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domingo, 21 de março de 2010

O PASSAGEIRO DA POLTRONA 6 (Crônica)

O PASSAGEIRO DA POLTRONA 6

Rangel Alves da Costa*


A viagem seria longa e cansativa, porém o destino ainda era incerto. Belas paisagens, pedaços de vidas pelas beiradas da estrada, sol que nascia e sol que se punha, noite que surgia e noite que ressurgia; pessoas sentadas no veículo, conversando, sorridentes e felizes; pessoas em pé nas paradas para o descanso e para o regalo da gula, sorridentes de bocas cheias, felizes com a viagem. Somente um passageiro, o da poltrona 6, não conversava com ninguém, não sorria, não descia, apenas viajava com o seu jeito todo diferente de ser.
Quem seria aquele viajante da poltrona 6? Tamires disse que o conhecia de algum lugar, mas não lembrava exatamente de onde; Tércio tinha certeza que ele estava com algum problema, por isso mesmo precisavam conversar com ele para saber se estava sentindo alguma coisa ou necessitando tomar remédios; Alaor jurou que o indivíduo era completamente maluco, louco de pedra, e que por isso mesmo precisavam ter muito cuidado com ele (disse até que poderia estar carregando algum tipo de arma); Soninha só achou ele bonitinho, com os olhinhos tristes de apaixonado e com jeito de pessoa solitária que precisa de alguém para reacender as chamas do seu coração; Ana não via nada diferente nele, que devia apenas estar indisposto para conversar com as demais pessoas e fazer o que elas faziam.
O velho Abelardo disse que tinha a resposta na ponta da língua para aquela questão e disse baixinho para os demais: "Não tão vendo não, ali é um extraterrestre, um ser de outro planeta que está esperando apenas que seu disco voador chegue para levar todos nós, com transporte e tudo. Vou mandar o carro parar agora mesmo e descer, antes que seja tarde demais".
Verdade é que cada passageiro opinava de uma forma diferente sobre aquele indivíduo sentado na poltrona 6. Este, sem ter companhia alguma na poltrona ao lado, viajava tranquilamente, sempre alerta e com o olhar quase sempre voltado para as paisagens que noite e dia iam se vislumbrando. Parecia nunca ter sono, pois ninguém o via cochilar; parecia não ter fome e sede, pois nunca descia do transporte para fazer um lanche, tomar uma água ou ir ao banheiro. Quando não estava olhando a natureza através da janela, a única coisa que fazia era ler um livro grosso, encadernado de modo que não podia se ver nem o título nem o autor. Era bem velho o livro; era ainda jovem o passageiro.
Na parada seguinte do veículo, todos passageiros desceram e o rapaz ficou lá sentado, sereno, indiferente na sua poltrona, olhando para fora da janela. Diferentemente do que sempre acontecia nas outras vezes, os viajantes não se dispersaram nos seus afazeres, procurando se reunir embaixo de uma tenda para tomarem um posicionamento definitivo sobre aquele passageiro da poltrona 6.
Alguns afirmavam que daquele jeito era impossível que continuassem a viagem, vez que já temiam aquela estranha presença e as conseqüências que isto poderia causar; outros achavam por bem aproveitar um trecho deserto da estrada e expulsá-lo, fazendo que abandonasse o veículo por bem ou por mal; e ainda outros se posicionaram no sentido de que seria melhor formar ali mesmo um pequeno grupo para ir até lá e resolver aquela situação através do diálogo. Optaram por esta última ideia, contudo ninguém queria fazer parte desse grupo que iria conversar com o rapaz. Soninha não queria demonstrar, mas já estava completamente apaixonada por ele, soltando suspiros quando passava perto.
Nada feito. Todos retornaram ao veículo e continuaram a viagem assim mesmo, se benzendo, rezando e até com gente chorando. Somente Soninha parecia estar em outro mundo. Se o rapaz da poltrona 6 quisesse fazer alguma coisa seria naquele longo e deserto trecho, pois a próxima parada seria no local do destino da viagem. Quando lembraram desse fato os ânimos mudaram, ficaram alegres e contentes. Então foi quando alguém perguntou qual seria realmente o destino. Gestos de espanto e dúvida tomaram conta novamente daqueles passageiros. Para onde iriam mesmo?
De repente, o jovem se levantou e se encaminhou para o motorista, falando algo ao seu ouvido e gesticulando com a mão, como a indicar que entrasse por outra estrada. Aí o mundo começou a desabar: "Socorro", "Vai ser agora", "Pulem, pulem todos pela janela se quiserem se salvar", eram gritos e mais gritos, pessoas em polvorosa, gente desmaiando. E foi quando o rapaz olhou para todos naquele vexame todo e disse:
- Calma, calma que já estamos chegando. O hospital psiquiátrico fica logo ali. Façam todos os exames que depois retornaremos e vocês poderão comprovar para essa sociedade maluca que estão com o juízo, com as faculdades mentais em perfeito estado.
E o rapaz continua calmamente sentado na sua poltrona 6. Espera e espera e nada daquela gente retornar.




Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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