretriz, rampeira, mundana, piranha, vagabunda, safada. Não, de jeito nenhum. Nesta fase de iniciação no comércio sexual, de envolvimento com o mundo da prostituição, ainda será apenas no aspecto da casualidade.
E tal casualidade certamente significa ser apenas mulher de curtição, de ficar, de deixar rolar sem compromisso. Mas tudo isso ao lado da outra vertente mais realista da situação: a acompanhante, a mulher de programa, a que já faz tudo, mas apenas com ou outro. Não há ainda a vulgarização.
Contudo, uma vez iniciada nas lides sexuais, o caminho para a vulgarização é mais próximo do que qualquer uma imagina. Em primeiro lugar, porque sai com um ou outro, mas logo estará saindo com tudo mundo; em segundo lugar, porque o aspecto ainda adolescente não deixa que lhe falte clientes; em terceiro lugar, porque quando já é vista por todos na condição de prostituta então é que dificilmente largará o ofício, o comércio do corpo.
Ao ser descoberta como tal, vista como prostituta e tida como uma vagabunda qualquer que pode ser paga para ser usada, então dificilmente a mulher se imporá limites. Se não for de classe alta e puder manter seu comércio entre altas rodas, logo deixará de ser a mera prostituta para se tornar em verdadeira mulher de cabaré.
E é quando chega ao estágio de fazer vida na rua, na porta ou dentro do cabaré, que passa a ter início a fase mais difícil da profissão: a decadência, o desprestígio, a absoluta vulgaridade, o desprezo por aqueles que sempre estão em busca de carne mais nova, mais firme, de um aspecto mais atraente. Mas eu era tão bonita, alguma poderia dizer entre um copo e outro de lastimações.
Sem duvida. Era bela, bonita, atraente, uma linda mocinha. Mas fato é que o passar dos anos, a fúria do tempo, a vida desregrada, as noites perdidas de sono, as drogas, as bebedeiras, as contínuas entregas, as doenças, as esperanças desfeitas, as expectativas não realizadas, as aflições e angústias, tudo isso transforma a mulher prostituta num monstro de si mesma.
E aquela que tinha quantos quisesse, anos depois ainda contava com boa clientela, de repente sente que tudo vai rareando, sumindo, desaparecendo de vez. O preço por alguns minutos de sexo é quase nada, numa desvalorização que corresponde ao estado do corpo, do rosto, do sorriso. E quem quer pagar bem a uma prostituta já batida e rebatida, usada e reusada, com nada que seja atraente ao cair das roupas?
E é lamentável observar como o percurso da vida vai transformando jovens atraentes em verdadeiras barangas. As mulheres que não são do metiê vão envelhecendo com as marcas já conhecidas e esperadas, mas elas não, as prostitutas já sacrificadas pelo desmedido comércio não. Tornam-se feias, esquisitas, ridículas. Certo que a idade vai transformando as aparências, mas elas se tornam disformes pelos exageros que se impõem na luta contra a idade e tentando parecer atraentes a qualquer custo.
Então jogam roupas justas demais em corpos velhos, balofos, cheios das marcas do tempo. Enchem-se de batom, de bijuterias, de perfume barato, de cores por todo lugar no rosto. Usam cílios, supercílios, sobrancelhas postiças. Colocam sinais, inventam até dizer chega. Mas tudo para ficarem mais ridículas ainda. Umas barangas.
O baranguismo é o último estágio da prostituição. Depois disso somente o esquecimento. Em tudo, entre todos, de vez.

  

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
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